colunistas

Bloqueio – caminhoneiros em greve

Incertezas retratadas no documentário são referência para entender as mudanças políticas no país

Eduardo Escorel
12dez2018_11h38

Domingo, 27 de maio, sétimo dia da greve dos caminhoneiros. Victória Álvares e Quentin Delaroche reagem ao apelo do evento e, equipados para gravar, vão a Seropédica, na região metropolitana do Rio de Janeiro, um dos mais de 500 locais de bloqueios em estradas Brasil afora.

Setembro. O documentário Bloqueio, codirigido por Álvares e Delaroche, estreia no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e é exibido, em novembro, na 11ª Janela Internacional de Cinema do Recife, no Forumdoc.bh e na 10ª Semana de Cinema, no Rio.

Ter chegado à tela em apenas quatro meses foi um feito extraordinário, por si só digno de louvor. Ao estrear em Brasília, pouco antes do primeiro turno da eleição presidencial, o flagrante captado à beira da BR-465, a setenta e poucos quilômetros do Rio, ainda preservava sua atualidade e Bloqueio permitia vislumbrar quem tinha sido e o que pensava um grupo de grevistas.

É preciso admitir, porém, que Álvares e Delaroche não escaparam de todo da síndrome do atraso que acomete documentários, em geral, brasileiros, em especial. Quando a dupla de realizadores chega a Seropédica, a greve está nos estertores. O fim da paralisação é esperado depois de um primeiro acordo com representantes de entidades dos caminhoneiros não ter sido cumprido e novas medidas para atender as reivindicações dos grevistas terem sido anunciadas pelo governo federal.

Mesmo assim, o registro feito em Bloqueio, com Álvares cuidando do som e Delaroche fazendo a fotografia – é valioso. Foram captados na voz dos próprios motoristas não apenas os motivos de insatisfação que os levaram a paralisar o tráfego de caminhões. Além disso, a gravação revela as principais ideias-força que mobilizaram os caminhoneiros e os levavam a manter as centenas de bloqueios pelo país.

Patriotices habituais nessas ocasiões não deixaram de se manifestar na greve de maio – a bandeira do Brasil hasteada em mastros precários, pendurada em caminhões, carregada, enrolada nos corpos ou pousada nos ombros de manifestantes; o Hino da Independência – “Ou ficar a Pátria livre/Ou morrer pelo Brasil” –, no início, depois a canção do torcedor – “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…” – e, perto do final, a plenos pulmões, o Hino Nacional, com manifestantes prestando continência e levantando o braço esquerdo. Mas, ainda mais significativas são as declarações e palavras de ordem gravadas durante os 3 ou 4 dias que Álvares e Delaroche parecem ter ficado em Seropédica.

Passados sete dias de greve, quase não há referência direta aos candidatos a presidente, nem à campanha em si mesma. As palavras de ordem predominantes parecem ser “Intervenção militar já” e “Brasil acima de tudo”. Em retrospecto, o apelo às Forças Armadas e o slogan, mesmo incompleto, da coligação partidária que seria vitoriosa em outubro, prenunciavam o resultado da eleição. O bordão completo – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!” – harmonizava com habilidade o brado da Brigada Paraquedista do Exército com a convicção da superioridade de Deus.

Logo no início da gravação, o voluntarismo dos grevistas fica claro em um trecho da mensagem de um caminhoneiro que Bloqueio mostra ao ser enviada através do celular de outro manifestante: “[…] Não é só a gente que tá brigando, caminhoneiro, não. É os taxistas, perueiros, é os caminhoneiro. Olha só: os motociclistas. Tão tudo vindo pra cá brigar. Se os taxistas parasse, se os motociclistas parasse, nós vamos vencer essa luta aqui e nós vamos conseguir tirar esse governo ladrão. E nós chegamos até aqui agora junto com cada um. Cada um aqui é o primeiro manifestante. É só você vir para cá. Vem. O Brasil é nosso. Vem pra cá. Vem. Vem com a gente.”

Cena do documentário Bloqueio



Voluntarismo de muitos, ambiguidade de alguns – defensores de uma intervenção militar recusam o autoritarismo: “Não quero ditadura. Não quero nada disso. Só que a gente não tá vendo mais nada que possa ajudar a gente. […] Só um militar tinha que tomar o poder para tirar todos eles. Senado, Congresso, fechar tudo. Depois devolver.”

Apelo às Forças Armadas, proclamação evangélica, crítica ao “governo ladrão”, ataques à Rede Globo etc. compõem o ideário dos grevistas. Agregam-se rejeição aos partidos, falta de representatividade dos sindicatos, políticos oportunistas e corruptos, “governo pilantra” etc. – visão que demonstrou ser majoritária na eleição presidencial, mas que durante a greve ainda não fora reconhecida como sendo dotada de semelhante poder persuasivo.

Presença previsível em greves como a dos caminhoneiros, uma militante, jovem professora da rede Municipal, identificada como sendo do PSOL, tenta indicar a um grevista, sem sucesso, a contradição contida no apelo aos militares: “Como é que eu vou fazer para melhorar meu salário? Na ditadura você não pode fazer protesto. Estou te falando assim, pra gente pensar junto. Viemos aqui para apoiar os caminhoneiros.”

Mesmo superada a hostilidade inicial desse diálogo, persiste um desencontro abissal nessa aproximação. Em outro momento, a professora e outro caminhoneiro voltam a falar da intervenção militar: “Isso aí, eu acho que não é a pauta de vocês. Esse socorro, eu não acredito que vá resolver”, ela diz. “É o nosso socorro. A gente tá algemado, praticamente. Isso aí é a nossa esperança”, responde o caminhoneiro.

“A minha esperança é outra. A gente junta um pessoal nosso: caminhoneiro, professor, metalúrgico, petroleiro e a gente cria uma coisa que nunca existiu, sem militar.” Ao voluntarismo de uns e ambiguidade de outros, soma-se a ilusão da professora.

Bloqueio deveria estar disponível para público mais amplo do que o dos festivais onde foi exibido. Ainda mais agora, quando circulam notícias de que poderá ser decretada nova greve de caminhoneiros. Álvares e Delaroche fizeram sua parte – captaram a paralisação a quente, finalizaram o documentário em pouco tempo e deram início logo à sua difusão. Além disso, acredito que as incertezas do evento que perenizaram em Bloqueio são neste momento, e serão no futuro, referência essencial para entender a mudança política que vêm ocorrendo no país. Querer mais de uma dupla de documentaristas seria pedir demais.



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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