questões criminais

Uma “mula” ocasional de 2 milhões de euros

Os 39 quilos de cocaína apreendidos com militar da comitiva de Bolsonaro chamam a atenção da Polícia Federal; “mulas” costumam transportar entre um e dois quilos

Allan de Abreu e José Roberto de Toledo
26jun2019_20h36
REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS

O presidente interino, Hamilton Mourão, disse nesta quarta-feira, 26, que o militar da comitiva de Jair Bolsonaro preso em flagrante com 39 quilos de cocaína na Espanha é uma “mula qualificada”. Apesar da quantidade de droga, pouco comum para esse tipo de transporte, e do valor que o carregamento alcança no mercado europeu – 2 milhões de euros – há indícios de que o militar seja uma mula ocasional a serviço de um traficante, esse sim, qualificado.

Segundo-sargento da Aeronáutica, Manoel Silva Rodrigues, 37 anos, é tocantinense radicado em Brasília – em 2014, ele ganhou uma casa popular do governo do Distrito Federal. Atua como comissário de bordo no Grupo de Transportes Especiais da Força Aérea, com salário de pouco mais de 7 mil reais por mês. A maior parte de seus deslocamentos a trabalho foi dentro do Brasil. Antes da viagem desta terça-feira, Rodrigues fez poucas rotas internacionais. Segundo o repórter Fábio Fabrini, da Folha de S.Paulo, em janeiro do ano passado o comissário acompanhou a comitiva do então presidente Michel Temer até a Suíça para o Fórum Econômico Mundial. Antes, em 2011, Rodrigues acompanhou representantes do Itamaraty na capital norte-americana e em Antígua e Barbuda, Caribe – rotas pouco usuais para narcotraficantes brasileiros.

Rodrigues foi preso durante um controle aduaneiro de rotina no aeroporto de Sevilha, sul da Espanha, onde o avião em que ele estava, um Embraer 190 da FAB, fez escala. A aeronave seguiria para o Japão, onde Bolsonaro participa de um encontro dos 20 países mais ricos do mundo, o chamado G20. O militar levava na bagagem 37 tabletes de cocaína, com um total de 39 quilos da droga. O setor de combate ao narcotráfico da Polícia Federal disse que o flagrante foi por acaso, já que o militar não era investigado no Brasil.

Rodrigues ficou detido na Espanha, enquanto o avião seguiu viagem para o Japão. Bolsonaro estava em outra aeronave, que, após o flagrante em Sevilha, mudou a escala do voo para Lisboa, Portugal.

A Aeronáutica já constatou que o militar burlou o aparelho de raio X da base aérea da FAB, na capital federal. Segundo agentes da PF ouvidos pela piauí, esse pode ser o motivo pelo qual ele levou grande quantidade de cocaína na bagagem – em voos comerciais, as “mulas” costumam levar bem menos droga, entre dois e três quilos. 

Devido ao alto poder aquisitivo de sua população, o Distrito Federal é uma rota importante da cocaína que sai da Bolívia, com escala em Mato Grosso ou Goiás. “Tudo indica que ele estava a serviço de um traficante brasileiro com certo poder aquisitivo”, diz um agente antinarcóticos da Polícia Federal.

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria Vai Com as Outras #5: Crime e castigo contra a mulher

Uma socióloga e uma defensora pública falam dos efeitos que a violência tem na vida profissional das mulheres

Mitificação de Eduardo, demonização da esquerda

Em evento bolsonarista, filho do presidente e ministros apresentam rivais como mal radical, em sintoma da deterioração democrática no país

Moro em queda livre

Ministro e seu pacote anticrime perdem espaço no governo, no TCU e no Twitter

Foro de Teresina #72: Bolsonaro contra o PSL, o governo contra a imprensa, e o Sínodo pela Amazônia

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

Entre a cruz e a motosserra

Na Amazônia profunda, missionária católica enfrenta a falta de padres, os pastores evangélicos e o desmatamento, enquanto papa faz Sínodo sobre a região

O retorno da audácia à Nicarágua

Estudante que desafiou Daniel Ortega volta do autoexílio para retomar resistência ao regime

Frans Krajcberg – dignidade e revolta

Documentário faz reviver inconformismo do artista diante da destruição ambiental brasileira 

Extra: Foro de Teresina especial no Festival Piauí de Jornalismo

Programa gravado ao vivo em São Paulo já está disponível

Mais textos