"O éden da minha infância", dizia o humorista sobre Maranguape. O município hoje é líder nacional na taxa de homicídios Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress
A cidade que foi do riso ao choro
O avanço das facções criminosas na terra natal de Chico Anysio
Passava das 20 horas quando a Banda de Música Municipal de Maranguape, cidade da Grande Fortaleza, atacou o tema do filme Guerra nas estrelas. O público, que começava a se acomodar em cadeiras de plástico à frente do palco instalado na Praça Capistrano de Abreu, não deu a mínima. Os instrumentistas tocaram, então, a trilha de outro clássico do cinema: Jurassic Park. Mais uma vez, não houve qualquer reação. A banda tentou novamente, agora com o tema de Indiana Jones.
Perto de mim, um ambulante suspirou. Uma mulher, impaciente, se levantou para comprar pipoca e só voltou, serelepe, no momento em que a banda executou os primeiros acordes de um sucesso do Mastruz com Leite. Dali em diante, o forró do grupo e hits do Roupa Nova tomaram conta da praça. Às tantas, a humorista e mestre de cerimônias Morgana Camila interrompeu o concerto e anunciou no microfone que o comediante e youtuber cearense Max Petterson, natural do Crato, logo se apresentaria. Naquele sábado, 9 de agosto, o 14º Festival Nacional de Humor de Maranguape, que durou uma semana, estava terminando.
Entre tiradas jocosas, Camila lançou um apelo à plateia: “Que nossa cidade seja da alegria, do sorriso e da paz. É essa a Maranguape que queremos.” A humorista não falava da boca para fora. No fim de julho, uma notícia ganhou destaque na mídia de todo o Brasil. Segundo a nova edição do Anuário brasileiro de segurança pública, Maranguape encabeça a lista dos municípios mais violentos do país. A cidade registrou 87 assassinatos em 2024, o que significa uma taxa de 79,9 homicídios por 100 mil habitantes. O índice é quase quatro vezes a média nacional. Logo abaixo de Maranguape, aparecem as baianas Jequié (77,60), Juazeiro (76,2) e Camaçari (74,8). Outros dois municípios do Ceará figuram entre os dez primeiros do ranking, Caucaia (68,7) e Maracanaú (68,5).
Vizinha de ambos, Maranguape assiste à disputa de duas facções criminosas pelo controle do narcotráfico: a fluminense Comando Vermelho e a cearense Guardiões do Estado, que desde setembro faz parte do Terceiro Comando Puro, também do Rio de Janeiro. Os grupos rivalizam em boa parte do Ceará, hoje um importante polo distribuidor de drogas por abrigar o Porto do Pecém. O complexo marítimo escoa sobretudo cocaína para a Europa. O avanço do crime organizado é tão grande que as facções já abocanham contratos de serviços nas prefeituras cearenses, como os de transporte e coleta de lixo, por intermédio de laranjas.
Em 2023, Maranguape ocupava o oitavo lugar na lista do Anuário, com 78 assassinatos. Ao longo de doze meses, portanto, o número de vítimas subiu 11,5%. O sociólogo Ricardo Moura, da Universidade Federal do Ceará, afirma que a violência também se explica pelo fato de a cidade estar a meros 27 km de Fortaleza. “À medida que reprimem o crime na capital, as forças policiais empurram os infratores para os municípios próximos.”
A prefeitura de Maranguape não nega o crescimento da violência, mas discorda dos critérios que norteiam o Anuário, editado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma organização não governamental, apartidária e sem fins lucrativos. O ranking da publicação abrange somente as cidades com 100 mil habitantes ou mais, que correspondem a cerca de 7% dos municípios brasileiros, segundo o Censo de 2022. Se o Anuário levasse em conta todo o país, a posição de Maranguape talvez fosse outra. Daí a indignação do prefeito Átila Câmara (PSB). Mal soube da pesquisa, o político recorreu às redes sociais para classificar o primeiro lugar na lista de “injusto e equivocado”.
Fundada em 1851, Maranguape reúne 108 mil moradores, segundo o IBGE, e desfruta de um clima agradável, já que se espraia pelo sopé de uma serra. O turismo, a agropecuária e a produção de cachaça movimentam a economia da região. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) local, composto a partir de informações relativas à educação, renda e expectativa de vida, é considerado médio. Equivale a 0,659 numa escala de 0 a 1, segundo o último levantamento realizado, de 2010. Tal desempenho põe a cidade entre as vinte mais desenvolvidas do Ceará, que soma 184 municípios.
No século passado, Maranguape ficou conhecida nacionalmente como o berço de Chico Anysio. O astro do humor, que criou 209 personagens e morreu em março de 2012, viveu lá até os 7 anos. Foi o “éden da minha infância”, costumava dizer. Na década de 1970, o comediante gravou o disco Cuca fresca em que incorporava Baiano, uma sátira a Caetano Veloso. A cantora Amaralina, interpretada pela atriz Nádia Maria, o acompanhava. No álbum, há uma composição do próprio Chico e de Nonato Buzar sobre Maranguape. A letra romantiza o município: Tem uma colina onde nasce a minha terra/ E é verde a serra com cascatas a jorrar/ Um rio manso serpenteia, vai embora/ E cresce a cana com pendões a balançar.
Outra maranguapense célebre é justamente Morgana Camila. A humorista de 39 anos virou fenômeno nas redes sociais a partir de 2022, quando narrou o tradicional desfile estudantil do Sete de Setembro na Rua Major Agostinho, “a Times Square de Maranguape”. Desde então, Camila está para o evento cívico – uma mistura de Carnaval e quermesse – como Galvão Bueno para a conquista do tetra em 1994. É impossível imaginar a marcha dos alunos, alguns vestidos com collants de super-heróis, sem associá-la aos gritos de “arrasa, bicha!” que a humorista gosta de emitir na beira da calçada enquanto filma tudo pelo celular.
“Respiro o mesmo mormaço que Chico respirou, bebo a mesma água que ele bebeu e sinto orgulho disso”, ressaltou Camila, com um largo sorriso, pouco depois de sair do palco naquele 9 de agosto. Ela mudou o semblante assim que mencionei a alta taxa de homicídios. “Muito triste… A cidade mais violenta do país… Tomara que, apesar dos pesares, os aspectos positivos de Maranguape prevaleçam. Existem inúmeros atrativos por aqui.” Eu quis saber quais. “O principal é o desfile da Major, ora!”
Em julho, logo que os meios de comunicação divulgaram o ranking do Anuário, a terrível novidade bombou no WhatsApp dos maranguapenses. À época, Danilo – guia turístico de 44 anos que preferiu não revelar o nome completo – passou alguns dias quase sem sair de casa. Estava com medo. Nas imediações de onde vive, haviam acabado de matar um adolescente a tiros. Por quê? “Disputa de facção”, limitou-se a responder o guia turístico. A vítima tinha o perfil habitual dos assassinados no Ceará. Era um jovem negro, pobre, periférico e pouco escolarizado. “Senti o peso da violência naquele momento”, contou Danilo. “O crime aconteceu bem perto de mim, numa área que eu frequento.”
Conhecedor da história de Maranguape e apaixonado por Chico Anysio, Danilo me conduziu até a casa que preserva a memória do humorista, na Rua Chicó Amador. Foi lá que o artista nasceu, em 12 de abril de 1931. A construção, ampla e avarandada, tem muro e paredes brancas, portas recém-pintadas de azul e uma extensa área verde. Do planalto em que se situa, é possível avistar a Serra de Maranguape. Até pouco antes de morrer, Chico fazia visitas ocasionais ao museu, que abriga uma galeria com bonecos dos principais tipos criados por ele em inúmeros programas, primeiro radiofônicos e depois televisivos. Entre os personagens homenageados estão Azambuja, Justo Veríssimo, Bento Carneiro, Professor Raimundo e Haroldo, o Hétero. O imóvel guarda, ainda, fotos do artista e livros escritos por ele. A prefeitura cuida do espaço em parceria com o governo do estado.
Em toda a cidade, inclusive nas imediações da Casa do Chico Anysio, postes, muros e paredes exibem mensagens assinadas pelo Comando Vermelho, pelos Guardiões do Estado ou simplesmente pelo Crime, com maiúscula mesmo, como se fosse o nome de uma instituição. As pichações ordenam, por exemplo, que motoristas baixem o vidro dos carros e motociclistas retirem o capacete em determinadas vias. Não raro, as advertências se dirigem especificamente à Polícia Militar. Olheiros do narcotráfico monitoram a circulação de veículos e pessoas em algumas áreas. Motoristas de aplicativo rejeitam corridas para lugares considerados inseguros. Praticamente ninguém sai à rua depois das 22 horas em certos bairros. A situação acaba justificando a etimologia de Maranguape, topônimo que deriva do tupi-guarani e quer dizer Vale da Batalha, de acordo com a tradição popular e documentos municipais (o significado, porém, não é consenso entre os estudiosos do tronco linguístico indígena).
Perguntei se Danilo cogita deixar a cidade como muitos vêm fazendo. Embora não haja dados oficiais sobre o assunto, são comuns as notícias de pessoas que abandonam o município por causa da violência ou da especulação imobiliária. Até 2024, existia apenas um condomínio fechado de alto padrão em Maranguape. Agora, mais três estão a caminho, o que favorece a gentrificação. “Deixar a cidade? De jeito nenhum. Pretendo continuar por aqui. As coisas ficaram difíceis, mas…”, respondeu o guia turístico, a voz reduzida a um fiapo, quase como se sussurrasse as palavras, apesar de estarmos somente nós dois no museu.
Quando saí da casa de Chico, resolvi andar um pouco pelo bairro da Outra Banda, onde se localiza o imóvel. A região, às margens do Riacho Pirapora, ganhou esse nome durante o processo de ocupação do território maranguapense. Na passagem do século XVII para o XVII, a área se chamava Alto da Vila e agregava os primeiros colonizadores portugueses, que chegaram ali em busca de prata e se misturaram com os indígenas potiguares, nem sempre de maneira pacífica. Mais tarde, um pessoal de maior poder aquisitivo (produtores de cana ou café, soldados e funcionários da Coroa lusitana) ocupou uma zona próxima, o Salto do Peixe. Os habitantes do novo povoamento começaram a tratar o Alto da Vila como “outra banda” para demarcar bem as diferenças sociais que havia entre os dois lugarejos. Com o tempo, a alcunha virou nome oficial. Hoje, o antigo Salto do Peixe é o Centro de Maranguape.
Duas semanas depois de minha visita ao museu, recebi a informação de que uma família local tinha sido expulsa de casa pelo Comando Vermelho. A residência amanheceu com um aviso de letras tortuosas pintado no muro: “24 horas para sair fora”. Os moradores obedeceram. Contrataram um caminhão, empoleiraram os pertences na carroceria e esvaziaram o casebre. Ninguém quis me esclarecer o motivo da expulsão. O imóvel desocupado fica numa rua do Outra Banda, não muito longe de onde Chico Anysio nasceu.
Perversidades do tipo são frequentes não só em Maranguape, mas em outras cidades cearenses. Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social contabilizou 219 expulsões de moradores no Ceará pelas facções criminosas, sobretudo o Comando Vermelho. Fortaleza registrou a maioria dos casos, que se deram em 49 dos seus 121 bairros. Geralmente, as expulsões ocorrem quando uma facção acusa os moradores de envolvimento com o grupo rival, seja por terem familiares aliados aos inimigos, seja por virem de localidades dominadas pelos adversários.
Houve um tempo em que uma rápida pesquisa no Google sobre Maranguape não trazia nenhuma alusão à violência. A maioria dos resultados mencionava Chico Anysio, claro, e as atrações turísticas da cidade, como o parque aquático Cascatinha, a Pedra da Rajada, o Museu da Cachaça e as trilhas que cortam a serra. “Tenho esperança de que, cedo ou tarde, Maranguape volte a ser principalmente a terra do Chico”, diz Morgana Camila. “A violência vem e passa, mas o Chico é eterno.”
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