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A fuga dos inocentes

    Família de venezuelanos cruzando a fronteira entre Brasil e Venezuela em Pacaraima Foto: Katarine Almeida

estilhaços do trumpismo

A fuga dos inocentes

Na fronteira entre a Venezuela e o Brasil, o temor de uma guerra é mais um na lista das agruras humanitárias

Felipe Medeiros, de Pacaraima | 16 jan 2026_09h24
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O som mais constante na fronteira do Brasil com a Venezuela é o das rodinhas das malas. Elas raspam o asfalto de Pacaraima pouco depois das seis da manhã, misturadas às respostas curtas dadas aos militares brasileiros durante vistoria de documentos, bagagens, mochilas e sacolões, a maioria com roupas e sapatos. Depois da passagem pelo marco onde ficam as duas bandeiras, o que se ouve é o espanhol apressado de quem está em busca de uma nova forma de vida em um outro país.

A entrada de migrantes por Roraima, extremo norte do País, é como uma torneira que abre pela manhã e fecha à noite. Durante esse tempo, o fluxo de estrangeiros é constante: sozinhos, com irmãos, amigos e em família. Até com cachorros. “Ciudad Bolívar”, “Maturín”, “El Tigre”, eles dizem quando questionados pela piauí sobre suas cidades de origem. Outra parte, mais ao norte, prefere fugir pela Colômbia. 

Após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro, os relatos costumeiros acerca das dificuldades econômicas, falta de trabalho, fome e sonho de uma vida melhor ganharam um novo elemento: a possibilidade de um extenso conflito bélico. Os bombardeios que caíram sobre Caracas estimularam venezuelanos a deixarem o país às pressas – não a ponto de crescer muito o volume de chegadas, mas o de motivos. Pessoas que saíram da capital e de outros municípios demoram até cinco dias para chegar a Pacaraima, a maioria delas de ônibus.

Alguns chegaram ao país pela primeira vez, em busca de novas oportunidades e em meio às  incertezas do que vão encontrar em solo brasileiro. Outros, que foram passar férias na Venezuela, anteciparam o retorno com receio do futuro. Todos são contabilizados no êxodo populacional que, segundo a Unicef, fez com que 560 mil venezuelanos entrassem no Brasil até junho de 2024. 

 

Thairis Rojas, de 33 anos, deixou Caracas com os dois filhos (uma menina de quatro anos e um menino de dois) e a irmã mais nova, Andreina, na segunda-feira, dia 5 de janeiro. O plano era vir ao Brasil somente em fevereiro, mas as incertezas provocadas pelo ataque dos Estados Unidos e a prisão de Maduro fizeram a família antecipar o planejamento. “Pelos meus filhos, para não ficar em perigo”, disse Thairis. 

A jovem relembrou os momentos que antecederam a ofensiva norte-americana. Ela e a irmã estavam no bairro de El Valle e, por volta das duas da manhã, ouviram o barulho de um avião sobrevoar o céu da capital. Em tom de brincadeira, ela comentou com a irmã que “os gringos tinham entrado”. “Eu disse a ela: ‘os gringos se meteram, os gringos se meteram’.” Segundos depois, veio a explosão. “Pum, pum, pum, pum! A rua ficou escura. Não nos víamos na escuridão.” 

“A gente viu umas coisinhas passando no céu, umas luzes. Depois, a explosão. A fumaça. O helicóptero. Tudo tremeu”, conta a irmã Andreina, que mora no Brasil desde 2018 e planejava aproveitar as praias venezuelanas com o filho Benjamin, de seis anos, os sobrinhos e a irmã. “Foi horrível, porque a gente mora perto de onde aconteceu. Não sei falar quantos quilômetros, mas é como daqui ali na montanha”, disse ela, apontando para uma serra em solo brasileiro distante cerca de 800 metros.

Após as explosões, Thairis e a irmã correram na escuridão para se esconderem junto a outras pessoas que, assim como elas, estavam na rua naquela madrugada. Primeiro, se abrigaram na residência de um desconhecido. Minutos depois, conseguiram chegar em casa para encontrar os filhos e sobrinhos. “Deitamos na sala, com as crianças abraçadas”. 

A volta repentina ao Brasil custou caro. Foram quase cinco mil reais entre “passagem de ônibus e comida”, calculam. Andreina, moradora de Mucajaí (município ao Centro-Oeste de Roraima), almeja viver no Rio Grande do Sul e não tem pressa para voltar à Venezuela. Thairis, por outro lado, não quer viver em solo brasileiro, mas aceitou a mudança para proteger os filhos da “guerra, da bala e dos bombardeios”. Para ela, o objetivo é voltar para Caracas assim que a situação política se estabilizar. “Tenho medo, sim, mas eu vivo lá”, diz. Ela deixou o marido cuidando da residência onde vivia.

 

Franklin Cordero, de 40 anos, chegou a Pacaraima na quarta-feira (7) acompanhado do filho de 19 anos e de Samuel, 24 anos, um amigo da família. Dois dias antes, os três saíram de Valência, cidade na região central da Venezuela, com destino a Roraima em um deslocamento de 1.360 quilômetros feito de ônibus. A viagem ao Brasil foi precipitada com o receio de que a fronteira do lado venezuelano fosse fechada novamente, como havia ocorrido no sábado (3).

Assim como as irmãs Thairis e Andreina, eles já tinham planos de vir ao Brasil, mas apenas no fim do mês. Os três têm passagens de avião marcadas para sábado, dia 24 de janeiro, rumo ao Rio Grande do Sul, onde pretendem se estabelecer e trabalhar na construção civil  ou “no que aparecer”, ponderou Samuel. Ainda que não estivessem em Caracas, Cordero disse que um clima de tensão se instalou em Valência, que fica a 170 km da capital. 

Diante das dúvidas com o futuro, o trio deixou o país rapidamente. A bagagem confirma a saída abrupta. Alguns remédios, poucas roupas, “cerca de meia dúzia de camisas”, calcula Cordero. Trouxeram apenas o necessário “por causa do peso” e da logística, diz ele, que deixou para trás móveis, calçados, eletrodomésticos e uma parte da família, já que a esposa e a filha de 13 anos ficaram na Venezuela. 

“Ela está triste, chora muito”, lamenta Cordero ao lembrar da esposa. “Não tinha dinheiro para que todos viessem juntos”. O plano dele é similar ao de muitos que migram: primeiro os homens, depois as mulheres. Trabalhar o quanto antes para mandar dinheiro e, em seguida, trazer a família “o mais rápido possível”, disse ele.

Inclinados sobre a tela de um celular, Franklin e o filho verificam a rota do voo enquanto observam o mapa do Brasil, que mostra Porto Alegre próximo à fronteira com o Uruguai. “O Brasil é muito grande. Eu não sabia que era tão grande”, diz o amigo Samuel. Enquanto aguardam a vistoria da Polícia Federal na fronteira, o trio descreve o trajeto à piauí. Sairão de Boa Vista rumo a Manaus, de ônibus, no dia 23. De lá, pegam um voo até o aeroporto de Viracopos, em Campinas e, em seguida, mais um voo até a capital gaúcha. 

Até quarta-feira (14), quando falei com Cordero por mensagem, o trio ainda estava em Pacaraima. Dormiam juntos em um quarto de hotel para economizar o pouco dinheiro que ainda tinham antes da ida para Boa Vista. 

 

Santa Elena de Uairén é um município venezuelano de 30 mil habitantes a 16 km de Pacaraima. Para chegar à cidade, é preciso pegar a BR-174 e atravessar blocos intercalados de concreto, a chamada fronteira seca. Logo na entrada da cidade, na margem da rodovia, é possível avistar um outdoor envelhecido com a frase “bienvenidos”, a foto do ex-presidente Hugo Chávez à esquerda (batendo continência) e a de Maduro, no lado oposto. Mais a frente, há um outro outdoor com a mensagem: “Maduro es pueblo” (Maduro é o povo). 

Pelas ruas, homens e mulheres vendem gasolina em garrafas plásticas a um custo de R$ 10 o litro. A circulação de motos negociando o combustível é intensa. Entre as dezenas de mototaxistas está Ivonn Scott, de 42 anos. Quando soube que falava com um jornalista, não recuou, como faz a maioria dos venezuelanos. Aceitou conversar, mas fez um pedido: que eu fosse até sua casa. “Aqui não, é perigoso”, disse ela enquanto estávamos na calçada.

Em casa, Scott, mãe de três filhas, descreveu o toque de recolher informal, o silêncio forçado e a vigilância que, segundo ela, vigora no município fronteiriço. “Aqui todo mundo trabalha para o governo”, resume. Não no sentido formal, mas no prático: “qualquer vizinho pode ser um informante.” Segundo Ivonn, basta um vídeo no telefone, uma mensagem sobre política, um comentário fora de lugar para ir “presa!”.

Ela, que é uma das fundadoras da cooperativa de mototaxistas da cidade, não se define chavista nem opositora. A autônoma afirma não confiar “nem no [governo] que caiu, nem no que tenta se apresentar como alternativa”. Para ela, quem sempre mandou foi outro nome. “Diosdado Cabello”, ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela. Maduro, na sua definição, era apenas um “títere”, um pau-mandado. “Não tem coração”, alerta sobre Cabello. 

A indefinição política do país e o medo do futuro fizeram Scott estocar comida em casa. Ela mostrou o armário com arroz, farinha, açúcar, macarrão, geladeira com frango e linguiças. Não era acúmulo, mas prevenção. “Isso se chama toque de queda”, explicou, referindo-se à medida que restringe a circulação de pessoas. “Pode acontecer a qualquer momento”. A dispensa parecia a de um minimercado e, segundo ela, a comida dá para um ano. 

Ao final da visita, quando perguntada sobre o futuro da Venezuela, não arriscou previsão. “Quero democracia! De verdade, democracia. Não quero ditadura.”

 

As considerações políticas de Scott são raras entre os cidadãos venezuelanos que estão na fronteira – Cordero e as irmãs Thairis e Andreina, por exemplo, não quiseram comentar com medo de represálias aos parentes que ficaram no país. A maioria diz não acompanhar o noticiário. “Não gosto de opinar, porque não sei muito de política. E quando eu não sei algo, não falo nada”, disse a recepcionista Maryuris Cabrera, que vive em Santa Catarina há cinco anos e tinha ido à Venezuela buscar as filhas de 18, 13 e 12 anos. Outro de passagem por Pacaraima que se esquivou do tema foi Franggi de Leon, que vive na cidade de Pinhalzinho, no oeste catarinense, e há um ano trabalha em uma madeireira. Ela havia passado as festas de fim de ano no país vizinho. “Eu não gosto muito do assunto. Acho que isso tudo são estratégias políticas. O mundo muda muito rápido, hoje é de um jeito, amanhã já é outro. A gente nunca sabe o que vai acontecer”, afirmou ela, que passou pela fronteira no dia 5 de janeiro. 

Após a ofensiva trumpista, a prisão de Maduro e o aumento da instabilidade nacional, moradores relataram abordagens fora do padrão e recomendaram cautela, mesmo em conversas informais. A desconfiança aparece no olhar, sobretudo quando percebem que estão falando com estrangeiros ou jornalistas. A piauí esteve na rodoviária de Santa Elena de Uairén na terça-feira, dia 6 de janeiro, procurando informações sobre ônibus vindos de Caracas. Minutos depois de perguntar a um funcionário, um policial passou a me observar. Um vendedor de passagens também olhava disfarçadamente o que estava sendo escrito em meu celular.

Nas ruas da cidade foi possível ver agentes de segurança em patrulhamento de motos segurando fuzis, assim como homens fazendo rondas em frente aos comércios. Na praça Simon Bolívar, a principal do município, a tensão é perceptível. O receio surge quando o assunto é política.

O medo também circulou em forma de texto. Prints compartilhados em grupos de mensagens alertavam para um suposto monitoramento de chamadas, redes sociais e aplicativos, recomendando silêncio absoluto sobre o que estava acontecendo no país.

Adrián Padilla Fernández, professor universitário e pesquisador com vínculos acadêmicos no Brasil e na Venezuela, estava em Caracas no dia do ataque. Segundo ele, a enxurrada de boatos que passou a circular após os bombardeios se insere numa lógica de guerra não convencional, em que a informação é usada como arma para produzir confusão e ansiedade. “O objetivo é fazer as pessoas se perguntarem o tempo todo o que vai acontecer, para gerar ansiedade e medo.”

Embora não haja provas de uma vigilância generalizada como a sugerida nas mensagens que circulam nas redes, Padilla ressalta que o contexto é de ruptura: “Não é normal um país ser atacado com mísseis e ter seu presidente sequestrado. Isso é fato. O resto é disputa de narrativa. É muito fácil celebrar um ato como esse quando se está longe. As bombas e mísseis não caíram só em instalações militares, mas também em residências civis”, disse. De acordo com o governo venezuelano, ao menos cem pessoas morreram nos ataques, entre civis e agentes de segurança.

 

Após a prisão de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodrigues assumiu interinamente por 90 dias com possibilidade de prorrogação. Especialistas em Relações Internacionais consideram a ofensiva uma violação dos princípios centrais do Direito Internacional e que pode abrir um precedente perigoso para novas intervenções unilaterais.

Segundo Fernando Xavier, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), doutor em Relações Internacionais, Sociologia e Direito , há quase consenso entre juristas de que a operação norte-americana violou a Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a soberania política e territorial de outro Estado. 

“Mesmo entre críticos do regime venezuelano, a ação é vista como um ilícito internacional”, afirma. Para ele, a ausência de autorização do Conselho de Segurança torna a intervenção claramente ilegal, fora das duas únicas exceções previstas: a legítima defesa ou ação autorizada para manutenção da paz internacional.

Xavier destaca ainda que, embora haja debates sobre o enquadramento da operação como crime de agressão ou crime de guerra, a responsabilização internacional de Donald Trump é improvável, já que os EUA não são signatários do Estatuto de Roma. Ainda assim, a definição jurídica de ilegalidade pode gerar custos políticos e diplomáticos, sobretudo em democracias pressionadas pela opinião pública.

Do ponto de vista geopolítico, João Carlos Jarochinski Silva, diretor do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima, avalia que o episódio representa uma ruptura explícita com a lógica multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial. “É uma reedição da ideia de zonas de influência, agora sem o cuidado diplomático que marcou as últimas décadas”, analisa. Para ele, o caso venezuelano inaugura um padrão em que os Estados Unidos  sinalizam disposição para usar força militar como instrumento direto de persuasão política.

Ambos alertam que o impacto vai além da disputa entre Estados. A intervenção tende a aprofundar a instabilidade interna, fortalecer narrativas de responsabilização externa pela crise venezuelana e alimentar fluxos de migração forçada. Jarochinski lembra que, em contextos assim, o medo, a pressa e a saída sem planejamento são características típicas de deslocamentos forçados, como os já observados na fronteira com o Brasil.

Nesse cenário, o Direito Internacional impõe deveres claros aos países vizinhos. O Brasil, por exemplo, não pode impedir a entrada de refugiados venezuelanos, em respeito ao princípio do non-refoulement, que proíbe devolver ou barrar pessoas cuja vida e segurança estejam ameaçadas.

Para os especialistas, o episódio deixa uma mensagem inequívoca à América Latina de que os limites à ação das grandes potências tornam-se cada vez mais frágeis, enquanto os efeitos humanitários recaem, sobretudo, sobre populações civis, empurradas a migrar em meio à incerteza, ao medo e à ausência de garantias de futuro.

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