Ricardo Nunes entrega kits para ambulantes do Carnaval deste ano Foto: Sergio Barzaghi/SECOM
A ambevização do Carnaval paulistano
Disputa por recursos opõe gestão de Ricardo Nunes e blocos de rua
O vídeo de 1 minuto e 20 segundos começa com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), fechando um guarda-sol amarelo da Skol. “Neste Carnaval vai estar muito sol. Estou aqui na Ambev, na Skol, e essa parceria com a prefeitura é muito bacana. Quinze mil pessoas estão sendo credenciadas para vender o produto. É geração de emprego e renda”, disse Nunes, com um boné e um crachá da marca de cerveja. O vídeo foi publicado no Instagram do prefeito em 27 de janeiro e teve 625 mil visualizações.
Duas semanas depois, o acordo milionário entre a prefeitura e a Ambev se tornou o centro do debate sobre o Carnaval de rua paulistano e passou a ser questionado no Ministério Público diante dos acontecimentos do último final de semana. No domingo (8), o principal evento da parceria era o Bloco Skol, bancado pela cervejaria e promovido por Nunes nas redes sociais. O cortejo tinha como atração principal o DJ escocês Calvin Harris, que desembarcou em uma rua da Consolação superlotada de foliões à sua espera. O show de música eletrônica, que durou quatro horas, fugiu do controle.
Próximo dali, na mesma rua, havia outro bloco gigantesco concorrendo em atenção da mídia e do público: o tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta, que teve participações de Péricles, Wilson Simoninha, KL Jay e Alessandra Negrini. Com dois megablocos simultâneos, não havia espaço para tanta gente na Consolação. Desesperados, esmagados no empurra-empurra, fãs de Calvin Harris fugiram do aperto derrubando grades de proteção e invadindo alguns prédios. Fiscais da prefeitura tentaram impedir a muvuca, em vão. Dezenas ficaram feridos, alguns saíram de ambulância, outros apanharam da Polícia Militar. Para Nunes, que passou o domingo postando vídeos do Bloco Skol, o pré-Carnaval foi um “sucesso”.
A confusão na Consolação foi o estopim das críticas ao modelo de Carnaval corporativo implantado pela atual gestão paulistana. A Ambev pagou 29 milhões de reais à prefeitura para ser a “patrocinadora master” da festa. Segundo a prefeitura, o valor foi utilizado para custear a infraestrutura e organização. Além de um bloco próprio, o contrato deu à empresa o direito à exposição da marca Skol em vários pontos da capital, distribuição de chapéus com o logo da cerveja, venda exclusiva de seus produtos por 15 mil ambulantes cadastrados e uma fiscalização que impede a venda de bebidas da concorrência.
O contrato deste ano teve uma novidade: a Ambev ganhou o direito de vender dez cotas de patrocínio para outras empresas. Quatro foram para marcas próprias: Skol, Beats, Guaraná Antarctica e Zé Delivery. Outras quatro foram compradas pela 99, iFood, Mercado Pago e Kibon. No sábado, o Bloco da 99, com a cantora Ivete Sangalo como protagonista, levou 1,2 milhão de pessoas ao Parque Ibirapuera, segundo estimativa da Polícia Militar. A piauí apurou que a Ambev vendeu uma das cotas por 6 milhões de reais. Ou seja, embora tenha pago 29 milhões à prefeitura, é provável que a Ambev tenha recuperado o valor investido inicialmente.
A última cota foi vendida para uma casa de apostas, a Esporte da Sorte, que entrou na jogada e se tornou patrocinadora oficial do Carnaval de Nunes, estampando materiais de divulgação da prefeitura. A trajetória da bet é nebulosa. Seu dono, Darwin Henrique da Silva Filho, chegou a ser preso pela Polícia Civil de Pernambuco em setembro de 2024 em uma operação que investigou a movimentação de quase 3 bilhões de reais. Segundo a polícia, o valor foi obtido com jogos ilegais e lavagem de dinheiro.
No Carnaval paulistano, a casa de apostas pagou por uma das cotas vendidas pela Ambev, mas não levou aquilo que planejava. Em sua proposta de ativação do patrocínio, à qual a piauí teve acesso, a Esporte da Sorte pretendia colocar estandartes e bandeirões de 4 metros de comprimento em 25 blocos populares da cidade – do BaianaSystem à Pabllo Vittar. Também queria instalar cubos de led e “molduras gigantes e instagramáveis”, cujo objetivo, dizia a proposta, era “gerar experiências memoráveis e aumentar a visibilidade da marca.”
A comissão negou a maior parte das ações da Esporte da Sorte, sob o argumento de que elas foram apresentadas fora do prazo de 40 dias de antecedência do pré-Carnaval, como ditam as regras da prefeitura. O órgão autorizou apenas a distribuição de brindes.
Questionada sobre o montante arrecadado com as vendas das cotas, a prefeitura não respondeu. Disse apenas que o contrato com a Ambev gerou uma economia de 30 milhões de reais ao município, que diz ter investido outros 30 milhões na estrutura da festa. A prefeitura também negou que Ricardo Nunes tenha promovido o Bloco Skol nas redes sociais. “Talvez a revista piauí não saiba, mas faz parte da organização do Carnaval de rua, desde anos anteriores, a participação do prefeito na entrega dos kits aos ambulantes cadastrados para trabalhar na festa. É, portanto, equivocada, irresponsável e enviesada qualquer ilação a respeito de promoção do prefeito neste ano.”
Depois dos acontecimentos do último domingo, a deputada Erika Hilton e a vereadora Amanda Paschoal, ambas do Psol, fizeram uma representação contra a prefeitura junto ao Ministério Público de São Paulo. Elas argumentam que o contrato com a Ambev e a venda de subcotas de patrocínio fizeram com que o município deixasse de arrecadar “valores vultosos” que deveriam retornar aos cofres públicos caso a prefeitura vendesse as cotas diretamente. Questionadas pela piauí, Ambev e prefeitura não informaram qual foi o valor total arrecadado com as vendas. As parlamentares acusaram a prefeitura de permitir que a empresa atue como “intermediária financeira, captando valores de mercado potencialmente superiores ao custo da concessão e retendo o excedente”.
O Ministério Público de São Paulo abriu um procedimento para investigar a organização do Carnaval de rua – neste primeiro momento, as apurações não focam os contratos com a Ambev, mas a estrutura da festa. Na terça-feira (12), o MP publicou uma série de recomendações para garantir a liberdade de reunião dos blocos menores. Segundo o órgão, barreiras burocráticas criadas pela gestão Nunes estavam dificultando a realização dos desfiles.
Em nota, a Ambev afirmou que os termos do edital de patrocínio foram estabelecidos pela prefeitura e que há décadas faz “investimentos relevantes para que carnavais de rua como o de São Paulo se popularizem e se tornem o que são hoje”. A cervejaria também disse que investiu 4 milhões de reais em publicidade em blocos independentes do Rio e de São Paulo. A empresa não respondeu sobre o quanto foi arrecadado com a venda das cotas de patrocínios. Também não comentou a confusão no show do Calvin Harris, no último domingo.
A “ambevização” do Carnaval paulistano não começou agora, embora tenha chegado ao seu ápice com o show do DJ escocês na Consolação, diz Guilherme Varella, doutor em Direito pela USP e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Desde a gestão João Doria, a prefeitura foi cedendo cada vez mais espaço para as marcas. Hoje, há uma captura dos valores da festa pelas grandes empresas, e a Ambev é a principal. Eu chamo de ‘blocos de conteúdo’, sem ligação real com a tradição carnavalesca, e que servem para as marcas se promoverem no espaço público com apoio da prefeitura. Eles ‘vampirizam’ a estrutura da cidade (banheiros, segurança e água) em detrimento dos blocos orgânicos”, diz Varella, autor do livro Direito à Folia – O direito ao Carnaval e a política do Carnaval de Rua de São Paulo (editora Alameda).
Neste ano, a prefeitura prevê o desfile de 627 blocos entre os dias 7 e 22 de fevereiro, uma queda de 18% em relação ao ano passado. A maioria deles é pequeno e circula por bairros residenciais. Há outros de porte médio, que reúnem dezenas de milhares de foliões. Neste ano, alguns desses blocos estão enfrentando dificuldades financeiras por conta da explosão dos custos. “A diária de um trio elétrico médio, por exemplo, chega a custar 50 mil reais, cerca de 20 vezes mais do que a gente pagava na retomada do Carnaval de rua, em 2013. E não teve aumento dos fornecedores, continuam sendo as mesmas pessoas”, diz a cantora Alessa Camarinha, do bloco Ritaleena, que existe desde 2015 e é um dos mais disputados do Carnaval paulistano.
Camarinha conta que os blocos orgânicos – esses criados por artistas e moradores – tinham mais facilidade para conseguir patrocínios diretos – da própria Ambev, inclusive. “Neste ano, a venda das cotas pela Ambev drenou os patrocínios diretos. Por que a empresa vai colocar dinheiro no Ritaleena se ela pode ter um bloco corporativo com o nome dela? Com todo respeito à Ivete, mas não é o bloco da Ivete. O nome é Bloco da 99.”
A gestão Nunes distribuiu 2,5 milhões de reais para cem blocos escolhidos via edital: cada um recebeu 25 mil reais – o valor é o mesmo de 2024 e 2025 –, verba que os carnavalescos consideraram insuficiente para cobrir os custos dos desfiles (como mostrou o portal Metrópoles, cada uma das escolas de samba que desfilam no grupo especial recebeu 2,8 milhões de reais em subsídios neste ano). “Como sempre aconteceu no Carnaval de São Paulo, é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio”, disse a prefeitura, em nota à piauí.
Enquanto tenta lucrar com a venda de cotas que priorizam a participação de empresas privadas no Carnaval de rua paulistano, a prefeitura diminuiu os investimentos em infraestrutura. Houve uma queda de 29% (12 milhões de reais) em comparação com o ano passado, quando a gestão Nunes investiu 42 milhões de reais. Essa diminuição se refletiu na queda de 37% do número de banheiros químicos, por exemplo, como mostrou o Metrópoles.
Asfixiado financeiramente, sem a verba de fomento da prefeitura, o Charanga do França, um dos blocos mais tradicionais de São Paulo, correu o risco de cancelar seu desfile na Santa Cecília. “A prefeitura diz que o Carnaval movimenta 3 bilhões de reais, mas ela investe 2,5 milhões nos blocos orgânicos que fizeram o Carnaval de rua renascer e acontecer. Para desfilar, você precisa cumprir uma série de burocracias e regras, negociar o trajeto com a CET, com a Polícia Militar, resolver poda de árvores com a subprefeitura… É um trabalhão, feito com antecedência. Eu trabalho com Carnaval, ganho dinheiro no Carnaval, o Charanga faz oficinas de música no bairro durante o ano, já tivemos um público de 50 mil pessoas. E a prefeitura quer que a gente toque de graça enquanto a patrocinadora ganha uma fortuna vendendo publicidade para outras empresas”, diz o músico Thiago França.
Preteridos pela prefeitura paulistana, alguns blocos tradicionais, como o Tarado Ni Você e Agora Vai, conseguiram patrocínio da cerveja Amstel, que pertence à holandesa Heineken, concorrente da Ambev – eles não informaram o valor repassado. Na última hora, o governo federal, por meio da Caixa Econômica, também fechou contratos de patrocínio que totalizam 800 mil reais divididos entre quatro blocos paulistanos: Charanga do França, Ritaleena, Ilú Obá De Min e Agora Vai. A piauí apurou que a verba foi articulada por parlamentares do Psol. Em nota, a Caixa confirmou o patrocínio. “A Caixa reconhece no Carnaval uma das mais importantes manifestações culturais do Brasil, com relevante impacto econômico, social e cultural.”
O show do Calvin Harris na Consolação que está sendo investigado pelo Ministério Público também foi promovido nas redes sociais por Gustavo Pires, presidente da SPTuris, empresa municipal de turismo e eventos. Ela é a responsável pela organização do Carnaval e por fechar o contrato com a Ambev. Em um vídeo em seu Instagram, que tem 200 mil seguidores, Pires falou entusiasmado sobre a atração europeia: “Pode falar, vai. Ninguém nunca imaginou que o Carnaval de São Paulo, o maior Carnaval do Brasil, tendo num bloco gratuito o Calvin Harris tocando. O Carnaval de São Paulo é referência no Brasil e no mundo.”
Formado em direito pelo Mackenzie, Gustavo Pires ocupou o cargo de secretário-executivo na gestão do prefeito Bruno Covas (1980-2021), de quem era amigo. Hoje, ele é o principal nome por trás de grandes eventos esportivos promovidos pela prefeitura, como a Fórmula E, no Anhembi, e o jogo da NFL disputado na Neo Química Arena, estádio do Corinthians. Segundo relatou Pires em uma audiência na Câmara Municipal, a partida de futebol americano em setembro do ano passado teve um investimento de 5 milhões de dólares da prefeitura (28 milhões de reais, na cotação da época). O valor é pouco menor do que o total investido pela gestão Nunes no Carnaval de rua deste ano. Camarinha, do bloco Ritaleena, descreve a visão de Pires como focada na “lógica da grana” e em grandes espetáculos que rendem “fotos de drone”.
Em nota à piauí, a prefeitura criticou a cobertura da imprensa no Carnaval. “Há de se ressaltar que a imprensa resumiu o desfile de Calvin Harris a uma situação provocada pela superlotação e imediatamente controlada, o que permitiu aos foliões seguirem o desfile até o final. A imprensa, no entanto, preferiu ignorar as cerca de quatro horas de festa”, disse. Já Ricardo Nunes, no vídeo na sede da Ambev, profetizou: “Se preparem, nós vamos ter o maior Carnaval da história de São Paulo.”
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