Durante um confronto, Jean-Luc tropeçou e se espatifou na calçada. Ficou atordoado. Seus óculos haviam quebrado. Furioso, queria que eu chamasse um táxi para ir aos Champs-Elysées, onde ficava a ótica que frequentava. Mas que táxi? Onde?
Ver dados da foto Durante um confronto, Jean-Luc tropeçou e se espatifou na calçada. Ficou atordoado. Seus óculos haviam quebrado. Furioso, queria que eu chamasse um táxi para ir aos Champs-Elysées, onde ficava a ótica que frequentava. Mas que táxi? Onde? FOTO: SERGE HAMBOURG_1968_HOOD MUSEUM OF ART

Godard e eu

Memórias do Maio de 68
Anne Wiazemsky
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Durante um confronto, Jean-Luc tropeçou e se espatifou na calçada. Ficou atordoado. Seus óculos haviam quebrado. Furioso, queria que eu chamasse um táxi para ir aos Champs-Elysées, onde ficava a ótica que frequentava. Mas que táxi? Onde? FOTO: SERGE HAMBOURG_1968_HOOD MUSEUM OF ART

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* Atriz e escritora francesa (1947-2017), Anne Wiazemsky casou-se com Jean-Luc Godard em 1967.

De pé, bicho-preguiça!”

Jean-Luc abriu as venezianas do pequeno terraço e o sol de maio iluminou nosso quarto. Ele depositou sobre a cama uma bandeja com uma xícara de Nescafé e um pão com bastante manteiga. Eu não estava com a menor vontade de levantar e enfiei a cabeça embaixo do travesseiro. Mas adivinhei o que ele logo atirou em cima da cama: todos os jornais do dia. Aquilo se tornara um ritual: a bandeja com o café da manhã servido por Jean-Luc, acompanhada dos jornais. Ele estava acordado havia tempo e transbordava energia. Tinha tomado um café com croissant no bar mais próximo, folheando atentamente os jornais. Sem aquela leitura ele nem cogitava começar o dia. Além de jornais, a dona da loja que ficava no térreo do prédio também vendia material de papelaria e alguns livros, e logo se afeiçoara a ele, decretando-o seu melhor cliente. Jean-Luc não só comprava os jornais, como todas as revistas, à medida que iam sendo lançadas, e canetas, canetinhas, borrachas, cadernos, blocos de papel. “Ah, monsieur Godard, apesar de tão conhecido, continua tão gentil e tão modesto!”, ela gostava de repetir. Em pouco tempo, ela passou a guardar nossas chaves, receber o correio e até anotar os recados.

“Eu disse de pé, bicho-preguiça!”

Abri os olhos, vencida por seu bom humor e a luz que entrava. Acomodada sobre os travesseiros, a xícara de Nescafé na mão, vi que ele segurava um radinho de pilha.

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