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questões literárias

A modéstia mágica

Sem o esforço do editor Carl Seelig, a obra de Robert Walser talvez tivesse se perdido no tempo

Alejandro Chacoff | Edição 176, Maio 2021

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“Sempre me faltou a auréola dos santos. Somente com ela é que se pode ascender à literatura. Qualquer nimbo de heroísmo, de padecimento e afins e logo se alcança a escada para o sucesso… Me veem como uma pessoa impiedosa, assim como eu sou. Por isso mesmo é que ninguém me leva a sério.”

Há uma ironia tragicômica nessas frases, ditas pelo escritor suíço Robert Walser a seu amigo Carl Seelig, em junho de 1937, durante uma das muitas caminhadas que fizeram juntos. Pois desde que Walser foi encontrado caído na neve e sem vida, no dia de Natal de 1956, a alguns quilômetros de distância do sanatório em que estava internado no interior da Suíça, sua reputação literária só tem crescido. Hoje ele é uma espécie de santo secular: escritor inimputável, cuja mera menção evoca a sensação intimidante que costuma acompanhar monumentos.

Talvez a ironia seja mais trágica do que cômica, porque o excesso de deferência, no caso de Walser, cria um anacronismo angustiante. Poucos escritores se esforçaram tanto para valorizar o que é trivial, menor. Poucos escritores foram tão antimonumentais. Seus contos minúsculos são frequentemente narrados por um protagonista meio alegre que sai caminhando e observando a paisagem, num estado de excitação com os detalhes ao redor: os flocos de neve caindo do céu, o brilho translúcido do sol de inverno, o júbilo de passantes num feriado nacional. A inocência e a modéstia autodepreciativa desses narradores solitários desconcertam à primeira vista. A sensação inicial é a de uma piada que se estende por tempo demais. Logo chegará a mão pesada da história para esmagar esse bobo alegre, pensamos – afinal, ninguém zanzando pela primeira metade do terrível século XX pode ser tão inocente assim.

 

Em Walser, porém, a modéstia não é uma escada para acontecimentos numa trama, e sim um éthos obsessivo compartilhado por quase todos os personagens. “Aqui se aprende muito pouco, faltam professores”, diz o protagonista de Jakob von Gunten, seu romance mais famoso, logo na primeira linha. “E nós, rapazes do Instituto Benjamenta, vamos dar em nada, ou seja, seremos, todos, coisa muito pequena e secundária em nossa vida futura.” E logo depois: “Somos pequenos, pequenos até a insignificância.” Há, em Walser, uma disciplina da evanescência; tudo é efêmero, impalpável. Walter Benjamin – um de seus admiradores mais ilustres, e também a seu modo um miniaturista – dizia que o objetivo de cada frase em Walser é que a frase anterior seja esquecida. W. G. Sebald também assinalou a estranheza de suas próprias impressões de leitura, admitindo a tendência de imediatamente esquecer todos os detalhes mágicos pelos quais passara os olhos – os dândis loquazes que aparecem com brilho na página, para logo em seguida serem substituídos por outras figuras cintilantes, que por sua vez também desaparecem com rapidez.

Benjamin, Sebald: há uma comédia bonita em observar esses mestres da elipse tentando capturar um autor ainda mais elusivo do que eles próprios. Foi Benjamin que chegou mais perto de decifrar a essência, quando descreveu os personagens de Walser como figuras exiladas dos contos de fadas (“Partindo precisamente do ponto onde termina o conto de fadas, o que ele nos mostra é como vivem esses personagens”). Tanta alegria e inocência infantil, tanta excitação com detalhes triviais (o gosto do café, o desenho de um terno) de fato criam um deslocamento no leitor, gerando a sensação de que, ou estamos numa fábula, ou então essa estranha obsessão com a leveza é uma forma de afastar algo subterrâneo mais sombrio, uma melancolia mais profunda que apenas fagulha na página.

 

É esse tom ambíguo – entre a brincadeira e a mania – que inspirou o jovem Franz Kafka, cujos primeiros escritos foram definidos por um crítico de sua época como uma mera imitação do autor suíço. Walser, por sua vez, parecia indiferente à admiração de Kafka. O detalhe está presente em duas conversas relatadas pelo escritor e editor Carl Seelig em Passeios com Robert Walser, de 1957 – livro que sairá em nova tradução para o português pela editora Papéis Selvagens, do qual a piauí publica um trecho a seguir.

 

Sem o esforço de Seelig – que viria a se tornar guardião e responsável pelo testamento literário do autor –, a obra de Walser provavelmente teria desaparecido. Pois de forma similar aos seus personagens, ele também se recolhera a uma vida cada vez mais modesta. A um início de carreira promissor e produtivo em Berlim, antes da Primeira Guerra Mundial, seguiram-se mudanças geográficas constantes, a marginalização literária e certo desapego material (“Ele não tinha nem casa, nem residência fixa, nem um único móvel”, Sebald escreveu. “E quanto a roupas, no máximo um terno bom e outro não tão bom.”). A obsessão minimalista afetou até a sua caligrafia, que diminuiu a tal ponto que era impossível decifrá-la a olho nu. Em 1929, ele teve um colapso nervoso e foi internado num instituto psiquiátrico em Berna; em 1933, foi transferido para o sanatório de Herisau, uma cidadezinha no interior da Suíça.

Foi lá que, em julho de 1936, Seelig foi visitá-lo pela primeira vez. Nos vinte anos seguintes, os dois se encontrariam pelo menos duas ou três vezes ao ano, para fazer longas caminhadas pela região. Passeios com Robert Walser é o relato dessas caminhadas. A concisão, a veia andarilhesca e as descrições líricas dos detalhes ao redor – além de nuvens, prados e campinas, há diversas menções a cigarros, tipos de cerveja, pratos suculentos – deixam claro que este é um livro tipicamente walseriano. Não se trata, porém, de um pastiche, mas sim de aceitar Walser em seus próprios termos, encontrá-lo em seu terreno. Seelig não era um bajulador deslumbrado. Era um editor experiente, e parecia entender que a forma dos encontros importava (a ideia de “entrevistar” Walser, para qualquer pessoa familiarizada com sua literatura, soaria absurda). O resultado é um livro sensível, com um senso de missão belo porque aparentemente contraditório: transformar um autor obcecado com tudo que é menor e passageiro numa figura memorável. Neste link, a piauí publica cinco entradas do diário de Seelig em Passeios com Robert Walser.

Alejandro Chacoff
Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

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