questões eleitorais

Candidatos que não desistem nunca

De cada dez que tentam uma vaga de deputado federal, quatro já disputaram pelo menos uma vez mas jamais se elegeram; são os renitentes da urna

Alexandre Aragão
11set2018_13h33
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Há candidatos que são loucos pela urna. Repetem a mesma busca por votos na expectativa de obterem resultados diferentes. Uma vez, outra, mas nunca chegam lá. O cantor Edson da Paz, que costuma se apresentar nas ruas e bares de Aparecida, no interior paulista, é um deles. Ele é o único dos candidatos a deputado federal neste ano que concorreu a diferentes cargos – e sempre perdeu – em todas as últimas dez eleições, de 1998 para cá. Nesta campanha, aos 66 anos, nem um acidente vascular cerebral, que sofreu em agosto, foi capaz de pará-lo. “O Edson passou mal, mas agora está se recuperando, já está em casa. Na próxima semana volta para a campanha”, disse sua companheira, Lú Miranda, que também é cantora e gerencia a carreira artística do candidato.

Com passagens por Prona, PSC e PDT, e agora no PT, o candidato Da Paz persiste. Já tentou ser vereador em Aparecida, deputado estadual, deputado federal, de vinte anos para cá sua foto esteve sempre na urna. E sempre sem sucesso. Ele faz parte do grupo dos 3 332 candidatos (40% do total de 8 420 postulantes à Câmara) que já disputaram uma ou mais eleições, mas nunca venceram. É o cordão dos renitentes – políticos que já concorreram, sem jamais terem sido eleitos. Neste ano, a maioria deles (1 790 candidatos, 54% dos renitentes) chega com duas ou mais disputas no currículo. Os números são de um levantamento da piauí feito com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral desde as eleições de 1998.

Esse tipo de candidato se subdivide em dois grupos: aqueles que já tentaram cargos majoritários e agora buscam a Câmara; e aqueles que sempre tentam uma vaga no Legislativo, seja municipal, estadual ou federal, mas nunca conseguiram sobressair em meio às milhares de opções.

Em toda a carreira, Levy Fidelix (PRTB) disputou quinze eleições. Candidatou-se a vereador, deputado estadual e federal, prefeito de São Paulo, governador do estado e presidente da República. É uma cara conhecida, mas nas urnas nunca venceu. Nos últimos vinte anos, só pulou a eleição do ano 2000. Agora, com recall em relação a 2014 – quando participou dos debates presidenciais –, espera alcançar o sonho do gabinete próprio. “Tenho certeza de que terei votação expressiva, estimo de 1,5 milhão a 2 milhões de votos, especialmente com a força da internet”, disse Fidelix à piauí, sem se importar com seu histórico eleitoral. Presidente nacional de seu partido, ele abriu mão de concorrer à Presidência para apoiar Jair Bolsonaro (PSL) e emplacou o vice da chapa: o general da reserva Hamilton Mourão, que é filiado ao PRTB. Com isso, o renitente candidato espera que, num futuro governo do ex-capitão, terá “todo o respaldo para pleitear a presidência da Câmara”, a fim de “assegurar melhor governabilidade”.

Como o PRTB, há cinco partidos nanicos em que mais da metade das opções à Câmara é de candidatos renitentes: PCB (67% dos candidatos já disputaram, sem nunca vencer), PSTU (61%), PTC (56%), PSOL (52%) e DC (51%). Em termos absolutos, PSOL (com 278 de seus 531 candidatos) e Patriota (174 de 364) são os que têm mais candidatos com esse perfil. Mas isso não significa que não haja dessa figuras conhecidas – e até aqui rejeitadas nas urnas – nos partidos grandes.

 

Um conhecido de eleições passadas que voltou neste ano é o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, que disputou em 2014 e agora tenta uma vaga na Câmara. Petista desde o movimento estudantil, ele ascendeu nos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016) sem concorrer a cargos. Foi assessor da Secretaria de Relações Institucionais, em 2005, e quatro anos depois chegou a ministro. Em 2014, ficou na terceira colocação ao governo paulista, com 3,8 milhões (18%) dos votos válidos, atrás de Paulo Skaf (MDB), com 4,6 milhões (22%), e do presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB), que foi eleito no primeiro turno com 12,2 milhões de votos (57%).

Desta vez, o ex-ministro usa a saúde como plataforma, e defende a descriminalização do aborto e regulamentação da maconha medicinal e recreativa. “A disputa parlamentar permite que você possa ser mais afirmativo nas suas posições políticas do que em uma eleição majoritária, em que você tem que trabalhar muito mais com o consenso da coligação ou temas mais gerais”, disse o candidato a deputado, que substituiu o “alô” ao atender o telefone pelo “Padilha-treze-cinco-quatro”. “A Câmara dos Deputados se transformou numa casa de interesses absolutamente conservadores ou interesses privados”, prosseguiu o petista. “Acho que houve um movimento dentro do PT de compreender que parte importante da disputa política do país, da disputa sobre o rumo das instituições, está concentrado na Câmara”, afirmou, lembrando o impeachment de Dilma.

Já no caso de Renato Reichmann, se hoje ele é só um renitente na lista de candidatos a deputado, em 2006 foi o escolhido para concorrer ao governo de São Paulo por uma sigla à época ascendente: o Prona. Aquela foi a última eleição de Enéas Carneiro, que, em tratamento contra um câncer, recebeu 387 mil votos e foi o quarto deputado federal mais votado em São Paulo, embalado pelo slogan “com barba ou sem barba, meu nome é Enéas”. No horário eleitoral, o candidato ao governo tentava emular o modo de falar do padrinho político: “Meu nome é Renato Reichmann, governador, cinquenta e seis”, repetia. Depois, em 2008, quando migrou para o PMN e disputou a Prefeitura de São Paulo, Reichmann não chegou a 1% em nenhuma pesquisa de intenção durante a campanha. De lá para cá, passou pelo PP e, agora, disputa a Câmara pelo quarto partido da carreira, o PSDB.

É justamente na ideia de uma reinvenção que alguns candidatos apostam. Natural de Guaxupé – município no Sul de Minas Gerais onde foi gravada parte da novela O Rei do Gado –, Antônio de Oliveira Filho já disputou seis eleições com o apelido do personagem de Antônio Fagundes. Desta vez, mudou de estratégia e anexou um prenome: Zé Rico Rei do Gado. “Eu faço cover, tenho o visual, a voz mais ou menos, uso óculos, anéis, tudo. Como o Zé Rico é falecido há pouco [em 2015], pensei em aproveitar que as músicas dele, vamos dizer assim, estão na moda, então eu coloquei Zé Rico”, contou o candidato. Desde a última vez que disputou, em 2010, ele mudou do PTB para o Patriota, um dos partidos com mais renitentes. “Estive um tempo parado porque meus filhos faziam faculdade. Na eleição a gente acaba gastando dinheiro, achei melhor esperar”, disse. Nesta campanha, ele torce para que o novo nome mude sua sorte. “Vamos tentar, vamos ver no que dá.”

Alexandre Aragão (siga @araga0 no Twitter)

Alexandre Aragão é jornalista e mora em São Paulo. Foi repórter do BuzzFeed News, da Folha de S.Paulo e da Veja

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