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A boa literatura é raridade

    No meio literário: a cada dia parece mais difícil apontar a fronteira entre amadorismo e profissionalismo, entre analfabetismo formal e domínio formal, entre trabalhos ruins e trabalhos bons, sem que isso provoque uma desnecessária avalanche de mágoas, rapidamente convertida em discursos de ódio nas redes sociais; não é à toa que a figura do crítico está à beira da extinção CRÉDITO: ELOAR GUAZZELLI_2025

questões de forma

A boa literatura é raridade

Para o escritor José Falero, existe hoje uma dificuldade generalizada em admitir que nem todo texto é literário

| 14 nov 2025_11h52
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A ensaísta e tradutora Aurora Fornoni Bernardini, professora de letras aposentada da Universidade de São Paulo (USP), fez algumas afirmações em entrevista à Folha de S.Paulo que causaram furor no meio literário brasileiro. Bernardini disse, entre outras coisas, que a literatura contemporânea ficou mais pobre ao privilegiar o conteúdo e esquecer a forma e teceu críticas a autores como Itamar Vieira Junior, Annie Ernaux e Elena Ferrante. Também alegou que “não se pode dar o mérito antes das condições”, insinuando que a recepção positiva a livros como Torto arado seria repercussão de eventos do passado, como a escravidão. Dezenas de escritores, livreiros, professores e leitores criticaram a professora nos jornais e nas redes sociais.

A piauí deste mês publica um ensaio do escritor José Falero, autor de Os supridores, em que ele discute as afirmações de Bernardini e a repercussão que tiveram. “Entre mortos e feridos, a treta, me parece, surtiu ao menos um bom efeito: mobilizou esforços aqui e ali para examinar de maneira crítica estes tempos estranhos em que vivemos, coisa que é sempre positiva”, escreve Falero.

Para o escritor, os comentários das pessoas que se opuseram à professora têm algo em comum: nenhum deles se propõe a demonstrar falta de base material para as afirmações. “Em vez disso, se dedicam a desqualificá-las por ser ela branca, de origem europeia, bem posicionada socialmente”, observa o escritor. “Para mim, argumentos desse tipo não podem ser classificados de outra maneira que não desonestidade intelectual, seja voluntária, seja involuntária; trata-se de uma trapaça que, não raro, garante vitórias no campo do debate público, como aconteceu nesse caso: a impressão geral deduzida do episódio é a de que a professora teria dito bobagem, sem que as suas proposições tenham sido confrontadas de fato com antíteses reais.”

Na entrevista, Bernardini afirmou: “Um fenômeno muito curioso acomete o mundo, mas o Brasil em particular: a literatura se baseia no conteúdo e esquece a forma.”

Falero comenta a declaração: “Cá entre nós, é ou não é uma afirmativa de exatidão patente? Hoje em dia, pouco importa se um escritor ou uma escritora tem pleno domínio das ferramentas empregadas na elaboração de um texto literário e, portanto, sabe dar boa forma ao seu trabalho; muito mais relevante do que isso é que esse escritor ou essa escritora represente uma voz historicamente oprimida, de tal maneira que o conteúdo da sua produção seja incomum na tradição literária. Em outras palavras, há uma série de experiências sociais historicamente impedidas de serem representadas na literatura, e um conteúdo capaz de representar essas experiências, hoje, mostra-se muito mais relevante do que a forma dada a tal representação. Por óbvio, trata-se sobretudo de uma questão de mercado: vivemos em um mundo capitalista, onde Deus é uma nota de 100, como diria o Mano Brown.”

O escritor frisa que o bom trabalho da forma literária é raridade. “Isso acontece porque um conteúdo é sempre subsidiado por uma experiência, coisa que toda e qualquer criatura tem, independentemente da sua vontade; a capacidade de dar boa forma a um conteúdo, em contraste, jamais se manifesta de maneira espontânea, sendo possível apenas mediante esforço consciente, estudo prolongado e prática obstinada”, ele diz. “Todos temos dedos nas mãos e podemos, sem qualquer tipo de preparo prévio, bater com eles nas teclas de um piano, ao acaso; fazer música é uma outra coisa. Além disso, parece haver uma dificuldade generalizada em compreender, ou em admitir, que nem todo texto é literário.”

No diagnóstico de Falero, está cada vez mais difícil, no meio literário, definir a fronteira entre amadorismo e profissionalismo, entre analfabetismo formal e domínio formal, entre trabalhos ruins e trabalhos bons, “sem que isso provoque uma desnecessária avalanche de mágoas, rapidamente convertida em discursos de ódio nas redes sociais”. Ele acrescenta: “Não é à toa que a figura do crítico, de quem se esperaria distinções dessa natureza, esteja à beira da extinção.”

Assinantes da revista podem ler a íntegra do ensaio neste link.

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