questões cinematográficas

Alguma Coisa Assim – a espectadora da J26

O que teria levado aquela senhora a se isolar para assistir ao filme de Esmir Filho e Mariana Bastos?

Eduardo Escorel
02ago2018_07h30
À distância, a senhora isolada em seu canto, de óculos grandes de aro preto, parecia ser jovem. O que a teria levado a ir assistir <i>Alguma Coisa Assim</i>?
À distância, a senhora isolada em seu canto, de óculos grandes de aro preto, parecia ser jovem. O que a teria levado a ir assistir Alguma Coisa Assim? FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando entrei, a poltrona J26 estava ocupada. A sessão de 15h50, no domingo (29/7), ia começar e havia seis espectadoras na sala, esperando para assistir a Alguma Coisa Assim, produção brasileira/teutônica, com roteiro e direção de Esmir Filho e Mariana Bastos.

Mesmo durante a sessão, e ainda mais nos dias seguintes, perguntei a mim mesmo o que teria levado aquela senhora a se isolar na J26, na extrema direita da última fila, no canto superior da plateia em aclive. Teria sido para evitar que alguém pedisse licença para passar à sua frente? Ou para não correr o risco de ouvir a conversa de algum casal sentado por perto? Ou então, de um jovem acender a tela do seu celular durante a projeção?

Ou seria uma tentativa de assegurar sua própria concentração durante os oitenta minutos do filme? Ela seria admiradora de Esmir Filho e queria evitar a todo custo ser perturbada? Não sei.

Nenhuma dessas hipóteses parece provável, considerando que, dos 126 lugares disponíveis, 120 estavam livres, o que é uma taxa de ocupação de 4,76%, insuficiente para provocar maiores perturbações na sala.

A verdade é que Esmir Filho tem credenciais suficientes para mobilizar mais espectadores do que uma única admiradora solitária. Seu primeiro longa-metragem, Os Famosos e os Duendes da Morte, de 2010, “é uma rara demonstração de criatividade e talento”, conforme escrevi quando de seu lançamento (ver post “Criatividade e talento – Esmir Filho, um diretor ambicioso”, 9/4/2010). “A solidão dos adolescentes do filme”, comentei na ocasião,  “chega a doer. Vivem isolados, mantendo contatos virtuais, e ouvindo música através de ear-phone. Conversam e fumam, à noite, sentados no meio-fio. Têm o ideal inalcançável de assistir a um concerto de Bob Dylan, mas acabam mesmo dançando com a própria mãe, viúva, na festa junina.

A ponte de madeira da pequena cidade em que vivem é, ao mesmo tempo, local de onde suicidas se atiram e passagem para a libertação do mundo que os oprime.”

Passados oito anos, Esmir Filho ressurge, agora em parceria com Mariana Bastos. É muito tempo entre um filme e outro, sinal de que o talento demonstrado em Os Famosos e os Duendes da Morte não propiciou muitas oportunidades profissionais, salvo a série de tevê Tudo o que É Sólido Pode Derreter, de 2010, e o curta-metragem Sete Anos Depois, de 2014, que deu origem a Alguma Coisa Assim.

À distância, e na meia penumbra do cinema, a senhora isolada em seu canto, de óculos grandes de aro preto, parecia ser jovem. Trinta e muitos anos, talvez. O que a teria levado, então, a ir assistir Alguma Coisa Assim? Seria ela mesma da equipe? Conheceria Caroline Abras ou André Antunes, os atores principais nos papéis do casal Mari e Caio?

E as outras cinco espectadoras? O que as terá levado ao cinema para assistir àquele filme? Afinal, não há nada de particularmente atraente, em princípio, nas peripécias afetivas de um casal moderninho, ao longo dos dez anos em que transita entre São Paulo e Berlim. Tampouco chega a ser cativante a forma narrativa cíclica que vai da balada inicial ao bate-estaca de encerramento.

Para que o espectador consiga se situar no tempo e no espaço, Alguma Coisa Assim recorre a legendas, recurso legítimo mas revelador da insuficiência do roteiro em dar conta de maneira orgânica do período e local da ação. Isso, sem que a identificação da cidade e do ano sequer consiga situar com clareza onde e quando as sequências se passam, revelando-se portanto dispensáveis.

Ao que consta, o filme resulta mesmo da reunião de filmagens feitas em épocas diferentes, com finalidades diferentes, parecendo resultar daí a desconexão entre suas diferentes épocas e caracterizações, em especial a de Caio.

 

Apesar de relativamente curto, passado mais de metade do filme, é com dificuldade que Alguma Coisa Assim chega à sequência de comunhão de Mari e Caio com a natureza, a partir da qual, ao contrário da harmonia que parecem alcançar, precipita-se a crise do casal e o final da estadia berlinense.

O tom da interpretação de Caroline Abras (Mari) na primeira metade do filme, que um crítico considerou “espontâneo”, nos parece, antes, monocórdico – ela não para de rir, sem que se saiba muito bem de quê. André Antunes (Caio), de seu lado, além de frágil para ser par de Caroline Abras, em nenhum momento transmite credibilidade como pesquisador de fertilização in vitro.

Como a senhora da J26 terá reagido a Alguma Coisa Assim? Não deve ter deixado impressão favorável a interrupção da projeção por alguns minutos, depois de um trecho do filme ser exibido aos solavancos, sem que ninguém do cinema tomasse qualquer providência.

De quinta a domingo, de 26 a 29 de julho, em 26 cinemas do país, Alguma Coisa Assim foi visto por 1 762 espectadores, 68 pessoas em média por sala, encerrando o mês de julho que, segundo as estatísticas, teve um dos piores resultados de bilheteria dos últimos três anos.

Alguma Coisa Assim não parece ser um filme capaz de reverter esse quadro.  

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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