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despedida

Adeus à espreita

Como nós, torcedores do Barça, viveremos sem Messi?

Jordi Puntí | Edição 169, Outubro 2020

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De Barcelona

Ninguém estava preparado. Nem ele mesmo. Ele, talvez, menos  do que qualquer pessoa. Pode ser que daqui a alguns anos tudo pareça bobagem, mas naquele momento – 25 de agosto – a notícia chocou a torcida. Não era possível: Leo Messi acabava de anunciar à diretoria do Barcelona que queria deixar o clube. De acordo com a interpretação que fazia do próprio contrato, o craque argentino tinha liberdade para escolher seu destino na próxima temporada, e sua intenção era procurar um time que lhe oferecesse novos desafios. A diretoria respondeu imediatamente que não funcionava assim: na verdade, o contrato favorecia o clube, pois o prazo para a rescisão já havia passado. Se o atacante desejasse sair, precisaria pagar uma multa de 700 milhões de euros, ou quase 4,5 bilhões de reais, cifra digna do Banco Imobiliário. Caberia a um juiz decidir quem tinha razão, num processo que levaria meses, caso as partes não chegassem a um consenso. Para muitos torcedores, no entanto, o importante não era quem iria ganhar a ação. Afinal, todos já tínhamos perdido: pela primeira vez, éramos obrigados a imaginar um futuro sem Messi.

Claro que, cedo ou tarde, haverá um antes e um depois de sua aposentadoria, mas até aquele momento sempre o enxerguei como um atleta fiel ao clube e nunca pensei que ele pudesse encerrar sua carreira em outro time. No máximo, eu vislumbrava um retorno breve e sentimental ao Newell’s Old Boys, a equipe de Rosário, na Argentina, em que Messi começou aos 7 anos. Ele voltaria em seguida ao Barça para se despedir com todas as honras e continuar morando na cidade com a família.

 

O jogador chegou a Barcelona em 2000, quando tinha apenas 12 anos. Seu primeiro contrato foi assinado num bar, num guardanapo de papel, para que ninguém perdesse tempo com burocracias. O clube investiu pesado no garoto franzino, custeando um tratamento hormonal para estimulá-lo a crescer, algo que nenhum time argentino se dispunha a oferecer. Messi e o Barça, portanto, estão ligados por uma relação que abrange a infância, a adolescência e a idade adulta do atacante – e que parecia inabalável. Juntos viveram momentos difíceis, sempre superados em benefício mútuo para fazer história e conquistar títulos.

Em defesa de Messi, é preciso dizer que, de uns anos para cá, a gestão do clube tem sido desastrosa. Com uma persistência que chega a parecer perversa, o presidente Josep Maria Bartomeu e seus diretores foram descuidando do estilo de jogo que o treinador holandês Johan Cruijff introduziu no time na década de 1990 e que o catalão Pep Guardiola aperfeiçoou depois. Os cartolas também gastaram centenas de milhões de euros em contratações ruins, que barraram a ascensão de jovens das categorias inferiores. Mas o pior equívoco dessa gestão errática foi não oferecer aos jogadores a garantia de que a equipe não se desmancharia por completo, após a saída de nomes míticos como Puyol, Xavi, Alves e Iniesta.

De repente, a derrota histórica por 8 a 2 para o Bayern de Munique, na Liga dos Campeões, em agosto, nos revelou de maneira traumática a situação quase calamitosa do time. Era urgente uma mudança radical. Muitos de nós achamos que Bartomeu pediria demissão e convocaria eleições, mas isso não aconteceu. Ao contrário: o presidente contratou um novo treinador, o holandês Ronald Koeman, que logo telefonou para o uruguaio Luis Suárez, melhor amigo de Messi, e avisou que ele, Suárez, não jogaria mais no Barça. É provável que nesse dia, aos 33 anos, o argentino tenha começado a ver sua saída como a única solução, uma mudança inevitável para chegar em boa forma à Copa de 2022 no Catar.

 

 

Quando Messi anunciou o desejo de ir embora, um amigo me ligou incrédulo para que nos consolássemos mutuamente. Outro amigo tentava entender a situação, comparando o rompimento à separação de um casal que está junto há muitos anos. Não achei boa a analogia: a história de amor não era só entre Messi e o Barcelona, mas principalmente entre Messi e a torcida. O clube era apenas a casa onde os amantes viviam. Para superar a dor, recordamos os momentos históricos do craque, esperando que tivessem um efeito analgésico. Quem não reviu suas melhores jogadas no YouTube? O gol na final da Liga dos Campeões contra o Manchester United. As vitórias contra o Real Madrid. Quantas vezes presenciamos Messi beijar o escudo do Barça depois de marcar um gol?

Essa sensação de desamparo diante da possibilidade de o atacante nos abandonar era maior ainda entre os fãs mais jovens. Alguns torcedores cresceram vendo o futebol de Leo Messi e lendo os livros de Harry Potter. Em 1997, o argentino tinha 10 anos; Harry Potter, 11 – e os dois já faziam mágica. É uma geração de torcedores que se tornaram adultos com o jogador. Podemos até dizer que conviveram com ele como se fosse uma figura de ficção, um protagonista muito querido que realizava façanhas sobre-humanas, e não estavam prontos para a nova realidade, para o vazio que seu ídolo vai deixar tão logo partir.

Passados dez dias de incerteza, quando já não tínhamos unhas para roer nem santos a quem rezar, Messi anunciou que ficaria por mais uma temporada. Na marra, a contragosto. Sua vontade de atuar por outro time, provavelmente o Manchester City de Pep Guardiola, terá que esperar até 30 de junho de 2021, data em que seu contrato terminará. O atacante também disse que, como sempre, vai dar tudo pelo time. Ninguém duvida disso, mas sua expressão tensa e triste o delatava. “E agora?”, pensei. Apesar de o meu egoísmo de torcedor querer vê-lo jogar mais um pouco no Barça, marcar mais um gol para nós, entendi que o clube deveria dar a Messi a liberdade de ir embora, um privilégio que ele conquistou com seu futebol. Aquilo era uma vitória da burocracia sobre o encantamento, dos cartolas sobre o jogo bonito.

 

O futebol acontece sempre em dois planos: no presente e na memória, e Messi é um dos poucos jogadores que sabem trafegar em ambos. Às vezes, repete velhos gols, com alguma inovação ou retoque, como que homenageando o passado glorioso. Temo que essa última temporada seja uma viagem na saudade. Temo que seu adeus adiado pese sobre cada nova partida a que assistirmos. Cada gol vai ser uma despedida em câmera lenta; cada erro, um aviso de que suas pernas continuam em Barcelona, mas sua cabeça não. Só nos resta responder a essas suspeitas com a crença no mistério do futebol. Como sabemos, com a bola rolando, tudo pode mudar de uma hora para outra, e um final feliz talvez nos aguarde.

Jordi Puntí

É escritor e jornalista. Publicou o romance Bagagem Perdida (Rai) e o livro-ensaio Todo Messi: Ejercicios de Estilo (Anagrama)

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