Abraham tentou várias vezes entrar clandestino nos Estados Unidos; numa delas, o navio em que embarcou no Caribe o deixou na Argentina FOTO: MARCOS ADANDIA_2007_CORTESIA DE ROLLING STONE
Passageiro clandestino
A vida breve e fantástica de Marcos Abraham
Josefina Licitra | Edição 90, Março 2014
Conheci Marcos Abraham Villavicencio em 2006. Ele frequentou as manchetes dos jornais argentinos por ter embarcado clandestinamente num navio e resistido por duas semanas sem comer nem beber água. O jovem pretendia chegar aos Estados Unidos, que fica a poucos dias de viagem de sua cidade, na República Dominicana; calculou mal, porém, e acabou no porto de Ensenada, uma pequena e insignificante localidade na província de Buenos Aires.
No dia em que desembarcou, Abraham foi internado num hospital com sintomas de desnutrição. Foi lá que o vi pela primeira vez. Esquálido, de cabeça achatada e um par de olheiras profundas, trazia uma cânula de soro pendurada no braço direito. Enquanto conversávamos, não parava de entrar e sair gente: a epopeia que vivera rendia notícia.
“Eu queria ir para Nova York”, explicou. E passou a me contar a história da sua vida, que eu iria conhecendo ao longo dos meses, durante uma reportagem para a revista Rolling Stone que nos colocou nessa ambígua relação que se estabelece entre jornalista e entrevistado quando mantêm uma convivência prolongada:não ficamos amigos, mas cada vez nos conhecíamos melhor.
O tempo foi passando, até que num dado momento o governo argentino se manifestou sobre seu caso, negando-lhe o asilo e determinando que Abraham voltasse para seu país. No dia da partida, fui com ele até o aeroporto: seu rosto perdido e vago – estava tomando remédios – é a única lembrança que guardo daquele último encontro. Ainda lhe telefonei algumas vezes, depois veio o silêncio. Pouco tempo atrás, procurei seu nome na internet e li, numa breve notícia de um pequeno jornal de San Pedro de Macorís, sua cidade, que ele havia sido assassinado quando saía de um bar.
Além do sentimento de assombro e tristeza, experimentei uma urgência inexplicável. Para mim, aquele rapaz tinha representado o rosto de um êxodo que existe há décadas no Caribe e que mostra o sonho americano em sua versão mais pura e terrível. O que tinha acontecido com ele? Fiz alguns telefonemas, comprei uma passagem e pus uma Rolling Stone na bagagem.
Como se sabe, a República Dominicana é um país que ocupa dois terços de uma ilha caribenha (o terço restante cabe ao Haiti). Porto Rico está a 135 quilômetros, cruzando o canal de la Mona, o estreito tormentoso onde as águas do mar do Caribe se juntam às do oceano Atlântico. E os Estados Unidos ficam a cerca de 500 quilômetros: uma distância que, somada à diminuta economia da República Dominicana – e de muitos outros países da região –, só faz multiplicar os sonhos de salvação.
Os registros oficiais sustentam que 10% da população vivem fora do país. Em Santo Domingo, a capital da República Dominicana, o sociólogo Wilfredo Lozano, diretor do Centro de Pesquisas e Estudos Sociais da Universidade Ibero-americana, explica que toda a região do Caribe é marcada pela transnacionalização, isto é, por um modo de abolir fronteiras pautado pelo tráfico de pessoas que, para além de sua legalidade, funciona com eficácia há décadas. Cuba, por exemplo, tem quase 10% de sua população no exterior; Porto Rico tem mais pessoas fora (5 milhões) que dentro (3,7 milhões); no Haiti, emigra tanto a elite – que vai para a França ou o Canadá – como os pobres, que vão para a Flórida; e a Jamaica repete o mesmo esquema do Haiti, já que a classe abastada voa para Londres, e a baixa, para Miami.
Os dominicanos entraram de cabeça nesse modelo depois da morte do ditador Rafael Leónidas Trujillo, que impôs sua lei entre 1930 e 1961 e deixou atrás de si um país econômica e socialmente devastado. Na segunda metade do século XX, fartos da inflação e dos apagões energéticos de até vinte horas, milhões de dominicanos resolveram tentar a sorte em outro lugar e a qualquer preço; na tentativa de sair, foram e continuam sendo muitos os que morrem pelo caminho. Alguns tentam a travessia em embarcações precárias e terminam entre tubarões. Outros se escondem no trem de pouso dos aviões e morrem, ou congelados, ou na aterrissagem. Outros ainda viajam até Honduras e de lá tentam cruzar a fronteira com os Estados Unidos, mesmo correndo o risco de prisão ou fuzilamento. E outros, como Abraham, tornam-se clandestinos, erram de navio e se arriscam a morrer de fome.
Abraham não estava sozinho naquela viagem que terminou na Argentina. Ele tentou a travessia com Andrés Toviejo, que não sobreviveu. Contou que na madrugada de 16 de junho de 2006 ele e o amigo chegaram a nado até o casco do navio grego Kastelorizo – um petroleiro atracado no porto de San Pedro de Macorís –, certos de que o destino da embarcação era os Estados Unidos. No quarto dia sem avistar terra, Abraham e Toviejo começaram a se preocupar. Sem água nem comida, Toviejo se desesperou e bebeu água do mar. Horas mais tarde, o rapaz começou a vomitar, a perder líquido e forças, até que, a certa altura, não se sabe se escorregou ou entregou os pontos: o fato é que Toviejo caiu na água, perto da hélice. E seu corpo sumiu num turbilhão tingido de sangue.
Abraham sobreviveu. Duas semanas depois, chegou a La Plata, e ali se deu a sequência que eu já conhecia: primeiro foi levado ao hospital; depois chegaram os jornais; em seguida, sua história comoveu o país; depois apareceu a família, na República Dominicana, dizendo “Deus proteja sua vida, Abraham”; semanas mais tarde, uma argentina se ofereceu para adotá-lo; em algum momento, Abraham chegou a falar do seu futuro (“Quero ficar em La Plata”, “Gosto de motores de carro: quero ser mecânico em La Plata”), até que por fim a história, como tantas outras, deixou de interessar à mídia e caiu no esquecimento. E então só fomos nos reencontrar num hospício.
“A casa é sua. Amém! Abraham nos contou como foi tratado lá na Argentina. Passou maus bocados… preso num lugar de loucos perigosos… mas também teve a sorte de achar gente boa, como a senhora, por isso, para nós, a senhora é da família”, diz Bienvenido Santos, o pai de Abraham, me abraçando com entusiasmo. Acabo de chegar a San Pedro de Macorís, a cidade onde nasceu e cresceu – e da qual fugiu e à qual voltou – Marcos Abraham Villavicencio.
San Pedro de Macorís fica na costa sudeste da República Dominicana. No início do século XX era considerada uma importante porta econômica da ilha, mas nos últimos dez anos foi à bancarrota, quando a indústria açucareira, uma de suas principais atividades, passou para o capital estrangeiro e deixou metade da população local sem trabalho. Em pouquíssimo tempo, o índice de desemprego subiu para 30%. Boa parte da população de San Pedro acalenta a fantasia de atravessar o mar e mudar de vida. E as pessoas tentam uma, duas, quantas vezes forem necessárias. Abraham fez onze tentativas, entre os 13 e os 17 anos. Mas o que lhe aconteceu da última vez, na Argentina, onde acabou num hospital psiquiátrico, levou-o a desistir da travessia.
Os motivos pelos quais o rapaz acabou num hospício nunca foram esclarecidos. O que se sabe é que o governo argentino lhe negou asilo, uma vez que ele não era perseguido por motivos de raça, religião, opinião política, nacionalidade ou por pertencer a determinado grupo social. E a partir daí, enquanto sua repatriação era providenciada, Abraham caiu num limbo burocrático. Foi transferido para um albergue para menores abandonados. Um dia, cansado de não fazer nada, pediu permissão para passear por La Plata, a capital da província de Buenos Aires, e se perdeu. O que aconteceu depois é um mistério. Segundo a polícia, Abraham ficou transtornado e teve um surto psicótico. Segundo Abraham, ele se perdeu; a polícia o deteve e o espancou por ser negro e estrangeiro, forjando no boletim de ocorrência um surto para justificar a surra. Seja como for, Abraham foi conduzido ao hospital psiquiátrico Alejandro Korn, mais conhecido como el Melchor Romero, um dos manicômios mais sinistros da Argentina.
Quando cheguei ao hospital, Abraham estava sentado num banco descascado, num corredor revestido de azulejos pálidos e cortinas velhas e sujas, no pavilhão de doenças agudas. Era meado de agosto. Fazia mais de um mês que o rapaz estava lá, e apesar de já ter recebido alta ele não tinha paradeiro. Abraham, sério, exibia a fala arrastada e pastosa. Estava drogado.
“Quando chegou da Argentina, ele estava balofo, uma gordura de remédios que não era sua gordura natural… Contou que tinha estado num lugar horrível. Um lugar onde caía granizo”, diz Bienvenido. Granizo? Puxo pela memória, e é verdade: naqueles dias de 2006, choveram pedras em Buenos Aires. Todos nos impressionamos com o episódio, mas Abraham o viveu como algo simplesmente sobrenatural. Os clandestinos, diz Wilfredo Lozano, não costumam avaliar o fator climático dos lugares para onde viajam. Mas é justamente esse fator, mais que o econômico, o que muitas vezes os angustia e aumenta a saudade de casa.
A casa onde Abraham cresceu é simples. Fica num bairro pobre de ruas estreitas, e foi erguida num terreno comprado por um parente que conseguiu chegar aos Estados Unidos e que todo mês manda uma quantia para sustentar o clã. Bienvenido construiu tudo com as próprias mãos; ele é carpinteiro e pedreiro. Conhece o ofício desde criança – estudou até o 2º ano primário, logo começou a trabalhar – e tentou fazer com que os filhos homens aprendessem os rudimentos da construção, para poderem ganhar a vida.
Abraham conhecia o ofício do pai. Desde os 11 anos o garoto o ajudava; com o pouco dinheiro que conseguiu, comprou um atlas e pagou um curso de inglês. Já queria ir para Nova York e passava tardes inteiras no porto à espera de um golpe de sorte. A oportunidade surgiu quando ele tinha 13 anos. Em 1999 o garoto conseguiu subir num petroleiro, que não o deixou nos Estados Unidos nem na Europa, e sim na Jamaica, onde logo foi descoberto e deportado. Seu regresso à República Dominicana causou grande rebuliço na mídia local: ao desembarcar, Abraham era esperado pelas câmeras de Primer Impacto, um famoso telejornal sensacionalista, ao qual declarou que havia fugido porque sua família era pobre e ele queria juntar dinheiro para ajudar a mãe. Um relato épico que comoveu o país e que era estritamente verdadeiro – tanto que seis meses depois o menino tornou a fugir.
Sempre que nos encontrávamos, Abraham me falava de seus infinitos embarques como clandestino. “A segunda viagem foi para a Venezuela”, contou-me no Melchor Romero, com sua fala atrapalhada. “Lá o navio ancorou muito longe da terra, e eu tive que sair a nado… e aí uma lancha me avistou e uma mulher me viu. A mulher quis me adotar.” E então, o que aconteceu? “E aí nada. Eu falei que não… Eu queria ir para os Estados Unidos. E ali era a Venezuela. É um país ruim.” Como assim, ruim? “A Venezuela tem uma economia fraca. Eu sempre acho que vou para a América.”
Mais tarde, depois de ser devolvido da Jamaica, de Trinidad e Tobago, e do Haiti, Abraham finalmente aportou nos Estados Unidos. O navio tinha ancorado a 500 metros da terra, mas alguém viu o garoto segundos antes que ele saltasse na água. Foi trancado num camarote e horas depois lhe informaram que estivera a 500 metros de Miami ou Nova Orleans. Mas era tarde: Abraham já adentrara águas haitianas.
“Eu sempre tento ir bem escondido, mas mesmo assim me acham… A segunda vez que cheguei aos Estados Unidos, fui denunciado por um rebocador. E aí me levaram por terra, com as mãos e os pés algemados: primeiro passei por Nova Orleans, depois pela Luisiana, depois por Miami.” O que achou do país, visto do carro? “Liiindo. Graaande. Esse era o lugar onde eu queria ficar… Conheço gente que fugiu para a Flórida e agora está muito melhor. Nos Estados Unidos tem trabalho de tuuudo: pedreiro, cozinheiro, você tem um salário, consegue mandar dinheiro para a família e comprar tudo o que quiser.”
O sonho americano acabou na embaixada da República Dominicana, onde foram feitos os trâmites para, mais uma vez, devolver Abraham ao seu país. Àquela altura ele estava com 16 anos – e uma reserva física e mental para continuar insistindo. Meses mais tarde, em 2005, voltou a se esgueirar, com três amigos, desta vez na grua de um navio açucareiro filipino. Pensavam que ia para os Estados Unidos, claro, mas a embarcação ia para a Holanda. No quarto dia de viagem, já em alto-mar, um tripulante os descobriu e os levou a pontapés até a popa. Amarraram-lhes os pés e as mãos, cobriram os rapazes de pancada e os jogaram no mar. Abraham foi o único sobrevivente: três dias depois, um navio russo o viu boiando e o resgatou. Desde então, a família de Abraham tenta, sem sucesso, processar os proprietários do navio que o despejou.
“Nós tínhamos um advogado, mas ele foi subornado pelos donos do navio e o processo foi arquivado”, diz Bienvenido Santos. Está sentado na sala de sua casa: um espaço pequeno onde há uma poltrona, algumas cadeiras, uma televisão imensa e alguns quadros. E gente. Logo fico sabendo que vivem onze pessoas na casa. Chega Dainés Santos Mota, a prima preferida de Abraham: uma moça bonita, jovem e de olhos enormes, que me traz um refresco e se acomoda ao meu lado.
“Pode perguntar”, diz com delicadeza. Segue-se um silêncio. Todos tomamos fôlego. Entende-se que agora começa uma entrevista formal. “O que aconteceu com Abraham?”, pergunto então. Bienvenido olha para Dainés. “Ela estava lá”, diz.
Dainés começa a falar. Conta que era o mês de dezembro de 2012, que estavam em casa comemorando o aniversário de Ana – outra prima que mora aqui – e que depois ela (Dainés) e Abraham saíram de moto, já bêbados, para continuar bebendo na praia. Eram duas da manhã. Finalmente acharam um local cheio de gente. Estacionaram a moto, entraram, compraram cerveja, e Abraham foi saindo, pensando que a prima o seguia. Mas não foi assim. A garota teve um bate-boca com alguns rapazes, um deles lhe deu um empurrão. Dainés gritou e em questão de segundos se armou uma dessas brigas que sempre começam por motivos bobos. Quando chegou à moto e se virou, Abraham viu a prima rodeada por quinze homens.
“Cuidado com a minha prima!”, gritou, enquanto tirava a trava da moto. Enfiou um cano por baixo da roupa para fingir que tinha um revólver. “Que foi, babaca?”, respondeu alguém. “Como assim? Está querendo agarrar a garota, é?”, disse Abraham, já avançando, e num piscar de olhos começou a pancadaria. Eram muitos. Num dado momento, alguém chegou com uma faca e tentou atingir Dainés, mas a garota conseguiu se esquivar e o golpe acertou Abraham, que estava atrás. Abraham ficou de pé, imóvel. A primeira punhalada tinha tirado um pedaço de sua orelha. Então outro rapaz se aproximou. “Caralho, você não é homem”, disse ao amigo, “olhe aqui como um homem faz.” E apunhalou Abraham no coração.
“Aí Abraham caiu”, continua Dainés. “E eu me joguei em cima dele, e ele estava vivo, eu sentia seu coração bater, mas ele estava muito machucado… Ele chegou morto ao hospital.”
Dainés chora. Bienvenido também. A angústia dos dois é fresca, como se o tempo não tivesse passado. Alguém berra num quarto vizinho, separado do aposento central por uma cortina que faz as vezes de porta. É Bernarda Santos, a mãe de Bienvenido, avó de Abraham. Anos atrás, eu conversava com ela quando telefonava para Abraham. Agora Bienvenido enxuga os olhos e se levanta para ver o que a mãe quer. Abre a cortina e surge um amontoado de ossos finos prostrados numa cama. Bernarda tem 96 anos, uma voz grave e, logo pude constatar, incontinente. Já chamou Bienvenido aos gritos, agora chama aos gritos por Teté, irmã de Bienvenido, que também mora na casa; e minutos depois chamará por María, a mãe de Dainés, que vive a 100 metros de distância.
Abraham foi criado por Bernarda, mas ninguém teve coragem de contar a ela que o rapaz está morto. Todos na família lhe dizem que ele está viajando, ou que anda muito ocupado – um argumento vagamente verossímil, pois Abraham vivia mesmo atarefado. Quando morreu, tinha 24 anos, fazia vários cursos de culinária, tinha três filhos pequenos – com duas mulheres diferentes, com as quais não chegou a viver – e estava incursionando na música com um projeto de reggaeton e dembow, e já havia lançado dois discos, chegando a tocar com El Lápiz Conciente, conhecido como o pai do rap dominicano.
“Ele nunca mais pensou em ir embora”, diz Bienvenido. “Entendeu que é preciso estudar, batalhar, que nenhum dos meus filhos carece levar a vida dura que eu levei. Fui cinco vezes de balsa até Porto Rico, e nas cinco fui deportado, e a mãe de Abraham também foi de balsa várias vezes. Eram viagens muito duras; a mãe de Abraham, que mora longe daqui, ficou mal da cabeça por causa de tanta travessia, e eu sempre contava isso para o Abraham, para que ele não repetisse o erro. Mas mesmo assim o sonho dele era deixar o país. Todo mundo quer abrir a mente e progredir.” E então Bienvenido aponta para Bernarda, do outro lado da cortina: “Aí, toda vez que a velhinha escutava o apito de um navio, dizia que era o Abraham indo embora.”
Teté, irmã de Bienvenido e tia de Abraham, me oferece banana frita com salame. Enquanto como, Bernarda continua gritando, e Bienvenido e Dainés voltam a chorar. Fora, através das grades – todas as casas do bairro têm grades –, veem-se as crianças voltando da escola e um tronco de árvore tombado na calçada. Às vezes Abraham sentava-se nele para pensar. Bienvenido sempre se lembra dele assim: refletindo, falando pouco, tecendo a trama de uma história que, de início, era insondável para todos. Abraham nunca declarou que sonhava ir embora. Mas começou a se ausentar de casa. A primeira vez foi aos 11 anos: desapareceu o dia inteiro, e só foram encontrá-lo tarde da noite, rezando numa igreja. Bernarda, que então não era tão velha, tinha encontrado em casa uma mochila com chocolates e uma âncora.
“Abraham quer ir embora como clandestino”, disse Bernarda a Bienvenido. A frase não causou espanto: muitos na família tinham ido embora, de um jeito ou de outro. Daí em diante, sempre que Abraham desaparecia, iam procurá-lo no cais e geralmente o encontravam batendo papo com os trabalhadores do porto.
“Abraham, você anda fazendo muita pergunta para o pessoal dos barcos”, chegou a lhe dizer Bienvenido. Mas Abraham não respondia: apenas sorria, e com esse sorriso interceptava outras perguntas. Até que, aos 13 anos, Abraham saiu definitivamente de casa para logo depois voltar transformado, aos olhos do país inteiro, no “Menor”.
“Ele ia com pouca coisa”, diz Bienvenido. “Levava uns chocolatinhos, água, uma âncora e a Bíblia. Vou lhe mostrar a Bíblia.” Ele se levanta e vai buscar a Bíblia de Abraham. Está marcada. “Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa”, diz um trecho sublinhado, em Tiago 3,4.
“Era um menino que lia muito. Venha ver as coisas dele”, diz Bienvenido, levando-me até seu quarto. O quarto de Bienvenido tem uma grande cama sobre a qual ele vai pondo livros e filmes. Os filmes são previsíveis: de ação, de terror, um de vodu no Haiti, algum pornô. Mas os livros, não: há vários cadernos de inglês e um ensaio intitulado “Marx y los historiadores: ante la hacienda y la plantación esclavistas”. “Ah, Abraham era um menino muito especial. Tenho muito para contar e para lhe mostrar…” Bienvenido deixa o quarto, entra num pátio, olha para o alto.
“Temos um quarto lá em cima, pode ficar conosco para ter mais tempo e a gente conversar melhor.” Pergunto se ninguém dorme lá, e ele me diz que “só a Teté, quando vem nos visitar”. Argumento que Teté está na casa agora, ela acabou de me servir uma banana. Então descubro que as Tetés são duas; tem uma outra que mora nos Estados Unidos. Bienvenido conta a história da outra irmã Teté: por cinco vezes ela foi a Porto Rico de balsa; da última vez, já faz 26 anos, o mesmo guarda que a tinha devolvido na tentativa anterior se fez de distraído e a deixou passar. Hoje Teté tem cidadania americana e, como centenas de milhares de dominicanos que vivem no exterior, manda todos os meses um dinheiro com o qual a família inteira consegue cobrir as despesas básicas. Alguns dias depois, em seu escritório na universidade, Wilfredo Lozano me diz que as remessas são a segunda fonte de renda da República Dominicana, depois do turismo: todos os anos entram no país 3,5 bilhões de dólares por essa via. Uma fração imperceptível desse total sai do bolso de Teté.
“Para diferenciar da nossa Teté daqui, nós chamamos a Teté de lá, que é a mais velha, de ‘Teté la Grande’”, explica Bienvenido, enquanto abre a porta para mim. “Pode ficar no quarto dela.”
Volto no dia seguinte, com a minha mala. Teté me recebe com um abraço e me acomoda na frente da televisão. “Assista ao noticiário, fique à vontade”, diz. Pouco depois me estende uma pequena panela com arroz, frango e vagem. “A María trouxe para você.”
Puxo pela memória: María é irmã de Teté e de Bienvenido, é mãe de Dainés e era uma espécie de mãe substituta de Abraham: como a mãe biológica sempre esteve ausente, era María quem ia esperar por ele no porto quando o rapaz era deportado. María mora numa casa a 100 metros daqui. Acho que só sei isso. Faço força para reter cada nova informação. Agradeço e como. Assisto ao telejornal. A notícia principal é que libertaram o rapper Jimmy Bouer depois de três anos de prisão por tráfico de drogas. A sala vai se enchendo de gente. Chega Ana, filha de Teté, uma morena de corpo escultural, mãe de cinco filhos, que também circulam por perto. Chega a filha de Dainés, Esmeliana, uma criança de 3 anos. Chega Ñoño, filho de María, irmão de Dainés, um moço de corpo esbelto, como todos os homens dominicanos que conheci. E chega – ou, melhor dizendo, já está lá a avó Bernarda.
Detrás de sua cortina, deitada na cama, prostrada, Bernarda vocifera sem pausa.
“Cadê a Teté?! Onde ela está?! Manda ela vir aqui, manda ela vir aqui!”, grita enquanto bate ritmadamente sabe-se lá contra que objeto. Bienvenido aparece e me entrega um pequeno embrulho. É um doce. “Quantos pelos tem um boi! Come tudo! Teté!”, Bernarda continua em seu transe. Teté vai até seu quarto e apaga a luz, para ver se ela dorme. “Mamãe, pare de gritar, pelo amor de Deus”, diz. Acabo de comer o guisado. Teté se senta ao meu lado, exausta. “Agora vamos ver a novela”, diz.
Ninguém trabalha fora. Em toda San Pedro, e em boa parte do país, as pessoas vivem do chiripeo, de empregos precários nas zonas francas, do turismo e das remessas do estrangeiro. Por isso todos assistem à novela. Esta se chama Damas e Operários. Fora, no pátio central, Bienvenido arruma umas madeiras. Em seguida começa a lustrar um par de sapatos. Está com uma camiseta sem mangas, que deixa à mostra os ombros arredondados e os bíceps rijos. Passado algum tempo, quando já vi duas novelas diferentes, escuto sua voz na sala.
“Serva.” Parece que está falando comigo. Eu me viro e me deparo com um Bienvenido muito elegante, de banho recém-tomado. Está de calças pretas, para sair, sapatos engraxados e uma camisa branca que contrasta com a pele escura. Quer me levar para conhecer o porto, o lugar onde ele costumava procurar seu filho. Aceito o convite. Montamos num mototáxi e partimos. A cidade vai passando a uma velocidade lenta que permite observar os detalhes. Aí estão os prédios antigos e decadentes; aí estão as bibocas escuras como grutas onde os homens suam no trabalho. Respiro fundo: gosto do cheiro da maresia.
Poucos minutos depois, estamos no porto. Guardas controlam o acesso ao cais e inesperadamente um deles nos pede uma autorização que não temos. Ainda não sabemos disso, mas nunca conseguiremos transpor essa entrada. Passados alguns dias, Teddy Heinsen, presidente da Associação de Armadores de República Dominicana, dirá em Santo Domingo que foi preciso intensificar os controles portuários depois que os Estados Unidos puseram numa lista negra os navios oriundos da ilha. “A maior preocupação dos Estados Unidos não é tanto o imigrante ilegal, mas o medo de que chegue gente com drogas, ou dinheiro sujo, ou terroristas. Na Associação investimos 25 milhões de dólares em pessoal portuário, scanners, detectores de mentiras e câmeras infravermelhas para denunciar clandestinos. Graças a isso conseguimos sair da lista negra. Agora tentam ir embora de balsa.”
Então, impedidos de entrar, Bienvenido e eu contornamos a pé toda a zona da alfândega e entramos num beco que dá no mar. A vista é linda. Alguns dias antes, por e-mail, o poeta dominicano Frank Báez me disse uma frase linda: “Uma coisa é um povoado na montanha, e outra coisa é isto. Aqui só dá para ver o mar. Aqui o horizonte te diz: Vamos embora.”
No porto há um navio de casco imenso, atracado, tranquilo. “Você acha que o Abraham foi um rapaz feliz?”, pergunto de repente. “Bom…”, Bienvenido vacila. “No final, ele já estava vivendo uma vida que não era tão desesperadora assim… Mas por muito tempo ele viveu desesperado para conhecer o mundo, e não estava feliz. Porque às vezes a pessoa tem um sonho na vida, e quando é que ela é feliz? Quando realiza esse sonho que tanto desejou.”
Bienvenido olha para mim: “Cansou? Quer sentar?” Caminhamos mais alguns minutos e por fim nos sentamos nos bancos do calçadão, em frente ao hotel Macorís, onde Abraham fazia seus cursos de culinária. A tarde cai, passam motos, algumas famílias, um cavalo. Ao fundo se escuta uma bachata, e o mar.
“Deus é quem sabe das coisas. Nada acontece se Ele não quiser”, diz Bienvenido, respirando fundo. “Veja seu caso, você aqui, fazendo seu trabalho, escrevendo, preparando uma história. Porque, no fim, a gente sempre morre, mas a história fica.” Não consigo entender direito. “Eu sempre digo isso para minha irmã, Teté la Grande, quando falamos do Abraham. Digo a ela que Deus sabe por que faz as coisas. Porque minha irmã põe a culpa na Dainés. Ela acha que a briga no bar foi por culpa dela, e que se você vê seu primo bêbado tem que levar ele para casa, e não comprar mais cerveja. Mas eu não culpo a Dainés. Vivo dizendo para a Teté: tente perdoar, somos todos filhos da morte. Todos vamos morrer.”
Ficamos olhando a rua e retomamos a caminhada. Bienvenido quer me mostrar San Pedro a pé. Isso significa caminhar por mais de uma hora em marcha batida, já que ele é um homem muito ativo. De quando em quando, além de caminhar, ele cumprimenta uma pessoa: alguém que lhe encomendou um trabalho, algum companheiro de balsa ou de culto. Bienvenido frequenta a Igreja Servos de Cristo há onze anos. Ia também de pequeno, mas depois se desencaminhou, foi alcoólatra e teve três famílias paralelas.
“Deus abençoe esse servo! Vivemos na fé!”, grita Bienvenido numa praça. Estamos caminhando há uma hora e voltamos a nos sentar. Atrás de nós crianças jogam beisebol. Um homem chamado Héctor se aproxima: “Como vai, irmão em Deus?” “Amém! Estou aqui com uma jornalista que está escrevendo sobre meu filho.” “Aquele que passou tantos dias no mar?”, rebate Héctor, empolgado. “Ele mesmo. Estou levando nossa amiga para os vários lugares que meu filho frequentava no porto, antes de partir para Nova York”, diz Bienvenido. “O dominicano sempre procura uma vida melhor. A gente morre infeliz se não conhece Nova York, não é?”
Atrás as crianças correm e gritam com seus tacos de beisebol. Esse esporte é uma verdadeira indústria na República Dominicana – é o país que exporta mais jogadores para as grandes ligas americanas –, e essa indústria tem sua capital em San Pedro, uma cidade que foi berço de grandes astros, como Sammy Sosa, George Bell, Alfonso Soriano, além de centenas de rapazes que conseguiram certa mobilidade social, e o sustento da família, conquistando um lugar nas ligas menores dos Estados Unidos e em outros circuitos internacionais.
O dinheiro do beisebol é, ao lado das remessas dos emigrados, a segunda fonte de renda da República Dominicana: um país que não tem indústria e importa 90% do que consome. Poucos dias depois, em Santo Domingo, o armador Heinsen resumiu o estado de coisas desta forma: “Olhe este escritório” – havia ampulhetas, quadros com motivos portuários, fotos de familiares em molduras douradas, um Mac imenso, móveis de madeira escura, tudo compondo um ambiente de luxo na cobertura de um prédio moderno de frente para o mar. “Isso tudo que você está vendo veio de fora. Daqui só exportamos banana, cacau e lixo.”
A radical abertura das fronteiras comerciais e a aplicação dos tratados de livre-comércio fizeram com que na República Dominicana praticamente não houvesse indústria e que, em seu lugar, tenha crescido o trabalho precário ligado ao turismo, ao comércio e às chamadas “zonas francas”, onde os trabalhadores são condenados a trabalhar em empresas multinacionais que não pagam impostos e não permitem atividades sindicais. Além dessas opções, há os trabalhos ocasionais que garantem a comida do dia – a alternativa econômica com que Bienvenido e quase todo mundo em San Pedro sobrevive.
O chiripeo gera não só uma economia, mas também um modo de estar no mundo. Quando o sol baixa e o calor amaina, todos em San Pedro parecem atentos à possibilidade de encontrar alguma coisa para fazer. “Vamos ver meu amigo Cuba, eu falei para ele que você vinha”, diz Bienvenido. Entramos numa viela e subimos uma escada de metal rangente que nos leva até uma laje. No alto há cadeiras de plástico e paredes coloridas com lemas cristãos, escritos numa ortografia estropiada. A vista é linda: veem-se os telhados das casas e as palmeiras recortadas contra o céu do fim de tarde. Cuba não está, mas pelo jeito deve voltar logo.
“Você joga dominó?”, pergunta Bienvenido. Traz um tabuleiro e jogamos. Emendamos uma partida atrás da outra por quase uma hora, até que finalmente Cuba chega, e a noite cai. Em algum momento, quando Cuba e eu jogamos a última partida, Bienvenido fica em silêncio. “Nunca vi o Abraham jogar.” Nem brincar na rua, nem jogar dominó ou beisebol. Bienvenido diz que nunca viu o filho se divertir. “Ele sempre estava como num pensamento profundo. Sempre com a mente para dentro.”
Logo depois voltamos para casa. Chegamos já bem de noite. Subo ao meu quarto para tomar um banho. Alguém bate à porta. “Daqui a pouco a Natalie vai subir para dormir com você”, grita Teté. Natalie é uma das filhas de Ana e uma das netas de Teté. Escuto os gritos de Bernarda e começo a imaginar que a noite vai ser longa. Desço. Teté me espera com uma cadeira na frente da televisão. “Aqui não temos mesa, por isso cada um come por si”, diz ela estendendo um prato de arroz com feijão. “Sente para ver a novela.”
A novela da noite se chama Namorado de Aluguel.
“Teté Teté Teté, María María María, cadê a María?!”, berra Bernarda. “A María está na casa dela, mãe. Pare de gritar!” Então assisto à novela. Teté olha para mim. “Sabe que a Natalie só dorme com a Bernarda?” Como assim? “Ela só consegue dormir se estiver na cama com a avó.” Então por que ela vai dormir comigo? “Para lhe fazer companhia. Você não tem medo de dormir sozinha?” Respondo que não e pergunto como a menina faz para dormir com esses gritos. “Ela cresceu dormindo com a Bernarda”, Teté encolhe os ombros. “Natalie é a única que não escuta seus gritos.”
Não para de chegar gente. Na sala agora estão Ana, filha de Teté; Ñoño, filho de María e irmão de Dainés; Humberto, filho já não sei de quem. Enfim, parece aquelas passagens do Gênesis em que os nomes de pais e filhos se sucedem até o leitor se perder. Sinto tontura. Só vejo que as mulheres têm a bunda empinada e todos os homens são sarados. Muitos deles passeiam de banho recém-tomado, só de toalha enrolada na cintura.
Sou acordada pelos galos e pelos gritos de Bernarda. Essa mulher parece um rádio. Os filhos lhe dão sedativos, pois ao que tudo indica seu problema é insônia, mas assim que o efeito passa Bernarda está de novo ligada. Agora canta. Tem uma voz gutural e bonita, afinada. Para de cantar e começa a gritar. Chama por María aos gritos. Chama por Teté aos gritos. A certa altura reúno forças, desço para um café. Vejo que Teté está exausta. Ela ocupa o quarto vizinho ao de Bernarda e há anos não dorme direito. Eu me ofereço para chamar María, para revezar com ela. Saio e caminho por um beco estreito que faz algumas curvas até me deixar na casa de María, onde também moram Dainés e sua filha Esmeliana.
A casa é muito limpa e arrumada, com cortinas de tule cor-de-rosa e uma foto emoldurada de dois dos três filhos de Abraham. Mas não é isso o que chama a atenção (a casa de Bienvenido também é limpa e arrumada), e sim o silêncio. Aqui há silêncio. “Abraham fugiu daquilo lá”, diz Dainés. “Não gostava de toda aquela bagunça. Quando foi embora, não deixou nem o endereço. Só depois de algum tempo fui conhecer sua casa. Eu e minha mãe, que era como uma mãe para ele.”
A mãe biológica de Abraham se chama Mireya e mora em Bayaguana, uma localidade no leste da ilha. Abraham nunca viveu com ela. Assim que ele nasceu, Mireya foi para Porto Rico de balsa e deixou Abraham com a avó Bernarda. Em Porto Rico, Mireya conheceu um dominicano chamado Marco Villavicencio, que já tinha a cidadania porto-riquenha. Casou-se com ele e o convenceu, com o apoio de Bienvenido, a reconhecer Abraham e lhe dar seu sobrenome. Depois voltou para a República Dominicana, mas foi morar em outra parte do país. “Para o Abraham, era melhor ter o sobrenome de um homem de lá, assim um dia ficaria mais fácil para ele ir embora. A gente tem que ser generoso, tem que pensar nos filhos”, considerou Bienvenido.
É por isso que Abraham não tem o sobrenome Santos, mas Villavicencio. Mas Abraham nunca morou com a mãe. María trouxe umas fotos dele para me mostrar. Nas mais antigas, ainda é pequeno, magrinho, um menino; parecido com aquele garoto que definhava no hospital de Ensenada. Nas últimas, em compensação, está forte e tem um olhar de desafio, com todos os cacoetes de um músico de reggaeton. Uma das fotos emoldura um pôster pendurado no cômodo vizinho. Abraham está de óculos escuros, com a legenda “A menor quer quarto”, um jogo de palavras entre uma menor de idade e o apelido que Abraham, O Menor, tem desde criança.
“Todo mundo em San Pedro conhecia o Abraham como ‘O Menor’”, diz Bienvenido atrás de mim, enquanto olho o pôster. Ele acaba de entrar na casa de María. Veio me buscar para voltarmos ao porto e ver se nos deixam entrar. Desta vez, diz Bienvenido, o salvo-conduto é seu advogado, um tal de Fernando, que também é diretor da alfândega. Fernando é o advogado encarregado de reabrir o processo contra o navio filipino que jogou Abraham no mar. Bienvenido conta a história enquanto vamos caminhando para o porto. Segundo ele, eram quatro os clandestinos no navio. Nos três primeiros, os filipinos bateram com ferros e depois os jogaram no mar, desacordados. Mas com Abraham foi diferente.
“Esse aí não é o Abraham, que faz uns trabalhinhos para a gente lá em San Pedro?”, perguntou um deles. “É mesmo, rapaz. Não bate nele, não. Só amarra e joga no mar.” Assim, Abraham foi jogado em pleno oceano e teve que ser forte para sobreviver. Anos atrás, no hospício, Abraham contou que passou três dias rezando. “Acho que sobrevivi porque ainda acredito em Deus”, disse. “As cordas afrouxaram com a água, e eu me soltei, e aí fiquei boiando.” Até que um navio russo o avistou.
“Como os navios com clandestinos têm que pagar multas altas, muitas vezes os tripulantes matam os rapazes que encontram”, explica Bienvenido. “Nem sempre é assim. Muitos navios os entregam à Justiça, mas os filipinos têm má fama. Daquela vez morreram todos, menos meu filho. Deus tinha grandes planos para ele.”
Bienvenido avança com passo firme, protegendo-se do sol com uma Bíblia. Se Deus tinha grandes planos, então por que Abraham morreu? “Veja você”, diz Bienvenido, “o próprio Jesus morreu aos 33 anos. Ou seja, mesmo sendo Deus, Ele morreu. Porque Deus tem um plano para a vida da pessoa, e o plano é que a pessoa deve deixar uma história, uma marca do que aconteceu na sua vida. Marcos Abraham fez história, cumpriu sua missão. E aí sua vida terminou.”
Ele para antes de chegarmos ao porto. Faz comentários vagos sobre os prédios da alfândega, sobre sua arquitetura, mas noto que está chorando. Que missão Abraham teria cumprido? “Deixar uma história para nós, deixar o que fez no pouco tempo que viveu… Ele nos deu como que uma forma de superação, não sei se você me entende. Que a gente não deve se conformar e ponto. Enquanto a gente está vivo, tem que fazer o que vocês estão fazendo agora: descobrir as coisas, lutar por essas coisas.”
Bienvenido enxuga o rosto. Quando chegamos ao porto, voltam a nos negar a passagem – o doutor Fernando ainda não chegou ao trabalho –, e temos que ir embora. Ele então resolve dar mais um passeio pela cidade. Caminhamos, agora devagar, e posso olhar a paisagem com calma. Noto que já foi um lugar bonito. Antes de minha viagem, o poeta Frank Báez me mandou “Agora que voltei, Ton”, um conto do dominicano René del Risco Bermúdez que fala desse encanto e também da decadência, e do que estou pensando agora, enquanto olho a cidade. “Naquele tempo o bairro não era tão triste, Ton, essa luz desbotada e poeirenta não caía sobre as casas, nem esse deprimente fedor de toalhas velhas grudava na pele da gente como um doce e resignado bafo de miséria”, diz o conto, e penso nisso enquanto olho as construções, os edifícios antigos que se erguem como um cenário onde se intui uma remota beleza.
A meu lado, Bienvenido cumprimenta pessoas e mostra lugares: a maternidade onde Abraham nasceu, o restaurante onde almoçaram com Abraham, um cemitério. Pergunto se o rapaz está enterrado lá. “Não, esse é o cemitério dos ricos. Marcos está em Santa Fé, longe daqui. Foi velado em casa, e depois os rapazes, meus outros filhos, decidiram acompanhá-lo com sua música.”
Santa Fé não fica longe; são vinte minutos de moto, e peço a Bienvenido para irmos até lá. Ele concorda. Subimos na moto de um rapaz chamado Robin e antes do meio-dia estamos no cemitério. É um terreno grande e descampado; uma espécie de povoado baixo com um céu imenso. Entramos de moto e passamos entre os túmulos até chegar a uma zona de lápides precárias e mato crescido. Descemos. Bienvenido caminha entre pequenas cruzes brancas e algumas florzinhas silvestres. Eu sigo atrás. Num montículo de cimento cinza, sem nome, sem flores, está enterrado Marcos Abraham Villavicencio. Pouso uma das mãos no cimento. O sol é cruel, mas o cimento está frio. Não sigo nenhuma religião, mas por algum motivo peço a Bienvenido que reze uma prece. Ele se ajoelha, baixa a cabeça, fecha os olhos.
“Deus Altíssimo e Pai celestial, nesta hora te damos toda a honra e toda a glória, Senhor, porque nos permitiste estar neste lugar, Deus do céu, com uma amiga de Marcos Abraham que está por aqui, Senhor, pedindo-te, Pai amado, que todo o seu caminho seja de bem e que sua família também esteja bem, Pai amado, pedindo-te, Pai, que a cada dia nos dês a força e o entendimento da tua palavra e dando-te toda a honra, toda a glória, porque tu mereces todo o louvor, porque tu és o Deus verdadeiro, Pai amado; obrigado por nos permitires, Senhor, chegar até aqui, assim te peço por ela também e por sua família e por sua capacidade para contar a história de Abraham; em nome de Jesus, amém.”
“Amém”, digo e faço o sinal da cruz. Quando me levanto, sinto uma pontada forte num dedo do pé. Grito. Levanto o pé e não vejo nada. “Terá sido uma formiga?”, pergunto, examinando o dedo. “Deve ter sido uma formiga”, opina Robin, o rapaz da moto que está conosco. “É o Abraham”, diz Bienvenido, e sorri.
Então penso em Abraham como uma formiga – uma formiga cheia de raiva –, e sorrio também.
