A solidariedade secreta entre mulheres
Camille Lichotti recomenda um dos destaques literários do ano

INDICAÇÃO DE CAMILLE LICHOTTI
No final da década de 1940, em conversa com seu editor, a autora ítalo-cubana Alba de Céspedes definiu assim o livro que estava escrevendo: “Uma história de amor, mas vista dalla parte di lei (segundo ela)”. Estava decidido o título em italiano do romance Na Voz Dela, originalmente publicado em 1949 e traduzido neste ano para o português por Joana Angélica d’Avila Melo.
Escrito em primeira pessoa, o livro de fato narra a história de amor entre a jovem italiana Alessandra Corteggiani e Francesco Minelli. O relato, porém, não começa com o primeiro encontro do casal nem se restringe à vida conjugal. Alessandra primeiro conta sua própria história, a começar pela infância num bairro pobre de Roma, onde cresceu à sombra do irmão mais velho Alessandro, morto por afogamento meses antes de ela nascer. Desde então – incluindo o nome que lhe foi dado –, Alessandra é assombrada pela recordação indelével desse “irmãozinho defunto”, como um alter ego obscuro. Dominada pelo espírito masculino do irmão, a narradora atribui à presença dele os maus pensamentos que tem e as ações reprováveis e maléficas que pratica.
A relação mais interessante do livro, porém, é entre mãe e filha. Eleonora é uma pianista bonita e cheia de vida que está encerrada num casamento com um homem medíocre e autoritário. Quando contrariado, Frederico tem o costume de levar o dedo indicador à têmpora e girá-lo como se fosse um parafuso – um gesto silencioso que usava pelo prazer de irritar sua mulher e sua filha, rebaixando-as à condição de loucas.
Em uma das casas abastadas onde leciona piano, Eleonora se apaixona por um jovem violinista, iniciando um romance que desencadeia uma verdadeira operação da rede de mulheres do condomínio para proteger o segredo e ajudá-la a driblar a desconfiança do marido. Alessandra, que já adorava a mãe como uma figura divina, aproxima-se ainda mais dela durante esses meses de rebeldia.
Nesta parte do livro, o leitor é apresentado a um catálogo fascinante da relação entre aquelas mulheres. Das varandas, elas protegem-se umas às outras e, em silêncio, compartilham o tédio e as aflições do confinamento domiciliar. Naquele microcosmo, escreve a autora, “uma solidariedade mais forte que o parentesco as ligava”. Ao longo da obra, Céspedes percorre com naturalidade o complexo tema da amizade feminina. (Não por acaso, o livro serviu de inspiração para Elena Ferrante escrever sua tetralogia napolitana.)
Eleonora a certa altura se suicida. Após ser enviada para uma aldeia remota, Alessandra volta a Roma para cuidar do pai e servir-lhe como empregada doméstica. Tudo isso ocorre em meio à guerra, na Itália dominada pelo terror fascista. Alessandra, ao mesmo tempo que enfrenta seu inferno particular, lida com o horror dos bombardeios e o desaparecimento inexplicável de amigos antifascistas. A história de amor entre ela e Francesco, um professor universitário antifascista, ocupa menos da metade do livro, apesar de ser um evento crucial na vida da protagonista.
O trecho que mais me marcou é aquele em que Francesco, o noivo, vai à casa de Alessandra pedir a Frederico a mão de sua filha em casamento. Conversaram a sós, mas Alessandra percebeu de imediato a cumplicidade entre os dois homens. “Quando entrei, meu pai estava justamente falando daquele terreno, e me pareceu que negociavam a venda de um animal”, conta a narradora. “Meu pai acrescentou que eu era uma dona de casa razoável e que, no escritório, ganhava bem. Francesco riu. Odiei os dois. Servi-lhes café com rancor. Ao sair, Francesco disse: ‘É um bom homem’, e eu fechei a porta como fecharia para um estranho.”
Céspedes descreve com vivacidade o momento exato em que o encanto se desfaz e Alessandra testemunha o acordo tácito entre os homens, que se reconhecem como aliados e subjugam as mulheres. O casamento com um homem gentil parecia representar a salvação da realidade opressora de Alessandra sob a tutela do pai, mas a nova vida apresenta-se apenas como outro tipo de frustração. Por outras vias, Alessandra acaba cumprindo o mesmo destino de sua mãe e de sua avó – e provavelmente de toda a linhagem materna: vê sua história de amor terminar em uma tragédia digna de profecia grega.
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