dossiê piauí

Desde sua fundação, Paragominas foi um retrato da desordem que caracteriza a ocupação da Amazônia. Em 2008, ao sofrer duras sanções do governo federal, o município decidiu que era hora de obedecer à lei. De lá para cá, vem apresentando números baixos de desmatamento e índices consistentes de desenvolvimento social. O que tem sustentado essas conquistas?

JOÃO MOREIRA SALLES

 

Em setembro de 2019, um grupo de pecuaristas participou de um almoço na casa de José Carlos Gabriel, o decano da turma. Na mesa comprida, de comida farta e boa acolhida, havia gente jovem e gente madura, os maduros nascidos quase todos fora do Pará, imigrantes de outras regiões do país, e os jovens, seus filhos, representantes de uma segunda geração firmemente enraizada no estado, os laços já enfraquecidos com a terra de origem dos pais, tanto a mais imediata, no Brasil, como a ancestral, na Europa. Eram Scaramussas e Balestreris, gente que se for a um encontro no Rotary local ou se visitar uma feira agropecuária na região provavelmente cruzará com Carminatis, D’Agnoluzzos e Sufredinis, sobrenomes da elite econômica de Paragominas, município de 114 mil habitantes no Sudeste Paraense.

Gabriel, de 75 anos, estava no seu elemento. Rodeado de familiares e amigos, sua hospitalidade calorosa se espraiava pela varanda com vista ampla para a paisagem que o trabalho de sua geração recriou. Para lá da piscina e do trepa-trepa dos netos começavam os pastos e os bois. Ao longe, um trator arava a terra deixando para trás um véu de poeira. Morros suaves rolavam até o horizonte, alguns encimados por árvores, toda a terra compartimentada num tabuleiro de cores, como uma colcha de retalhos estendida no chão, cada segmento dela uma lavoura, um pasto, alguma vegetação ou terra nua.

Gregário, falante e ótimo contador de histórias, Gabriel tem o rosto divertido de um comediante italiano ou de um Costinha mais arrumado. Capixaba de Colatina, nascido de família pobre, veio para o Pará em 1971, aos 26 anos. Era um jovem advogado sem perspectivas. Sua jornada encarna exemplarmente a aventura dos brasileiros do sul que colonizaram o Brasil do Norte.

“Fui trazido pra cá pela pobreza. No Espírito Santo, quando o pai morria as mulheres ganhavam uma máquina de costura e os homens ganhavam um pedaço de terra. Acontece que o Espírito Santo é apertado e a terra ia ficando pequena. Eu via meu pai naquele pedacinho de terra, criando aquele porquinho… Boi não era possível. Boi lá tinha só a Cotó e a Mansinha, só duas vaquinhas pra produzir um pouquinho de leite. Fora isso, era uma lavoura pequenina de amendoim, de araruta, pra se manter. Café era melhor. Quando dava uma safra decente, a filha podia casar. Foi por isso que muita gente como eu decidiu subir pro Norte. A gente dizia: ‘Eu vou lá juntar dinheiro e depois volto.’ Mas a gente faz vínculo, aprende a tomar gosto pelo nosso chão e pelo Brasil. Não sonho morar em Nova York, não quero voltar pro sul, eu quero isso daqui” – ele sorri e abre os braços num gesto largo que abarca a mesa, a família, os amigos, a paisagem. “Quero morar no meio do meu povo.”

Como acontece com tantas cidades na Amazônia que não existiam antes da década de 1960, o nascimento de Paragominas se associa diretamente às políticas públicas de colonização. Seu fundador, Célio Miranda, era um agrônomo e empresário de Minas Gerais fascinado pela ideia de criar uma cidade. Em 1958, quando soube do projeto de construção da Rodovia Belém-Brasília, foi ao presidente Juscelino Kubitschek, abriu um mapa, espetou o dedo num ponto à beira da futura estrada e pediu autorização para realizar o seu sonho ali. “A terra está inativa há quinhentos anos”, dizia, “vamos progredir, vamos revolucionar isso, vamos plantar capim colonião, vamos criar boi.” A área escolhida era selva densa ocupada por grupos indígenas e uns poucos agricultores dedicados às suas roças de arroz. Anos mais tarde, num registro de memória oral, Miranda se defenderia da acusação de ter se apossado ilegalmente dessas terras para fundar Paragominas: “Grilar pra quê? Nem se nós quiséssemos grilar, não precisava, pois a terra é muito mais barata se você pegar ela do Estado, legalmente, de acordo com a lei em vigor que autoriza comprar terra pública a 7 contos a légua. Aquilo era uma região bruta.” A Amazônia era pródiga em riquezas. Para explorá-las, bastava “tirar o tapete verde”.

O município foi colonizado pela pata do boi. Nisso, difere de outras regiões desbravadas no mesmo período. Em Paragominas, a pecuária chegou antes da atividade madeireira, trazida pela mão dos primeiros colonizadores mineiros, goianos e baianos. Deriva daí o nome da cidade, “mineiros e goianos em terras paraenses”, conta o ex-prefeito Adnan Demachki. Mais que um topônimo, o batismo pode ser entendido como uma afirmação de princípio, já que do Pará só se queria a terra; os homens viriam de outras partes do país. “Todo mundo chegou aqui a convite do governo federal, e com a obrigação de desmatar”, diz Demachki.

“Quando o governo nos chamou, aqui não tinha nada, nem conhecimento, nem infraestrutura. Nada, nada”, lembra-se Gabriel. “Então, todo mundo acabou praticando o que não exigia muito. O Pará é um estado riquíssimo. O mais fácil era viver dessas riquezas naturais. Tudo virou extrativismo. A pecuária que veio era desse sistema: o cara desmata e aproveita a fertilidade da natureza.” Gabriel foi testemunha desse momento inaugural. “Qualquer cara bonitinho que chegasse aqui, branco, arrumado, bem-vestido, bastava ir lá no banco que pegava um dinheiro pra derrubar e comprar umas vacas lá no Goiás. Porque aqui nem gado tinha. Não exigia muita coisa, não, era fácil de fazer.”

Os incentivos estatais corresponderam a uma espécie de pedagogia que ensinou o forasteiro a se relacionar de um modo específico com a terra. Em vez de enriquecê-la, bastava ocupá-la sem ciência ou engenho – os subsídios se encarregavam de remunerar a baixa produtividade. Para empreendimentos instalados na floresta até 1971, por exemplo, a isenção de imposto de renda chegava a 100%.

Depois dos goianos e dos mineiros vieram os capixabas, que trouxeram a cultura madeireira característica de seu estado. Era extrativismo também. Por fim, chegaram os agricultores paranaenses e gaúchos, e com eles, a soja. De certa maneira, cada um desses fluxos fez o anterior caducar. A pecuária extensiva é menos lucrativa do que a exploração de madeira, que, na sua forma predatória, esgota todos os recursos e faz do madeireiro um nômade. Quando o solo e o clima permitem, a agricultura acaba por se impor, fixando o homem no chão.

O pecuarista José Carlos Gabriel compreende que assim avança a história da Amazônia e aceita a própria obsolescência com uma espécie de fatalismo exuberante. “Agora veio o gaúcho para a agricultura e a gente arrenda a terra pra ele. Faz um tempo, eu vinha voltando tarde de um jantar e vi um sujeito no trator, já noite fechada. Parei e fui lá. Trabalhando a essa hora? ‘Fico até de madrugada, depois vem o meu irmão me render.’ Veja que coisa. Eles só tinham um trator e precisavam aproveitar ao máximo. É o espírito dessa gente. Eu digo que todo mundo aqui precisa de um gaúcho – eu já tenho o meu. Ele melhora a terra cansada e a gente quer ele como parceiro.” Todos à volta da mesa o escutavam em silêncio. Gabriel concluiu: “A verdade é que quando entra a agricultura é muito difícil voltar pra pecuária” – a lavoura toma conta do pasto; deslocado, o gado avança fronteira adentro.

Em frente a ele, o amigo Mauro Lúcio de Castro Costa discordou. Conhecido em toda a região como um pecuarista obcecado por produtividade, Costa defende a modernização de sua atividade. Conforme determina o Código Florestal, 80% de sua fazenda é ocupada por florestas, forçando-o a ser eficiente nos 20% restantes. Costa é uma exceção entre proprietários na Amazônia Legal.[1] “O cara chega aqui e fica doido pra crescer na horizontal”, explica. “A fazenda na cabeça dele é a terra toda, ele quer ver boi em cada palmo. Se você disser que o melhor é cuidar bem de apenas 20% da terra e pôr todo o gado ali, isso não entra na cabeça dele. O cara prefere espalhar o gado e trabalhar com baixíssima produtividade. É gente muito despreparada. Se tiver que lidar com problema de lagarta, ele chama um benzedor para não gastar muito defensivo.” “E funciona”, completa José Carlos Gabriel, maroto.

Em um ano, Costa produz mil quilos de carne por hectare. A média no Pará é de 90. “Minha taxa de lotação” – o número de animais por hectare – “é 3,79. A do Pará é 0,8, ou seja, menos de 1 boi por hectare.” Ao contrário da imagem que o agronegócio projeta de si, a pecuária brasileira é medíocre, diagnóstico do qual os fazendeiros em torno da mesa não discordam. A Costa Rica produz 25 vezes mais proteína animal por hectare do que a Amazônia. O Brasil é menos produtivo do que a Argentina e o Uruguai, seus concorrentes diretos. Com os Estados Unidos, a comparação é constrangedora. Embora o atual rebanho norte-americano seja menor do que o da década de 1950, o país produz muito mais carne hoje do que naquela época – “É quase gado de granja”, na expressão de um especialista.

Quarenta anos atrás, só 10% do rebanho brasileiro estava na Amazônia Legal; hoje, chega a 40%. Essa migração acelerada – em nenhuma outra parte do Brasil o rebanho cresce tanto – se dá por várias razões: preço baixo das terras, subsídios, leniência na aplicação das leis ambientais e na repressão ao roubo de terras públicas. Em estados como São Paulo, por exemplo, a pecuária perdeu espaço para a cana-de-açúcar e a laranja, lavouras que se beneficiaram de investimentos em tecnologia agrícola. Requerem mais capital e competência do que a pecuária mediana praticada no país, mas, em contrapartida, são mais rentáveis.

Gabriel rejeita a noção de que os pecuaristas do sul sejam mais competentes do que os do Norte. “Se em São Paulo eles melhoram o pasto, é porque o dinheiro vem de outro canto. O cara tem mais de um cofre, na maioria das vezes o negócio principal dele está na capital, então é mais fácil remanejar o dinheiro. Tira de um lugar e manda pro outro. A pecuária é medíocre no Brasil inteiro”, afirma. “A exceção é a parte genética”, acrescenta Costa, “que por aqui é mais avançada do que a genética humana porque eles” – os políticos – “deixaram a religião de lado.”

A conversa convergia para esse quadro triste da pecuária amazônida quando Felipe Balestreri, de 31 anos, até então em silêncio, decidiu intervir: “O que tem de mais moderno no Brasil em pecuária e em agricultura você encontra em Paragominas.” Sentado em frente a ele, Vinícius Scaramussa, de 34, concordou: “Dieta, melhoramento genético, bem-estar animal, tudo.”

Balestreri se formou em veterinária, Scaramussa em administração de agronegócio. Recontam com orgulho a história de origem dos pais, a épica da migração – com seus capítulos sobre pobreza, abandono da terra natal e avanço para o interior da floresta –, mas o fazem sem usar a primeira pessoa do singular, pois essa narrativa não é mais a deles.

O pai de Balestreri e o de Scaramussa vieram, respectivamente, de Santa Catarina e do Espírito Santo. “Tanto o pai dele como o meu mexiam com madeira”, conta Scaramussa, “montaram no pau de arara e vieram pro Parasão.” “Meu pai era motorista de caminhão”, diz Balestreri, “trazia feijão pra Belém, pegava tora e levava pra serrar em Santa Catarina, não tinha formação. Eu cresci vendo ele nas serrarias e ouvia o que o pessoal falava: ‘Isso tem prazo de validade.’ As árvores estavam ficando cada vez mais longe. Então, pensei: ‘Como é que eu posso me dedicar a uma atividade que vai acabar?’ Decidi fazer veterinária. Meu pai até hoje não sabe nada de pecuária.”

Os pais prosperaram, compraram terras e começaram a criar gado. Sem grande conhecimento técnico, sabiam apenas formar pastos para espalhar seus animais. Grandes extensões de terra compensavam a baixa qualidade de cada hectare. Quando o solo morria, em geral depois de seis anos de uso, simplesmente se abandonava a área. A segunda geração representada por Felipe Balestreri e Vinícius Scaramussa já não tem interesse em produzir assim.

As histórias que velhos e jovens escolhem contar são reveladoras. Pais falam da migração para o Norte; filhos dizem que não cogitam se mudar. Pais se orgulham de ter aberto o território; filhos, de querer enriquecê-lo. A perspectiva dos pais é essencialmente horizontal; a dos filhos, vertical. De um lado, o avanço; de outro, a raiz. “Minha geração está vivendo a transição entre o espírito do pioneiro e o do colono”, diz Balestreri. Scaramussa, que fez faculdade em Belém, conta que se formou numa sexta-feira e foi “direto pra gandaia”; no dia seguinte, pegou o carro, deixou a cidade e se apresentou na fazenda do pai: “Vim trabalhar”, disse, “não tenho dúvida de que o meu lugar é aqui.”

Os pais, na quadra final da vida, sentem-se justificados pelo que realizaram. É diferente para os filhos, que ainda precisam se provar. A ocupação heroica do território – heroica do ponto de vista do colonizador – já não é um caminho, ao menos não numa fronteira consolidada como Paragominas. A justificação precisa ser buscada em outro lugar. Uma solução possível seria virarem modernos, moverem-se no tempo, não na geografia, por assim dizer. Por isso, intervieram quando lhes pareceu que os mais velhos haviam naturalizado o arcaísmo de seus modos e de seu saber. “A gente adota novas técnicas”, insiste Scaramussa, marcando diferença em relação aos pioneiros. “Rotação de pastagens, confinamento, capacitação do vaqueiro, genômica dos animais, esse é o novo pacote tecnológico.”

José Carlos Gabriel sorriu. No seu entender, o bastão estava sendo entregue a jovens que saberiam levar adiante o trabalho iniciado por sua geração. Apontou para a extremidade oposta da mesa, onde uma moça dava de comer a um menino – sua filha e seu neto. “Eles não vão sair daqui, os meus filhos. Ela acabou de chegar de uma viagem à Suíça e me disse: ‘Dei graças a Deus de ter nascido aqui, pai.’ Isso me deixou muito orgulhoso, e eu pensei: ‘Fiz as coisas certas.’”

Pensando nessa mesa, nas conversas ao redor dela, nas comidas que foram servidas e na vista que se descerrava da sala; ouvindo as músicas da playlist projetada no aparelho de tevê fixado no alto da parede – Mulher Chorona, com Teodoro & Sampaio; Estrada da Vida e Ainda Ontem Chorei de Saudade, com Edson & Hudson, Bebo pa Carai e Acidente de Amor, com Gino & Geno, entre outras; revendo o registro fotográfico daquele encontro em que cinco pecuaristas de diferentes gerações se abraçavam numa varanda acolhedora, um grupo de homens bem-sucedidos aos quais agrada ter à mostra as suas insígnias – as fivelas banhadas a ouro nos cintos personalizados, gravadas com imagens de bois ou a marca de ferro de suas fazendas; os bordados e ornamentos das botas texanas de cano longo; o chapéu de copa alta e aba larga que ao menos um daqueles fazendeiros importa dos Estados Unidos; o quadro de um zebu em alto-relevo pendurado na parede –, pensando em tudo isso, é difícil não concluir que pioneiros e colonos forjaram uma cultura poderosa que hoje fertiliza a imaginação de incontáveis amazônidas, uma cultura que, embora encravada no miolo da maior floresta tropical do planeta, não toma de empréstimo nenhum elemento dela, indo buscar sua mitologia em outras partes, em outro continente até, o que não significa que seja postiça, apenas que não se espelha na terra onde fincou raízes.

A cultura do boi produz uma estética, um gosto, define hábitos, uma identidade, formas de enxergar a realidade. Em regiões como Paragominas, o agronegócio é muito mais que uma atividade econômica. É um modo de estar no mundo que une jovens e velhos, modernos e arcaicos, liberais e conservadores, além, é claro, de reacionários. É a cultura hegemônica que os vitoriosos impuseram à Amazônia. São as cabines duplas, os adereços taurinos nos para-choques das picapes com tração nas quatro rodas, os rodeios, a música sertaneja, a glorificação do cavalo e a submissão do boi, as feiras agropecuárias, a brasa e o churrasco. Em suma: o contrário da selva, a sua negação.

Não há, hoje, uma cultura da floresta que se sobreponha à cultura do boi, corolário inescapável do processo de colonização. Triunfou a versão de quem nunca prestou atenção à floresta. Perderam os indígenas, os coletores, os ribeirinhos, aqueles que desejam a mata porque não vivem sem ela.

 

A floresta foi cortada com fúria em Paragominas. José Carlos Gabriel viu tudo de perto: “Pouco depois que cheguei aqui”, ele conta, “eu ainda exercendo o direito, um cliente veio me dizer assim: ‘Desmatei 600 alqueires, doutor, botei fogo. Foi tão bonito, queimou tudo.’ Imagina só. Sabe o que é não sobrar nada, nem um ipê, nem uma sucupira? Eu sou capixaba, entendo de madeira. Pois não se aproveitava nada.”

Gabriel foi um dos primeiros a incentivar a instalação de serrarias na região. Não fazia sentido que as árvores saíssem em tora de Paragominas para serem processadas no Espírito Santo. Em 1989, transcorridos doze anos da conversa com o cliente que admirava a floresta em chamas, um estudo acadêmico identificaria 238 serrarias ao longo de 340 km da Belém-Brasília, uma a cada 1 500 metros, 112 delas só em Paragominas. Empresários da madeira eram proprietários de 18% das terras do município e 56% da população urbana dependia diretamente da indústria madeireira para sua subsistência. Segundo reportagem da revista National Geographic Brasil, por volta de 1990 Paragominas se tornara “o maior polo madeireiro do mundo tropical” e “concentrava a maior quantidade de serrarias do planeta”.

Mauro Lúcio de Castro Costa era um jovem meio sem rumo de Governador Valadares, Minas Gerais. Na esperança de que tomasse jeito na vida, o pai o despachou para o Pará. Costa logo começou a trabalhar para os fazendeiros locais. Como era organizado e tinha cabeça boa para números, aos poucos foi ocupando cargos de responsabilidade. Suas memórias da Paragominas do final da década de 1980 não devem nada a um bangue-bangue passado num país sem qualquer arremedo de legislação trabalhista, um lugar de vale-tudo.

“Tinha a figura do gato – o capataz –, que era o sujeito que contratava para o desmate. Juntava a turma, nordestinos pobres quase sempre, em geral maranhenses, e entrava com eles na floresta. Essa turma ficava dois ou três meses na mata, cada equipe podia chegar a cem homens. Os caras só recebiam o salário quando saíam da mata, mas ganhavam bem. Com dinheiro no bolso, vinham aqui pra Paragominas e invernavam no cabaré. Nesses cabarés todo mundo era treinado pra tirar dinheiro deles, então depois de uns dias de farra o cara quebrava. Todo dono de bordel tinha um quarto separado pra gente nessa situação. Os caras endividados eram mandados pra lá, sem poder sair. Era lá que a gente ia recrutar. Você ia até o bordel negociar a libertação pra conseguir funcionários pra tua fazenda ou pro teu desmate. O dono do cabaré dizia assim: ‘Tenho dez, doze homens.’ O fazendeiro pagava a dívida e saía com a mão de obra. O problema é que às vezes o cabra depois fugia. Mas até pra isso se dava um jeito, porque tinha gente especializada em encontrar os fujões.”

O dinheiro do desmate fazia a economia circular. Quase todo mundo com algum poder político estava ligado à atividade. No município de Tailândia, próximo a Paragominas, o secretário do Meio Ambiente era proprietário de uma serraria que funcionava 24 horas por dia; era ali que morava também. Ao longo da Belém-Brasília, 97% das madeireiras pertenciam a pessoas oriundas de outras partes do Brasil. A paisagem estava sendo violentamente alterada por obra de quem não tinha nascido ali, crescido ali, vivido ali, por gente sem laços de memória e afeto com aquele mundo botânico, aquático, exuberantemente vivo. O ciclo da madeira no Sudeste Paraense atingiu o auge na primeira metade dos anos 1990, e dali em diante as árvores começaram a escassear. A atividade foi se arrastando até a primeira década do novo século.

Como aconteceu em outras fronteiras desreguladas, o período trouxe oportunidade, dinheiro, desordem, conflito e crime. Paragominas passou a ser chamada de Paragobala. Carvoarias se espalhavam por todo o município e queimavam madeira dia e noite para abastecer de carvão vegetal os fornos de ferro-gusa de Carajás. A fumaça era tanta que, na cidade, por vezes não se via o sol. Respirava-se mal, era difícil ficar nas praças. Adoecia-se. Uma funcionária da prefeitura lembra que, no dia em que chegou à cidade, estacionou o carro na frente da casa onde passaria a noite. Na manhã seguinte, encontrou-o coberto de lama. “Era a fumaça que colava na lataria”, explicou, “e com a umidade aquilo tinha virado uma pasta.”

José Carlos Gabriel conta que em 2004 Paragominas chegou “no fundo do poço”. Um dia, atravessando a cidade, ele atolou no asfalto. Ainda hoje parece perplexo: “No asfalto! O asfalto que o cara lá fez!”, diz, referindo-se ao então prefeito. Enquanto as rodas giravam em falso no piche, Gabriel se deu conta de que “a política é tudo”. “Decidi entrar nisso, pra mudar.” Naquele ano, lançou-se candidato a vice-prefeito na chapa do advogado Adnan Demachki. Venceram a eleição.

 

No ano anterior, em janeiro de 2003, Lula chegara ao poder e indicara Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente (MMA). O novo governo pretendia ordenar a ocupação da Amazônia, propósito que se tornara mais viável graças a instrumentos legais criados em 1998, em especial a Lei de Crimes Ambientais, que determinava prisões, multas e sanções administrativas a quem lesasse o patrimônio natural.

Os ares estavam mudando. Também em 2003 a processadora de alimentos Cargill inaugurou um porto em Santarém para exportar a soja do Centro-Oeste brasileiro. A obra contou com o entusiasmo do prefeito local e foi tocada sem os devidos estudos de impacto ambiental. A Igreja Católica, ONGs e sociedade civil se uniram para protestar contra as irregularidades, dando corpo a um movimento que levaria produtores e compradores internacionais de soja a assumir o compromisso de eliminar o desmatamento de suas cadeias produtivas.

O mundo vivia a década de ouro das commodities, e nesse cenário a soja se tornara vetor de desmatamento, não diretamente, mas por empresa interposta. Como as fronteiras não estavam fechadas, o grão empurrava o pasto. A pecuária preparava o terreno ocupando a floresta degradada que a atividade madeireira deixara para trás; depois chegava a lavoura e fazia a limpeza final. E ia assim, o boi sempre à frente, avançando em terras públicas. Entre 2003 e 2004, o desmatamento ao longo da Rodovia Cuiabá-Santarém – o grande corredor logístico de grãos da Amazônia Legal – aumentou em mais de 500%.

Numa façanha investigativa, o Greenpeace rastrearia o caminho da soja desde Santarém até Amsterdã e dali até o Reino Unido, onde caminhões transportavam parte da carga até uma unidade de processamento de nuggets do McDonald’s. Xeque: agora era possível estabelecer um elo entre a cadeia americana e o desmatamento na Amazônia. Assustada, a empresa declarou que não tinha como rastrear toda a sua cadeia de fornecedores.

Pois deveria, insistiram os ativistas. Se eles tinham conseguido seguir a soja brasileira até uma fábrica de nuggets na Europa, não havia razão para que as grandes empresas alimentícias não fizessem o mesmo. Poucos dias depois de o escândalo vir à tona, em abril de 2006, ativistas invadiram várias lojas europeias do McDonald’s. Fantasiados de frango, carregavam cartazes que denunciavam a destruição da floresta. Em Santarém, militantes liderados por Paulo Adário, diretor de campanha para a Amazônia do Greenpeace, tentaram escalar os silos da Cargill para estender uma faixa de protesto e, se possível, ficar por lá dependurados. Foram presos, mas o objetivo havia sido alcançado. O mundo tomara conhecimento de que o McDonald’s era parceiro do desmatamento da Amazônia.

Pressionada por seus clientes, a empresa despachou uma alta executiva para o Pará com a missão de investigar o que estava acontecendo. Caetano Scannavino, da organização Saúde e Alegria, uma parceira do Greenpeace em Santarém, foi um dos que a receberam. “Ela fez um sobrevoo na região, não lembro mais se de helicóptero ou de avião, e vendo a floresta destruída ela chorava e dizia ‘Oh my God, oh my God’. Vomitava também. O McDonald’s europeu rescindiu o contrato com a Cargill. Aquilo foi a virada.”

Em pouco tempo, outros grandes consumidores de grãos acompanharam a decisão do McDonald’s. A soja da Amazônia se tornara radioativa.

Xeque-mate.

Em julho de 2006, entidades representativas de 90% dos processadores e exportadores de soja brasileiros se reuniram com ONGs ambientalistas e o governo federal para formalizar um pacto em que se comprometiam a “não comercializar soja oriunda de áreas desflorestadas dentro do bioma Amazônia após 24 de julho de 2006”. O acordo ficaria conhecido como Moratória da Soja.

Esse compromisso voluntário firmado por entes privados – o governo federal participou apenas como mediador – é reconhecido internacionalmente como uma iniciativa original e bem-sucedida de proteção à floresta tropical. Assinaram o documento não só a Cargill e outras multinacionais graneleiras, mas também a empresa de Blairo Maggi, então governador do Mato Grosso e um dos maiores sojicultores do mundo. Antes da moratória, um terço das novas lavouras de soja ocupava áreas recém-desmatadas; depois, essa proporção despencou para 3%. Apenas nos dois primeiros anos de vigência do pacto, em 2006 e 2007, a taxa de desmatamento no Oeste do Pará caiu 50%. “O ritmo de expansão da soja foi contido”, diz Caetano Scannavino.

 

A moratória foi recebida com grande preocupação em Paragominas. Os anos 2000 haviam atraído muitos produtores para a área. A soja crescia no município e, de súbito, toda a produção corria o risco de apodrecer nos silos. O receio era fundamentado. Segundo a atual presidente do Sindicato dos Produtores de Paragominas, a advogada Maxiely Scaramussa Bergamin, prima de Vinícius Scaramussa e autora de um livro sobre o período, um ano depois da assinatura do pacto, a Cargill, maior compradora de grãos de Paragominas, anunciou que não queria mais o produto local, pois não havia como separar a soja boa da soja do desmatamento. Como mostram os 150 autos de infração emitidos pelo Ibama somente em 2007, o município era um fraudador contumaz das leis ambientais. Toda a soja estava contaminada.

O golpe de misericórdia viria em janeiro de 2008. O Ministério do Meio Ambiente divulgou uma lista com os 36 municípios responsáveis por 50% de todo o desmatamento na Floresta Amazônica. Paragominas aparecia na 23ª posição. Não se tratava apenas de expor os maiores desmatadores do país. A lista implicava uma série de medidas punitivas a serem aplicadas caso os municípios não cumprissem metas estabelecidas pelos técnicos do ministério.

Eram duas as condições para que um nome saísse da lista: reduzir o desmatamento anual a menos de 40 km2, mantendo por dois anos consecutivos uma taxa média inferior à registrada entre 2005 e 2008, e promover a atualização cadastral de pelo menos 80% dos imóveis rurais do município, para melhor monitorá-los contra futuros desmatamentos ilegais. Em 2009, o governo federal instituiria o Cadastro Ambiental Rural, o CAR, documento eletrônico em que o proprietário declara se está em conformidade com as leis ambientais vigentes, em especial com os termos da reserva legal exigida pelo Código Florestal. Afora as exceções (tão abundantes que, como se verá adiante, na prática funcionam como norma) e as pequenas propriedades, na Amazônia Legal isso significa que áreas desmatadas até 1996 precisam ter no mínimo 50% de vegetação nativa. Já imóveis que ocuparam a floresta depois de 1996 devem preservar ou recompor 80% dela. O CAR se transformaria no instrumento principal do recadastramento exigido pelo MMA.

A nota em que o governo divulgara a lista deixava claro que as punições seriam duras para quem não se enquadrasse: “[O] proprietário não poderá obter crédito, vender produtos, vender a propriedade, obter notas fiscais e guias de transporte e sequer transferir, por herança, o imóvel que estiver em seu nome […] Além disso, todos os desmatamentos que forem autuados pelo Ibama a partir de janeiro deste ano serão automaticamente embargados. Essas áreas serão georreferenciadas e monitoradas permanentemente. Caso seja identificado que o proprietário descumpriu o embargo, isto é, produziu na área embargada, o nome da propriedade será incluído em uma lista a ser publicada no Diário Oficial.” Tinha mais: “Grupos empresariais – como frigoríficos, traders, siderúrgicas, serrarias e espremedores de grãos, entre outros – que comprarem produtos desses estabelecimentos, serão corresponsáveis pelo desmatamento e penalizados pelo dano havido na propriedade.”

Quatro meses depois da publicação da lista, Paragominas foi alvo da Operação Arco de Fogo, resposta imediata do governo ao descalabro ambiental em curso no bioma. Uma força-tarefa da Polícia Federal e do Ibama desembarcou na cidade para combater o desmate e punir os responsáveis pelo corte, transporte e armazenamento ilegal de madeira. Estacionados ali de abril a junho, os fiscais se tornaram uma presença incômoda que a cada dia trazia más notícias para a população. Os agentes fecharam dezenas de serrarias e carvoarias, destruíram duzentos fornos clandestinos e aplicaram 21 milhões de reais de multas. Quase uma centena de imóveis rurais foi embargada, ou seja, nada se poderia produzir neles enquanto o proprietário não regularizasse sua situação.

Era apenas o início do pesadelo. Nos meses seguintes viriam as operações Rastro Negro, que destruiria mais de oitocentos fornos de carvão, e Boi Pirata, que confiscou gado encontrado em pastos ilegais e multou frigoríficos que abatiam animais criados em áreas de desmatamento. Grandes cadeias nacionais de supermercado se comprometeram, a partir dali, a não comprar carne sem certificação de origem. “Eu sou advogado, sei avaliar as consequências dessas restrições”, diz Adnan Demachki, que em outubro daquele ano se reelegera prefeito com 74% dos votos.

No dia 23 de novembro de 2008, um domingo, o Ibama apreendeu, dentro de uma reserva indígena, catorze caminhões carregados de toras, produto de uma empreitada clandestina de desmate. Os fiscais levaram os veículos para a cidade e os estacionaram na rua defronte à sede municipal do órgão. Horas depois, centenas de madeireiros foram ao local, furtaram os caminhões e, para não haver dúvida de que dali em diante era guerra, ainda atearam fogo ao escritório. O episódio era uma afronta ao governo, e à noite as imagens estavam em todas as tevês do país. Nunca Paragominas fora tão Paragobala.

Demachki compreendeu que a situação se tornara insustentável. Na mesma noite, convocou por SMS todas as forças organizadas da cidade para comparecer a uma assembleia na manhã do dia seguinte, segunda-feira. Às 8 horas, Demachki entrou no auditório da prefeitura, caminhou até o palco e viu diante de si sindicatos, cooperativas, a maçonaria, o Rotary, o Lions, vereadores, madeireiros, pecuaristas. A convocação reunira 51 associações locais.

A plateia estava tensa. Muitos se sentiam revoltados com o que consideravam uma violência do governo federal. Demachki deixou claro que não havia saída senão reduzir o desmatamento. Filho de um torrefador de café que emigrara do Líbano, fizera a vida na advocacia, não na madeira ou na pecuária. Isso o tornava a pessoa certa para enfrentar o momento crítico. Além de hábil na conversa, Demachki era um profissional liberal que não carregava na bagagem a experiência de fronteira, os laços econômicos e culturais que tornam tão difícil a pioneiros abandonar seus modos de vida. Demachki não tinha lado. Era um mediador imparcial.

“A cidade precisava mudar”, lembra-se Justiniano de Queiroz Netto, à época um jovem advogado que viria a colaborar com Demachki. “A gente olhava aquela gente toda e dizia: ‘Se vocês não quiserem que os nossos filhos sejam ciganos, indo sempre em frente sem nunca parar num lugar, então a gente vai ter que fazer de outro jeito.’”

Meses antes, com a Moratória da Soja pressionando a economia de Paragominas, Netto apresentara Demachki ao engenheiro agrônomo Adalberto Veríssimo, um dos fundadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Sabia que o instituto desenvolvera um sistema para monitorar o desmatamento por meio de satélites. “Esse cara tem os dados”, Netto disse ao prefeito. Em seu escritório de advocacia, ele conta: “Nós fomos comer um sushi aqui em Belém e o Beto trouxe os números. O desmate acontecia, sim, e nós decidimos não assumir uma postura negacionista.”

Quando Paragominas entrou no rol dos municípios que mais desmatavam, o prefeito e seu jovem conselheiro já tinham ideia de como proceder. “A lista negra do ministério ligou o fio terra”, conta Netto, hoje com 48 anos. Os agentes da Arco de Fogo estavam na cola dos produtores. Era preciso sair da imobilidade.

Demachki descreveu para a plateia o que seria um “pacto pelo desmatamento zero”. Paragominas passaria a monitorar mensalmente as suas florestas. “Quando o Adnan veio me perguntar como fazia pra sair da lista, nós montamos um programa”, relata Carlos Souza Jr., pesquisador à frente do sistema de processamento de imagens do Imazon. “Mensuração, análise dos dados, avaliação de impacto, basicamente. Além disso, começamos a produzir boletins mensais que iam para a imprensa e para os gestores públicos, pra que todo mundo pudesse acompanhar a situação.”

O Imazon também ofereceria um curso de técnicas de manejo sustentável, prática desconhecida no Brasil que o instituto começara a desenvolver em 1990, ali mesmo em Paragominas, provando ser possível extrair madeira sem destruir a floresta. Em 2006, o governo federal criara uma lei que concedia lotes de florestas públicas a quem quisesse explorá-las de forma sustentável. Não havia mais justificativa para o desmatamento predatório.

O programa proposto por Demachki – que recebeu o nome de Paragominas Município Verde – preconizava três linhas de ação. A primeira consistia em exigir que todos os proprietários de Paragominas fizessem o cadastramento ambiental e regularizassem suas atividades produtivas; a segunda implementaria medidas de repressão ou, como preferem os gestores públicos, o comando e controle, difundindo a certeza de que todo desmate ilegal seria punido; monitoramento sistemático seria a terceira linha, pois sem boa informação não haveria como identificar crimes ambientais e avaliar o progresso das novas práticas. Foi esse tripé que Demachki ofereceu aos seus munícipes.

Para a plateia, tudo soava muito novo. Pior: parecia radical e envolvia parceria com ONGs. A desconfiança só seria rompida se algum produtor graúdo referendasse a proposta, pulando para o outro lado do balcão e postando-se ao lado de Demachki e Netto. O passo foi dado por Mauro Lúcio de Castro Costa, o fazendeiro que, quando jovem, ia recrutar nos cabarés da cidade. Por administrar bem os seus negócios, ele se tornara um produtor rural admirado. Na época presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, Costa compreendeu logo que o programa proposto pelo prefeito poderia ser um instrumento de modernização do agronegócio no município. Pediu a palavra e defendeu as medidas. Sua reputação junto aos colegas ruralistas ajudou a dobrar quase todas as resistências, mas uma minoria ainda se opunha.

Foi quando o prefeito pôs a mão no paletó. Do bolso, sacou duas cartas, desdobrou-as com cuidado e as ergueu à vista de todos. A primeira era um pedido de desculpas ao Brasil pelo ocorrido na véspera, seguido de uma declaração de compromisso de que Paragominas acabaria com o desmatamento. A segunda era sua carta de renúncia. Demachki perguntou então qual das duas deveria despachar. Os recalcitrantes cederam, e a plateia pediu ao prefeito que rasgasse a segunda e enviasse a primeira, a do perdão e do pacto. O projeto foi aprovado.

 

No centro de visitação do parque municipal que inaugurou quando era prefeito, Adnan Demachki e seu então secretário do Meio Ambiente, Felipe Zagallo, projetam na tela a foto de um carro. Demachki explica: “Quando a gente pactuou que ninguém ia desmatar, nós sabíamos que alguém ia acabar quebrando a regra de conduta. O problema é que Paragominas é um município imenso” – já foi do tamanho de três Bélgicas, perdeu um pouco mais de duas ao longo das décadas e hoje equivale a dois terços de uma, ou, se preferirem, a dois Líbanos. “Só que tudo o que nós tínhamos na secretaria era esse Fiatzinho. O Imazon mandava a imagem de uma quadra geográfica lá na ponta, dizia ‘Ali tem desmate’, e a gente entrava no Fiatzinho pra lavrar o auto de infração. Pegava uma estrada de chão achando que dava lá, andava cem quilômetros, mas não dava, então voltava, tentava outro ramal e o carro não passava, aí voltava pra cidade, trocava o Fiat por uma caminhonete traçada da Secretaria de Educação e tentava de novo. Quando a gente finalmente chegava lá, não encontrava ninguém, ou, quando encontrava, o cara dizia que não era dele. Um inferno.”

A solução era o CAR. Concebido pelo governo em 2009 e regulamentado na forma de lei em 2012, o Cadastro Ambiental Rural é uma ideia engenhosa que soluciona problemas complexos de forma simples e contraintuitiva. Simples porque reúne num só documento todas as informações ambientais que uma propriedade deve fornecer às autoridades: com base em coordenadas de georreferenciamento, define-se o perímetro do imóvel e indicam-se as partes que, dentro dele, correspondem a área produtiva, reserva legal ou área de proteção permanente. O cadastro é contraintuitivo por ser autodeclaratório, ou seja, é o proprietário que descreve a situação ambiental de seu imóvel. Como saber se está dizendo a verdade?

Ocorre que a simples existência do cadastro traz vantagens para o órgão regulador. A despeito da qualidade da informação fornecida, a partir dele as autoridades se tornaram capazes de identificar o responsável legal pelo imóvel. Todo CAR exige a inclusão de dados sobre o proprietário ou posseiro, bem como sobre os respectivos títulos que respaldam a situação fundiária descrita no cadastro. Como a lei de 2012 impôs um prazo-limite para cadastrar todos os imóveis rurais teoricamente passíveis de registro – medida revogada pelo atual governo em outubro de 2019 –, o proprietário era obrigado a se fazer presente, como alguém que, numa multidão, fosse forçado a levantar a mão para responder à chamada. “Ao menos agora o carro tinha uma placa”, comparou o pesquisador Adalberto Veríssimo. “Podia estar sem farol traseiro e sem estepe, mas ao menos a gente sabia como identificá-lo.”

“Naquela imensidão de floresta, o sujeito simplesmente negava que aquele desmate era dele”, diz Demachki, a luz do projetor batendo nos seus óculos. “Depois do CAR, não podia mais negar. A gente recebia o dado do desmatamento, cruzava com o cadastro, alinhava as coordenadas e do gabinete mesmo sabia quem era o dono. Não precisava mais pegar o Fiatzinho.” Caso o desmatador fosse maçom, membro do Lions, filiado ao sindicato patronal ou a qualquer outra associação que participara da assembleia, Demachki ou Zagallo levavam pessoalmente a informação até a entidade: “Ó, tem um associado teu que desmatou aqui, ó.” Invariavelmente a associação pegava o telefone e repreendia o responsável. “A ideia era gerar um constrangimento no sujeito. A censura era coletiva”, explica Zagallo.

Funcionava porque a lista negra do Ministério do Meio Ambiente discriminava não por propriedade, mas por município – era essa a sua grande astúcia. As metas eram coletivas e não individuais. Um produtor paragominense que se enquadrasse nas leis ambientais continuaria a sofrer as sanções da lista enquanto seus pares não parassem de delinquir. “Não era você que precisava se acertar, era a cidade”, explica Daniel Azeredo, lotado durante anos na área de fiscalização ambiental do Ministério Público Federal (MPF) no Pará e um dos procuradores ligados à Operação Boi Pirata, que confiscou gado encontrado em pastos ilegais.

Uma vez na lista, o município sofria pressão cerrada: virava objeto de fiscalização sistemática, corria o risco de não obter novos créditos bancários, tinha dificuldade em conseguir os documentos fitossanitários sem os quais era impossível negociar o gado, toda uma série de entraves que agora eram da comunidade, não mais de Fulano ou Beltrano. “Um produtor de Paragominas me falou que antes eles iam pro bar xingar o Ibama”, conta Azeredo, rindo. “Depois do Município Verde, o cara passou a criticar o vizinho: ‘Ô, bicho, não faz isso não porque você tá prejudicando todo mundo aqui.’”

Os mapas mensais coordenados por Carlos Souza Jr. no Imazon ajudaram a identificar o grande vetor de desmatamento naquele momento. Felipe Zagallo relata: “Não era o agricultor nem o pecuarista e nem mesmo o madeireiro. Era o carvoeiro, e isso a gente não sabia. O cara não aparecia no nosso cenário.” Demachki baixou uma medida administrativa proibindo o licenciamento de novas carvoarias; seria permitido processar somente resíduos de serraria e nenhuma carvoaria poderia ter mais de doze fornos.

Em 2009, a educação ambiental foi incluída na grade curricular do ensino municipal, uma iniciativa pioneira na Amazônia. “Não é disciplina”, explica Demachki, “é um tema transversal, aparece em todas as matérias, geografia, história, português.” No final daquele mesmo ano, 50% das propriedades rurais haviam sido incluídas no CAR. Em 2010 subiu para 84%, chegando em seguida a 90%. Em 2007, ano anterior à publicação da lista, Paragominas desmatara 107 km2 de florestas, uma área maior do que Vitória. Em 2008, primeiro ano do programa Município Verde, esse número caiu para 63 km2 e em 2009 ficou em 25 km2, cerca de três bairros de Copacabana.

Na porta da prefeitura apareceu gente insatisfeita – QUEREMOS TRABALHAR, lia-se nos cartazes que carregavam. “Trabalhar significava vender carvão para os poderosos”, diz Demachki, recusando o argumento de que suas ações prejudicaram trabalhadores pobres. “O carvoeiro não é só o cara pequeno, não. Tem o empresário, o atravessador. Eles chegam num produtor que está em dúvida se abre ou se não abre 200 alqueires de terra e aí falam: ‘Tu vais derrubar? Faz carvão que eu compro e com o dinheiro você financia a pastagem.’” Ainda assim, segundo o site O Eco, mais de 2 mil pessoas perderam o emprego entre 2008 e 2009. “O Município Verde teve um impacto imenso em Paragominas”, defende Demachki, “o nosso IDH hoje é outro em relação a 2008.”

(O último IDH municipal disponível no IBGE é de 2010, o que torna difícil mensurar o progresso de Paragominas pelo índice. Contudo, quando se compara o PIB per capita da cidade com o da capital do estado, o desempenho de Paragominas de fato é bom. A partir de 2013 a cidade entra em rota de crescimento e, já no ano seguinte, deixa Belém para trás. Os indicadores socioeconômicos mostram melhora significativa no bem-estar da população. Na educação, o Ideb passou de 4,3 em 2009 para 5,8 em 2019. A taxa de mortalidade infantil caiu de 15,08 por mil crianças nascidas vivas em 2009 para 11,6 em 2019. Em 2010, 54,7% da população tinha acesso a água encanada; em 2018 esse número passou para 82,3%. A população atendida pelo esgotamento sanitário deu um salto de 2,04% para 23,2% no mesmo período.)

A revista inglesa The Economist publicou em 2013 uma reportagem sobre a experiência de Paragominas. Àquela altura, o Brasil começava a se apresentar internacionalmente como país habilitado a ser um gestor responsável do patrimônio natural sob sua guarda. A abertura da matéria dizia que, se a Amazônia havia tido um ponto de inflexão – na época, isso fazia sentido –, este acontecera em 2008, no município administrado por Demachki. Mais especificamente, na noite de 23 de novembro, horas depois do incêndio na sede do Ibama.

A revista se referia ao momento em que a sociedade de Paragominas foi convocada para a assembleia em que rejeitaria a renúncia de seu prefeito e decidiria cuidar de suas florestas. Em 24 de março de 2010, dezesseis meses depois daquela assembleia informal convocada em caráter de urgência por Demachki, Paragominas se tornaria o primeiro município a ser retirado da lista de desmatadores. Em pouco mais de dois anos, havia cumprido as duas condições impostas pelo Ministério do Meio Ambiente.

 

“Funcionou porque botamos todo mundo na mesa, entendeste? Se a gente tivesse baixado um decreto proibindo o desmatamento, não ia resolver”, diz Demachki. O advogado Justiniano Netto concorda com essa avaliação. Em 2015, depois de participar da elaboração do Programa Município Verde, ele viria a assumir a tentativa de replicar a experiência de Paragominas no restante do Pará; também dessa vez o convite partiu de Demachki, então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico. “Todo combate tem que estar atrelado à política local”, Netto pondera. “Sem isso, sem o pacto local, você depende de comando e controle, e isso pode afrouxar quando entra outro governo com uma visão diferente do problema.”

O pacto pelo fim do desmatamento em Paragominas é um exemplo de boa política pública executada com inteligência estratégica, fato raro no Brasil. Ao buscar a adesão de líderes como Justiniano Netto, ex-presidente do Sindicato do Setor Florestal de Paragominas, o prefeito deixava claro que não era contrário à atividade madeireira; apenas combatia suas práticas predatórias. A colaboração de Netto indicava que as ações do Executivo eram endossadas por alguém com origem e vida profissional no mundo da extração.

O pai de Netto era caminhoneiro e transportava fósforos Fiat Lux entre as duas fábricas da empresa, uma em Belém, a outra em Piraí do Sul, no Paraná, cidade em que o filho nasceu. Paragominas ficava no caminho. Impressionado com o crescimento da cidade na década de 1970, o pai decidiu se mudar para lá. Como tantos sulistas antes e depois dele, o Norte representava a possibilidade de ser patrão em vez de empregado, de dar ordens em vez de recebê-las. Começou comprando toras de madeira e processando-as no Paraná. Em meados da década de 1980, conseguiu montar uma pequena fábrica de lâminas para tábuas de compensado, violões e skates.

Justiniano Netto perdeu o pai e a mãe no mesmo ano, 1991, quando tinha 18 anos e cursava direito em Belém. Regressando a Paragominas para assumir o negócio da família, em pouco tempo comandaria o sindicato patronal do setor. “Eu vivi a década de 90, Eco-92, ambientalismo”, ele conta. “Na época o estatuto do manejo sustentável era puramente teórico. Ninguém sabia se era possível na prática. O Imazon e outros provaram que era, e de uma hora pra outra o manejo deixou de ser ficção e se tornou um instrumento pra extrair madeira sem derrubar a floresta.”

Netto é acolhedor e recebe os convidados no escritório com comidas típicas do Pará – tortas de queijo marajoara com jambu, suco de bacuri e de taperebá. Especialista em causas agrário-ambientais, tem entre seus clientes muitos madeireiros que derrubaram florestas no passado e hoje tentam se adequar às normas em vigor. Fino conhecedor do meio social desses homens, sabe aferir com precisão de que maneira as idas e vindas da política ambiental brasileira impactam as conquistas de que foi um dos agentes. Na ausência de pressão comunitária e de ação do Estado, gente que cresceu numa economia de fronteira tenderá sempre a voltar aos modos antigos. “A partir de Lula II e Dilma houve um enfraquecimento dos sistemas de comando e controle”, afirma, “e hoje esse processo chegou ao ápice. O cara tá desmatando na cara do governo. A mensagem política é de que mais adiante vem ‘brandura’, de que vai poder regularizar a terra ocupada.” Não acha irreversível o processo de destruição em curso, mas esse otimismo – traço tão característico dele quanto a candura ou a perspicácia – não impede que sua voz saia triste.

O desalento com o atual estado de coisas ganha ainda mais peso por vir de alguém que compreende e defende os colonos da Amazônia. Justiniano Netto hesita antes de responder se é um ambientalista. Depois de uma pausa, diz: “Sou conservacionista, não preservacionista. Acredito no desenvolvimento sustentável: no núcleo duro da floresta você não toca e explora o resto com manejo. Para que dure.”

A exemplo de Netto, o procurador federal Daniel Azeredo também considera que Paragominas conseguiu dar a volta por cima graças à mobilização de sua sociedade civil. “Aquilo deu certo sem nenhuma ajuda do governo federal.” Avança uma casa na argumentação, dando todo o crédito ao pacto local e eliminando Brasília da equação, mas as evidências não sustentam a afirmativa.

A ação municipal foi decisiva, sem dúvida nenhuma, mas os prefeitos não dispõem de força policial para reprimir a delinquência. Sem o Ministério do Meio Ambiente, sem o Ibama, sem a Polícia Federal e sem agentes como o próprio Daniel Azeredo, figura-chave nas ações do Ministério Público contra fazendas ilegais de gado – em suma, sem a política nacional de combate ao desmatamento que vigorou durante aqueles anos, os produtores de Paragominas teriam levado bem mais tempo para se ajustar, se é que o fariam. Nada indica que, por si só, teria bastado a pressão do mercado.

É o que ele mesmo sugere ao especular sobre o que anda passando atualmente na cabeça dos produtores, dado um cenário político quase hostil ao da primeira década do século: “Imagino que a discussão que rola hoje entre eles é: ‘Será que estamos perdendo dinheiro?’ Porque não desmatar e ser forçado a cuidar melhor da terra custa caro. A gente costumava brincar e dizia assim: ‘Se desligar o satélite, o pessoal volta a derrubar a floresta na hora…’”

Para Justiniano Netto, o que ele chama de “terapia convencional”, isto é, o conjunto de medidas adotadas pelo programa Paragominas Município Verde – exigência de CAR, denúncia e repressão, ameaça de bloqueio de crédito etc. –, certamente funciona para o fazendeiro que precisa escoar a produção. “Se esse cara se regularizava, diminuía o custo de transação dele. Se ele ficava de fora, a terapia era bloquear todos os serviços públicos. Nem registrar o gado ele conseguia, porque o governo negava até o certificado fitossanitário.” Ocorre que, para o produtor ou especulador ilegal, nada disso importa. “Quando o problema é endêmico, não se consegue pactuar nada. Aí, só com freio de arrumação”, diz, aludindo ao poder de repressão do Estado. “É como a dengue: evitar que ela chegue sai barato, mas depois que ela se instala é muito difícil de combater.”

Em agosto de 2019, num restaurante em Belém, Adnan Demachki afirmou que “o desmatamento em Paragominas é coisa do passado”. Estava confiante: “Se você impõe regras e fiscaliza, a ferida aqui cicatriza. A terra hoje em Paragominas é altamente valorizada, não tem mais abandono. Somos o primeiro município a ter 100% das propriedades rurais no CAR. A gente valida as informações, checa se a reserva legal está em ordem, se as nascentes e as APPs [Áreas de Preservação Permanente] estão lá. Com isso, o proprietário consolida a sua área de produção e faz nela o que quiser, sem risco de dor de cabeça. O cara de Paragominas compreendeu a vantagem disso.”

Demachki tem orgulho da cidade que entregou aos seus sucessores. Pelos padrões brasileiros, Paragominas é ordenada. As ruas são limpas. Os carros param na faixa, dão prioridade aos pedestres, buzina-se pouco. O mobiliário urbano é bem cuidado, sem pichações. Pode-se encher o pulmão sem risco de contaminá-lo com a fumaça das carvoarias. O sol está à vista todos os dias. A arborização é deficiente, mas não tanto como em outras localidades do Pará. Houve mesmo certo empenho em tornar a cidade mais verde. Quando um bebê nascia, a Secretaria do Meio Ambiente despachava duas mudas de árvore para entregar aos pais ainda na maternidade, em comemoração à chegada da criança; vinham acompanhadas de um pedido para que cuidassem delas e zelassem pelo seu crescimento.

Embora tenha deixado a prefeitura em 2013, Adnan Demachki ainda age como prefeito. No trajeto entre dois compromissos, dividia o carro com a atual secretária responsável pela limpeza urbana. Ao passar por uma esquina com lixo acumulado no chão, esperou dois ou três minutos e então, discretamente, para que os demais passageiros não percebessem, disse à moça: “Você viu lá atrás, não? Anotou?”

 

Dois ou três dias de conversas em Paragominas mostram que as mudanças de uma década atrás constituíram um legado. Em novembro de 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou os números do desmatamento no Brasil nos doze meses anteriores. Registrou-se a maior área desmatada desde 2008, com um crescimento de 9,5% em relação a 2019. Já Paragominas caminhou na direção oposta: teve o menor desmatamento de sua história. Eliminaram-se 10 km2 de cobertura vegetal, parte dessa área correspondendo a desmate legal, autorizado para extração de bauxita com compromisso de restauração integral no futuro. Retomando as comparações feitas acima, foi como se, num período de 365 dias, dois Líbanos tivessem perdido uma área de floresta equivalente a um bairro de Beirute. Por ora, então, pode-se dizer que a adesão do município às boas práticas não se perdeu.

Durante o almoço na casa do fazendeiro José Carlos Gabriel, muito se falou do esforço continuado da cidade para se adequar às normas ambientais. Os mais velhos gostam de criticar o Código Florestal, os mais jovens não perdem tempo com isso. “As regras são boas ou são ruins?”, perguntou à turma de 30 anos um convidado pouco familiarizado com o tema. “As regras são claras”, respondeu Vinícius Scaramussa de bate-pronto. “Isso de meio ambiente está pacificado.” Seu amigo Felipe Balestreri emendou: “Se o meu vizinho desmata, eu denuncio, do contrário tenho produção e não consigo vender.” Scaramussa trouxe uma recordação pesada: “Me lembro da Arco de Fogo, das pessoas sendo presas. Ninguém mais quer aquela vida.”

As respostas parecem confirmar a solidez das conquistas. Contudo, embutem uma dúvida: as pessoas deixaram de desmatar por convicção ou por temor? No atual cenário político não há espaço para operações como a Arco de Fogo, o que põe em questão o pacto firmado por Paragominas. Hoje, de certa forma, a continuidade e a abrangência dos procedimentos pactuados se tornaram matéria de escolha local, sem a retaguarda das agências federais de controle.

É um estado de coisas que requer atenção. Dois estudos recentes – uma tese de doutorado apresentada por Clarissa Gandour à PUC-Rio em 2018 e um artigo de 2014 dos economistas Juliano Assunção e Romero Rocha – avaliam as políticas públicas de combate ao desmatamento implementadas pelo Brasil nos anos 2000. Empregando técnicas econométricas para isolar o efeito de diferentes ações governamentais, os três autores concluem que, do vasto arsenal de instrumentos criados pelos gestores ambientais no período, apenas dois, fundamentalmente, explicam o êxito dessas ações: monitoramento contínuo e abrangente e aplicação severa da lei. Todo o resto – restrição de crédito, embargos etc. – desempenhou um papel não mais que secundário em relação aos bons resultados colhidos naqueles anos.

Segundo Assunção e Rocha, a lista negra do MMA reduziu significativamente o desmatamento não só no âmbito dos municípios listados, mas também nos vizinhos. A repressão em Paragominas levava o mau produtor em Goianésia do Pará a reconsiderar sua prática ilegal, sob pena de atrair para o seu canto de mundo as ações vistosas das forças-tarefas. Contradizendo um reclamo frequente de ruralistas, os economistas demonstram que a aplicação rigorosa das leis ambientais não afetou em nada a produtividade do campo. Enquanto o desmatamento despencava, as safras na Amazônia Legal cresciam, evidência de “como uma melhor proteção da Floresta Amazônica não limita a produção agrícola”.

Clarissa Gandour, cuja tese foi considerada a melhor do ano pela Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec), verificou que fazer valer a lei reduziu o desmatamento e estimulou a expansão de matas secundárias nos pastos degradados. “Isso apoia a hipótese de que infratores ambientais, diante dos maiores custos associados à atividade ilegal, abandonaram as regiões onde operavam e, assim, permitiram que ocorresse um processo natural de regeneração”, ela escreve. Ao longo da década estudada, a área de vegetação secundária na Amazônia aumentou em 7 milhões de hectares, extensão que equivale aproximadamente à soma dos territórios do Rio de Janeiro e de Alagoas.

O empenho em reprimir delitos ambientais representou, de acordo com Gandour, um fator ainda mais crucial para reduzir o desmate do que a criação de unidades de conservação, outro instrumento poderoso daqueles anos, tema abordado no artigo anterior da série Arrabalde. Há uma razão simples para isso: o efeito de derramamento. Analisando dez anos de imagens georreferenciadas e acompanhando como o desmatamento e a recomposição florestal se moviam no bioma, a pesquisadora aferiu os efeitos diretos e indiretos das políticas ambientais do período. É certo que, quando expostos às mesmas pressões econômicas, territórios protegidos tiveram perdas de vegetação significativamente menores do que territórios sem proteção. Contudo, embora tenham funcionado como escudo contra o avanço do desmatamento, Gandour constatou que florestas protegidas não estancam a ilegalidade, que “parece seguir para áreas não protegidas” – escorre para onde não há vigilância. “A proteção, portanto, afeta a dinâmica regional do desmatamento, mas não o seu nível agregado.”

Quatro meses depois de chegar à Presidência da República, Jair Bolsonaro se manifestou contrário à queima de caminhões e tratores usados por criminosos para derrubar uma floresta nacional, apesar de a destruição de maquinário apreendido em ações de combate à extração ilegal de madeira ser um procedimento previsto na legislação ambiental. De lá para cá, toda vez que o governo federal teve de escolher entre a ordem e a desordem, com notável frequência pronunciou-se em favor dos representantes da segunda: garimpeiros, invasores de terras indígenas, desmatadores. A quantidade de multas aplicadas pelo Ibama no primeiro bimestre de 2019 foi a menor em quase 25 anos. Diante disso, não espanta que os números do desmatamento tenham disparado. A Amazônia, em suma, é protegida sempre que o Estado brasileiro decide fazer cumprir a lei.

 

A Juparanã Comercial Agrícola Ltda. é uma empresa sediada em Paragominas que emprega 350 funcionários, 12 deles engenheiros agrônomos. Moderna e diversificada, produz grãos, comercializa insumos e compra e vende commodities. Foi fundada por um pequeno cafeicultor capixaba que, atraído pelos programas do governo, chegou em 1980 ao Pará e recebeu terras com a obrigação de abrir a floresta. Foi o que ele fez. Como quase todo mundo na época, começou na exploração de madeira e dali migrou para a pecuária. Contudo, sendo essencialmente um agricultor, não se sentia realizado exercendo essas atividades. Há cerca de vinte anos, quando a fronteira agrícola alcançou Paragominas, decidiu plantar soja. Era o início da Juparanã, empresa que começou com cinco funcionários.

Flávio Carminati, de 42 anos, é filho do fundador. Tinha 4 anos quando chegou com a família a Paragominas, “um lugar sem energia elétrica”. Cresceu vendo a geração dos pioneiros moldar a região que um dia teria líderes empresariais como ele. Já há algum tempo, aqueles homens bem-sucedidos de pouca instrução e espírito aventureiro começaram a se retirar para suas fazendas, abrindo espaço para que jovens como Carminati assumissem o comando. O relógio Apple no pulso, a naturalidade ao discorrer sobre a bolsa de commodities de Chicago, onde especula, e o português apurado são alguns marcadores que distinguem esses filhos daqueles pais, o século XXI do século XX.

“A agricultura nessa região é o resultado de um esforço coletivo”, diz Carminati. Foi um encontro de vontades: de um lado, um pequeno grupo de empresários que desejava abandonar a madeira e a pecuária para se dedicar ao plantio de soja; de outro, o poder público, que àquela altura estimulava a transição. “Vinte e um empresários aportaram cada um o valor de um Toyota Corolla para investir numa grande plantação. Eles queriam demonstrar que a região tinha condições de produzir em escala. A prefeitura apoiou abrindo a porta dos bancos, dos institutos de pesquisa, mostrando os gargalos. No final dos anos 90, o Almir Gabriel, que era o governador na época, subsidiou os cinco primeiros armazéns de grãos da região.” Carminati não tergiversa: “A soja chegou aqui e começou a desmatar. Aí o mercado disse: ‘Ei, não queremos mais.’ A gente teve que se adaptar.”

Na sala de reuniões da empresa, em setembro de 2019, estavam também o secretário municipal do Meio Ambiente à época, Felipe Zagallo, o então prefeito de Paragominas, Paulo Tocantins, e o pesquisador Paulo Amaral, todos eles comprometidos com a agenda ambiental. Carminati é direto: “No passado nós abrimos muitas áreas sem aptidão para a agricultura, e isso está errado. É desnecessário derrubar floresta no Pará, tem muita terra abandonada e sem uso. Mas acho uma sacanagem dizer que o cara na Amazônia é responsável por mudar o clima do mundo. Tem muito exagero nessa história de pulmão do mundo. Não concordo com esse discurso do medo, de que se nós cortarmos a floresta vai chover menos e inviabilizar a nossa atividade. Mudança climática é um fenômeno natural.”

Nem nos seus vinte anos de experiência no campo, nem na faculdade de agronomia que trancou para começar a trabalhar, Flávio Carminati jamais conseguiu identificar os benefícios ecossistêmicos de uma floresta em pé: “A floresta atrapalha o agricultor. Se você me perguntar, eu vou dizer: eu queria abrir a minha fazenda todinha.” Aponta então o secretário do Meio Ambiente e sorri: “Se ele aqui deixasse, eu derrubava tudo. Olha, tem um prejuízo associado a não abrir a floresta. O governo investiu em estradas e infraestrutura, então existe um custo para o país deixar de desenvolver as terras. Por outro lado”, conclui, “quem manda é o mercado. Eu não quero vender a minha soja por 5 reais. O município deixou de desmatar e pronto: o mercado voltou a se interessar, os bancos quiseram participar do negócio, as traders voltaram a comprar o nosso produto, e isso permitiu que o negócio crescesse. Tenho as minhas opiniões, mas elas não se sobrepõem às regras. Meu vizinho não pode desmatar, contamina a minha soja. O satélite passa todo dia em cima da gente. As imagens estão disponíveis para qualquer um consultar.”

É uma fala instrutiva, que esclarece a dúvida sobre a motivação dos que pararam de desmatar. Para muitos produtores, o pacto firmado em 2008 se mantém graças a dois fatores: punição e pressão do mercado. Não são razões baseadas na convicção pessoal de que a floresta deva existir, como explicita a louvável franqueza de Carminati. São razões frágeis, portanto. Dependem de agentes externos, não de imperativos da consciência ou de convencimento intelectual.

Os órgãos de fiscalização vêm sendo sistematicamente manietados enquanto se preparam mudanças nas leis ambientais. Caso passem, estimularão ainda mais a invasão de florestas públicas e o desmate. Para todos os efeitos, o atual governo abdicou de seu dever constitucional de fazer cumprir o Código Florestal e de proteger o bioma amazônico. “Embora o recrudescimento do desmate não seja de hoje – já dura uns cinco anos –, agora ficou pior porque o governo deixou de ser um mediador confiável”, afirma Justiniano Netto. “O governo passou a ter lado, e quando você percebe isso, acabou. O cara não senta mais na mesa porque sabe que as decisões já foram tomadas, aquilo é só teatro.”

Nesse contexto, de fato, retórica faz diferença. Não é preciso nem alterar a legislação, basta mandar sinais, e impulsos que estavam apenas represados retornarão, às vezes com fúria. É o que se vê em várias partes da Amazônia, embora ainda não em Paragominas. O desmatamento parece estar sempre a um discurso presidencial de distância.

Poucos dias antes da conversa com Carminati, uma ação do Ibama confiscara o maquinário de madeireiros que operavam ilegalmente dentro de uma reserva indígena em Paragominas. Ao ver que o fiscal se preparava para atear fogo no equipamento, um dos bandidos sacou o celular: “Eu tenho aqui uma gravação do presidente dizendo que não pode mais queimar o nosso material de trabalho.” Naquele dia, os tratores e caminhões arderam: “Se ele te disse isso, pra mim não falou nada”, devolveu o fiscal, “se afasta porque vai ficar quente.” Ainda estávamos, contudo, no início do governo Bolsonaro. De lá para cá, inúmeros funcionários do Ibama foram afastados por causa de ações dessa natureza. O desmatamento no Brasil voltou a números de uma década atrás.

Resta o mercado. Até a redação desta frase, em janeiro de 2021, produtores de grão na Amazônia ainda operavam segundo os termos da Moratória da Soja, o acordo que retirou sojicultores da linha de frente do desmatamento. Entretanto, no final de 2019, sob o novo clima político, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja declarou que pretendia contestar o pacto. “A moratória fere a nossa soberania”, declarou o presidente da entidade. Jair Bolsonaro apoiou a iniciativa. “Governo e agricultores unem forças contra Moratória da Soja na Amazônia”, publicou o jornal Valor.

Em julho de 2020, um artigo na revista Science analisou a situação da soja e da carne que a União Europeia importa do Cerrado e da Amazônia Legal. Assinado por pesquisadores brasileiros, alemães, suecos e norte-americanos, o estudo conclui que 20% do grão e pelo menos 17% da carne que saem dos dois biomas para a mesa dos europeus podem estar contaminados por desmatamento ilegal. “Embora apenas 1% das terras desmatadas recentemente na Amazônia tenham se destinado ao plantio da soja, em contraste com 5% no Cerrado, mesmo fazendeiros que seguem cumprindo a Moratória da Soja vêm convertendo a floresta em pastos e campos para outras lavouras no perímetro de suas propriedades. Continuam, portanto, a se beneficiar do desmatamento”, afirmam os autores.

Os pesquisadores analisaram o Cadastro Ambiental Rural de 362 mil propriedades na Amazônia. Destas, cerca de 162 mil, ou 45%, não atendiam ao Código Florestal, ou por invadirem Áreas de Preservação Permanente, ou por não conservarem suas reservas legais. O estatuto da Reserva Legal (RL) é um velho cavalo de batalha dos ruralistas. Raros são os que não criticam os termos que a definem no novo Código Florestal, de 2012, cujo texto, de resto, já foi redigido para reduzir as exigências do código anterior, de 1965, e atender a antigas reivindicações dos produtores. O ponto mais ofensivo para eles é justamente a obrigação de manter 80% de cobertura vegetal em imóveis rurais localizados dentro do bioma Amazônia. Como exigir de um fazendeiro que tire sua renda de apenas 20% da propriedade?

O argumento encontra eco mesmo entre gestores públicos que tiveram atuação decisiva para reduzir o desmatamento nos anos 2000. Simão Jatene, responsável por criar inúmeras áreas de proteção ambiental quando governou o Pará, é um deles: “Tu só vais usar 20% da tua terra, mas tu vais ter que dar segurança aos outros 80%, porque se der problema tu vais precisar te entender com o governo. Em termos econômicos, nunca me bateu como razoável”, diz ele no seu apartamento em Belém. A opinião do ex-prefeito Adnan Demachki é parecida: “Tem um custo manter 80%. Você precisa proteger do fogo, impedir invasão pra tirar madeira, tudo isso sem poder monetizar 8 partes de cada 10. É um negócio que causa desconforto. Os caras reclamam com razão.”

Há uma réplica geral e outra específica a esse argumento. A geral é simples: tornar-se um fazendeiro na maior floresta tropical do planeta é uma decisão voluntária. As regras são claras e resultam de um longo debate na sociedade brasileira. Se parecem pouco razoáveis, então que se evite o bioma. O contra–argumento específico pode ser resumido assim: o alarido sobre os proprietários rurais na Amazônia, todos eles ou pelo menos a maioria, serem forçados a preservar 80% de cobertura vegetal em seus imóveis parte de uma falácia. Um levantamento inédito feito para a piauí pelo engenheiro florestal Heron Martins, especialista em análise de imagens de satélite – muitos dados que aparecem nesta série foram coligidos por ele –, mostra como a situação real difere da descrita pelos ruralistas e seus representantes.

Processando mais de 1 milhão de registros de CAR emitidos na Amazônia – número que equivale ao total de imóveis rurais do bioma incluídos no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural até 31 de janeiro de 2020 –, Martins eliminou duplicidades, sobreposições e impropriedades evidentes, tais como lotes no interior de terras indígenas ou de florestas nacionais. O restante corresponde a propriedades reais – fazendas e assentamentos – que podem ser legais ou não (grileiros também fazem registro de CAR). Martins, então, classificou cada um desses cadastros segundo as categorias previstas no Código Florestal, que são muitas, fato que não costuma aparecer na retórica do agronegócio. A classe de propriedades obrigadas a manter 80% de cobertura vegetal constitui apenas uma dentre seis possibilidades de classificação.

Tome-se, por exemplo, uma categoria flexível como a dos pequenos imóveis rurais. Tecnicamente, será assim considerado o imóvel que não exceder quatro módulos fiscais, unidade que varia de município a município. Para esses, a exigência de preservação toma como referência a área de floresta que cobria a propriedade em 22 de julho de 2008, a data de corte. Assim, se na ocasião o imóvel tinha apenas 15% de cobertura florestal, será esse o tamanho da área a ser preservada, ou seja, essa é a sua reserva legal. Conforme o levantamento de Martins, 87% dos cadastros rurais no bioma amazônico correspondem a pequenas propriedades, e, por lei, quase metade desse total pode manter uma reserva legal inferior a 20%. A necessidade de preservar 80% de cobertura vegetal recai sobre apenas 18% desses imóveis. “Encontrei inúmeros cadastros de pequenos imóveis registrados no mesmo nome. Quando a gente georreferencia, vê que eles são contíguos”, explica Martins. “Nesses casos, os donos nem se dão ao trabalho de buscar um laranja. Eles simplesmente retalham a propriedade e passam a se beneficiar da regra que vale para os pequenos.”

No caso das médias e grandes propriedades, são muitas as exceções que se aplicam à Reserva Legal. Se uma fazenda se encontra num município cuja área protegida (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) excede 50% do território; se está localizada em regiões enquadradas em certo tipo de zoneamento econômico; se a vegetação é constituída por cerrados ou campos naturais – cada uma dessas contingências modifica os termos da RL. Martins verificou que 56% das médias e grandes propriedades na Amazônia não precisam obedecer à regra dos 80%. Ao tomar a totalidade dos imóveis, do menor ao maior, constatou que, de cada quatro propriedades no bioma, mais de três se beneficiam das exceções especificadas na legislação, estando livres, portanto, do padrão 80/20 alardeado como universal pelos que combatem o código.

Martins resume o que seu trabalho revelou: “Em termos de Reserva Legal, as exceções na Amazônia viraram regra. O levantamento não diz uma palavra sobre o cumprimento ou não do Código Florestal. Isso demandaria outra pesquisa. Investiguei exclusivamente o que é permitido. Nas discussões do novo Código Florestal, o de 2012, os ruralistas queriam duas coisas: anistia e redução da área de Reserva Legal. Conseguiram as duas, mas mantiveram o discurso de que são obrigados a proteger a maior parte da propriedade.” É uma estratégia que tem funcionado.

 

No dia da visita à Juparanã as queimadas na Amazônia dominavam o noticiário internacional. Apesar de ser exportador, Flávio Carminati não parecia preocupado com as eventuais repercussões econômicas do desmanche da política ambiental brasileira. “Os bancos antigamente me perguntavam sobre a situação do desmatamento; agora, mesmo com toda essa cobertura, não voltaram ao assunto. Eles sabem que Paragominas é diferente.” Até então em silêncio, o prefeito Paulo Tocantins opinou: “Pois eu estou muito preocupado. Quando vi a escaramuça do Bolsonaro com o Emmanuel Macron, pensei: ‘Isso vai chegar em Paragominas.’”[2]

Bastava andar 6 km para constatar que não era ociosa a preocupação de Tocantins. Na zona industrial de Paragominas está a Floraplac, fabricante de painéis de aglutinado de madeira para pisos e para a indústria moveleira, o chamado MDF. Com 1,3 mil funcionários, a empresa é a segunda maior empregadora do setor privado em Paragominas (a primeira é a mineradora norueguesa Hydro). A operação impressiona pelo tamanho. Além de duas unidades fabris, a primeira inaugurada em 2010, a segunda, em 2018, há uma termelétrica movida a biomassa que gera mais energia do que toda aquela consumida pelo município.

A Floraplac foi fundada por catarinenses. Dois deles, Vitório Sufredini Neto e Adriano D’Agnoluzzo, tio e sobrinho, ainda guardam um sotaque forte do sul. Vieram para o Pará atraídos pela madeira. Começaram com uma serraria, passaram para uma manufatura de compensados e, por fim, inauguraram a primeira fábrica de MDF da Amazônia, percurso que reproduz a evolução da indústria madeireira nas últimas quatro décadas. Da exportação primitiva de toras in natura, a empresa se direcionou para um produto industrializado que acabou por substituir a madeira nativa. O declínio da atividade madeireira tradicional resulta em grande parte desta mudança tecnológica: as placas de MDF são feitas de madeira plantada. Têm grande estabilidade estrutural, não dilatam e não deformam, o que é uma ótima vantagem para a construção civil e para a indústria moveleira.

Adriano D’Agnoluzzo e seus parentes deixaram de explorar madeira nativa. Em parte, por causa da escassez de matéria-prima: “Você vira um nômade, cada vez tem que ir mais longe pra encontrar madeira que preste.” Em parte, por cálculo mercadológico: se a clientela doméstica não ligava para a origem da madeira, a estrangeira começara a recusar produtos oriundos de desmate.

De sete anos para cá, a Floraplac trabalha apenas com árvores de reflorestamento. O volume de madeira reflorestada que passa anualmente por suas máquinas equivale àquele que, no passado, era processado por 110 serrarias, empresas hoje desaparecidas que se espalhavam pela cidade e mastigavam as florestas prodigiosas de Paragominas. A matéria-prima processada na fábrica abastece outras duas empresas do grupo – a Expama, de pisos, e a Concrem Wood, de portas, janelas, alizares e batentes.

Os fundadores da Florapac investiram em pesquisa para encontrar as melhores espécies de eucalipto e começaram a plantar bosques em pastos abandonados. Conseguiram que a Expama firmasse um contrato com uma grande empresa norte-americana de pisos, a Lumber Liquidators Flooring, com sede na Virgínia. O negócio parecia selado até ser submetido ao departamento de compliance da empresa. “Não passou pelos advogados”, diz D’Agnoluzzo. “Há dois meses eles avisaram que não podiam comprar madeira do Pará, que não iam assinar o contrato. Tentamos argumentar, mas eles alegaram que os madeireiros brasileiros não têm capacidade de garantir a cadeia de custódia da madeira exportada. Isso depois dos caras virem a Paragominas e visitarem a fábrica e as plantações. As queimadas mais recentes só pioraram a situação. Essa história de queimada atrapalha demais.”

Na saída, Adnan Demachki, que participara da visita, estava desconsolado. “Você recupera pasto degradado, substitui capim por árvore, contrata pesquisa na universidade pra encontrar as melhores variedades, emprega gente na economia florestal, no transporte e na indústria e, não satisfeito, ainda gera energia de biomassa. Aí faz piso e não consegue vender para os americanos. Não está certo.”

A Expama chegou a operar em três turnos, dia e noite, de segunda a segunda. Não mais. O grupo se expandiu durante os primeiros quinze anos do século.
A primeira fábrica foi inaugurada em 2010; já em 2015 os proprietários decidiram investir numa segunda unidade, mais moderna, agora equipada com maquinário alemão e não chinês. É também dessa época a decisão de construir a termelétrica para abastecer toda a operação fabril com energia própria. O tempo em que tudo isso se deu corresponde ao período de ouro da política ambiental brasileira, quando o país podia ser tomado como exemplo pelo mundo tropical. Estranhamente, D’Agnoluzzo e Sufredini não relacionam uma coisa com a outra, o sucesso nos negócios com o bom nome construído pelo país no plano internacional, um ativo de boa vontade que começaria a se perder na segunda metade da década de 2010. A despeito dos riscos crescentes que a devastação ambiental na Amazônia tem representado para quem exporta, Jair Bolsonaro continua a ser um dos políticos mais populares entre produtores rurais. Laços ideológicos aparentemente se sobrepõem a considerações econômicas, mesmo sob pena de automutilação.

Volta-se à velha questão da floresta: Por que mantê-la? A impressão que se tem é que derrubá-la constitui não apenas um ato de interesse material, mas também uma afirmação simbólica de suposta autonomia, como furar o sinal vermelho ou não usar máscara durante uma pandemia. Um gesto de poder e domínio.

Antes de Flávio Carminati entrar na sala de reuniões, um funcionário da Juparanã projetou um breve filme institucional da empresa. O vídeo, bem produzido, abre e fecha com a imagem de um monomotor lançando defensivos agrícolas sobre uma plantação de soja. Na última cena, o avião despeja o produto e logo embica em direção ao céu azul, deixando o nome da empresa no seu rastro. Ainda que todas as cenas tenham sido colhidas na Amazônia, a Amazônia está ausente. Não há uma só imagem da floresta nos quase dez minutos do filme.

Quando o Brasil foi à Suíça pleitear a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o filme promocional exibido aos membros do Comitê Olímpico Internacional mostrava uma cidade sem a Rocinha, apagada eletronicamente da gravação. Não se viam favelas no filme sobre o Rio de Janeiro.

Uma Amazônia sem a selva não é diferente. Durante o almoço na fazenda de José Carlos Gabriel, um dos presentes ecoou a opinião de muitos ao discordar do tratamento que a imprensa norte-americana vinha dando à Amazônia. Referindo-se a Paragominas, que mantém cerca de 60% de sua cobertura vegetal, ele disse: “Ao contrário dos Estados Unidos, nós ainda estamos abrindo o país. Aqui ainda tem 60% de nada.”

Nesse contexto, Paragominas é um experimento socioeconômico de grande importância. Se o pacto local resistir aos próximos anos, significa que é possível construir uma cultura duradoura de boas práticas ambientais. Como numa prova de conceito, estará demonstrado que nos próximos cem anos não precisaremos nos relacionar com a Amazônia como nos últimos cem.


[1]  O conceito de Amazônia Legal existe desde o início da década de 1950. Integram o território regiões com problemas socioeconômicos semelhantes. Seus limites foram alterados várias vezes, em seguida a mudanças na divisão política do país. Hoje ela engloba o território integral de oito estados – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins – e parte do estado do Maranhão, compondo uma área que corresponde a 58,9% do território brasileiro. Decorrente de um conceito político e não de um imperativo geográfico, a Amazônia Legal não se confunde com o bioma Amazônia, o qual se estende por 49% do território brasileiro. Além de abrigar toda a floresta tropical, a Amazônia Legal também abarca 20% do bioma Cerrado e parte do Pantanal mato-grossense.

[2]  Em agosto de 2019, a poucos dias de uma reunião do G7, o presidente francês Emmanuel Macron convocou seus pares para discutir os focos de incêndio que se multiplicavam pela Amazônia. “Nossa casa está pegando fogo”, disse, e por isso o tema devia ser enfrentado com urgência, já nas primeiras horas da cúpula. Bolsonaro o chamou de “sensacionalista” e o acusou de fazer uso político da situação; na semana seguinte, fez zombarias vulgares com a mulher de Macron.



João Moreira Salles

Documentarista, é editor fundador da piauí. Dirigiu Santiago, Entreatos e Nelson Freire, entre outros

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