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O homem da planilha

    Kassab, no elevador do seu prédio: ele já disse que o PSD não era direita, nem esquerda, nem centro. Ontem, disse que é “centro-direita”. No dia seguinte, disse que é “de centro” CRÉDITO: BOB WOLFENSON_2024

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O homem da planilha

Como Gilberto Kassab se tornou peça central do governo Tarcísio

Luigi Mazza, de São Paulo | 31 jan 2026_11h22
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Com três presidenciáveis filiados ao seu PSD, Gilberto Kassab caminha para ser um dos protagonistas da eleição de 2026. A piauí reproduz abaixo um trecho de um perfil do ex-ministro publicado em novembro de 2024. A íntegra está disponível aqui.

 

O escritório de Carlos Takahashi é, em suas próprias palavras, “instagramável”. Fica no segundo andar do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. É dos poucos ambientes que ainda não foram repintados desde que João Doria saiu do governo do estado, em 2022, deixando para trás um palácio quase todo preto – o piso de madeira, as paredes, as mesas, as portas, a moldura das janelas. O que atrai os cliques de Instagram são os recados espalhados pelo recinto. Na porta de entrada do escritório, lê-se nas cores azul e vermelha: “Aqui neste setor não fazemos o mínimo necessário, buscamos realizar o máximo possível aos municípios do nosso estado!” Uma plaqueta de papel sobre a mesa informa que a administração pública requer três B’s: “Boa vontade; bom senso; boa organização.”

Takahashi é assessor especial de atendimento aos municípios. Mas, a quem o visita, exibe orgulhoso um cartão com um título diferente: “Carlos Takahashi: assessor do prefeito.” Qual prefeito?, alguém pode perguntar. Os 645 prefeitos do estado de São Paulo, ele responderá. Desde janeiro do ano passado, 643 já o visitaram naquela sala. Pleiteiam verbas para recapear estradas, construir pontes, reformar postos de saúde, equipar escolas. As únicas ausências são Ricardo Nunes (MDB), o prefeito da capital – “ele fala direto com o governador”, diz Takahashi – e Marcos Tonho (Republicanos), prefeito de Santana de Parnaíba. “Essa cidade tem uma arrecadação extraordinária. Não pedem ajuda, e eu também não vou atrás.”

O assessor se refere ao escritório como “canto do prefeito”. Passam por ali, segundo suas contas, de vinte a trinta alcaides por dia (durante a campanha eleitoral, o número baixou para meia dúzia). Alguns são assíduos: o mandatário de Macedônia marcou presença 36 vezes desde julho do ano passado. O de Votuporanga, 22. Takahashi montou um ranking dos prefeitos que mais o visitam. Outra tabela contabiliza os pedidos que ouviu: 9 356, entre janeiro do ano passado e outubro deste ano.

Os visitantes são recebidos com água, café e lanche, que inclui doce de leite, queijo, pipoca, paçoca e bolo de banana. Para atender tantos pedidos – que vêm dos prefeitos, mas também de suas comitivas –, Takahashi segue uma rotina estrita. Não pisa fora do escritório de segunda a sexta-feira, das nove da manhã às oito da noite. Responde depressa as mensagens de WhatsApp e nunca recusa um telefonema. Não sai para almoçar – come na mesa do escritório, em dez minutos, uma quentinha que prepara em casa. Quando tira férias, não deixa de passar no palácio uma vez a cada dois dias.

Takahashi gosta de listas. “Duas coisas balizam o meu trabalho”, diz. “A primeira é acolhida: o prefeito tem que ser bem recebido no palácio, se sentir autoridade. A segunda é resolutividade. O prefeito que percorre 500 km até a capital não vem para tomar café. Ele quer as demandas do município atendidas. Sim ou não – tem que ter resposta.”

Na parede à sua direita, fica pendurado um mapa em larga escala do estado de São Paulo. Uma linha pintada com caneta azul o corta ao meio, conectando Campina do Monte Alegre, no Sul, a Cardoso, no extremo Norte. Takahashi a traçou para lembrar de uma lição valiosa. Certa manhã, em julho passado, enviou uma mensagem ao prefeito Tiago do Zé Dito (PSD), de Campina do Monte Alegre, avisando que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) havia enfim liberado o dinheiro para pavimentar duas estradas vicinais do município, que conta menos de 6 mil habitantes. Exultante, Tiago quis saber onde estava Tarcísio, para agradecer a ele pessoalmente. Taka­hashi disse que não seria possível: o governador cumpria agenda em Cardoso, a 562 km de distância. O prefeito não se intimidou: dirigiu mais de seis horas para encontrá-lo. Emocionou-se na chegada.

“Desenhei essa linha para ficar registrado que não há limites nem para pedir, nem para agradecer”, conclui Takahashi, mirando o mapa. Em seguida, repete o mesmo lema num tom repreensivo. “Muita gente é rápida para pedir, mas não para agradecer.”

 

Takahashi é paulistano, filho de pai japonês e mãe nissei. Tem 61 anos e há vinte trabalha para o ex-vereador, ex-secretário, ex-vice-prefeito, ex-prefeito, ex-ministro, ex-deputado e atual secretário estadual de Governo e Relações Institucionais, Gilberto Kassab.

Takahashi conheceu o patrão em 1992, quando os dois se candidataram a vereador em São Paulo – ele pelo PDS, Kassab pelo PL. “Ele era magrinho, alto, com óculos de fundo de garrafa”, lembra o assessor. “Parecia coroinha de igreja misturado com nerd.” Kassab recebeu 13 mil votos e foi eleito. Takahashi, com pouco mais de 7 mil, amargou a terceira suplência. Os dois se afeiçoaram. Para onde sua carreira o levou, em São Paulo ou Brasília, Kassab se fez acompanhar do amigo, quase três anos mais novo.

Em janeiro de 2023, Kassab assumiu o cargo atual no governo de Tarcísio de Freitas e empossou Takahashi na nova função. O assessor acorda às cinco da manhã. Às seis, lê o Diário Oficial do estado e, quando detecta boas ou más notícias, informa os prefeitos. Depois, folheia três jornais: Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo. “O Kassab sempre diz: ‘Leia também o Valor Econômico.’ Eu não gosto do Valor.” O patrão o ensinou a ler a versão diagramada dos jornais, e não apenas as notícias avulsas, para saber “o valor que o chefe da Redação deu para cada matéria”.

Takahashi desempenha um papel central na articulação política de Kassab, que, nos últimos anos, arrastou uma multidão de prefeitos para o seu partido, o PSD. Na eleição de 2020, a legenda emplacou 65 prefeitos em São Paulo. Em 2024, foram mais de duzentos, além da maior bancada de vereadores do estado (1 079). No cômputo nacional, emplacou em torno de novecentos prefeitos, mais do que os 654 eleitos há quatro anos. Com esse resultado, tornou-se o maior partido municipalista do país, desbancando o MDB.

Kassab nega a fama de articulador contumaz. Instado a comentar o crescimento do PSD em São Paulo, responde: “Não fiz força nenhuma.” A conjuntura, segundo o ex-ministro, fez o trabalho sozinha. Os órfãos do tucanato, largados à deriva, precisavam de um no­vo partido e queriam estar na base do novo governador. Muitos deles, no entanto, rivalizavam em seus municípios com políticos do Republicanos e do PL, partidos que estão na praça há décadas, cada um com seus vícios e caciques locais. O PSD era uma tela em branco. Em muitas cidades, nem sequer tinha diretório. Quando Kassab venceu a eleição ao lado de Tarcísio, operou-se o milagre da multiplicação. O partido se alastrou pelo estado.

Hoje, Kassab diz defender a reeleição de Tarcísio – “a grande revelação da política brasileira”, em suas palavras. Os amigos especulam que, a essa altura, o ex-ministro só almeja uma coisa: virar governador ele próprio. O jeito mais fácil de chegar lá é se candidatar a vice de Tarcísio em 2026 e assumir o cargo quando – e se – o governador se candidatar a presidente da República em 2030. “Faz sentido? Faz. Foi o que ele fez com o Serra”, comenta um aliado, reservadamente. O vice-governador Felício Ramuth, que precisaria ser defenestrado para dar lugar a Kassab, não se magoa com a hipótese: “Pode ser, por que não? Minha história não é na política.” Kassab desconversa maquinalmente: “O que vai ser no futuro? Não sei. Vou continuar ajudando o Tarcísio. Eu tô no projeto Tarcísio.”

Questionado sobre suas ambições a longo prazo para o PSD, Kassab responde de bate-pronto, antes mesmo de ouvir a pergunta até o fim. “Eu quero preparar o PSD para ter, o mais breve possível, um candidato próprio à Presidência.” Em seguida esclarece: “Não tem pressa.” É preciso ter objetivos, disse Kassab, e não só ganância por cargos. E completa: “Queremos estar no poder, com bons cargos, para ficar duzentos, trezentos anos na política brasileira.” Que venham as eleições de 2326.

Leia aqui a reportagem completa.

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