Letrux brinca com a ideia de brincar
Felipe Fernandes recomenda um dos destaques literários do ano

INDICAÇÃO DE FELIPE FERNANDES
“Me interesso pela literatura dos que não precisam escrever”, solta Letrux, lá pela metade do seu novo livro, Brincadeiras à parte, lançado pela Planeta. Terceiro título publicado da multiartista, nesta obra Letrux, nome artístico de Letícia Novaes, brinca com a ideia de brincar. Em uma sequência de nove contos, a escritora assume diferentes narradores, todos com algum tipo de jogo na trama. Buraco, xadrez, dados, loteria, adivinhação.
Em um dos contos, a narradora é uma tia meio esotérica que recebeu um coração transplantado e passa a se comunicar com a doadora falecida por cartas ainda no hospital. Ao lado do sobrinho de 7 anos, Samuel, ela se aproveita da ligação estabelecida com o outro plano para ter informações privilegiadas sobre o futuro: “Vou conseguir andar até o final da semana que vem?”, indaga ela. “Vou ganhar uma bicicleta maior no Natal?”, pergunta o pequeno. Se puxar a carta e der paus, é sim; ouros é não; espadas, talvez ou mais ou menos; copas é nunca. A brincadeira começa a ficar mais interessante quando os dois pedem permissão para guardar o baralho, mas sai um dois de copas.
Outro conto se passa num futuro distópico: a narradora é uma senhora aposentada, casada, que vive em uma casa sem janelas. O ar atmosférico já está péssimo, há avisos de bolas de fogo caindo do céu. Meio desgostosa com a vida, ela aguarda o fim do mundo sozinha, jogando paciência. Torce para que a companheira tenha uma amante, desde que não traga problemas, doenças ou atrapalhe suas partidas. O universo, ela diz, já tentou matá-la algumas vezes em aniversários anteriores. Num deles, engasgou e ninguém percebeu. Noutro, o bico de uma gaivota quase rasgou o céu da sua boca. No aniversário de 77 anos, algo ainda mais estranho aconteceu: menstruou. Para a narradora, as bolas de sangue na calcinha sugerem que as bolas de fogo no céu estão caindo de verdade. “Deve ser o universo me lembrando de que, para estar aqui, eu posso não estar a qualquer momento.”
Nas palavras da própria escritora, a obra é “biruta”. Mas tem muito sentido na loucura: ela defende, quase como se fosse um manifesto, o jogo e a brincadeira como formas de dar sentido aos dias, de adquirir conhecimento e conhecer gente nova. Valoriza o lúdico, a distração, a abstração. Segundo ela, para jogar é preciso ter constância, tesão, curiosidade e graça. Tudo o que diz buscar na vida. Lendo o livro, penso que esses também poderiam ser meus pedidos para o ano novo que se aproxima. Acho carteado complexo, vou começar por damas.
Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.
Leia Mais
Assine nossa newsletter
E-mail inválido!
Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
