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Valores em desuso

Dois Tempos celebra amizade e afeto ao som de violões

Eduardo Escorel
05maio2021_09h05

Afeto e amizade são valores em desuso. A esses dois, outros três princípios podem ser agregados – respeito, empatia e solidariedade humana, todos ausentes de emanações verbais provindas de altas instâncias da República, aí compreendidos alguns ministros de Estado, que exercem influência nefasta no comportamento coletivo de percentual expressivo da população brasileira.

Daí, talvez, um filme encantador como Dois Tempos (2021), de Pablo Francischelli, ter recebido menos atenção do que merecia ao estrear no recente 26º Festival É Tudo Verdade. O documentário celebra o reencontro, passados 35 anos, de dois virtuoses. Permeada pela música, a relação entre o mestre argentino Lucio Yanel e o pupilo brasileiro Yamandu Costa, que ouviu Lucio tocar pela primeira vez quando tinha 7 anos, é retratada com sensibilidade, humor discreto e talento narrativo. 

Lucio Yanel e Yamandu Costa no filme “Dois Tempos” – Foto: divulgação

 

O road-movie começa na casa materna de Yamandu, em Passo Fundo, no Norte do Rio Grande do Sul, e termina em Corrientes, na Argentina, aonde a dupla chega para se apresentar na Festa Nacional do Chamamé, ritmo de origem controvertida que proviria dos avá guarani com aportes africanos e influência da polca paraguaia. 

A viagem de motorhome percorre cerca de 760 km em alguns dias. Yamandu é quem dirige, com Lucio no banco do carona, temeroso quanto à habilidade do motorista: “Tá com medo, velho?”, Yamandu pergunta ao pegarem a estrada.

Enquanto tomam chimarrão ao longo do périplo, Lucio e Yamandu passam por vastas plantações de soja da Monsanto e ultrapassam um caminhão carregado de toras de madeira. Tocam violão para si mesmos nos lugares em que param – à beira de um rio onde acampam para passar a noite, na praça de uma pequena cidade. Erram o caminho. Cruzam a fronteira Brasil-Argentina de balsa. Fazem apresentação na Praça de San Carlos, na Província de Corrientes. Confraternizam com velhos amigos de Lucio em Ituzaingó.

Enquanto viajam, execuções primorosas da dupla são alternadas com conversas, pontuadas por momentos de silêncio e sonoras gargalhadas de Yamandu. E quando chegam a Corrientes, as sequências finais formam inesperado e expressivo anticlímax.

Primeiro, o dueto ensaia no quarto do hotel. Em seguida, conversa à beira do Rio Paraná, diante da Ponte General Belgrano, Yamandu com sua indefectível cuia de chimarrão. “Esta é a minha terra”, diz Lucio. “Este é o meu rio. O Paraná. Estas são as minhas árvores. E aquele caminhão que vai lá, não, ele não é meu.” Yamandu mal contém o riso e completa: “Poderia ser.” Um vendedor oferece “chipá caliente. Riquíssimo. Lleno de queso (chipá quente. Delicioso. Recheado de queijo”). “É tipo um pão de queijo?… Bom, né?… Não está tão quente assim”, diz Yamandu. “Vamos devolver? propõe Lucio. Yamandu completa: “Tá ruim pra caralho… Tá louco. Não dá pra comer isso, puta que o pariu!” Lucio: “Deus te vai castigar. Não se joga comida fora, assim.” Os dois retomam, então, considerações sobre o destino já feitas no início da viagem. Yamandu perguntara: “Você acredita em destino, velho?” “Eu estou inclinado a acreditar”, responde Lucio. “Por que, hein?” “Porque o que, por exemplo, manda um cara analfabeto, sem nenhuma perspectiva de nada, ganhar 250 milhões na Mega Sena sozinho?” Em reação, Yamandu passa do riso à gargalhada: “É verdade. Não tem muita explicação.” Agora, próximo ao final do filme, Lucio reafirma: “Eu tenho quase certeza de que o destino está traçado. A gente já vem com o destino traçado. Eu creio que você [Yamandu] não deve ter medo do destino.”

Na sequência seguinte, Lucio está de novo no quarto do hotel, sozinho, afinando o violão. Yamandu chega. Está na hora de irem para a Festa em que vão se apresentar, razão de ser da longa viagem. Os dois saem, fecham a porta, e o plano fixo do quarto vazio é mantido com música, por longos doze segundos, até terem início os créditos de encerramento. A sensação inicial é de que a apresentação de Lucio e Yamandu na Festa de Chamamé não será mostrada. Dois Tempos não vai, porém, a esse extremo – após dezessete segundos de letreiros brancos sobre tela preta vemos a dupla no palco, tocando, servindo de fundo para os créditos finais que prosseguem.

Ao deixar em segundo plano a imagem da apresentação do dueto na Festa, Francischelli indica que ela não é, no documentário, o que mais importa. No lugar do encerramento previsível, ele opta por destacar o percurso musical da dupla para chegar até ali e, sobretudo, a relação afetiva de seus integrantes, fortalecida pela experiência compartilhada na viagem.

 

Dois Tempos nos mostra uma paisagem do Brasil e da Argentina pouco vista no cinema brasileiro, se não for inédita de todo. Além disso, tem a virtude de ser intemporal, ou seja, independe de circunstâncias sanitárias e políticas da atualidade. Trata de valores permanentes, entre os quais está incluída a boa música, e nos remete a um tempo em que, apesar da desigualdade social histórica, existiam nichos de solidariedade humana. Época em que, apesar da violência, injustiça e discriminação prevalecentes desde sempre não se cometiam aberrações equivalentes às do irresponsável e criminoso governo federal do momento.

Dois Tempos é um caso raro de documentário que não quer ser apreciado por nada, a não ser por si mesmo. Ou seja, não se presta a servir de mero pretexto, como é usual, para considerações estranhas à sua própria linguagem, forma e contexto. Tendência recorrente, dominante em festivais, debates e críticas quando se discute e atribui mérito a algo que não faz parte do próprio filme. 

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A partir de amanhã, 6 de maio, até o dia 18, haverá o Festival Estação Virtual – 35 Anos de Cinema Brasileiro, mostra digital com exibições gratuitas no Vimeo e acesso através do link vimeo.com/estacaovirtual. Além dos cerca de 180 filmes a serem exibidos, haverá debates com críticos, produtores e realizadores. O Festival tem curadoria de Adriana Rattes, Cavi Borges, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque, Luiz Eduardo de Souza, Liliam Hargreaves e Anna Fabry. “Nossa ideia, mais que reunir os filmes que causaram impacto no Estação ao longo de sua existência, é poder pensar e discutir hoje o que eles significam para o cinema brasileiro, qual a força que eles representaram e o que ainda podem dizer para as gerações futuras.”

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Em 9 de maio, domingo próximo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Pablo Francischelli no #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. Será um programa especial, comemorativo de um ano do canal 3 em cena. Francischelli é o diretor do documentário Dois Tempos (2021), que estreou no 26º Festival É Tudo Verdade, encerrado em 18 de abril. No texto de apresentação, publicado no catálogo do Festival, Francischelli afirma: “O filme é uma busca pela grandeza do mundo a partir da relação singular entre mestre e discípulo.” O acesso à conversa com Francischelli, da qual participarão também Lucio Yanel, Yamandu Costa, Luis Abramo (diretor de fotografia) e Pedro Bronz (montador), no próximo domingo, 9 de maio, no programa #DomingoAoVivo, pode ser feito através do link https://youtu.be/fIe8qLrsDu0 .


Estarei de férias nas próximas semanas. A coluna voltará a ser publicada em 9 de junho.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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