anais da violência

“Chegou sem vida” 

As últimas horas de Dennys Franco, uma das nove vítimas de Paraisópolis, até dar entrada morto no hospital

Amanda Rossi
20dez2019_07h57
Intervenção de Paula Cardoso sobre fotos e documento cedidos pela família de Dennys Franco

Chegou sem vida.” A frase está assinalada com um “x” na ficha de óbito de Dennys Franco, 16 anos, no Sistema Único de Saúde. Atendente de telemarketing e estudante do primeiro ano do ensino médio, o adolescente estava no baile funk da DZ7 (pronuncia-se “dezessete”), na favela de Paraisópolis, em São Paulo, na madrugada de primeiro de dezembro, quando nove pessoas morreram após ação da Polícia Militar. “Paciente trazido em PCR (parada cardiorrespiratória) por PMs, resgatado após situação de pisoteamento em ‘pancadão’”, acrescenta o documento médico. A equipe do pronto-socorro do Hospital Municipal do Campo Limpo ainda tentou ressuscitar o adolescente com massagem cardíaca, sem sucesso. Às 5h30, três minutos antes que a ficha de entrada na emergência fosse concluída, Dennys teve o óbito confirmado. Uma hora e doze minutos antes, às 4h18, foi feito um pedido de ambulância para socorrer os jovens de Paraisópolis. Às 4h47, a ambulância foi cancelada, sob justificativa de que a PM já havia prestado socorro às vítimas. As nove pessoas levadas ao hospital pelos policiais morreram, e Dennys Franco era uma delas. A piauí reconstituiu as últimas horas da vida de Dennys, a partir de documentos, do relato de oito pessoas que estavam no baile funk e da busca da família por respostas. 

Na noite de sábado, 30 de novembro, Dennys Franco saiu de casa, na Vila Matilde, Zona Leste, a quase trinta quilômetros de Paraisópolis, para curtir um dos bailes funks mais famosos de São Paulo. Antes de pegar metrô e trem, atravessou a rua rumo à casa da irmã. “Tira uma foto?”, pediu a Fernanda Garcia. Dez anos mais velha, a irmã cuidou de Dennys como filho, enquanto a mãe trabalhava como doméstica. Agora, era Dennys quem ajudava na casa. De segunda-feira a sexta-feira, partia para o trabalho às 6h50. O salário de R$ 800 ajudava a pagar as contas da família. Às 17h, pegava o irmão mais novo na escola. Depois, ficava com o sobrinho até Fernanda chegar do trabalho. À noite, ia para a escola. Negro, magro, beirando 1,80 metro de altura, o adolescente vestia naquela noite um boné branco com a inscrição “Lacoste” e casaco moletom vermelho com o jacaré da marca, uma das favoritas do funk paulista. A tiracolo, um guarda-chuva com estampa da Nike. “Vai com Deus”, disse Fernanda. Eram por volta de 22h30. 

Em diferentes pontos da Região Metropolitana de São Paulo, milhares de adolescentes e jovens partiram de suas casas com o mesmo destino. De madrugada, o DZ7 ficou lotado, com um público estimado em cinco mil pessoas espalhadas pelos arredores da Rua Ernest Renan, o coração do baile. A festa de rua iria durar até o dia amanhecer – para desespero dos vizinhos e satisfação de vendedores ambulantes. Dennys estava com um grupo de cerca de oito amigos. Um deles, de 16 anos, foi ouvido pela piauí sob condição de anonimato. 

O baile da DZ7 estava animado. Mas Dennys estava calado, com o semblante fechado, o que surpreendeu os amigos. “Tá tranquilo?”, perguntou um deles. “Tá tranquilo, pode ficar suave”, respondeu Dennys. A resposta não convenceu. “O Dennys sempre gostou de usar o guarda-chuva dele no baile. E, nesse dia, ele nem abriu o guarda-chuva. Ficou com ele fechado”, conta o colega. No funk paulista, é moda levar guarda-chuva de marca para os bailes e “fazer vento”, sacudindo o objeto aberto para cima e para baixo.

Durante a madrugada, o som chegou a parar algumas vezes, por causa de passagens breves da PM pela festa, mas voltou logo em seguida. Em uma dessas ocasiões, Dennys e os colegas correram da polícia e pararam em um bar nas proximidades, para aguardar a festa voltar. Ali, um dos amigos gravou um vídeo, por volta das duas da manhã. “DZ7 moiado”, diz o rapaz. Na gíria do funk, o baile fica “molhado” quando a polícia chega para dissipar a festa. Dennys aparece na filmagem, compartilhada com sua família. Olha para a câmera, faz o sinal de hang loose e sorri. “Denão”, diz o jovem que segura a câmera, chamando Dennys pelo apelido. “Bravo dos bravos”, responde ele. 

Até que, às 3h49, o rumo do baile mudou para não mais voltar ao normal. Naquele minuto, um veículo da PM se aproximou velozmente da rua principal da DZ7, segundo registros de uma câmera de segurança. Logo depois, chegou um segundo carro da corporação. As imagens mostram ainda que, às 4h, um policial lançou uma bomba no asfalto. 

A versão da polícia é que dois ocupantes de uma moto ultrapassaram um comboio de seis motocicletas da PM e começaram a atirar. Em seguida, começou uma perseguição – informada por alerta de rádio emitido às 3h41 para o Comando de Operações da Polícia Militar. Os suspeitos teriam entrado no pancadão e provocado correria. “Os indivíduos adentraram em uma multidão que participava de um baile funk que ocorria na via pública e continuaram a efetuar disparos de arma de fogo”, afirma o boletim de ocorrência. Ainda segundo a PM, a multidão atirou garrafas contra os policiais, “sendo necessário uso moderado da força com emprego de cassetete e munição química”. Participaram da ocorrência 38 PMs. O número de viaturas não foi informado e os GPS estão sendo analisados nas investigações. 

A versão de testemunhas civis ouvidas pela piauí é diferente e unânime: não houve tiroteio no baile, nem arremesso de garrafas contra os policiais. Em vez disso, a polícia teria se posicionado nos dois cruzamentos da Rua Ernest Renan no espaço de um quarteirão –  um deles aparece nas imagens da câmera de segurança. Assim, o público da DZ7 teria ficado encurralado. Em fuga, uma multidão correu para a Viela do Louro, que se inicia na rua do pancadão, no meio desse mesmo quarteirão. 

 

Estreita e escura, a Viela do Louro é conhecida pelos frequentadores do baile como “viela do mijo”. Seu primeiro trecho é formado por uma escadaria de dez degraus por três metros de largura. Quem desce a escada desemboca em um corredor de trinta metros de comprimento, ladeado de muros sem portas, apenas doze janelas gradeadas ou basculantes – portanto, sem possibilidade de escape. Ao final, se abre em outros três becos, que também teriam sido cercados pelos policiais. 

Na viela, o odor do gás lacrimogêneo atirado pela polícia se misturou com o cheiro forte de urina. Um cano de água estourou, deixando as pessoas encharcadas. “Socorro, estou sem ar!”, escutou uma pessoa que trabalha como vendedor no baile, em meio a estampidos de bombas de efeito moral e gritaria. “Eu vou morrer, me ajuda”, escutou um jovem de 19 anos que estava no funk, vindo de outro bairro da Zona Sul. Ferido na perna durante a correria, foi abrigado por um morador de Paraisópolis, cuja casa dá para a Viela do Louro. 

“Parecia que tava todo mundo do baile dentro da viela”, diz o rapaz. “Todas as saídas daquele beco estavam fechadas com polícia. Então, quem passasse, apanhava. Tinha gente que não passava. E tinha gente que via [a polícia], voltava e contava [para quem tinha ficado]. Aí, as pessoas ficavam mais desesperadas, era um empurra-empurra”, continua. Da laje da residência, ele viu grande parte da confusão. 

“Se você fosse contra a multidão você se lascava, se fosse contra a polícia você apanhava”, relatou Caio Bernardino, 18 anos, de Mogi das Cruzes, Grande São Paulo, que correu pela rua principal, sem entrar na viela. A piauí conversou com sete pessoas que estavam na DZ7 naquela madrugada – 3 jovens de Mogi das Cruzes, 1 adolescente da Zona Leste, 1 jovem de outro bairro da Zona Sul, 1 adolescente de Paraisópolis e 1 pessoa que trabalha no baile. Também ouviu o relato enviado por um amigo de Dennys para a família do adolescente. Bernardino foi o único que aceitou ter o nome completo divulgado. “Tem amigo meu que está com medo, devido ao acontecido ser contra a polícia do nosso Estado. Ninguém quer debater com a polícia. Para depor, vou ser só eu mesmo. Mas eu não tenho medo. Medo por quê? Eu não faço nada de errado”, rebate o jovem, que estava no baile com Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, uma das nove vítimas.

“Os polícias ‘moiou’ a primeira vez, não deu nada. ‘Moiou’ a segunda, não deu nada. Na terceira, eles vieram dando tiro de borracha, jogando bomba de gás, dando cacetada. Eles conseguiram encurralar todo mundo no beco”, relatou um amigo de Dennys, em áudio enviado à família do adolescente, horas depois. Não era a primeira vez que os colegas fugiam da polícia pela Viela do Louro naquela noite. Esse tinha sido o trajeto usado para chegar ao bar onde gravaram o vídeo – a 155 metros da escadaria do beco.

No meio da confusão, os amigos de Dennys se perderam uns dos outros. “Eu achava que estava sozinho no beco. Eu e Deus. Do nada, eu senti alguém puxar a minha camiseta. Na hora que eu olhei, era o Dennys. Estava todo mundo sem ar, sendo pisoteado, massacrado. Todo mundo em cima de nós”, continuou o amigo de Dennys, na mensagem para a família do rapaz. Dennys estava passando mal e pediu ajuda. Mas o amigo não pôde ajudá-lo. Novamente, os dois se perderam entre a multidão. 

 

A escadaria era o trecho mais crítico da viela. “As pessoas foram caindo umas em cima das outras, como dominó, desde lá de cima até o último degrau”, narrou outro frequentador do baile, de 18 anos e também morador de Mogi das Cruzes. Ele ajudou um colega que ficou preso nos degraus mais baixos da escada. “As pessoas que estavam embaixo dele agarravam na minha perna.” Outro de seus amigos, Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos, morreu naquela madrugada.

A seguir, a PM teria se posicionado na entrada da viela, onde se inicia a escadaria, e mandado as pessoas saírem. Um vídeo de um minuto divulgado pelo jornalista André Caramante no Twitter mostra esse momento. A rua principal do funk está vazia – é possível ver apenas quatro policiais. Então, jovens começam a sair de dentro da viela, subindo a escada, correndo. Muitos estão com as mãos para o alto. Alguns recebem golpes de um PM com algo que parece uma barra ou um cassetete. Ao longo da gravação, ouvem-se mais de dez estouros. Vozes masculinas gritam: “vai embora”, “vai caralho”, “vai porra”, “vai embora filha da puta”, “vai morrer… vai morrer todo mundo”. 

Entre as pessoas que correram por esse trecho mostrado no vídeo estava uma adolescente de 17 anos, moradora de Pirituba, Zona Norte, que ficou ferida na ação. No dia seguinte, ao sair do hospital onde foi atendida, ela afirmou que um policial teria desferido uma garrafada contra sua cabeça, sendo preciso tomar cinquenta pontos. “Ela estava quase desmaiando. Perdeu muito sangue. Minha blusa ficou toda suja com o sangue dela”, contou outra adolescente, de 16 anos, moradora de Paraisópolis, que encontrou a jovem ensanguentada na rua e a levou para a unidade de saúde da favela. Antes, telefonou para a mãe da menina. Eram 4h14, mostra o registro do celular da jovem. As duas adolescentes ficaram juntas até que a mãe da que estava ferida percorresse os mais de 20 km que separam Pirituba do pronto-socorro de Paraisópolis. 

Às 4h18, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado por uma jovem de 21 anos, que estava no baile e ficou ferida na ação policial, segundo revelou a Rede Globo. A Polícia Militar também solicitou apoio de resgate. O pedido foi feito, também de acordo com a Rede Globo, após vinte minutos sem comunicação dos policiais com o Centro de Operações. As mensagens anteriores tratavam da perseguição a uma moto. “Chama a atenção que, em vinte minutos, uma ocorrência de perseguição tenha se transformado em uma ocorrência de controle de distúrbio. É uma demonstração inequívoca de que a segunda ocorrência foi improvisada e precipitada. Em vinte minutos, não se planeja intervenção em local com cinco mil pessoas. Uma intervenção dessa precisa ser muito planejada, com rota de dispersão do público”, diz o ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano.

Um vídeo gravado dentro da viela mostra frequentadores do baile auxiliando as vítimas, depois que grande parte da multidão já tinha deixado o local. Nas imagens, é possível ver duas das nove vítimas deitadas no chão, no pé da escada, aparentemente desmaiadas. “Grava não, grava não!”, diz um rapaz. “Isso grava (…) aí o que esses caras [da polícia] faz”, retruca outro. “Da laje do morador, dava para ver muitas pessoas caídas, machucadas, pedindo socorro. A gente jogou uma garrafa de água para uma pessoa que estava bem. Ela pegou e começou a ajudar outras pessoas”, conta o jovem que, abrigado por um morador ao lado da viela, viu tudo da laje.

Mas, às 4h47, com a ambulância a caminho, o pedido foi cancelado pela Central de Operações do Corpo de Bombeiros, ainda segundo documento do Samu revelado pela Rede Globo. O motivo: a PM já teria socorrido as vítimas. 

O rapaz que, no tumulto, teve a camiseta puxada por Dennys ainda o veria mais uma vez naquela noite, segundo relatou à família do amigo. Ele não lembra, porém, a hora exata. “Foi quando eu consegui sair do beco. Ele estava, eu acho, desmaiado. Os policiais não me deixaram ajudar. Falaram: ‘Deixa ele aqui, que dele nós cuidamos.’ Até então, o Dennys ficou na responsabilidade dos policiais”, afirmou, na mensagem enviada para a mãe do adolescente.

Na mesma mensagem, o amigo conta: “Corremos para dentro dessa viela porque eles [os policiais] fecharam tudo e estavam muito agressivos. Eu falo com total certeza: o que [os policiais] falaram, que foram recebidos com garrafas, é men-ti-ra. Não tinha uma alma viva que não estava com medo da ação da Polícia Militar naquela noite. Uma alma viva que ia levantar a mão para fazer algo contra um policial militar.”

A adolescente que prestou socorro à jovem ensanguentada voltou para casa a pé, depois que a mãe da menina chegou ao pronto-socorro. Pelo caminho, passou pela rua da DZ7 onde a confusão tinha acontecido. Era pouco depois de 4h38, segundo registro de ligação do seu celular feita ao sair da unidade de saúde. Naquela altura, a viela havia esvaziado. Restavam apenas pessoas caídas no chão e gente ajudando. “Eu vi o Dennys. Ele estava caído. A gente não se conhecia, mas acho que era ele sim, por causa da foto que passou no jornal.” A jovem ainda se lembra de ver policiais na rua principal, mas não dentro da viela.

Outra testemunha, moradora de Paraisópolis, também viu pessoas caídas na viela: “Tinha um menino com os lábios bem roxos. Acho que já estava morto. Eu não vou dar depoimento, porque o próprio governador está do lado dos policiais violentos”, continua. A testemunha viu ainda quando os policiais militares começaram a colocar as vítimas nas viaturas. Observou, inclusive, quando dois rapazes foram postos no mesmo camburão. Era por volta de 4h50 – naquele momento, a moradora tentava fazer sua terceira chamada para o Samu, mostram os registros do seu celular. No boletim de ocorrência 8608, lavrado às 10h21, policiais informaram que seis viaturas foram usadas no resgate das nove vítimas. 

 

De acordo com uma resolução de 2013, a PM paulista não pode prestar socorro médico, exceto em casos graves em que o resgate vá demorar. Segundo a corporação, a tragédia de Paraisópolis se enquadraria nessa exceção. No boletim de ocorrência, um dos policiais envolvidos declarou que os agentes foram informados “que não havia unidades médicas para prestar o socorro médico”. Então, receberam “de volta a solicitação para socorrerem as vítimas” para o Hospital Municipal do Campo Limpo. Em 6 de dezembro, a piauí questionou a Secretaria Municipal de Saúde, responsável pelo serviço de emergência, sobre onde estava a ambulância às 4h47, quando o pedido foi cancelado, 29 minutos depois de ser aberto. Porém, a pasta se negou a fornecer a informação. 

A norma de 2013 determina ainda que, se a vítima apresentar sinais de morte evidente, o corpo não pode ser removido do local pela PM. Isso evitaria a alteração da cena do crime. No boletim de ocorrência de Paraisópolis, os policiais não informaram qual era o estado das vítimas, se estavam acordadas ou desmaiadas, se tinham sinais vitais, se foram realizados procedimentos de emergência, em que condições foram transportadas, se seus quadros foram sendo monitorados ao longo do trajeto. 

O fato é que o local não foi preservado para a perícia – realizada apenas de manhã. “O local não se encontra preservado, dado a população de Paraisópolis ter se revoltado com o ocorrido”, diz o BO. Um dos PMs declarou ainda que, no hospital, a polícia ajudou na tentativa de reanimação de algumas vítimas. Um vídeo gravado dentro da emergência mostra a equipe médica executando manobras de reanimação em dois rapazes – um deles é Dennys, “tenho certeza absoluta”, diz sua mãe, Adriana dos Santos. Ao fundo, um policial caminha entre entre os profissionais de saúde.

Para Mariano, ouvidor das polícias, “é muito grave” que Dennys tenha chegado sem vida ao hospital, conforme declara sua ficha médica. “Se chegou sem vida, a polícia não poderia ter mexido no local, tinha que esperar a perícia.” O advogado Arnóbio Rocha, da Comissão dos Direitos Humanos do braço paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também critica a remoção das vítimas: “A gente não sabe quantos estavam vivos e quantos estavam mortos. Aparentemente, todos estavam mortos. A polícia alterou a cena de um crime – seja ele doloso ou culposo. A cena foi desmontada.”

Exames periciais obtidos pela Folha de S.Paulo apontam que a causa das mortes das nove vítimas foi asfixia mecânica por sufocação indireta. Documento médico do Hospital Municipal Campo Limpo, entregue para a família de Dennys, informa que esse quadro ocorre quando a expansão do tórax é bloqueada por contenção externa, alterando a bioquímica do sangue. Para a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, a causa da morte é compatível com situação de pisoteamento.

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública enviou uma nota declarando que “todas as circunstâncias relacionadas aos fatos são apuradas por meio de Inquérito Policial Militar conduzido pela Corregedoria da Instituição”. Afirmou ainda que áudios, imagens e depoimentos têm caráter sigiloso. Em um primeiro momento, o governador João Doria atribuiu as mortes a “bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk” e disse que “os procedimentos, a atitude e o comportamento da PM não muda”. Dias depois, assumiu a possibilidade de revisar protocolos da polícia e afastou os 38 PMs que participaram da operação.

 

Fernanda Garcia ouviu a gravação enviada pelo amigo de seu irmão Dennys no início da tarde de domingo. “Quando ouvi o áudio dele dizendo que deixou meu irmão lá com o policial, eu fiquei desesperada”, conta. Desde o final da manhã, Fernanda e a mãe, Adriana dos Santos, procuravam pelo adolescente, que não tinha voltado da festa. Preocupada, Adriana enviou mensagens para os amigos do filho, pedindo informações. Até que recebeu a mensagem dizendo que Dennys fora visto desmaiado e que um policial falou que “dele nós cuidamos”. 

Fernanda foi ao Facebook e pediu, aflita, notícias do irmão. A patroa de sua mãe viu o post. Viu também que Dennys tinha escrito na rede social, às 18h40 de sábado, que ia para a DZ7. Na tevê, assistiu ao que tinha acontecido em Paraisópolis. Juntou as peças e telefonou para o Hospital Municipal do Campo Limpo, para onde as vítimas tinham sido levadas. Dennys era uma delas.  Era domingo à tarde. A família teria que ir até o local para receber notícias. “Eu não sabia nem onde ficava esse hospital, nunca tinha ido para essa parte da cidade”, diz Fernanda. 

Em nenhum momento, a família de Dennys Franco foi comunicada pelo hospital ou pela polícia sobre o destino do rapaz. “Ele estava com o RG escolar dele. No documento, tinha o número de CPF, de RG, foto. Com essas informações, acho que dava para encontrar a gente. Mas ninguém, ninguém, ninguém entrou em contato”, fala Fernanda. 

Já no hospital, a irmã e a mãe de Dennys foram chamadas por uma médica para uma sala reservada. “Ela falou que ele deu entrada sem vida. Na hora, eu não consegui mais enxergar a médica, só vi uma pia. Joguei água no rosto. Levantei. Quando cheguei na porta, eu caí no chão”, lembra Fernanda. Fazia mais de cinco horas que o corpo de Dennys tinha deixado o hospital rumo ao Instituto Médico Legal (IML), em outra região de São Paulo. A família só poderia fazer a liberação no dia seguinte, segunda-feira.

Foi um tormento esperar a noite passar. Fernanda faltou o serviço e, no raiar do dia, saiu de casa para ir ao IML. Levava uma muda de roupas e queria trocar o irmão para o velório. Na infância, era ela quem arrumava Dennys, levava para a escola, ajudava na lição, brincava. “Cuidei dele mais do que cuido hoje do meu próprio filho.” 

Porém, Fernanda foi impedida pelos funcionários do IML de vestir o irmão pela última vez. Negaram até que levantasse o pano azul que cobria tronco e pernas, para ver exatamente quais eram seus ferimentos. Pode observar apenas dois leves hematomas, acima da sobrancelha e abaixo do olho direito. Do IML, o corpo seguiu para o velório, no Cemitério da Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo. O caixão estava fechado. Apenas o rosto de Dennys estava visível por trás de um vidro. 

Em determinado momento, Fernanda interrompeu o velório e pediu que todos saíssem. Alguns amigos, porém, ficaram para ajudá-la. Juntos, soltaram os oito parafusos-borboleta que lacravam o caixão e levantaram a tampa. Dennys vestia a camiseta polo branca levada por sua irmã ao IML. “Eu fui olhando dedinho por dedinho. Não tinha nada quebrado, não tinha luxação. De escoriação, eu não vi nada. Não tinha vestígio de pisoteamento. Atrás da cabeça dele e no peito estava costurado. Acho que por causa da autópsia”, relembra Fernanda, com a voz embargada. “Eu precisava ver. Eu não queria ter dúvida. Eu não podia enterrar meu irmão sem saber [o que aconteceu]. Até porque ele saiu de casa bem.”

A família de Dennys continua sem saber onde foram parar as roupas e pertences que o adolescente usava no dia do baile. Quando Fernanda foi ao necrotério do Hospital Municipal do Campo Limpo, em 5 de dezembro, sacos de plástico pretos guardavam os objetos de seis vítimas. Nenhum deles era de Dennys. Ninguém sabia informar com certeza para onde tinham ido. Já o RG escolar, que permitiu identificar o adolescente, foi recolhido do hospital por um policial, por volta de 10h do dia da morte. A única informação do documento utilizada para o cadastro foi o nome. Quanto à data de nascimento, foi registrada uma informação genérica, 1/1/1998, que lhe conferia 21 anos. Sua data de nascimento, na verdade, era 27 de dezembro de 2002, 16 anos.

Em 4 de dezembro, Fernanda e a mãe Adriana foram ao Centro de São Paulo para dar baixa na carteira de trabalho de Dennys. Em seguida, foram para a frente da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, onde grupos do movimento negro haviam marcado um protesto contra as mortes em Paraisópolis. Fernanda vestia preto e tinha os olhos inchados e assustados. Em determinado momento, pegou o microfone usado na manifestação. Adriana se posicionou ao seu lado, apoiando e segurando o corpo da filha, que tremia descontroladamente. “Meu irmão teve a sorte de ter tido duas mães”, disse Fernanda, que considerava Dennys seu filho. “Muitas pessoas estão nos ofendendo, nos culpando. O que um jovem de 16 anos estava fazendo naquele local? [Ele estava fazendo] o que os filhos de muitos de vocês fazem, o que muitos de todos nós fazemos e fizemos: eles estavam se divertindo.” 

Como grande parte dos jovens da periferia de São Paulo, Dennys era vidrado no funk paulista. Seu Facebook está repleto de referências a esse universo. Já sua última postagem, dizendo que iria para a DZ7 na madrugada de primeiro de dezembro, foi escondida por Fernanda, que conseguiu acessar a conta do irmão na rede social. O post viralizou e estava sendo comentado por pessoas celebrando a ação da PM e a morte do adolescente. 

Mas havia mais no Facebook de Dennys Franco do que sua paixão pelo funk. Em 24 de abril, o rapaz postou uma foto sua, tirada na Praça da República, próximo da empresa de telemarketing onde trabalhava. “Vou ser um dos favelado que vai conquistar o mundo. Vou ser pra minha mãe o motivo de tanto orgulho”, diz o texto que acompanha a imagem. Fernanda viu o post dois dias depois de perder o irmão. E respondeu: “Você é o nosso orgulho, meu menino.” “Não há justificativa para o que fizeram com você(s), independente de gênero musical, local, horário, idade, cor… nada justifica. Peço para que Deus me dê forças para lutar, para que sua morte e dos demais não seja em vão. Para que nunca mais se repita.”

Amanda Rossi

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

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