Casa em Ibadan, na Nigéria Foto: Tatewaki Nio /IMS
A dobra da história
Um arquiteto investiga as construções dos agudás, ex-escravizados no Brasil que voltaram à África
Há cerca de quatro anos, deparei com uma imagem de um edifício muito colorido e estranhamente familiar em uma reportagem do extinto El País Brasil. Nunca o tinha visto nas aulas de história da arquitetura. A princípio, dei de ombros – afinal, quantas igrejas coloniais perdidas caberiam num semestre? O problema é que não era uma igreja. Também não ficava no Brasil nem em nenhum lugar citado nos Lusíadas. Era a Grande Mesquita de Porto Novo, a capital do Benim. A matéria partia da redescoberta, feita pelo fotógrafo japonês Tatewaki Nio, de uma arquitetura dita “brasileira” erguida na África Ocidental.
A construção é testemunho do movimento improvável vivido pelos agudás: escravizados e sequestrados, eles foram trazidos para o Brasil e, depois, foram coercitivamente devolvidos para a África. O movimento é motivado sobretudo pela paranoia da elite brasileira depois da Revolta dos Malês, uma rebelião liderada por pretos mulçumanos que quase conquistou Salvador em 1835. Duplamente desterrados, ao retornarem à África já não havia como se reintegrarem às suas comunidades originais, o que eles tampouco desejavam. Foram chamados de agudás, palavra provavelmente derivada de “Ajuda”, o nome dado pelos portugueses à cidade de Uidá, no Benim, porto de entrada e retorno de muitos no circuito atlântico.
No Benim e na Nigéria, os agudás – agora seres humanos livres – criaram um Brasil próprio, recorrendo a nomes e sobrenomes em português, a festas similares às brasileiras e à criação de uma arquitetura que reinventava e sintetizava fragmentos daquilo que eles próprios haviam construído aqui, como carpinteiros, pedreiros e artesãos.
Fiquei obcecado com essa arquitetura. Minha curiosidade, porém, rapidamente se transformou em frustração: não havia material nem pistas consistentes de quantos foram os edifícios erguidos pelos retornados, onde estavam ou se ainda existiam. Seriam cópias? Cópias do quê, se eu nunca tinha visto algo parecido no Brasil?
Reduzida a decalque por parte da historiografia, a arquitetura agudá declinava em pastiche. Percebi que minha obsessão pedia o rigor de um doutorado. Tudo precisava ser desenhado, registrado. Inscrevi-me na Faculdade de Arquitectura do Porto e postulei um projeto de pesquisa à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de Portugal. Fui bem-sucedido. Também inscrevi a viagem de prospecção no Benim e na Nigéria no Prémio Fernando Távora da Ordem dos Arquitectos, em Portugal, assegurando o financiamento para que as construções agudás finalmente saíssem do desvio marginal e fossem inscritas na historiografia.
O primeiro passo foi fazer um mapeamento. Consegui montar uma cartografia-base. Meu objetivo era claríssimo: levantar tudo metricamente, produzir desenhos e deixar registrado que aquilo existia sim e não era delírio. Só a partir desse conhecimento seria possível saber realmente o que era aquela arquitetura. Mas, para desenhar aqueles edifícios, era preciso estar diante deles.
DIA 24 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_Estou em Lisboa desde sexta-feira, esperando o visto para a Nigéria. É o mais complicado que já tirei. Segundo E., secretária portuguesa que trabalha na embaixada do país desde 1988, é uma questão de reciprocidade. Como encaixei na viagem uma conferência para testar a pesquisa, o visto foi elevado à categoria business, o que deixa tudo mais complicado. A princípio, quando eu disse que iria pesquisar mesquitas “brasileiras” no país, ela parece que me tomou por um doidinho. Só me levou à sério depois que viu meus desenhos preparatórios para a viagem e a foto do El País.
DIA 14 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA_Depois de tomar as vacinas devidas, fui à embaixada buscar o visto: um adesivo fixado no passaporte, preenchido à mão. Com sua elegante echarpe, E. me desejou boa sorte. Convidei-a para a defesa da tese de doutorado, daqui a três anos.
DIA 4 DE MAIO, DOMINGO_Bonjour, mon frère, gritou Christian Silva ao atender minha ligação. Até então, por mensagem de WhatsApp, eu o tratava com a distância cerimoniosa que aprendi nas aulas de francês (chamado antigamente de Daomé, o Benim foi uma colônia da França, da qual ficou independente em 1960).
Christian é um descendente de agudá, um “brasileiro” do Benim, mas não fala português. Quando descobriu que meu sobrenome também é Silva, disse que éramos primos. Não me pareceu forçado. Tenho exatamente o mesmo nome do pai dele: Gabriel Silva.
Cheguei até ele graças a um diplomata que já o tinha contratado como apoio no Benim, depois que lhe expliquei minha logística naïf de trabalho. Depois de ouvir tudo em silêncio, o diplomata limitou-se a dizer, com aquela sobriedade própria do Itamaraty: “Faz isso não.” Cancelei, então, a quitinete que tinha alugado no Centro de Cotonou, a maior cidade do Benim. Combinei de ficar num dos apartamentos de Christian, entre Cotonou e Porto Novo, a capital.
No domingo, tomei o primeiro comprimido de malária. Fui ler a bula. Rezei um Pai Nosso. Minha mãe ligou quando eu terminava de ler o papelzinho. Sigo repetindo o mantra: o Benim é quase uma extensão do Brasil. Não há voos diretos de Portugal para o Benim.Viajo no dia 13 de maio do Porto para Istambul, e de lá para Cotonou, no dia seguinte.
DIA 14 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Em Istambul, recebo um áudio da minha melhor amiga. Ela sonhou comigo e com a viagem. Importa dizer: ela é laica, quase ateia. No sonho, eu estava numa faixa estreita de areia clara que se estendia até o horizonte. De um lado, o mar batendo; do outro, uma lagoa parada. Lá estava eu, com uma câmera, registrando um cortejo. As pessoas usavam roupas estampadas coloridas. Ao meu lado, uma figura de saia branca bufante, rosto coberto por contas reluzentes. Me olhava como quem vê um estranho que está se divertindo. A imagem me deu um arrepio. Ela não sabe, mas quem apareceu foi Oxalá.
No Brasil, nas férias de Natal, pedi bênção à minha mãe de santo antes de viajar. Tenho juízo, acho. O sonho me tranquilizou, ou quase. Começou a cair a ficha de que passarei dois meses sozinho, longe de amigos e parentes. Assim que conecto o celular ao wi-fi do aeroporto, ligo para minha mãe de santo. Ela me diz: “Mantenha a humildade.”
O voo é diurno e cruza o Saara na diagonal. Ao anoitecer, a paisagem muda de deserto para savana. Em menos de uma hora, chego a Cotonou, que tem cerca de 760 mil habitantes.
A Lua estava enorme, refletindo uma luz amarela nos canais, na lagoa e no mar, em contraste com a faixa de lâmpadas brancas frias da cidade. Tudo parecia flutuar. Assim que a porta da aeronave abriu, a umidade e a maresia abraçaram tudo e todos. O aeroporto é menor que o de Jacarepaguá, no Rio. Na esteira, um funcionário começou a me tratar com uma cortesia excessiva. Será que ele me confundiu com algum burocrata europeu? Na saída do raio X, perguntou se eu não tinha um presente para ele. “Eu não. E você, trouxe um pra mim?” Pela surpresa que ele manifestou com minha resposta, percebi que minha audácia poderia ter feito a viagem acabar ali. Felizmente, isso não ocorreu.
Rapidamente identifiquei Christian: alto, enérgico, postura elegante. Aparentava muito menos do que os 60 anos que tem. Cruzamos Cotonou de carro, de ponta a ponta. O Benim tem cerca de 120 km de largura, com Cotonou quase ao centro.
O apartamento onde ficarei está situado numa esquina de Sèmè-Kpodji, arrabalde entre as capitais, com três construções dispostas em U, em torno de um gramado. À direita, fica a residência térrea onde mora Christian. Atrás, no meio, uma suíte extra e uma máquina de lavar cansada de guerra com os comandos todos em indonésio. À esquerda e de frente para a rua, um edifício de três andares, em finalização, que será todo ele destinado a aluguel. Christian me instalou na suíte, que tem uma sala, um quarto, uma cozinha, um banheiro. A cama é imensa e surpreendentemente muito confortável. Comentei isso com ele, que respondeu com um sorriso orgulhoso: “É claro, esta é a casa de um agudá.”
DIA 15 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_Ontem, não sabia que era preciso ligar a bomba no terraço para tomar banho. Acabei recorrendo a uma cuia. Oficialmente, há um sistema público de abastecimento, mas a água não dá as caras há um mês.
A rua de areia em frente à casa é uma via de comércio, com pequenas biroscas que vendem de tudo. A padaria é uma moça sentada à sombra de uma mangueira, com um balaio de vime cheio de baguetes. Cotonou é uma cidade surrada, cinza, cimentícia. Os edifícios raramente passam de dois andares. O comércio aparenta funcionar por inércia. As barraquinhas são o que dão cor, assim como as roupas dos moradores, todas únicas, feitas sob medida. Nessa malha reticulada assentada sobre a estreita faixa de areia entre o mar e o Lago Nokoué, as ruas não têm nome, só número. O asfalto, curiosamente, é impecável. Obra de Patrice Talon, presidente modernizador que Christian descreve com o entusiasmo de quem fala de um Juscelino Kubitschek subsaariano. Placas de obras bilíngues anunciam, em francês e chinês, o futuro em construção.
Antes de visitar a Grande Mesquita, fomos ao centro financeiro de Cotonou, uma rua cheia de cambistas. A cotação entre o euro e o franco CFA – moeda comum dos catorze de dezesseis países da África Ocidental, lastreada e garantida por Paris – é teoricamente fixa. Mas ao menor sinal de estrangeiro os valores aumentam. O pacto colonial em vigor é realçado pela escala da embaixada francesa: um quarteirão inteiro como muro vizinho ao Palácio Presidencial. O calor é úmido e o suor não evapora. A poeira da rua adere ao corpo e vira argila.
Almoçamos talé talé, um bolinho de chuva de banana, servido em porções embrulhadas em papel. O meu veio servido em uma folha de extrato bancário. Comi uns dez, acompanhados de uma garrafa d’água.
Partimos para Porto Novo, mas antes fomos até a fronteira com a Nigéria para abastecer. A estrada inteira é um polo de carros usados, vindos da Europa e dos Estados Unidos. Muita gente, inclusive do Níger, vem até aqui para trocar de carro.
A 500 metros da fronteira, paramos no acostamento. De uma portinha ao lado de um salão de apliques, saiu um adolescente com um galão de vidro de 20 litros: isso era o posto de gasolina. Antes de abastecer, ele enfiou uma estopa na boca do galão “para filtrar” o combustível. A gasolina, como boa parte da Coca-Cola, chega contrabandeada em barcaças pelos meandros das lagoas pantanosas que descem desde Lagos, na Nigéria.
De uma ponte engarrafada sobre um pântano, revelou-se logo a levíssima colina de Porto Novo, cidade mais vertical, saturada e cerrada que Cotonou. Passamos pelo mercado, pelos templos voduns, por vielas estreitas onde gente sentada nas calçadas vende de tudo. Cabras atravessavam a rua sem aviso. Uma menina passava batas com um ferro a carvão.
Finalmente chegamos à Grande Mesquita, a mesma da foto de Tatewaki Nio no El País. Duas torres vermelhas iguais enquadram a fachada, rematada por um frontão triangular. A rua empurra o olhar exatamente para o meio do edifício, mais desbotadamente claro, que talvez tenha sido amarelo um dia, rumo ao vão que parece anunciar a entrada da mesquita. De perto, a ilusão cai: é só um buraco na parede, um nicho cego e sem porta. Estávamos, na verdade, diante do avesso do edifício.
Damos a volta. Pela lateral, grossas pilastras azuis se repetem uma após a outra em duplas, cadenciando nossos passos, sob os olhos atentos de quem passa. As cores vão se alternando: bege, amarelo, vermelho. Todas sob uma pátina de barro. Não sei se aquele que levanta do chão ou o que escorre pela falta de reboco das paredes. As partes não se misturam: acumulam-se. Nada se funde. Tudo se soma. Cada elemento tem cor própria, convertendo o conjunto em exercício de recomposição geral, inclusive das referências que trago comigo. Tudo ali é massa e espessura, formas gordas, como se o edifício reafirmasse, a cada palmo, o seu assentamento num tempo mais profundo que aquele da sua existência e da sua construção, atravessada por guerras e disputas internas entre clãs muçulmanos no início do século XX. Alguns rombos nas janelas e no reboco dão a ver que as paredes nem são tão grossas assim.
A data da construção intriga. Entre o final de sua construção e o início da deportação correm cem anos redondos. Quando foi erguida, seus construtores provavelmente jamais tinham visto a Bahia. O Brasil que conheciam já era o inventado. Ainda assim, nada parece fora do lugar. Frente e fundos indicam apenas uma das dimensões dessa ambiguidade. É a ambiguidade que mantém o edifício inteiro.Tudo parece estar em seu lugar. Estar ali é como folhear um atlas sem pressa nem expectativa: não se procura um começo, tampouco um destino. O que importa não é para onde ela nos leva, mas o modo como abre as possibilidades sobre tudo que julgamos conhecer. Estar diante do prédio devolve a distância necessária para começar a entendê-lo e reconhecer que a ambiguidade não é a falha na cópia, mas o próprio projeto agudá.
Um velório ocupava a ruela diante da entrada. O imã não estava. Disseram para voltar amanhã quando os líderes da cidade se reunirão aqui.
Muitos agudás descendem de escravizados que participaram da Revolta dos Malês. Seus antepassados professaram o islamismo mesmo depois do batismo na Bahia. Às vezes, em uma mesma família aqui em Benim há católicos e muçulmanos, numa convivência pacífica. Também há assentamentos de vudu espalhados pela cidade, mas nenhuma família parece assumir publicamente que os frequenta.
DIA 16 DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Acordei por volta das 6 horas com o barulho da chuva. A moça da vendinha continuava ali, oferecendo inhame para o café da manhã. Tudo ao redor está em obras, o cinza do cimento é quente e amarelado. A chuva deu uma baixada na poeira.
Desci, contornando as poças no barro, para buscar pão. Os bolsões d’água estão vivos, com pontinhos que vibram à superfície. Espero que os três frascos do repelente Jungle Forest 4 deem conta. Rambo em lata, nenhum heroísmo. Ponho um despertador para não esquecer o comprimido de malária.
Cada passo meu é acompanhado de perto por todos da rua. As crianças ficam me gritando: Yovo, yovo, bonjour. Vim descobrir que yovo é “gringo”, em fon-iorubá. É simpático, mas eu me sinto um pouco a Tieta em Santana do Agreste.
Antes de sair, escrevi para Yassim, um amigo da UFRJ. Pedi que me colocasse em contato com seu tio de Agoué, vilarejo que pretendo visitar no fim de semana. Ele me conectou ao primo em Paris, que me passou o telefone do seu pai, que logo me chamou por vídeo. Senhor Osséni da Glória. Simpaticíssimo. Combinamos o bate e volta para domingo.
Fomos até Porto Novo para tentar visitar a Grande Mesquita. Christian, que é católico apostólico romano, foi a rigor: perfume e um conjunto verde estruturado, vincos impecáveis nas calças. A blusa de manga três quartos era rematada por bordados em fios dourados que contornavam a gola e caíam sobre o peito. Ao meu lado – engalfinhado que estava de camisa UV Line branca e calça cargo –, ele parecia ainda mais elegante. Vestiu-se para ser tratado como igual no principal dia de congregação muçulmana. De fato, a cidade estava mais engomada que ontem: turbantes e tecidos finos.
Decidimos ir às 14 horas, depois da oração principal. Como ainda eram 10 horas, tivemos que preencher o tempo. Deliberamos com o carro parado na praça principal, em frente ao canteiro de obras do novo Museu do Vudu, projeto imenso de um escritório internacional de arquitetura. A praça também estava em obras: no centro está implantada a estátua monumental do último rei de Porto Novo, Toffa I. Sua morte, em 1908, marca a anexação total pela França. Uma figura fantasmagórica, coberta com um véu branco à espera da reinauguração.
Quase todo o quarteirão faz parte do novo museu. Antes, tudo isso era o Museu da Silva, reduzido agora a um pavilhão de dois andares. Decidimos visitá-lo. No átrio do museu, um banner me apresenta a Papa Urbain Karim da Silva, tio de Christian em algum grau que nunca consigo reter. Descendente de um malê, Da Silva é tão majestático quanto Toffa I. Na foto, Da Silva veste fraque com colete e cartola, tem um sorriso no rosto. A guia, sentada numa carteira escolar de plástico ressecado, coloca uma toalhinha sobre o ombro para dissipar os 35ºC.
O museu é um empreendimento levado a cabo por Karim da Silva. Antes, nas fachadas, reunia grandes painéis narrativos da tragédia do tráfico de escravizados. Dentro, as exposições mesclavam a história da família de Da Silva com a dos retornados e alguns objetos de desenho industrial, como carros e máquinas tipográficas (Da Silva tem uma indústria gráfica).
O térreo, aberto, organiza-se em torno de uma árvore seca, moldada em cimento desfolhada, instalada no centro. Segundo a guia, foi o próprio Da Silva quem lhe deu forma. É o continente desfolhado que sublimará o colonialismo. Subimos. No segundo andar, o Panteão Africano: os primeiros presidentes da descolonização; Miriam Makeba; Muamar Kadafi; Nelson Mandela e James Brown. A curadoria eclética não incluiu nenhum brasileiro. Os retratos estão dispostos numa sala com janelas de alumínio, lembrando uma escola pública. Até eu me sinto um pouco tutelado por um mito.
No almoço, encostamos numa barraquinha de duas irmãs quituteiras. A parede, surrada com marca de oléo me diz que elas estão sempre ali, mérito de confiança. Me empanturro com uma porção de akkra funfun, um acarajé miúdo frito em óleo de algodão, planta responsável por 40% da economia do país. Patrice Talon é o “rei do algodão”. Dessa vez, o papel que acompanha é uma conta de luz de uma mulher de sobrenome Correa. Partimos para a Grande Mesquita.
Estacionamos nos fundos e contornamos o edifício, sob olhares vigilantes de tudo que se move. Em frente à entrada, do outro lado da calçada, quatro mulheres, que poderiam muito bem ser as tias do meu pai em suas cadeiras depois do almoço, interromperam a conversa assim que pisamos no sopé das escadas da mesquita e começamos a nos descalçar antes de subir até a porta. Acusando-nos de profanar o templo, uma delas começou a berrar contra nós. Primeiro em francês, depois em iorubá. Antes que eu reagisse, Christian já havia atravessado a rua e, em fon, tentou explicar que só queríamos interpelar o imã. A mulher seguiu invocando Alá. Era a Perpétua de Santana do Agreste.
Enquanto os dois discutiam no meio da rua, fui até a calçada falar com as outras três mulheres que não estavam gritando. Com jeito de bom moço, saquei os desenhos preliminares que havia feito da mesquita e me desdobrei em francês para explicar o que estava fazendo ali. Falei da pesquisa, do levantamento, até que uma delas me cortou, perguntando com certo orgulho, talvez com ironia: “Ah, então você quer medir tudo isso para fazer igual na sua terra?”
Desisti de argumentar e voltei para o meio da rua, quase atropelei uma criança de uns 5 anos que carregava quatro galinhas mortas. Christian se irritou com as negativas da mulher, que parecia imune à sua autoridade. Eu já estava dando o trabalho como perdido e fazia as contas das dívidas que teria depois de desistir. “Gabriel, vamos até o Papa”, me disse ele.
Embicamos o carro em um grande portão, ao lado do Museu da Silva. Christian saiu, bateu à porta, e um valete lhe entregou uma ficha para anotarmos a razão da audiência. Como não tínhamos hora marcada, era incerto se seríamos atendidos. Christian escreveu compte rendu (prestação de contas) com o meu nome – Gabriel Silva – e devolveu o papel pela escotilha metálica.
Cinco minutos depois, o portão se abriu e fomos guiados ao pátio interno. A frota estacionada deu a impressão real de visitar um chefe de Estado e tive medo de parecer desrespeitoso, todo suado e maltrapilho, depois de um dia inteiro sob o Sol.
Fomos conduzidos pelo pavimento cimentado em direção a um pequeno cômodo, onde aguardamos a audiência. O ventilador era daqueles de uma rotação por minuto, suspendendo ainda mais o tempo. Quinze minutos depois, chegou o valete e pediu para o acompanharmos rumo à sala de reuniões. Lá, sentamos em uma longa mesa de vinte lugares.
Esperamos mais dez minutos e veio ao nosso encontro o filho primogênito dele. Ele me olhou com certa surpresa, uma vez que achava que Christian vinha tratar sobre assuntos do pai, meu homônimo. Expliquei a pesquisa e mostrei a carta da universidade. Mas, sendo eu um Silva, e estando sob os cuidados de Christian, o primogênito dispensou formalidades. Pegou o telefone e ligou direto para o imã da mesquita central: segunda-feira poderemos visitar o local.
À mesa, Christian comentou que vou precisar de ajuda para ir até a Nigéria, próxima etapa da pesquisa, depois que eu medir as mesquitas do Benim. Pelo semblante dos presentes, entendi que essa viagem seria mais complicada do que eu imaginava, resolvendo tudo sozinho com um taxista. Ficou acertada uma nova audiência, também para segunda-feira, para resolver quem irá comigo à Nigéria.
DIA 17 DE MAIO, SÁBADO_Passei o dia em casa, resolvendo pendências burocráticas. Também não há muitas opções de distração. À noite, conheci Mounirath da Silva, uma parente de Christian. Fomos bater papo numa praia que ainda resiste à erosão costeira. O mar engole a areia a olhos vistos. As mudanças se notam no curso de dias. Obras portuárias no Togo aceleraram a situação.
Mounirath veio da Costa do Marfim há pouco mais de uma década. A motivação principal: o prestígio de ser uma Da Silva no Benim. Mais tarde, liguei para meu pai e contei sobre a Silvocracia. Ele adorou a história e se sentiu vingado. Lembrou de quando minha mãe, no divórcio, disse que finalmente iria se livrar do “Silva” no nome dela.
DIA 18 DE MAIO, DOMINGO_Saímos de casa às 10 horas, em direção ao Centro de Cotonou. Passamos pela praça da Étoile Rouge (estrela vermelha), vestígio da era comunista. Patrick Almeida, primo de Christian, e Osséni da Glória se juntaram a nós.
Estavam todos impecáveis: Almeida num conjunto de risca de giz, Christian de rosa, com a roupa milimetricamente passada, e Da Glória com uma estampa de costelas de adão verde-e-rosa e um pequeno chapéu cilíndrico grená de tecido rígido. Tentavam reconstituir antepassados comuns e se identificavam na diferença brasileira. Emendaram uma crítica à desarticulação entre os agudás, que passa também por um desejo: unir os “brasileiros” daqui para formar um grupo mais ativo na vida política do país.
O carro seguiu por uma hora e meia na direção do Togo, oposto à Nigéria. Da Glória então anunciou que estávamos próximos, apontando, à beira da estrada, uma estátua colossal de Jesus crucificado – branquíssimo, sem nuances de Aleijadinho. O primeiro branco que vejo em cinco dias. Já em Agoué, paramos diante de um bem cuidado sobrado amarelo com pilastras laranja e venezianas verdes, emoldurado por um flamboyant florido. Não sabia quem esperar, até que um cão caramelo apareceu arrastando a coleira, fugindo da dona que vinha no fim da rua: Elisa Olympio, agudá, filha de Sylvanus Epiphânio Olympio, neto de brasileiros e primeiro presidente do Togo, país vizinho de Benim.
Ela nos convidou a entrar. A casa era assoalhada, com móveis de madeira maciça art déco dos anos 1930. Tudo muito bem mantido, com uma nobreza senhorial solene mas convidativa. Se tivesse conhaque de pitanga, estaríamos num ensaio do Gilberto Freyre. A maneira como me recebeu pareceu confirmar algo que li em relatos de viajantes ingleses de mais de 150 anos atrás: entre os agudás, o bom trato da casa e dos visitantes é quase um imperativo. Um traço, ao que tudo indica, que eles seguem fazendo questão de manter. No abraço de tchau, Olympio me mandou ter juízo, ou mantê-lo.
Os Da Glória vieram logo após a Revolta dos Malês. Osséni da Glória abriu ele mesmo as duas mesquitas do povoado, encravadas entre as ruas de areia. Puxava-me pelo braço, insistente, para que eu reparasse bem na espessura dos muros de barro, quer que a história seja contada com rigor.
O Agoué foi um dos principais destinos dos primeiros que voltaram. Grande parte dos retornados se lançou no comércio atlântico: azeite de dendê, tabaco, tecidos. Mas também no comércio de gente. A linha entre mercadoria e pessoa era, ali, por vezes tênue demais para o conforto da posteridade de outras famílias.
Na saída do vilarejo, ainda dentro do carro, nos deparamos com um túmulo rente à calha da rua: Joaquim d’Almeida, fundador da família, chegado do Brasil em 1835, falecido em Agoué em 1857. Não há data de nascimento, só a de retorno do lado de lá.
Seguimos para Uidá, cidade entre Agoué e Cotonou de onde quase 2 milhões foram embarcados à força para as Américas. Além da antiga feitoria portuguesa, há consideráveis sequências de três ou quatro casas “brasileiras” pelas ruas que permitem uma leitura de conjunto. O desenho dessas habitações, ainda ocupadas, é exteriormente contido. Sua vida se dá mais no interior do que aquela de Porto Novo. Silêncio. Preciso que Da Glória me aponte a casa da família de sua esposa para perceber que não é cenográfico. As volumetrias são mais discretas. Talvez haja uma relação mais direta com os construtores que de fato tinham prática no Brasil neoclássico. Além desse conjunto, só havia uma mesquita a medir. Ouidah é mais limpa que Cotonou, mais preparada para a visita, e é dela que vêm as imagens turísticas que promovem o Benim. Não é difícil pensar numa cidadezinha do litoral do Brasil que o Iphan protegeria com afeto. O zelo parece dirigido ao nosso olhar.
Saímos do Centro depois que preferi não ir ao Templo das Pítons, apesar da gentileza de Christian em querer me levar. Não me senti autorizado a entrar com roupa de rua nesse terreiro. Também não me sinto confortável em transformar Oxumarê em material de Instagram. Uma ialorixá baiana, de postura régia, com quem estive no início do ano me veio à cabeça: Orixá não aparece em foto. É movimento e mistério.
Afastando-se do núcleo da cidade, rumo ao litoral, chegamos à Porta do Não Retorno. Uma passagem cerimonial diametralmente oposta à ideia de um arco do triunfo. Construída em 1995 pela Unesco sobre a areia da praia por onde os escravizados marchavam para os tumbeiros. A imensa expectativa simbólica foi esmaecida pelos arredores. À frente, um gigantesco estacionamento para ônibus de excursão. À esquerda, uma arena para o festival do vudu que, até que me informassem o contrário, era para mim a estrutura de um estádio. À direita, um canteiro de obras de uma aldeia de promoção de artesanato, três complexos de hotel, uma réplica em concreto armado e na escala natural de um navio negreiro sob um lago artificial. O remate visual é dado pelos silos de cimento com ideogramas chineses. Para apreciar a escala da Porta do Não Retorno é preciso se concentrar no horizonte.
DIA 19 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_O imã da Grande Mesquita de Porto Novo me aguardava no sopé das escadas do anexo do templo, sob a placa que assinala o mecenato de Papa Urbain Karim da Silva. O edifício, porém, funciona autonomamente. Um caixote genérico amarelo com três minaretes que faz sombra ao infortúnio do vizinho.
Como escafandristas sem equipamento, entramos pelas arcadas laterais no templo antigo semiarruinado. A sala de orações é vasta e verde, com ornamentos rosados e azuis. Viva, apesar de vazia e desbotada. Hoje é reservada às senhoras com dificuldades de locomoção. Parte do estuque estrelado do teto caiu, deixando à mostra toda a estrutura do telhado e do seu encontro com a parede. A desgraça do edifício me permite resolver, como numa autópsia, um dilema construtivo que me escapava desde o início da pesquisa: como o espaço poderia ser tão alto, quase colado às telhas exteriores. O imã, muito cordial, sentou-se numa cadeira de plástico e cochilou enquanto eu terminava as medições. Christian, que nunca tinha entrado ali, parecia tão comovido quanto eu.
Fomos almoçar num restaurante ao lado da Assembleia Nacional. Nenhuma das mulheres à vista exibia o cabelo natural: as funcionárias estavam de lenço ou com tranças aplicadas de fios plásticos; as clientes, todas de peruca. Nos clipes de afrobeats que passam na tevê, as mulheres, negras, surgem com cabelos lisos, loiros, e a pele dessaturada, quase cinza. O cenário é invariavelmente os castelos do Antigo Regime na França, antiga potência colonial.
Voltamos para encontrar Karim da Silva, que tive a honra de finalmente conhecer. Com 98 anos, cabelos e bigodes brancos e óculos de pesadas armações, Da Silva vestia uma túnica branca de algodão bordado, larga, sóbria, sem afetação e um chapéu rígido cilíndrico preto. Assim como Christian, sua mobilidade e a maneira como ocupa o espaço fazem a idade parecer um dado secundário. Entrou acompanhado de um séquito composto pelo primogênito e dois membros do Conselho dos Sábios. O grupo escapa a qualquer organograma da cidade ou da República, mas emana uma autoridade imediata.
Antes de mais, agradeci. Depois, resumi a pesquisa e os levantamentos. Da Silva escutou com atenção, mas disse recordar apenas os antropólogos que por ali passaram; um desenhista era novidade. Comentei que era justamente essa a questão: demonstrar que a arquitetura agudá não é decalque, mas um esforço lógico muito além da cópia. Meu salvo-conduto como Silva me garantia simpatia absoluta. Ao longo da conversa, porém, ficou evidente que o encontro comigo também os legitimava como brasileiros. Percebi então que, ao projeto de pesquisa, se sobrepunham outras expectativas.
Karim da Silva já foi candidato à Presidência do Benim e cônsul honorário do Brasil. A relação com o país é umbilical e, às vezes, dúbia. Uma coisa me intriga, no entanto: por que não há nenhum brasileiro no Panteão do Museu da Silva? Ele me devolveu a questão: quem eu incluiria? Antes que pudesse responder, começou a cantarolar: “Xica-da, Xica-da, Xica-da… Silva.” Solução caseira.
Quando a minha ida para a Nigéria foi ventilada na conversa, todos os presentes anunciaram Lagos como uma espécie Gotham City do pântano e o caminho para lá como o Vale da Sombra da Morte do Salmo 23, extorsões, risco de sequestro. Karim da Silva prometeu providenciar um carro e um motorista. Os detalhes ficaram para a reunião particular que Christian terá com ele na sexta. Pedi sua bênção. Recebi um abraço de avô.
DIA 21 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Um amigo intermediou o contato com Adeniram Arimoro, adido cultural do Consulado do Brasil em Lagos. Sobre toda a impessoalidade fria e burocrática do meu contato em inglês, fui respondido com um fluentíssimo português numa figurinha de bom-dia do Vasco. Carisma é soft power. Marcamos uma reunião de apresentação da pesquisa.
DIA 22 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_Graças ao apoio de Christian, os levantamentos já estão todos prontos. Para cada templo fica acordada a cessão dos desenhos, de modo que eles também tenham registro de seus edifícios. Nos arquivos, fazem o possível para ajudar, mas nada aparece. Não há desenhos nem qualquer material sobre o maior edifício da cidade. Se havia, foi extraviado na descolonização.
DIA 24 DE MAIO, SÁBADO_Mounirath, como eu, nunca tinha ido a Ganvié. Uma cidade toda de palafitas no meio da lagoa, construída como refúgio daqueles que fugiam da escravidão. Entrou no carro toda de preto, gótica. Ia aproveitar a carona para ir a um funeral ao lado do embarcadouro, de algum parente de alguma amiga do antigo trabalho.
Descemos da piroga e fomos deixá-la no endereço. Chegamos, e ela pediu que a acompanhássemos até o portão. Descobri ali que o enterro já tinha acontecido e que o que estava acontecendo era a festa pós-funeral. Da esquina, já dava para ver que as pessoas estavam vestidas de gala. Christian, de havaianas e zeloso de sua imagem, ficou à espera numa barbearia. Eu, portando calças, fui escolhido.
A recepção acontecia no quintal da família. Dois toldos imensos cobriam uma pista de dança e um bufê generoso. O som estava altíssimo, com uma parede de amplificadores Furacão 2000. Me receberam calorosamente e encheram meu prato até o topo. Uma montanha de arroz amarelo perfumado equilibrando praticamente meio frango. Perguntaram se eu queria uma cerveja. Disse que sim e, em resposta, me trouxeram um engradado inteiro. Eu não conhecia ninguém.
Acharam que eu fosse um antropólogo francês. Não corrigi a assunção. [AL1] A festa fazia todo sentido. Quem destoava éramos nós: Mounirath de preto, em luto clássico, e eu, achando que fosse encontrar tragédia. O morto já havia partido fazia quatro semanas e aguardava numa gaveta refrigerada, enquanto a família organizava os festejos. Segundo o barbeiro da esquina, aquele evento não era grande coisa. Quando a matriarca morreu, venderam um terreno e mataram três vacas para engordar a festa.
DIA 28 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Fui aos Arquivos Geográficos, em Cotonou. Tento me aproximar das cidades tal como eram no momento de sua construção. Com o entorno descaracterizado, os templos parecem boiar no tempo. Tentaram me despachar e disseram que os franceses levaram tudo para Marselha. Sorri, educado. Já verifiquei: Marselha não tem. Então deve ter estar em Dakar, no Senegal. A mais de 2 mil km de distância e sete fronteiras além.
Depois de muito insistir, me levaram ao depósito. Eles viram meu desespero e me ajudaram a procurar pelos mapas. Somos oito numa salinha. Poeira e papéis pelo chão. Não encontro nada de Porto Novo, a capital oficial do país. Nem mapa histórico, nem atual. O edifício estava sem água. Para lavar as mãos, o segurança me trouxe um garrafão pet com a água que ele foi buscar no poço.
DIA 30 DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Depois de relutar por dias, finalmente entrei no grupo de WhatsApp da conferência que acontecerá em Lagos, na Nigéria. Me avisaram que o visto que tirei, com meses de antecedência, colado no meu passaporte com uma assinatura de segurança à caneta esferográfica verde, simplesmente não seria mais válido. Foi transformado num visto eletrônico, que ninguém sabe exatamente como funciona. Disseram que tenho que cruzar a fronteira até o último dia de maio.
Chamei o carro que o embaixador me indicou. Preciso pagar o motorista, comprar uma nova passagem de volta para Portugal e, seguindo recomendações, sacar dinheiro para eventuais taxas colaterais não oficiais. Tomara que aceitem francos CFA. Vou amanhã. Deixo Adeniram Arimoro, do consulado, ciente da minha travessia, bem como minha orientadora e todos que posso, menos minha mãe.
DIA 31 DE MAIO, SÁBADO_Christian me levou à fronteira com a Nigéria. Vestiu a mesma roupa do dia em que fomos à mesquita. Não queria deixar margem a mal-entendidos hierárquicos para os nigerianos. Uma imensa Hilux Agro veio ao meu encontro. Não condizia muito com os 50 euros que eu tinha na carteira como fundo de seguro para sinistros até Lagos.
No posto de fronteira, o inspetor sanitário olhou meus certificados. Disse que faltava a vacina de tuberculose. Não faltava. Não é preciso. Ele insistiu. Eu insisti. Se fosse dia útil, ligaria para E. de Lisboa para ela dar um apavoro nele. Levantei a manga, mostrei no braço a marca da BCG, charme do Sul Global. Ele friccionou os dedos. Puxei uma nota do bolso. Mas veio a de 20 euros. Não tinha como pedir troco. Ele riu e me liberou.
Agora só me restam 30 euros. Ainda faltava a checagem do passaporte pelos funcionários da alfândega e imigraçao de ambos os países, além de uns homens armados não uniformizados que não entendi bem o que eram. Sorri, falei que era estudante do Brasil. Frisaram a sobrancelha. Sorri e deu certo: me liberaram. Meu medo era decidirem que o meu visto não era válido. Imagina um remake de O terminal aqui.
Cruzando a fronteira, um grande outdoor com a imagem do presidente nigeriano Bola Tinubu. Do outro lado, nunca vi nenhuma foto do presidente de Benim, Patrice Talon. Daqui até Badagry, a primeira cidade da costa nigeriana, antigo ponto de escoamento de escravizados, são 50 km numa estrada de pista única e cheia de crateras.
A cada 5 km, pequenas palhoças ocupadas alternadamente por mais homens armados sem uniforme, militares do exército e policiais nacionais. Na pista, balizadores com pregos. Outra constante era o AK47, que roçava na lataria do carro em todas as abordagens, no mínimo dez vezes. Em todas, entreguei o passaporte, que passeava pelas mãos, ia até a cabana, descansava lá uns minutos e voltava. Eu sorria, falava que era estudante do Brasil e dava certo. Sorria com os dentes trincados. Consegui chegar a Lagos com os 30 euros intactos no bolso. A estrada alargou em Badagry. A Coca-Cola aqui vem estampada com um assertivo Proudly Nigerian no rótulo.
Lagos opera noutra escala. Um engarrafamento infernal. Muito, muito lixo pelo caminho. Da lama ao caos do caos à lama. É um formigueiro humano, atravessado por arranha-céus dos anos 1970 e viadutos numa composição embaçada de vapor e umidade Blade Runner. Jesus continua branco. Agora ele é evangélico pentecostal.
DIA 1º DE JUNHO, DOMINGO_Dormi num hotelzinho honesto em Victoria Island, a ilha de Lagos, onde vivem os mais ricos e se concentram os expatriados, que pagam 4 dólares num café. Finalmente um supermercado – e aceitam cartão.
Percebi que havia esquecido de entregar as chaves a Christian. Tive que pagar de novo o motorista para levá-las até a fronteira, e meus recursos acabaram. Como antecipei a vinda para a Nigéria, só hoje foi possível liberarem o quarto que havia acordado num centro cultural na Lagos Island vizinha.
DIA 2 DE JUNHO, SEGUNDA FEIRA _A caminho da reunião com Adeniram Arimoro no consulado. Minha cara devia estar um lixo, mas não posso precisar: o quarto no centro cultural não tem espelho. O consulado fica em Victoria Island. A fachada é revestida de pastilhas, as janelas com brises amarelos. Parece que o edifício foi todo transportado do Brasil em um navio cargueiro. Cheguei antes das 9 horas, e os seguranças me deixaram esperar do lado de dentro para escapar da chuva.
Arimoro foi pontual e me conduziu rumo à sala de reuniões. No interior, uma tapeçaria imensa no átrio de pé-direito duplo revestido de madeira. Do mezanino, um totem vermelho e branco de Rubem Valentim me encarava. Memorandos em português na parede. Logo em frente à porta, um retrato de Lula. Nunca uma repartição se pareceu tanto com uma casa.
Era uma reunião para solicitar apoio institucional à minha pesquisa e facilitar o acesso a contatos locais. O consulado brasileiro projeta forte influência cultural em Lagos desde a Independência em 1960 e sobretudo sob o comando do historiador Alberto da Costa e Silva, embaixador do Brasil na Nigéria, de 1979 a 1983.
O maior risco para a pesquisa naquele momento era o quarto de 4 m² no centro cultural, onde eu ficaria os próximos quinze dias. Sem vento. Sem luz. Sem internet. Sem mesa. Sem ar condicionado. Sem geladeira. Sem segurança. O anúncio dizia “apropriado para estudantes”.
Pedi ajuda ao consulado. Convocaram o cônsul em exercício, Celso França. Reapresentei tudo. França refletiu, mas não autorizou. Não quer passar por cima da autoridade do embaixador titular. Encarou minha situação como uma emergência consular e disse que iria escrever para Brasília. A resposta só chegará em dois dias. Vão tentar negociar metade do reembolso do quarto.
Não sei se vou conseguir, mas a intermediação do consulado fez com a administração do centro cultural pelo menos me transferisse para um hotel em frente. Ainda é uma espelunca com lençol queimado de cigarro, mas pelo menos tem mesa e um gerador. Hoje contei e teve nove blackouts.
Simpatizei com Sade, que me recepcionou quando cheguei ao centro cultural. Como a intervenção do consulado não agradou ao seu chefe, ela resolveu me ajudar na maciota. Muçulmana, fluente em iorubá e cria de Lagos Island, Sade se mostra como a guardiã perfeita. Amanhã, eu e ela vamos a Shitta Bey, onde fica a mais antiga das mesquitas que vim pesquisar. Data de 1894.
DIA 3 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_Na sexta-feira, começam os quatro dias do Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício dos mulçumanos. Metade da população da cidade deve celebrar. Rebanhos de cabritos começaram a chegar a Lagos Island. Eles se misturam ao ar quente e ao trânsito já totalmente saturado da cidade. Sade frisou que devemos nos vestir com modéstia para a visita à mesquita de Shitta Bey. Ela apareceu com pernas e ombros cobertos por uma bata de manga comprida rosa-choque e cabelos envoltos num lenço de estampa de leopardo, no lugar da peruca do dia anterior.
Pegamos um keke, o mesmo que tuk-tuk em nigeriano, até o Centro. Quando os veículos passam, eles levantam aquela poeira cinza de esgoto ressecado com fuligem. Parece que a Via Ápia da Rocinha foi transferida para a Avenida Paulista. É muita gente. São cerca de 232 milhões de nigerianos (mais que a população brasileira) num país que tem área equivalente à de Mato Grosso.
Lagos absorve tudo, ignora tudo, segue. Os lagosianos têm algo de carioca: são insolentes, sarcásticos, mas profundamente amigáveis. Estou sempre à espera de que me interpelem em português. É um lugar estranho e familiar, muito brasileiro e, sobretudo, bastante Zona Norte do Rio. Por parecer tanto com o Rio, perguntei a Sade se deveria mascarar a câmera num saco de supermercado. “Que tipo de selva você acha que isso aqui é?”, ela respondeu. Também sacaneou meu hábito de guardar carteira e telefone na borda da cueca.
Na mesquita de Shitta-Bey, já esperavam minha vinda havia essas semanas: as cartas de apresentação que escrevi tinham sido entregues. Ensinaram-me a fazer a ablução, lavagem de purificação islâmica. Uma vez limpo, me deixaram completamente à vontade para desenhar tudo. Apesar da movimentação e dos arranha-céus do Centro da cidade, a mesquita ainda impõe sua pequena monumentalidade. A moça da loja de lingerie em frente me ajuda a deslocar seus manequins para que eu possa fotografar a fachada. Embora menor que a de Porto Novo, suas formas são mais firmes e encorpadas. Sua construção é atribuída a João Baptista da Costa. É a primeira da série de mesquitas “brasileiras”. Diz-se que a Antiga Mesquita Central de Lagos foi iniciada pelo mesmo construtor e que na construção da Grande Mesquita de Porto Novo uma comissão desceu a rua para vê-la. São “disses” que, sem arquivos, só o desenho pode provar.
O interior da mesquita de Shitta Bey é todo rosa. O silêncio é profundo. Tomamos a liberdade de descansar.
DIA 4 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_Os seis edifícios que vim registrar em Lagos ficam todos muito próximos uns dos outros. Já visitei metade. Me alertaram para guardar a guia de contas brancas de Oxalá que levo discretamente no pescoço por dentro da camisa no bolso: é coisa de pagão do interior.
Sade é uma ótima companhia: sabe andar pelas ruelas e é brava, enfrenta e bate boca com todos os grupos que querem me extorquir. Com os cabritos e o esgoto transbordando, o cheiro piora bastante a cada hora de Sol. Os pais dela me convidaram para o banquete do Eid al-Adah. Estou inclinado a aceitar, mas não posso comer cabrito.
O embaixador autorizou minha estadia no consulado. No fim da tarde, depois dos levantamentos, reencontrei Celso França e Arimoro em uma reunião da Brazilian Descendents Association, no Brazilian Quarter, terra concedida pelo rei de Lagos aos retornados na metade do século XIX. A arquitetura, porém, ultrapassa essas fronteiras. Com atenção sincera, quase reverente, França ouviu Graciano Martins, um dos líderes da comunidade. Na esquina oposta ao local onde ocorreu nosso encontro, um dos sobrados “brasileiros” começava a ser demolido. Dos pequenos lotes estreitos e fundos brotam edifícios de seis andares, separados uns dos outros por uma distância regulamentar de 1,5 metro.
França tentava articular um plano. Chegou há uma semana de Salvador para uma missão transitória. No pouco tempo que vai passar aqui, quer reativar a conexão do consulado com os agudás. Ia também tentar uma ponte com a primeira-dama de Lagos, Claudiana Ibijoke Sanwo-Olu, que é agudá. Antes de nos levantarmos, ele anunciou que na sexta-feira uma fragata da Marinha brasileira, com trezentos tripulantes, oferecerá uma recepção ao corpo diplomático. França quer os agudás presentes. Política externa também é feita com a memória.
O complexo consular é imenso, construído como embaixada nos anos 1980, quando a capital da Nigéria ainda era Lagos (hoje é Abuja). Fico num quarto e sala destinado aos oficiais de chancelaria em trânsito. Uma mesa gigantesca de trabalho que ocupa metade da sala me fez sorrir de orelha a orelha. Até nos acabamentos parece um apartamentinho carioca transplantado. Os azulejos de Francisco Brennand me fazem sentir menos desterrado.
DIA 6 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA_Em Victoria Island, há árvores e não há manadas de cabritos pelas ruas como em Lagos Island. Nesses dois dias, já percebi que sou o único branco da ilha que vai a pé ao supermercado.
Aviso a Sade que não poderei comparecer à ceia de hoje. Celso França reforçou o convite para a recepção na fragata e, antes, me chamou ao gabinete para me mostrar seu discurso, confiando na minha mais-valia bibliográfica. É instigante falar com ele: tem aquele republicanismo fino do Itamaraty, mas também curiosidade real, escuta atenta, senso de humor e uma humanidade sincera.
O meu terno estava todo engalfinhado na mala. Era feriado e ninguém no consulado tinha um ferro. Coloquei a roupa na tábua, borrifei água com os dedos e deitei por cima uma toalha antes de tentar alinhá-la com as costas da frigideira, esquentada na boca do fogão. Meio que deu certo.
Num ferry escoltado por duas lanchas rápidas, com cinco soldados da marinha nigeriana, cada um deles com uma AK47, seguimos por vinte minutos até a barra da lagoa onde a fragata brasileira estava fundeada. O navio vinha de um exercício de guerra no Golfo da Guiné. A composição a bordo era formada por oficiais das marinhas brasileira e nigeriana, o corpo consular, os agudás e eu, que me pergunto como fui parar lá. I’m a Brazilian from Nigeria, se apresentou um agudá para uma oficial. Ecoou como senha. Eles estavam claramente honrados. Teve caldinho de feijão, bolinha de queijo e caipirinha. Diplomacia.
DIA 10 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_Tive reunião com Ipaye Salvador, a diretora do Museu Nacional de Lagos, um edifício discreto de dois andares. A área expositiva fica disposta em volta do pátio, no térreo. É pequeno, da escala de uma escola. As peças são um choque de escala. O museu é pequeno diante delas. Mas isso não é defeito institucional, elas não caberiam em museu algum.
Adoro encontrar pessoalmente as pessoas com quem troquei e-mails. Celso França me acompanhou, quer aprofundar a cooperação cultural e defendeu minha pesquisa como de grande interesse para as relações bilaterais entre os países. Geraldo Alckmin chegará à Nigéria em duas semanas para uma missão.
Fui ao museu especialmente para acessar os arquivos. Sei que um polonês trabalhou aqui e deixou um levantamento vastíssimo da arquitetura nigeriana. Com uma lanterna, fomos buscar as fotos e as levamos até uma mesa no pátio para consultar sob a luz do Sol. Com a companhia de Ipaye Salvador, o tempo passou mais rápido.
DIA 12 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Combinei ontem com Sade um bate-volta à cidade de Abeokuta para medir duas mesquitas que encontrei em um grupo do Facebook. A ideia de cruzar estados deixa Sade receosa. Só vamos com escolta: na estrada “choviam” sequestros. Achei exagero. Porém, como a cria local era ela, respeitei. O preço da segurança foi suavemente salgado: 200 dólares.
Às sete da manhã chegou uma pickup com um fardado de quase 2 metros de altura, AK47 a tiracolo e um adesivo de passe-livre oficial no vidro do veículo. Não era o momento de perguntar se aquilo era real.
Um caminhão-tanque havia explodido na estrada, e o engarrafamento já chegava à fronteira com o Benim. Depois de uma hora completamente parados, o motorista entrou pelo acostamento, avançou até um retorno e fez a volta. Quando parecia que íamos engrenar para Lagos, o motorista seguiu outra picape com mais quatro homens de AK47 e sirene ligada. Viemos a 120 km por hora na contramão da Via Dutra da Nigéria. Durou um álbum e meio de Taylor Swift que Sade havia conectado por Bluetooth.
Com algum esforço descobrimos que uma das duas mesquitas já tinha sido demolida. A que restou é simplesmente magnífica, a maior e a melhor conservada de todas as que visitei. Foi erguida em 1925. A topografia reforça a verticalidade. Depois da escadaria, cruzamos o vão lateral da fachada, e entramos na penumbra das paredes verdes. Extremamente bem construída, é toda coberta por uma robusta estrutura de tesouras de madeira, uma floresta de vigas que sustenta o telhado, forrado com a mesma madeira avermelhada. Nota-se, pela maestria da obra, que a mesquita foi erguida numa só empreitada. Levei um corre dos morcegos, mas saí feliz.
DIA 16 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Conferência e pesquisa na Universidade de Lagos, à beira da lagoa, com edifícios brutalistas construídos logo após a independência, em 1960. A escala não é tão megalômana como a da UFRJ, mas é fruto, claramente, de um projeto de país.
Na biblioteca da universidade, faltou luz. Fiz a pesquisa com uma lanterna. No início, me chamavam só de White man, com certa antipatia. Agora me batizaram de Jimoh pamilgrinayo: sorriso de alegria nascido na sexta-feira. Sexta, porque pesquiso o Islã, e esse é o dia sagrado dos muçulmanos. Todos me ajudaram a revirar as mapotecas. Depois me convidaram para bater papo.
DIA 18 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_Duas Áfricas colidem nas conferências. De um lado, os intelectuais expatriados da elite local, com sotaque conscientemente amortecido por anos em universidades americanas e inglesas, apresentando slides impecáveis sobre epistemologias decoloniais. De outro lado, os acadêmicos formados nas universidades nacionais, que respondiam com dados de campo coletados em meio a nove apagões diários e greves de professores.
Um antropólogo austríaco, um inglês e eu fomos, sem combinar, de calça bege e camisa de linho. Mesmo que tenhamos variado um pouco a cor, uma nigeriana na fila do almoço disse apreciar nosso traje étnico caucasiano.
DIA 19 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Fui ao consulado agradecer pessoalmente ao embaixador Manuel Inocêncio de Lacerda Santos Júnior pela acolhida. Ele estava de volta das férias. Na pausa do almoço, acompanhei Celso França ao Museu Nacional para agradecer a Ipaye Salvador pela ajuda e lançar a semente de uma ideia de colaboração mais consequente, via ministério. Em meio aos preparativos, fomos convidados para a cerimônia de devolução, pelo governo da Holanda, de bronzes saqueados pelos britânicos em 1897.
Fui convidado também para acompanhar uma reunião solicitada de última hora por uma filantropa que desejava firmar parceria com o Brasil. Ex-executiva do mercado financeiro, ela vestia um traje de cetim estampado com medalhões, cada um deles com uma Nossa Senhora branca ladeada pela inscrição: “Rezai pelas almas do Umbral.” De início, achei que fosse um vestido Versace.
Era um plano de carreira espiritual meticulosamente estruturado. Das duas horas de reunião, ela dedicou uma hora e meia à apresentação de seu currículo e de suas intenções cristãs. Nos 30 minutos restantes, expôs sobre seu projeto social, que não sei definir se era de educação ou de catequese. Dizia apoiar escolas espalhadas por toda a Nigéria, inclusive em Lagos, onde estávamos, embora não soubesse apontar a cidade no mapa. Também não visitou nenhuma das escolas. Ao final, o Itamaraty sinalizou que uma ponte com o Sebrae poderia ser eficaz para a parceria.
DIA 21 DE JUNHO, SÁBADO_Apresentei meu trabalho sobre a arquitetura agudá na conferência. Ficaram curiosos por ter sido um brasileiro a finalmente fazer isso. Para os africanos, essa arquitetura é inequivocamente deles.
Fui com Celso França à cerimônia de devolução dos bronzes de Benim, no pátio do Museu Nacional. Foram instaladas fileiras de cadeiras paralelas, com a circulação parcialmente estorvada por uma estátua de bronze da rainha Elizabeth II jovem, sem expressão.
Quatro das 119 peças devolvidas estavam expostas numa vitrine, mas só consegui ver a cabeça em bronze. Era densa, serena, modelada pelo método de cera perdida, técnica pela qual os artesãos de Benin City – uma cidade na Nigéria – vertem liga de cobre em moldes de argila que depois se rompem, deixando uma peça única. Os restantes 115 foram para o palácio do Oba. Apesar de ser uma república, a Nigéria tem monarquias tradicionais locais, como o oba de Benin City, o emir de Kano, dentre outros reis e chefes tribais. Pelas estradas, há outdoors de muitos nobres candidatos às eleições legislativas.
Há projetos de um novo museu.
Diante disso tudo, os convidados europeus, de terno neutro, formavam um elenco de apoio. Eu inclusive. O coquetel, sem álcool, foi servido em copos de plástico. Fim de novela.
DIA 22 DE JUNHO, DOMINGO_Embarquei de volta para casa.
Inicialmente, achei que escreveria sobre um Brasil esquecido na África. Buscando uma terceira margem, dei de cara com ela. No fim, não encontrei o limite da história, mas sua dobra.
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