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Letrux brinca com a ideia de brincar

Felipe Fernandes recomenda um dos destaques literários do ano

| 15 jan 2026_18h05
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INDICAÇÃO DE FELIPE FERNANDES

 

“Me interesso pela literatura dos que não precisam escrever”, solta Letrux, lá pela metade do seu novo livro, Brincadeiras à parte, lançado pela Planeta. Terceiro título publicado da multiartista, nesta obra Letrux, nome artístico de Letícia Novaes, brinca com a ideia de brincar. Em uma sequência de nove contos, a escritora assume diferentes narradores, todos com algum tipo de jogo na trama. Buraco, xadrez, dados, loteria, adivinhação.

Em um dos contos, a narradora é uma tia meio esotérica que recebeu um coração transplantado e passa a se comunicar com a doadora falecida por cartas ainda no hospital. Ao lado do sobrinho de 7 anos, Samuel, ela se aproveita da ligação estabelecida com o outro plano para ter informações privilegiadas sobre o futuro: “Vou conseguir andar até o final da semana que vem?”, indaga ela. “Vou ganhar uma bicicleta maior no Natal?”, pergunta o pequeno. Se puxar a carta e der paus, é sim; ouros é não; espadas, talvez ou mais ou menos; copas é nunca. A brincadeira começa a ficar mais interessante quando os dois pedem permissão para guardar o baralho, mas sai um dois de copas.

Outro conto se passa num futuro distópico: a narradora é uma senhora aposentada, casada, que vive em uma casa sem janelas. O ar atmosférico já está péssimo, há avisos de bolas de fogo caindo do céu. Meio desgostosa com a vida, ela aguarda o fim do mundo sozinha, jogando paciência. Torce para que a companheira tenha uma amante, desde que não traga problemas, doenças ou atrapalhe suas partidas. O universo, ela diz, já tentou matá-la algumas vezes em aniversários anteriores. Num deles, engasgou e ninguém percebeu. Noutro, o bico de uma gaivota quase rasgou o céu da sua boca. No aniversário de 77 anos, algo ainda mais estranho aconteceu: menstruou. Para a narradora, as bolas de sangue na calcinha sugerem que as bolas de fogo no céu estão caindo de verdade. “Deve ser o universo me lembrando de que, para estar aqui, eu posso não estar a qualquer momento.”

Nas palavras da própria escritora, a obra é “biruta”. Mas tem muito sentido na loucura: ela defende, quase como se fosse um manifesto, o jogo e a brincadeira como formas de dar sentido aos dias, de adquirir conhecimento e conhecer gente nova. Valoriza o lúdico, a distração, a abstração. Segundo ela, para jogar é preciso ter constância, tesão, curiosidade e graça. Tudo o que diz buscar na vida. Lendo o livro, penso que esses também poderiam ser meus pedidos para o ano novo que se aproxima. Acho carteado complexo, vou começar por damas.

Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.

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