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    Herzog entre Grande Otelo e Klaus Kinski, durante a filmagem de Fitzcarraldo Foto: Reprodução

questões cinematográficas

A pirataria de Werner Herzog

A propósito do título da autobiografia – parte 2

Eduardo Escorel | 19 jun 2024_09h02
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A coluna anterior, publicada em 5 de junho, suscitou comentários de pessoas amigas. “Pegou leve”; “não custava a merecida menção” de Herzog a Joaquim Pedro; “essa conexão Herzog-Andrade tinha passado batida por mim!”; “Herzog levou ao pé da letra ‘cada um por si’”. Essas foram algumas das observações feitas.

Terei sido indulgente? Não creio. Afinal, Joaquim Pedro nunca reclamou, ao menos que eu saiba, de Werner Herzog ter adotado, na Alemanha, a frase dita em Macunaíma com o acréscimo de “todos” como título do seu filme de 1974, batizado no exterior de O Enigma de Kaspar Hauser.

Eu arriscaria presumir que o furto tenha até divertido Joaquim Pedro. Ou ele terá sido consultado a respeito e concordado, com um sorriso irônico? Talvez, embora esse hipotético “de acordo” não eximisse Herzog da obrigação de ao menos mencionar a origem do título nos créditos de Jeder für sich und Gott gegen alle (Cada um por si e Deus contra todos).

Minha convicção de que Joaquim Pedro pelo menos tomou conhecimento dessa apropriação indevida resulta do simples fato de K. M. Eckstein, correspondente da ZDF (Zweites Deutsches Fernsehen – Segunda Televisão Alemã), nascido em Munique, ter sido produtor executivo de Macunaíma. Não é plausível, portanto, imaginar que Eckstein, sendo alemão, tenha ignorado a adoção de “Cada um por si e Deus contra!” como título do filme de Herzog e deixado de comentar o fato com o diretor de Macunaíma. Mesmo assim, não deve ser descartada a possibilidade de Joaquim Pedro, apesar de expropriado, não ter ficado aborrecido.

É preciso considerar, além do interesse pelas traquinagens de Macunaíma, a vertente iconoclasta de Joaquim Pedro que eclodiu em Os Inconfidentes, lançado em 1972. Basta ter presente a cena em que o delator Joaquim Silvério dos Reis (Wilson Grey) entra na banheira com o governador da capitania de Minas Gerais, Luís da Cunha Meneses (Fabio Sabag), ambos nus; ou o uso na trilha sonora de um filme situado no final do século XVIII, de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, e Farolito, de Agustin Lara, na versão de João Gilberto.

 

Estive com Werner Herzog uma vez na casa de Joaquim Pedro, mas não lembro o ano exato desse encontro fortuito, nem o teor da conversa. Quando cheguei, ele já estava lá. Ao irmos embora, lhe dei uma carona até o final do Leblon a caminho de uma festa. Quando foi isso? Na década de 1970 ou depois? A admiração de Herzog por Macunaíma o terá trazido ao Brasil de passagem por conta da filmagem na Amazônia peruana de Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972)?

A primeira vinda dele ao Rio de Janeiro e a São Paulo de que tenho notícia foi em 1980. É Herzog mesmo quem conta em seu livro Conquest of the Useless, diário que cobre o período de 1979 a 1981 durante o qual foi feita a preparação e filmagem de Fitzcarraldo, lançado em 1982:

21 a 26 de julho: “Fiquei até tarde no apartamento de Carlos Diegues. Glauber Rocha não era encontrável e Rui Guerra aparentemente está em São Paulo.”

27 e 28 de julho, em São Paulo: “Na exibição de Cada um por si e Deus contra todos, a sala estava tão superlotada que em seguida, durante o debate ao qual compareceu mais gente ainda, quem tentou forçar a entrada pressionou com tanta força quem estava de pé que algumas pessoas desmaiaram e só puderam ser carregadas para fora com muita dificuldade. Terminado tudo, fui com um pequeno grupo até uma casa onde todos cantaram para afastar espíritos macabros.”

Chama especial atenção nessas anotações Herzog não mencionar Joaquim Pedro ou Macunaíma, nem quando cita o título original, ou subtítulo, de O Enigma de Kaspar Hauser – “Cada um por si e Deus contra todos”. Isso meses antes de retomar as filmagens de Fitzcarraldo, nas quais Grande Otelo que ele vira como personagem-título em Macunaíma faria o papel do chefe da estação de trem esquecido. Em Conquista do inútil, Herzog descreve Grande Otelo assim: “(…) aquele baixinho ágil e franzino que parece ter filhos por todo lado (…) de repente me apareceu como o diabo em um filme que se desenrolava diante do meu olho interior, no qual Walter Matthau teria que brincar de Deus.”

O cineasta Joaquim Pedro de Andrade — Foto: Reprodução

 

Enquanto escrevia esta coluna, encontrei, afinal, uma declaração esclarecedora de Herzog feita a Maria do Rosário Caetano quando ele esteve em São Paulo, por ocasião do III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult e pelo Sesc, em maio de 2011. Publicada no jornal impresso Brasil de Fato, a entrevista foi reproduzida na revista Samuel:

Maria do Rosário pergunta: “É verdade que você deu a O Enigma de Kaspar Hauser (1974) o subtítulo de Cada Um Por Si e Deus Contra Todos por causa do filme Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade?”

Herzog responde: “Sim. Eu escrevi o roteiro do filme em quatro ou cinco dias e não havia um título. Cansado de tanto escrever, resolvi sair para tomar uma cerveja e ver um filme. Acabei vendo Macunaíma, do Joaquim Pedro. Fiquei louco pelo Grande Otelo e mais louco ainda por uma frase que ouvi num certo ponto do filme: ‘Cada um por si e Deus contra todos.’ Congelei na cadeira. Isto que acabei de ouvir é tão lindo que não consigo acreditar. Aí está o título do meu filme. Só que, depois, trocando ideias com várias pessoas, ninguém guardava a frase. Quando eu pedia para que a repetissem, diziam ‘Cada um por Deus, todos pelo Homem’. Ou ‘Cada homem por Deus’. Nunca acertavam. Então acabei optando por O Enigma de Kaspar Hauser – Cada Um Por si e Deus Contra Todos. Mas tão importante quanto o subtítulo foi a descoberta de Grande Otelo. Que ator maravilhoso. Nove anos depois eu estava com ele na Amazônia, filmando. Tomei essas duas riquezas de Macunaíma. Não tenho vergonha de assumir, como um pirata, essa troca.”

Temos aí a palavra de Herzog. É prudente, no entanto, não a tomar como definitiva. Afinal, ele declara não ter vergonha de assumir, “como um pirata”, o que chama de “essa troca”. Passados 48 anos desde a estreia de Jeder für sich und Gott gegen alle (Cada um por si e Deus contra todos) e 34 após a morte de Joaquim Pedro, não depõe a favor de Herzog ter reincidido ao usar Cada Um Por si e Deus Contra Todos como título de sua autobiografia, sem ao menos informar, dessa vez no livro, a origem da frase.

*

Nota de pesar.

Nas duas últimas semanas, assisti a alguns filmes, brasileiros e estrangeiros. Salvo um, nenhum dos demais me animou a escrever a respeito. A exceção fica para ser comentada quando deixar o circuito de festivais e for lançado nos cinemas. Um espírito malévolo poderá dizer que escolhi mal o que fui ver – é possível. Mesmo assim, a dificuldade para encontrar o que me pareça valer a pena escrever a respeito não deixa de ser um sinal preocupante.

*

E-mails recebidos após a publicação da última coluna:

André Mueller-Roger

A citação de André Gide [feita por Herzog e reproduzida na coluna de 5 de junho] foi tirada do livro Le Voyage d’Urien. Segue a página:

Nota: Neste caso, quem mandou duvidar de Herzog? Conforme Paul Cronin escreveu em Herzog on Herzog, “concluo agora que ou ele é um grande mentiroso ou, mais provavelmente, está me dizendo a verdade.”

 

Walter de Paula Pinto Filho

Segui suas referências e, sem intenção, me deparei com um trabalho acadêmico que se reporta a uma entrevista de Herzog. Nessa entrevista ele reconhece o filme Macunaíma e o uso da expressão “cada um por si e Deus contra todos”. 

O que ele diz não invalida sua crítica obviamente, apenas traz um reconhecimento, em uma entrevista no Brasil, do cineasta alemão sobre o filme. É possível que você conheça a entrevista ou alguém já tenha falado sobre o caso. 

Nota: De fato, acabei encontrando a entrevista de Herzog a Maria do Rosário Caetano, em 2011, após ter publicado a coluna de 5 de junho, conforme indicado na coluna de hoje. Mas desconhecia o artigo O sertão virou rio e o rio virou sertão: um cineasta alemão e o Cinema Novo brasileiro, de Renan Nascimento Reis, mencionado por você. Muito obrigado.

Quanto ao seu engano de dirigir o e-mail a Lauro Escorel, não se preocupe. Estou habituado a essa confusão pela qual devo ter alguma responsabilidade, pois sou filho e irmão de Lauros, além de pai e cunhado de uma Laura.

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