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Um novo olhar dos trópicos

    Indígena kaingang na aldeia urbana da rua Pedro Antônio da Silva, em Londrina Foto: Fernando Granato

questões antropológicas

Um novo olhar dos trópicos

Uma visita aos indígenas que Claude Lévi-Strauss conheceu no Paraná há quase um século

Fernando Granato, de Londrina | 14 nov 2025_08h53
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Localizada na Zona Sul de Londrina, a Rua Pedro Antônio da Silva é um lugar essencialmente residencial e arborizado. Mesmo diminuta, a via apresenta um contraste social evidente. Do lado esquerdo, residências de classe média, com muros altos e algumas com piscina. Do lado direito, um canteiro de terra vermelha abarrotado de moradias precárias construídas com restos de materiais – sobretudo madeira –, que abrigam cerca de 150 indígenas da etnia kaingang.

Quem passa pelo local só vê uma pequena parte dos barracos feitos pelos indígenas para ocupar o terreno de um hectare (cerca de 10 mil m²). Para ver a estrutura montada pelos kaingang, é preciso embrenhar-se por vielas enlameadas, repletas de cascalhos e entulhos nas entradas das casas. No dia em que a piauí visitou a comunidade, um domingo do início de agosto, havia alvoroço na rua: meninos brincavam com um cachorro vira-lata e fogões improvisados feitos de tijolo ocupavam a área externa das moradias – não há calçada.

Antes de viverem ali, os indígenas moravam nas zonas rurais próximas a Londrina. Eles iam à cidade em busca de tratamento médico e para vender artesanato. Como a situação no campo era de subsistência, alguns começaram a construir barracas improvisadas nas ruas do município. Em 1999, diante da expansão de casas improvisadas e do número cada vez maior de habitantes, a prefeitura construiu um centro cultural e uma casa de acolhimento temporário para abrigá-los. Com o passar do tempo, o espaço se tornou moradia definitiva dos kaingang em Londrina. 

Quase três décadas após esse processo, a prefeitura do município busca a reintegração de posse do terreno da Rua Pedro Antônio da Silva, por entender que ele fica em uma Área de Proteção Permanente (APP), às margens do Ribeirão Cambé, imprópria para abrigar tanta gente. Os indígenas, por sua vez, dizem que a ocupação do espaço foi pacífica e mediada pela prefeitura, e lá vão permanecer. O caso já transitou em julgado na Justiça, com decisão favorável ao município pela desocupação do terreno, mediante realocação dos kaingang em outro local, o que não aconteceu até agora.

Na aldeia urbana não há abastecimento domiciliar de água, energia ou canalização de esgoto. A água vem de duas torneiras de uso coletivo, instaladas na rua pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). A luz chega por meio de instalações clandestinas, que formam um arriscado emaranhado de fios entre os barracos de madeira. E a fossa a céu aberto traz risco de contaminação e transmissão de doenças.

O cacique Renato Kriri afirma que, além da falta de infraestrutura, os indígenas sofrem com a escassez de alimentos. “A comida está sempre faltando, feijão com arroz, macarrão, coisas do dia a dia mesmo.” Dos cerca de 150 moradores da comunidade, apenas sete têm emprego formal. Fora esses, quem sobrevive melhor, segundo o cacique, são os que recebem benefícios do governo, como o Bolsa Família. “Mas é uma minoria. Os outros se viram como podem, com a venda de artesanato ou fazendo pequenos trabalhos pela cidade ou mesmo dentro da aldeia.” É o caso de Marta Barros, que tem o nome indígena de Kunha-Yvoty. Na porta de seu barraco, uma placa indica: “Vende-se geladinho 1 real cada.” Ela diz que sobrevive daquilo que arrecada com o incipiente negócio. “Trabalho não tem, então a gente se vira.” 

 

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), existem no Brasil 45.840 kaingang, em 46 terras indígenas espalhados pela região Sul do país e uma pequena presença também em São Paulo. No Rio Grande do Sul são cerca de 23 mil, no Paraná, 13 mil, e em Santa Catarina, 9 mil. A falta de renda, moradias precárias e a disputa por terra são a realidade também em outras comunidades da etnia. 

No município de Tamarana, a 53 km de Londrina, cerca de 1.600 indígenas tentam manter a administração do território recebido em 1955, por meio de escritura pública: 6.300 hectares que formam a Reserva Indígena Apucaraninha. Quase cinquenta anos depois, quando a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) realizou nova medição, constatou-se a diminuição da área para 5.574 hectares. 

Para tentar reaver aquilo que acreditam ser deles, os kaingang ocuparam, em 2017, a Fazenda Tamarana, vizinha à área indígena. O proprietário, por sua vez, alega que adquiriu a terra de boa-fé de terceiros e não tem nada a ver com a possível expropriação. Em junho, uma equipe de negociadores da Polícia Federal foi à fazenda para intermediar uma conversa entre os indígenas e o proprietário, mas não houve acordo, e o impasse continua. Enquanto isso, a Funai busca terras federais que possam ser cedidas a eles para reverter o prejuízo.

Os kaingang que vivem em Apucaraninha são dos poucos do Paraná que preservam algumas tradições ancestrais. Praticam a pesca feita por meio da chamada armadilha de pãri, um artefato de pedras que simula uma barragem dentro do rio, onde os peixes ficam retidos. Amadeus Zacarias, liderança indígena de Tamarana, diz que preservar as tradições é difícil quando se vive “atormentado” pela questão fundiária: “Na área da Fazenda Tamarana estão hoje cerca de cinquenta famílias, numa situação de insegurança enquanto a posse definitiva não é resolvida. Ainda bem que o conflito pela posse é pacífico e a briga é só mesmo no papel, entre advogados. Mas a gente não tem paz.”

Em São Jerônimo da Serra, a 95 km de Londrina, onde também há uma aldeia kaingang, os problemas pela posse da terra são os mesmos. Cerca de quinhentos indígenas moram numa vila rural em um terreno de 300 alqueires, cerca de 700 hectares, segundo o cacique João Cândido da Silva. O número é bem inferior aos 14 mil alqueires (em torno de 33 mil hectares) que eles tinham à disposição no século XIX, de acordo com estudo feito pela antropóloga Kimiye Tommasino em sua tese de doutorado intitulada A História dos Kaingang da Bacia do Tibagi e apresentada na Universidade de São Paulo em 1995 – atualmente, ela é professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina.

Cândido da Silva afirma que a área é insuficiente para viver da caça e agricultura: “Nascem em média quinze crianças por ano na comunidade e as mortes, por causas naturais, atingem por volta de um índio a cada dois anos. É muita gente para alimentar e abrigar.” As habitações rudimentares, a maioria de madeira e alvenaria, abrigam várias famílias em um único cômodo. Existe no local uma escola indígena e um posto de saúde para pequenos atendimentos.

Não há trabalho remunerado, nem na aldeia nem no município mais próximo. Segundo o Portal Cidades, do IBGE, os habitantes de São Jerônimo têm apenas 11,18% da sua população ativa ocupada e os 1.262 que trabalham recebem em média 2,2 salários mínimos por mês. “Os índios vão embora em busca de serviço em outras regiões e com isso vão perdendo a cultura indígena, e nossa história vai acabando”, lamenta o cacique.

 

Os kaingang, imersos em disputas de terra, pobreza e precariedade social, foram retratados pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss há noventa anos, em sua primeira expedição para conhecer os povos originários do Brasil. Lévi-Strauss acabava de chegar ao país com a missão de lecionar antropologia na recém-criada Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, pretendia colher material para um futuro trabalho sobre um novo mundo ainda pouco explorado academicamente, o que se concretizaria anos depois com a publicação do clássico Tristes Trópicos.

Quando Lévi-Strauss chegou ao Norte do Paraná, em 1935, Londrina tinha um ano de fundação e contava com 3 mil habitantes. Suas descrições da viagem pela região, que durou quinze dias, são minuciosas. “Viajamos a cavalo por imperceptíveis pistas através de extensões de floresta tão vastas que muitas vezes era preciso avançar pela noite adentro para alcançar a cabana em que faríamos escala (…) Lembro-me das horas de cavalgadas sacudidas pelo passo travado das nossas montarias. Às vezes, descendo um talude abrupto, elas nos precipitavam para a frente e, para evitar a queda, a mão devia estar pronta para se agarrar no arção das selas caboclas; ao frescor vindo do solo e ao cascatear sonoro, adivinhava-se a transposição de um vaú.”

Em Tristes Trópicos, publicado somente em 1955, ele relata que os kaingang eram “pequenos bandos selvagens” que, até a data de sua chegada, tinham subsistido “até quase se tornarem invisíveis”, depois de serem “ferozmente perseguidos nos últimos cem anos”. No livro, Lévi-Strauss relata que por volta de 1914, o governo brasileiro esforçou-se para integrar os indígenas à “vida moderna”, mas o plano não deu certo. 

“Houve, no lugarejo de São Jerônimo [atual município de São Jerônimo da Serra], que me servia de base, uma serralheira, uma serraria, uma escola, uma farmácia. O posto recebia instrumentos regularmente: machados, facas, pregos; distribuiam-se roupas e cobertas”, escreveu o antropólogo. “Vinte anos depois, essas tentativas estavam abandonadas. Entregando os índios a sua própria sorte, 0 Serviço de Proteção demonstrava a indiferença de que se tornara objeto por parte dos poderes públicos.” O Serviço de Proteção aos Índios foi criado em 1910 e extinto em 1967 ao ser substituído pela Funai. 

A descrição feita pelo francês prossegue em tom pessimista. “De sua experiência efêmera de civilização, os índios guardaram as roupas brasileiras, o machado, a faca e a agulha de costura. Em tudo mais, foi o malogro. Tinham-se-lhes construído casas, e eles dormiam ao relento. Procurou-se fixá-los nas vilas e continuaram nômades. Quanto aos leitos, queimaram-nos para fazer fogo e dormiam no chão. Os rebanhos de vacas enviados pelo governo vagavam ao acaso, pois aos indígenas repugnava a sua carne e o seu leite.” 

O relato de Lévi-Strauss evidencia uma inadequação da etnia à tentativa de incipiente urbanização. A avaliação parece ser o prenúncio da pobreza que atinge os kaingang neste momento. “Encontrando-os menos intactos do que esperava, ia descobri-los mais secretos do que sua aparência exterior poderia sugerir. Eles ilustravam plenamente essa situação sociológica que tende a tornar-se exclusiva para o observador na segunda metade do século XX, de ‘primitivos’ a quem se impôs brutalmente a civilização.” 

 

As agruras dos kaingang no Paraná têm registros históricos. De acordo com a pesquisa de Tommasino, o príncipe regente Dom João VI, logo que chegou ao Brasil, em 1808, legalizou o extermínio desses indígenas por meio de uma Carta Régia, o documento oficial da monarquia. Emitida em novembro de 1808, a declaração criou a “Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava”, uma expedição formada por duzentos soldados para ocupar as terras paranaenses e também em Santa Catarina que perdurou até 1812. Não há um número de mortos, mas palavras como “extermínio” e “massacre” são utilizadas por pesquisadores para descrever a ocupação. 

Um século depois, em 1911, um novo movimento de ataque e expulsão dos indígenas no Norte do Paraná foi registrado pela imprensa. A ação de colonos armados, conhecidos como “bugreiros”, foi retratada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 18 julho de 1911, ao informar que, depois do “massacre” aos índios, “suas terras passaram ao domínio particular, apesar da posse imemorial, como se fossem devolutas”. Já o Jornal do Brasil, do mesmo dia, noticiou: “Perseguiram os silvícolas durante cinco dias. Querem, a ferro e fogo, esbulhá-los de seus legítimos domínios.” 

As perseguições aos kaingang foram acompanhadas de um agressivo processo de colonização, que se consolidaria nas primeiras décadas do século XX, com a cessão, em 1930, de 1,5 milhão de hectares do patrimônio público a uma empresa britânica, a Companhia de Terras do Norte do Paraná, subsidiária da Paraná Plantations, para a construção de uma ferrovia. Com o empreendimento, a região foi ganhando novas cidades, conforme a estrada de ferro se estendia. E logo toda área se firmou como um poderoso polo agrícola do Paraná. 

A mata deu lugar, de início, a extensas lavouras de café, que fizeram da região a maior produtora nacional dessa commodity. O chamado ouro verde enriqueceu cidades, tornou fazendeiros bilionários e transformou toda aquela zona pioneira. Casas de madeira deram lugar a prédios, ruas acanhadas viraram largas avenidas. Até que, em julho de 1975, um acontecimento meteorológico mudou a história. Rajadas de vento foram sucedidas por uma forte chuva. Era a chamada “geada negra”, que atingiu os cafezais e acabou com aquele longo ciclo de monocultura.

O evento mexeu no tabuleiro econômico e na ordem social da região. No campo, pequenos produtores perderam suas propriedades para grandes proprietários, que passaram a investir em massa na produção mecanizada de soja, milho e trigo, afastando os empregos. Uma massa de trabalhadores braçais migrou para os centros urbanos atrás de novas ocupações, ocasionando o crescimento desordenado das cidades. Em 1970, Londrina tinha 231 mil habitantes, de acordo com o IBGE. Já em 1980, eram pouco mais de 300 mil.

A diversificação econômica, com a mecanização do setor agropecuário e a industrialização do estado, fez do Paraná – até então dependente de um único produto – um dos mais importantes polos agrícolas e industriais do Brasil, a ponto de o seu principal porto, de Paranaguá, tornar-se um dos mais movimentados do país e maior embarcadouro graneleiro da América Latina.

Por outro lado, algumas cidades do Norte do Paraná começaram a exibir suas primeiras fissuras sociais. E agora amargam desigualdades típicas das grandes cidades brasileiras. Londrina, apesar de ostentar um IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) de 0,778, maior do que a média nacional (0,776), vive um processo de favelização que vai além daquele verificado na aldeia Kaingang.

 

A Ocupação Flores do Campo, um conjunto habitacional inacabado do programa federal Minha Casa Minha Vida, na Zona Norte da cidade, é moradia para um grupo de sem-teto que vive em condições precárias, sem esgoto e abastecimento regular de água.

Se no início do século XX Londrina recebeu imigrantes provenientes da Europa central e oriental, sobretudo da antiga Pomerânia e da Ucrânia, como observou Lévi-Strauss, nos dias de hoje são os venezuelanos que representam o maior contingente migratório da cidade – 881 dos 2.131 imigrantes legalizados, segundo o IBGE. E a maioria deles vive na Ocupação Flores do Campo.

São pessoas como o pastor Luís Rodriguez, que deixou a Venezuela há cinco anos e exerce o papel de líder comunitário no local. Ele conta que já são cerca de oitocentos venezuelanos morando no conjunto habitacional. “O número é muito maior do que o registrado oficialmente pelo IBGE. Cada família vai chamando seus parentes e se estabelecendo aqui em busca de uma vida melhor.”

A chegada de venezuelanos ao Norte do Paraná faz parte de uma iniciativa do governo brasileiro, em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), de interiorização dos imigrantes depois da intensificação do fluxo migratório desse país para o Brasil. A partir de abril de 2018 se iniciou a estratégia chamada Operação Acolhida, de transferência de venezuelanos da região Norte do Brasil, porta de entrada, para outras cidades do país.

A ocupação Flores do Campo fica no limite entre as áreas urbana e rural de Londrina. A partir dali, estendem-se os campos de trigo e soja, onde se vê muita terra e pouca gente. Foi esse “mito do vazio demográfico” que, segundo a antropóloga Tommasino, justificou a colonização e expulsão dos indígenas. Ao que parece, pouca coisa mudou para os kaingang desde a visita de Lévi-Strauss.

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