colunistas

A era da bestialidade

Das palavras às coisas, o bolsonarismo em ação

Fernando de Barros e Silva
25out2018_09h26

Alguém falou, com razão, que o discurso de Jair Bolsonaro transmitido ao vivo para seus seguidores na avenida Paulista, no último domingo, é uma versão atualizada do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o bordão ufanista criado no período mais sinistro da ditadura a fim de promover o regime e esconder seus crimes. É muito provável que o próprio capitão-candidato se orgulhe da comparação. Recolho algumas frases dessa peça histórica:

“Nós somos a maioria.”

“Nós somos o Brasil de verdade.”

“A faxina agora será muito mais ampla” (se comparada as que foram feitas pela ditadura e pelo impeachment de Dilma).

“Esses marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria.”

“Você vai apodrecer na cadeia” (a “seu Lula da Silva”, como ele se refere ao ex-presidente).

“O Haddad vai chegar aí também. Mas não será pra visitá-lo, não. Será para ficar alguns anos ao teu lado.”

“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil.”

“Vocês, petralhada, verão a polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês.”

“Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Ou vocês se enquadram ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba.”

“Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S. Paulo. Nós ganharemos essa guerra”

 

Limpeza, faxina, marginais, bandidos, petralhada, cachaceiro, lombo, apodrecer na cadeia – o vocabulário de Jair Bolsonaro espelha de modo transparente suas intenções e sua personalidade. Ele fala a língua da tortura, a língua do extermínio, a língua da porrada. Exagero se disser que a palavra “lombo” nos remete aos suplícios contra os negros na época da escravidão?

Fiz questão de apresentar um pot-pourri desse discurso porque seu alcance foi de certa forma menosprezado. Em parte, isso ocorreu porque, no livre mercado das atrocidades em curso, no último final de semana Bolsonaro perdeu a concorrência para o filho Eduardo – o deputado federal mais votado do país –, que numa palestra falou que bastaria para fechar o Supremo “um soldado e um cabo”. Gravado meses atrás, o vídeo veio a público quase ao mesmo tempo em que seu pai saciava os instintos mais primitivos das pessoas de bem em festa na Paulista.

Se tudo ocorrer conforme o previsto, daqui a quatro dias o homem cujo ídolo é o torturador Brilhante Ustra estará eleito. A partir de 2019, se tornará a autoridade máxima da República. Será o comandante supremo das Forças Armadas, o novo chefe da Polícia Federal. Devemos esperar uma conversão súbita da bestialidade em sabedoria? Devemos acreditar que depois da posse seu extremismo cederá terreno à moderação? Que o terrorismo retórico e as recorrentes ameaças à imprensa, às instituições e à democracia são só arroubos de candidato? Não será mais realista supor que as palavras – parte delas, pelo menos – irão se materializar em ações? Não é isso que as pessoas vestidas de verde e amarelo estão pedindo quando gritam “mito, mito”? As evidências recomendam que não se deve subestimar a riqueza escondida no subsolo da alma do brasileiro. Bolsonaro representa o desrecalque do pior de nós como nação.

 

Ele será eleito sem fazer nenhuma concessão, nenhum movimento em direção ao centro. Pelo contrário, está onde sempre esteve, muito à vontade na extrema direita, representante genuíno do obscurantismo raiz. Não participará de nenhum debate, só concedeu e concederá as entrevistas que bem entender, nas condições que ele mesmo estabelece. São, invariavelmente, fake interviews. Quase sempre, Bolsonaro discorre em detalhes sobre a bolsinha que armazena seu cocô. É uma fixação.

A facada o liberou de fazer qualquer aceno à civilização. Liberou também as falanges que o circundam a partir antes mesmo da eleição da retórica para a prática. Afinal, “a vítima foi o nosso capitão”, “a violência não partiu de nós”.

No dia seguinte ao atentado de Juiz de Fora, um amigo manifestou seu temor de que o país mergulhasse numa espiral ensandecida de vinganças, com guerra campal, violência descontrolada, mortes em série. No primeiro momento isso não aconteceu, pelo menos não dessa forma. Assim que se definiu que o adversário a abater seria Fernando Haddad, no entanto, a truculência logo recrudesceu.

Houve o assassinato – tão simbólico – de Moa do Katendê, na Bahia, e começaram a pipocar pelo país, na internet e nas ruas, as intimidações, as agressões físicas, os espancamentos, as ameaças de morte. Negros, gays, travestis, nordestinos, petistas, portadoras do adesivo #elenão, artistas, intelectuais, ativistas dos direitos humanos – o espectro de pessoas insultadas, agredidas ou aterrorizadas é imenso. Ele inclui, como se sabe, jornalistas.

 

Patrícia Campos Mello, da Folha, se tornou alvo preferencial desses grupos depois da reportagem sobre a confecção e distribuição em massa de notícias falsas, via WhatsApp, financiadas por empresários apoiadores de Bolsonaro. Recebeu telefonemas anônimos intimidadores, teve seu WhatsApp invadido, se viu obrigada a desmarcar um compromisso profissional do qual seria moderadora depois que grupos bolsonaristas convocaram sua militância pelas redes sociais para constrangê-la.

Ela não é a única. O diretor executivo do Datafolha, Mauro Paulino, também foi ameaçado de morte. Eis o teor de uma mensagem que lhe foi endereçada na semana passada:

“Discutir e pesquisar democracia, tortura e etc nessa semana é muita putaria sua seu filho da puta. Merece uma navalha na garganta! Comunista ordinário e sem vergonha!!! Te dar tiro é desperdício! Você não vale a bala! Mas só esperar! Bolsonaro vai te foder tanto quanto merece!

VAGABUNDO!

SUJO!

COVARDE E FACCIOSO!

Eu teria um orgasmo se te desse um belo soco na cara!”

A Polícia Federal, ao que consta, está investigando o caso. É desse tipo de coisas que estamos falando. Está se esboçando com nitidez no país uma espécie de novo CCC, o Comando de Caça aos Comunistas que agiu na ditadura.

É óbvio que num ambiente como esse o exercício do jornalismo independente está ameaçado. É preciso, ainda assim, evitar a tentação da  estridência – uma reportagem apurada e escrita com zelo técnico e sem paixão vale mais do que as reações exaltadas. Mas também é preciso ter discernimento e coragem para chamar as coisas pelo nome.

A Folha, por exemplo, deveria fazer circular um Erramos pela Redação: “Ao contrário do que dissemos outro dia, Bolsonaro é, sim, de extrema-direita. Ele nos obrigou a reconhecer isso. Antes tarde do que nunca. Foi mal.” O secretário de Redação Vinicius Mota, autor do memorando interno que proíbe os profissionais da casa a identificar o capitão no extremo do espectro político (ele seria apenas “de direita”), prestaria um serviço ao jornalismo se adotasse para si a autocrítica que, com carradas de razão, cobra do PT.

Mas a Folha, a despeito dessa que é, mais do que um erro conceitual, uma cegueira histórica, continua sendo o jornal mais arejado e relevante do país. Isso se deve ao legado de Otavio Frias Filho. Está encarnado na atuação da ombudsman, se manifesta na publicação de um texto como o de Nuno Ramos (na seção Tendências/Debates do último dia 23), está vivo quando Marcelo Coelho escreve uma coluna questionando a posição editorial do jornal.

“Nunca tivemos um defensor explícito da tortura como candidato – e disposto a cumprir a promessa. Será romper com o apartidarismo dizer simplesmente ‘ele não’? E o que significa dizer ‘ele não e o outro também não’? Será que significa ‘tortura pode ser?’”, perguntou Coelho na Ilustrada do último dia 17. Está claro que ele reagia, sem que precisasse dizê-lo explicitamente, ao editorial publicado na primeira página da Folha em 29 de setembro, uma semana antes do primeiro turno.

Intitulado “A hora do compromisso”, o editorial se esforçava para manter uma posição de equidistância entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, cobrando de ambos “manifestações de submissão ao enquadramento democrático”, como se representassem ameaças equivalentes ao estado de direito. O texto, que já nasceu torcido, envelheceu rápido e mal. Não foram necessários nem trinta dias para que caísse numa espécie de ridículo – o exercício algo escolar e formalista do apartidarismo ali vocalizado foi triturado pela escalada da violência nas últimas semanas, culminando com as palavras de inspiração claramente fascista – chamemos as coisas pelo nome – proferidas no último domingo pelo provável futuro presidente do Brasil.

Dizer com todas as letras que ele representa um retrocesso intolerável não significa condescender com os erros e os crimes praticados pelo PT. Para que isso ocorra é preciso desviar um pouco os olhos dos manuais e observar a realidade a fim de ter mais clareza do que está em jogo. De preferência antes que a bestialidade em gestação se transforme no nosso novo normal, como aliás não cansa de repetir a imprensa estrangeira, estupefata com o que estamos conseguindo fazer de nós mesmos.

Fernando de Barros e Silva

Fernando de Barros e Silva é diretor de redação da piauí desde janeiro de 2012 e autor de Chico Buarque (2004), da PubliFolha

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