questões de neurociência

A sopa de cérebro conquista a América

Um ano e meio depois de deixar o Brasil, Suzana Herculano-Houzel avalia suas pesquisas nos Estados Unidos: “Hoje me dedico às perguntas que interessam, e não só ao que cabe no orçamento minguado da ciência brasileira”

Bernardo Esteves
18dez2017_18h30
Herculano-Houzel, em foto de 2013. A decisão de se mudar para Universidade Vanderbilt levou seu trabalho a divulgação rara para cientistas brasileiros. O New York Times publicou, em 14 de dezembro, um longo e elogioso perfil da pesquisadora
Herculano-Houzel, em foto de 2013. A decisão de se mudar para Universidade Vanderbilt levou seu trabalho a divulgação rara para cientistas brasileiros. O New York Times publicou, em 14 de dezembro, um longo e elogioso perfil da pesquisadora FOTO: LUCIANA WHITAKER_FOLHAPRESS

Suzana Herculano-Houzel está no melhor momento de sua carreira. Um ano e meio depois de a neurocientista brasileira virar pesquisadora da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, seus estudos ganharam visibilidade sem precedentes. No último fim de semana, a neurocientista foi objeto de um extenso perfil na revista encartada aos domingos no jornal The New York Times.

Perfilada por piauí em fevereiro de 2013, Herculano-Houzel mudou-se para os Estados Unidos em maio de 2016. Sua decisão de deixar o Brasil, anunciada em primeira mão em um artigo para a revista, deu o que falar – houve quem visse na atitude uma falta de compromisso com a melhoria da ciência no país. Desde então, a situação da ciência brasileira está ainda mais crítica – o orçamento federal para a área este ano foi o mais baixo em mais de uma década, com a perspectiva de novos cortes para 2018.

A cientista está convicta de que fez a escolha certa. Numa entrevista por e-mail, ela alfinetou os colegas que condenaram sua decisão. “Isso só faz alimentar a ideia injusta e incorreta de que ser cientista é economicamente equivalente a ingressar no sacerdócio”, afirmou. “O público acha normal que executivos, diretores de empresas e outros profissionais mudem de emprego quando têm uma oportunidade melhor. Por que deveria ser diferente com cientistas?”

O balanço que Herculano-Houzel faz dos primeiros meses como pesquisadora numa universidade americana é positivo. “Agora tenho muito mais tempo para me dedicar ao que deveria ser meu trabalho, ou seja, o que só eu posso fazer, graças a uma infraestrutura administrativa excepcional”, avaliou. “Também tenho apoio financeiro para me dedicar às perguntas que realmente interessam, e não apenas às que cabem no orçamento minguado que infelizmente limita os cientistas no Brasil.”



 

A visibilidade de suas pesquisas é um reflexo das melhores condições de trabalho. É verdade que aparições na imprensa americana não são novidade para a pesquisadora – alguns de seus trabalhos já haviam sido noticiados nos Estados Unidos quando ela ainda era professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estar numa universidade local, porém, colocou a neurocientista brasileira no centro dos holofotes.

No início do mês ela foi objeto de dezenas de reportagens após seu grupo publicar na revista Frontiers in Neuroanatomy um artigo sobre o número de neurônios no cérebro de vários mamíferos carnívoros. O trabalho tratava de oito espécies diferentes, mas o que chamou a atenção dos jornalistas foi sobretudo a constatação de que os cães têm mais que o dobro de neurônios do que os gatos no córtex cerebral.

Para a pesquisadora – ela própria dona de dois cachorros que levou do Brasil para os Estados Unidos –, isso estaria ligado a uma maior sofisticação mental. “Nossos achados significam para mim que os cães têm a capacidade biológica de realizar tarefas mais complexas e flexíveis do que os gatos”, afirma Herculano-Houzel num comunicado de imprensa publicado por sua universidade. “Agora temos argumentos biológicos que as pessoas podem levar em conta nas discussões sobre quem são os mais espertos, cães ou gatos.”

A cientista atribui a grande visibilidade de suas pesquisas recentes ao trabalho do escritório de comunicação de Vanderbilt. “Além de fazerem toda a parte de relações-públicas e promoção a nível nacional (o que inevitavelmente atrai a imprensa estrangeira também), eles contam com profissionais de vídeo e rádio, com estúdios dedicados a cada um”, disse Herculano-Houzel à piauí.

 

A coroação veio com o perfil tão longo – quase 28 mil caracteres – quanto elogioso publicado no mais importante jornal americano. Assinada por Ferris Jabr, a reportagem do New York Times chamou a atenção para o método engenhoso que a pesquisadora desenvolveu (junto com o colega Roberto Lent, da UFRJ) para contar quantos neurônios há num cérebro. A técnica consiste em transformar o órgão que se quer estudar numa “sopa” homogênea que preserva intactos os núcleos das células. Contando ao microscópio quantos núcleos há numa amostra da sopa, Herculano-Houzel é capaz de dizer, por extrapolação, quantas células há no cérebro inteiro.

A ferramenta mostrou-se mais precisa e eficaz que os procedimentos usados anteriormente para contar células do cérebro, e permitiu à pesquisadora saber quantos neurônios há no cérebro humano – 86 bilhões, aproximadamente – e no de várias outras espécies. Chama a atenção por sua simplicidade conceitual: “Para desvendar os mistérios do cérebro, transforme-o num purê”, aponta o título da reportagem de Jabr.

As descobertas que Herculano-Houzel fez com o método foram reunidas no livro A Vantagem Humana – Como o Cérebro Humano se Tornou Superpoderoso. Publicada primeiro em inglês, a obra ganhou recentemente tradução para o português, lançada pela Companhia das Letras.

Na Universidade Vanderbilt, a pesquisadora tem tido mais tempo para se dedicar às duas centenas de cérebros de animais que armazena metodicamente em tupperwares distribuídos pelos quatro freezers de seu laboratório. Calçando luvas azuis, Herculano-Houzel aparece segurando um cérebro de gnu recém-tirado de seu recipiente numa foto que ilustra o perfil do New York Times. O sorriso franco da neurocientista enquanto contempla seu objeto de pesquisa parece traduzir o bom momento vivido por ela.

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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