Além dos vivos, vieram a Buenos Aires também os mortos, botafoguenses que partiram antes de ver o time ser campeão da América. Um pai, uma mãe, uma avó, um irmão, uma amiga, um filho CRÉDITO: VÍTOR SILVA/BOTAFOGO_2024
Como os botafoguenses conquistaram a alegria
O documentarista João Moreira Salles reflete sobre um ano glorioso
Os torcedores choravam, riam, rezavam, dançavam, cantavam, se beijavam ou, aturdidos, ficavam em silêncio. Alguns passavam mal, outros desmaiavam e voltavam a si sem acreditar no que acontecia em Buenos Aires naquele dia 30 de novembro de 2024: Botafogo, campeão da Libertadores da América.
“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, escreveu Tolstói em Anna Karenina, para dizer que a felicidade é mais banal que a infelicidade e que a alegria é sempre igual a si própria. Talvez não seja bem assim, reflete o documentarista João Moreira Salles, que assistiu à partida na Argentina: “Naquele momento tive a certeza de que a alegria não é uma coisa só, mas muitas, talvez tantas quantos forem os botafoguenses neste mundo.”
Neste mundo e em outros. Além dos vivos, também os torcedores do Botafogo que partiram estavam no Estádio Monumental de Núñez, na disputa com o Atlético-MG. Familiares e colegas levaram seus rostos e nomes estampados em cartazes ou em camisetas: um pai, uma mãe, uma avó, um irmão, uma amiga, um filho. “Nas horas após o apito final, me senti tão abençoado que, se alguém tivesse pedido, tenho certeza de que poderia sair pelas ruas de Buenos Aires curando os enfermos e multiplicando os pães”, brinca o documentarista.
O ano de 2024 foi um tempo extraordinário para os botafoguenses: o time arrebatou não apenas a Libertadores, mas o título de Campeão Brasileiro. Até lá, foi preciso atravessar um longo deserto (seu último troféu datava de três décadas atrás), o que seus torcedores fizeram com paciência e abnegação quase bíblicas. “Achávamos que as conquistas viriam, mas não para nós. Era coisa para os outros, botafoguenses do futuro”, observa Moreira Salles.
Na piauí deste mês, o documentarista revê os principais lances de uma conquista que, contra as expectativas, se fez no tempo presente. “Nossa experiência nos estádios de 2024 nos levou a entrar em contato com algo novo, estranho e valioso. Havíamos formado uma comunidade de pessoas que, a cada partida, descobria que esperança e alegria eram mais normais do que tristeza e frustração.”
Cobertos de glória, os torcedores agora se perguntam como viver esse inesperado triunfo. Moreira Salles compara: “Num dos romances de Dickens, um personagem pergunta: ‘Quando duas multidões se confrontam aos gritos, o que se deve fazer?’ Prudente, o sr. Pickwick, que dá título ao livro, responde: ‘Grite com a maior delas.’ O botafoguense é o sujeito que prefere gritar com a menor, o que é um modo de estar no mundo e, dependendo da perspectiva, uma posição política.”
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