Usuários de droga à margem do rio Tietê Foto: Egberto Nogueira
Crack à margem do Tietê
Como a população de dependentes químicos avançou pelo entorno do rio mais poluído do país
Cinco homens se sentam à margem de um rio. Um deles tira um cachimbo do bolso. Eles conversam enquanto fumam. Essa poderia ser uma cena bucólica das antigas, mas descreve uma situação atual de miséria e exclusão. Não se ouvem nem o pio de pássaros nem o farfalhar de copas, mas sim o ruidoso som de motores e escapamentos de carros, ônibus e caminhões. O leito do rio carrega garrafas, animais mortos, sacos plásticos, dejetos adquiridos de esgoto doméstico sem tratamento. Dentro do cachimbo desses homens, não há fumo de corda, mas crack — à beira do Rio Tietê.
A piauí percorreu onze vezes a pé, desde maio de 2025, trechos em toda a extensão da Marginal Tietê para conversar tanto com quem vive a rotina comum da cidade de São Paulo como com homens e mulheres que fazem uso de droga a céu aberto, de noite e de dia, não só à beira do rio, mas sob as pontes e nas praças criadas pelas alças de acesso para os bairros e a região central. São pessoas que correm perigo, já que muitas vezes transitam entre os carros em alta velocidade e inalam gases poluentes com frequência.
A reportagem identificou duas concentrações principais, uma ao lado da ponte do Piqueri, que liga a Lapa à Zona Norte, e outra no conjunto formado pelas praças ao lado do Shopping D, no Canindé, e a ponte que faz a ligação entre essas praças e o Terminal Rodoviário do Tietê. Nesses dois pontos, dependendo do horário e do dia da semana, é possível contar até cinquenta pessoas agrupadas, inclusive de manhã. Como na velha cracolândia encravada em quarteirões do bairro de Campos Elíseos (Centro), o fluxo de usuários é ininterrupto. Durante todos os dias da semana, a qualquer hora, haverá alguma movimentação. Os rastros deixados também se assemelham ao que havia na cracolândia da região central: em diversos pontos do percurso ao lado do rio, verifica-se acúmulo de lixo, fezes, rastros de fogueiras, preservativos, roupas descartadas.
Na ponte do Piqueri, a aglomeração é tão explícita que pode ser vista pelos motoristas. O taxista Ronaldo Ramos, 62, trabalha em um ponto na alça de acesso há quinze anos. Em novembro, afirmou a piauí que a expansão do grupo de usuários vinha acontecendo havia uns “quatro ou cinco meses”. Ramos observou que “estão sempre em grupo” e que, pelo piscar de isqueiros, deduz-se “que sejam usuários”. Do ponto de táxi até a praça são pouco mais de 150 metros. O taxista diz que não se sente ameaçado e não ouviu relatos de roubo e assalto. “Eles não me incomodam”, diz. Seus passageiros, porém, costumam ficar assustados. “Principalmente os que vêm de outras cidades. Costumo fazer muita viagem trazendo gente de fora. Quando passamos por aqui, todo mundo comenta.”
Em novembro do ano passado, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) anunciou o fim da cracolândia da região de Campos Elíseos. Seu discurso previa uma ação contínua que tomou todo o ano de 2025, em uma operação conjunta com a Prefeitura de São Paulo. A administração municipal, em janeiro, construiu um muro de 40 metros ao redor da área onde se concentrava o chamado fluxo, principal ponto de uso e venda de drogas, então localizada na rua dos Protestantes. As abordagens e batidas policiais, boa parte delas usando spray de pimenta, passaram a ser mais constantes no Centro, e incluíram a desmobilização daquilo que o poder público estava nomeando o “ecossistema” da cracolândia. Isso incluía o fechamento de cassinos clandestinos e ilegais, prisões em série e a remoção de boa parte dos moradores da favela do Moinho, que seria o principal ponto de distribuição das drogas. No dia 13 de maio, os paulistanos foram surpreendidos com uma mudança drástica nesse cenário. As ruas ocupadas pela antiga cracolândia amanheceram vazias. Mas ainda não era o momento de comemorar. O chamado fluxo reaparecia aqui e ali, estilhaçado em pequenos grupos, não apenas na região central, mas também em bairros como Itaquera e Vila Leopoldina.
Especialmente desde a prefeitura de Gilberto Kassab (2006-2012), governos municipais e estaduais haviam tentado múltiplas ações, muitas vezes com truculência, mas o fluxo só aumentava e se deslocava para pontos como a Praça Princesa Isabel, que acabou cercada, ou a rua Guaianases, com conflitos entre o tráfico, usuários e os comerciantes da região.
Ao mesmo tempo, ao longo dos anos, “cracolândias” menores surgiram em diferentes cantos da cidade, concentrando usuários e fornecimento constante de drogas, em locais como ruas próximas ao Ceagesp, na Vila Leopoldina; a parte de baixo do viaduto entre a Avenida Paulista e a Avenida Doutor Arnaldo; a Rua Mauá; o bairro do Bom Retiro; e também na margem do Tietê, onde grupos já vagavam para usar as drogas.
Ao longo do rio, a movimentação de usuários cresceu justamente no decorrer do semestre que seguiu o esvaziamento do centro, o que foi confirmado à piauí por dois policiais em novembro. Nas tardes dos dias 13 e 20 daquele mês, cerca de quarenta pessoas estavam escondidas entre árvores protegidas pelas grades que cercam a praça bem ao lado do Shopping D. Aparentemente, consumiam crack. Fiquei do lado de fora da praça esperando alguém para conversar, até que fui orientado por uma mulher a não permanecer em um ponto visível para os carros que passavam pela via expressa. “Vai lá para dentro”, ela disse, em relação à praça.
Ao lado dessa praça há uma ponte e, debaixo dela, havia uma depressão de mais de 1 metro de altura em relação ao nível da rua, similar a uma piscina esvaziada. Dentro dela, pessoas também consumiam crack – no fim de janeiro, um mês depois de um pedido de resposta ao governo e à prefeitura, esse buraco estava tampado.
Há um trânsito contínuo de pedestres entre esses pontos e o entorno da rodoviária do Tietê, que fica nas proximidades do Shopping D. A administração da rodoviária do Tietê diz que tem mantido contato com a Subprefeitura de Santana-Tucuruvi e com a Polícia Militar para tratar desse fluxo. Afirma, por nota, que solicita “reforço no patrulhamento e na organização urbana do entorno, uma vez que esses locais fazem parte das rotas de acesso ao terminal”. E que, dentro da rodoviária, “não identificou aumento na circulação de dependentes químicos”. “Seguiremos acompanhando o tema e reiteramos nossa disposição em colaborar com o poder público no que estiver ao alcance da concessionária.” Por sua vez, a administração do Shopping D preferiu não se manifestar sobre o assunto.
Além desses dois pontos principais, observei a passagem de usuários de crack em praticamente todas as alças de acesso do rio, entre a Ponte do Piqueri e a rodoviária. A Ponte das Bandeiras, via que liga o centro ao bairro de Santana, na Zona Norte, tornou-se um destino conhecido de usuários. Em duas ocasiões em que a piauí esteve no local, havia grupos de até seis pessoas usando crack ali. Somados os grupos, eram cerca de vinte pessoas circulando naquele pedaço. Alguns estavam catando material reciclável nesses mesmos lugares, sendo que dois deles tentavam alcançar materiais dentro do curso d’água. Não foi possível, nesses casos, saber se os catadores eram usuários de crack. Eles não conversaram com a reportagem.
Próximo à Ponte Júlio de Mesquita, entrada para o Bairro do Limão, mais uma cena degradante. Um barraco de madeira e lona estava escorado em um muro alto que separava as grandes avenidas do leito do rio. O barraco estava ao lado do muro com vista para as águas. Também não foi possível ver uso de crack. Duas pessoas estavam nessa estrutura precária, mas nada indicava que estavam entorpecidas naquele momento.
A poucos metros, um rapaz solitário procurava restos de crack que derrubara em um gramado com vistas para o Tietê. A reportagem tentou conversar com ele, mas logo ficou claro que ele estava sob os efeitos da droga. O rapaz disse que já havia estado na cracolândia na região central e que decidira sair de lá por causa de operações policiais. Ele, porém, considerou a migração vantajosa. Atestou que o fluxo no Centro o “arrastava” por até três dias e que a perda de controle já não acontecia mais nessa gravidade. “Era horrível.” A garrafa d’água que mantinha bem ao lado de uma canga, como se estivesse ali por lazer, havia sido fornecida por bombeiros da região. “São uns caras legais”. Não comia havia dias, afirmou.
Depoimentos dele e de outros usuários indicam que o uso de crack na Marginal Tietê foi se expandindo não só por causa das operações da dupla Tarcísio-Nunes, mas sob as ações ineficazes, muitas vezes truculentas, de governos municipais e estaduais. A presença de biqueiras nas favelas, com entregadores que levam as drogas de bicicleta até o fluxo, também foi um estímulo.
Na Ponte do Limão, em duas praças contíguas, sete pessoas usavam crack, e havia barracas por perto. Morador de um edifício que tem vista para essas praças, Alexandre Costa diz que só poderia falar “do ponto de vista de um motorista”, porque raramente circulava a pé pelas calçadas da marginal. “Para mim, até aqui, são moradores de rua, não sei se usam crack”, diz. De concreto, contudo, ele percebeu a presença de usuários em uma feira-livre que acontece na região às quartas. Como sabe que são usuários? “Porque eles mesmos disseram, eu ouvi a conversa”, diz. “Talvez tenham vindo atrás de comida.” De dentro do carro, Costa tem uma percepção específica agregada ao seu cotidiano: ele acha que a maior concentração da Marginal está próxima ao conjunto habitacional do Gato, logo depois da rodoviária.
Esse mesmo cenário está em constante modificação. Depois dos pedidos de resposta feitos pela piauí à prefeitura e ao governo, houve intensificação no policiamento em toda a extensão do Tietê. No dia 28 de janeiro, uma quarta-feira, a reportagem viu três batidas policiais em curso contra usuários: uma delas sob a Ponte Governador Orestes Quércia, conhecida como estaiadinha, outra na rua Mauá, há 500m da marginal Tietê, e outra na ponte das Bandeiras. A Praça Torquato Tasso Neto, que fica no final da Avenida Dr. Abraão Ribeiro, começou a ser murada em janeiro. É mais uma área verde de São Paulo que passará a ter uso mais restrito. Segundo moradores e funcionários de um restaurante que tem vista para a praça, houve pressão sobre a prefeitura para que a obra fosse executada, com o objetivo de afastar especificamente usuários de crack. Na quarta (28), por volta de meio-dia, vi quatro pessoas que estavam fazendo uso de drogas.
A invisibilidade de quem vive nessas condições têm dificultado o trabalho de organizações que assistem populações de vulneráveis, segundo o frei Marcos Melo, que trabalha no Sefras – Ação Social Franciscana, instituição que presta assistência à população de rua. “A cracolândia não foi resolvida. Agora, está mais difícil localizar essa população. Muitos grupos se afastaram dos projetos que se dedicavam ao resgate da dignidade dessas pessoas. Estão em lugares distantes dos equipamentos que poderiam, ao menos, fornecer alimentação.”
Professor titular do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), Welington Luiz de Araújo faz um alerta para os diversos riscos a que essa população está exposta. O cientista, que conduz estudo sobre a diversidade microbiana do Rio Tietê, afirma que permanecer às margens desse curso d’água pode resultar em problemas infecciosos e respiratórios devido à poluição. “São fungos e bactérias que estão na água mas também podem ser encontrados no solo, porque o Rio Tietê tem a característica de várzea, ele sobe e desce. Basta um pequeno arranhão, que serve como porta de entrada para o corpo, para que a pessoa tenha uma infecção. É um lugar extremamente insalubre e inóspito para qualquer um.”
Segundo Araújo, a inalação de gases poluentes tanto das águas do rio como dos automóveis que circulam pela marginal, a longo prazo, também pode gerar doenças respiratórias. Ele diz que nas marginais respira-se mais gás metano e H2S, o sulfeto de hidrogênio. São duas substâncias tóxicas.
Por fim, Araújo lembra que vulneráveis estão muitas vezes atravessando a via expressa a pé, com risco de atropelamento. “É risco para eles e para os motoristas”, diz. “Há um mês, passei por uma pessoa que estava caída em um acostamento. Eu estava dirigindo e não consegui saber se ela estava viva ou morta. Pela forma como o corpo estava, essa pessoa poderia estar morta. Liguei para o 190 e passei a informação e a localização. Não dava para parar ali.”
O espraiar do cenário do crack aconteceu entre janeiro e junho de 2025. Durante cinco meses, as administrações do município e do estado se articularam em um combate carregado de sofrimento para dependentes químicos, conforme apontaram organizações sociais tais como a Craco Resiste e outras entidades que prestam assistência a moradores de rua.
Até o misterioso dia 13 de maio, quando a velha cracolândia, já na altura de seus quase quarentas anos de idade, amanheceu vazia, deixando entidades de defesa dos direitos humanos em alerta, houve prisões em série, descontinuidade de serviços de assistência e a suposta desarticulação do crime no Centro da cidade.
A Guarda Civil Metropolitana diz que capturou, entre o início da operação até dezembro, 2.437 foragidos da justiça e localizou 129 pessoas desaparecidas. Fez também 3.650 prisões em flagrante. “Quanto à região da Marginal Tietê, citada pela reportagem, a Prefeitura irá intensificar as abordagens para oferta de tratamento e acolhimento, bem como as ações de zeladoria e segurança.”
Enquanto a capital registrou queda nos índices de roubo e furtos de 2024 para o ano passado, baixando essa soma de 354.263 para 346.806, os bairros Lapa e Pari (onde fica o shopping D) registraram alta. Se somados os índices relativos a soma dos dois crimes, o crescimento foi de 10.431 roubos e furtos (em 2024) para 11.853 (2025), no Pari. E houve crescimento de 5.557 roubos e furtos (2024) para 5.620 (2025) na Lapa.
O confronto ganhou corpo sob o volume de uma onda de especulação imobiliária logo após o governo do estado anunciar a mudança de sua sede no Morumbi para a região central. O efeito da dispersão da cracolândia do Centro foi sentida em outras áreas da cidade. Com as ações policiais, ganharam corpo as rodas de crack ao lado da estação Pedro II de metrô, sob o Elevado Presidente João Goulart, sob o Minhocão, em ruas da Barra Funda e até mesmo na Avenida Paulista, um dos metros quadrados mais caros da cidade.
A Prefeitura de São Paulo diz que há um trabalho contínuo de oferta de tratamento e acolhimento a pessoas em situação de rua e vulnerabilidade. “A atuação em parceria com o governo do Estado já resultou na queda de 63% do número de roubos na região central de maio a setembro deste ano em comparação ao mesmo período de 2022”, diz nota da administração municipal. “Além disso, equipes de assistência social percorrem diariamente pontos de ocupação momentânea ou periódica para a busca ativa dessa população, e quarenta equipes do [programa] Consultório na Rua dão atendimento em saúde.”
Dois usuários entrevistados pela piauí ainda à margem do Tietê relataram dificuldades em permanecer em abrigos públicos do município. Um homem grisalho que preferiu não se identificar contou que foi expulso de um albergue por ter, nas palavras dele, elogiado os atributos físicos de uma assistente social. “Ela me denunciou por assédio, e fiquei sem teto, não posso voltar lá”, conta. O especialista em logística comercial André Campos, 58, também relatou dificuldade para permanecer em albergues e o abandono da família – “eles são bons, eu é que não tenho juízo.” Campos já usou crack e cocaína mas acha que seu problema é o álcool. Durante a entrevista, realizada perto da rodoviária, houve uma cena de violência. Havia uma usuária de crack ao lado. Ele disse que ela era prostituta, e por isso levou dela um chute na cara que fez seu nariz sangrar.
A Secretaria da Segurança Pública do Estado, por sua vez, disse que o trabalho que resultou no “fim da antiga cracolândia” foi construído de forma integrada entre o governo do Estado, a Prefeitura de São Paulo e diversas secretarias estaduais e municipais, “em uma atuação pautada por diálogo, cooperação e compartilhamento de informações”. O conjunto de ações, diz a nota, “possibilitou a extinção da principal cena aberta de uso de drogas na região central”.
Para o estado, “o fluxo [de usuários] que se concentrava principalmente na Rua dos Protestantes representava uma zona de exceção, onde o poder público não entrava e a via pública era ocupada por uma grande concentração de pessoas em situação de dependência química, muitas delas de outros municípios”.
Após os esforços, prossegue, “o que se observa na região central são pequenos grupos transitórios, monitorados de forma permanente, com abordagens individualizadas e humanizadas voltadas ao tratamento e à reinserção social”. O fim da aglomeração de usuários na região central “trouxe expressiva melhora na segurança, com redução de 19,39% nos roubos na região central, de janeiro a novembro de 2025, em comparação com 2024”.
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