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Canibais, venenosas e fascinantes

    O esplendor de uma aranha da Austrália, cujo tamanho é menor que um grão de arroz: se as aranhas raramente causam efeitos nocivos em humanos, por que tantas pessoas têm pavor delas? CRÉDITO: SPIDERS OF PARADISE: MARATUS KARRIE_©MARIA FERNANDA CARDOSO_2021

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Canibais, venenosas e fascinantes

Estima-se que haja mais de 15 quadrilhões de aranhas no mundo. Podemos aprender a amá-las?

Kathryn Schulz | 17 out 2025_15h52
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Em parte enciclopédia, em parte livro ilustrado para se folhear na sala, The lives of spiders (A vida das aranhas) é uma obra insólita e surpreendente. Escrito por Ximena Nelson, professora de comportamento animal da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, traz pequenas biografias de quarenta espécies distintas de aranhas.

Esse número representa apenas uma fração minúscula do total de aracnídeos. Até hoje, conhecemos cerca de 50 mil espécies de aranhas, mas os cientistas supõem que o número real seja pelo menos o dobro. O número de aranhas individuais deve ultrapassar 15 quadrilhões.

Elas não estão distribuídas de maneira uniforme por todos os ecossistemas, é claro, mas não há como escapar delas – exceto na Antártida. Assim como nós, as aranhas são geograficamente intrépidas. Elas proliferam em florestas tropicais, florestas temperadas, florestas boreais, campos, áreas úmidas, desertos, savanas, estepes, cavernas, montanhas, pântanos e brejos.

Se a reação do leitor agora é jurar que vai renunciar às delícias do ar livre para passar mais tempo dentro de casa, ele estará subestimando a sua inimiga: uma pesquisa recente no estado da Carolina do Norte encontrou aranhas em 100% das residências, como conta uma reportagem na edição deste mês da piauí.

As aranhas variam de 0,2 mm a 12 cm de largura – mas isso é só o tamanho do corpo, pois os aracnólogos em geral não incluem as pernas ao descrever o tamanho de uma aranha. (Para compreender como essa prática descritiva é psicologicamente falha, considere a aranha-caçadora-gigante: tecnicamente tem 2,5 cm de comprimento, o que já é bem ruim, mas contando as pernas, a criatura mede 30 cm de ponta a ponta.) Outras características também têm variações extremas. Algumas aranhas vivem menos de um ano, tal como as efeméridas. Outras podem viver mais de quarenta anos, como os camelos. Algumas têm oito olhos; outras não têm nenhum. Algumas fêmeas botam um único ovo, enquanto outras botam mais de 3 mil.

Todas as aranhas são predadoras. Há uma exceção parcial a essa regra: Bagheera kiplingi, uma aranha majoritariamente herbívora, nativa do México e da América Central. De modo geral, o apetite delas se distingue por ser espetacularmente carnívoro. Em conjunto, as aranhas consomem pelo menos meio bilhão de toneladas de carne por ano – mais que a quantidade consumida pelos seres humanos.

O que essas vorazes criaturas carnívoras consomem? Insetos, é claro, mas também peixes, girinos, sapos, lagartos, e um ou outro vertebrado – camundongos, musaranhos, ratos-do-campo, morcegos. Outra coisa que elas comem com grande prazer são outras aranhas. Todas as variedades conhecidas praticam o canibalismo, algumas com grande entusiasmo, em geral durante ou logo após o acasalamento, sendo que quase sempre é a fêmea que devora o macho.

As aranhas possuem um conjunto completo de características e habilidades mortíferas: são capazes de emboscar, capturar, atacar em grupo e enganar a presa. Para isso, são dotadas de uma destreza cognitiva muito maior do que se pode imaginar, além de exibirem estruturas semelhantes a dentes, garras tarsais e presas. Mas as armas mais eficazes da aranha, e mais essenciais para a sua reputação feroz, são os equivalentes aracnídeos do “punho de ferro em luva de veludo”: o veneno e a seda. Segundo Ximena Nelson, existem mais espécies de aranhas venenosas do que o total de todos os outros animais venenosos.

Além de mostrar as proezas de várias espécies, a autora propõe uma nova maneira de compreender toda a ordem dos aracnídeos. Sempre difamadas não só como repulsivas, mas também como nada inteligentes e movidas apenas pelo instinto, a verdade é que as aranhas são capazes de aprender, tomar decisões, orientar-se no espaço com métodos sofisticados e até reconhecer quantidades. Engenheiros estão estudando a mecânica peculiar dos movimentos delas para projetar robôs e próteses humanas. Designers ópticos estão analisando os sistemas visuais das aranhas para criar lentes cada vez menores, com profundidade de foco e alta resolução. Pesquisadores de todas as áreas, desde a biomedicina até a ciência dos materiais, estão tentando sintetizar a seda das aranhas, dada a sua combinação incomparável de leveza, resistência e elasticidade.

Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.

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