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    Porta-retrato na entrada do apartamento de Eula Rochard: "Na clandestinidade, eu era rainha toda noite. Agora, só quem é do passado me conhece. Quem é mais novo não liga.” FOTO: THALLYS BRAGA

questões de passado e presente

“Eu conheço essa bicha”

Como uma drag queen de Niterói desmontou as mentiras do deputado George Santos — e o que mudou em sua vida desde então

Thallys Braga | 25 jan 2023_14h10
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Eula Rochard acordou às seis e meia da manhã na sexta-feira, 20 de janeiro, para ajeitar a casa antes que os jornalistas chegassem. Às nove, abriu as portas para a equipe do Fantástico, da TV Globo, a quem concedeu mais de duas horas de entrevista. Entre uma pergunta e outra, arrumava espaço para puxar o celular do bolso e recusar as insistentes ligações de números desconhecidos do Brasil e do exterior. Ao meio-dia, depois de se despedir da equipe de tevê, trocou de roupa e saiu depressa para almoçar com mais um jornalista. O dia estava longe de terminar. 

“Minha vida virou esse inferno”, desabafou Rochard assim que se sentou num restaurante barulhento próximo de sua casa, à beira de uma das avenidas mais movimentadas de Niterói. “Chega uma hora do dia que eu preciso tirar o telefone do gancho, desligar o celular e torcer pra ninguém aparecer na porta da minha casa. E, antes que você pergunte: sim, já bateram na minha porta.”

Até uma semana antes, a vida de Eula Rochard era uma tranquilidade só. Todos os dias, pela manhã, ela caminhava até a sede do Grupo Diversidade Niterói, ONG onde trabalha há dezenove anos e que defende os direitos da comunidade LGTBQIA+. No fim de tarde, ia para a academia de musculação e, à noite, jantava assistindo tevê antes de dormir. A rotina dificilmente saía do script. Até que, na segunda quinta-feira de janeiro, ela ouviu pela primeira vez o nome de George Santos, o filho de brasileiros que se elegeu deputado nos Estados Unidos e assumiu o mandato no começo do ano. Na televisão, uma reportagem contava que um jornal americano havia descoberto uma série de mentiras e fraudes cometidas por Santos ao longo de sua carreira. Rochard cerrou os olhos, incrédula, e disse para si mesma: “Eu conheço essa bicha.”

Ela sacou o celular imediatamente. “Na hora mandei mensagem para um grupo de amigos”, lembra a drag queen. “A primeira bicha me respondeu: ‘Eula, você é muito mentirosa. Como é que um cara lá dos Estados Unidos te conhece?’” O amigo insinuou que Rochard estava virando uma velha maluca e deveria procurar um remédio para se tratar. “Fiquei revoltada. Me enfiei num baú antigo para caçar uma foto minha e dele [George Santos], que eu sabia que existia. E é óbvio que ela estava lá.”

A foto mostra Rochard ao lado de Santos, ambos sorrindo e montados como drags. Ela fez questão de enviar a imagem para o amigo que havia debochado. Em seguida, publicou a foto nas redes sociais com a seguinte legenda: “Eu com o deputado republicano americano na parada de Niterói. Como eu havia falado, ele não saía da minha casa. Está aí a prova para quem me chamou de mentirosa.” Depois que a foto de Rochard repercutiu, outras foram aparecendo, à medida que as pessoas fuçavam na internet o passado do deputado.

A revelação de que Santos, um político conservador que se posiciona contra a comunidade LGBTQIA+, já havia sido uma drag queen causou alvoroço na imprensa americana. De um dia para o outro, um punhado de pedidos de entrevista em inglês, francês e até sueco começou a pipocar no WhatsApp de Rochard. Ela só fala português e não sabe o que é o New York Times, muito menos o Washington Post, jornais que deram furos de reportagem sobre a vida pregressa do deputado. “Os olhos do mundo inteiro viraram para mim”, diz Rochard. “Mas quem quiser falar comigo que se vire para falar em português.”

 

José Manoel de Oliveira Antiqueira, a pessoa por trás da drag queen Eula Rochard, anda pelas ruas de Niterói com a desenvoltura de um político, acenando e fazendo piada com os vizinhos. Todos o chamam de Eula. Ele é um homem gay e cisgênero, mas prefere ser tratado pelo nome da personagem a quem dá vida. Aos 57 anos, Rochard é reconhecidamente a drag queen mais velha da cidade, embora tenha consolidado a carreira do outro lado da ponte Rio-Niterói, em boates clandestinas e inferninhos de Copacabana, a partir de 1982. 

Quando conheceu George Santos, Rochard já se montava havia vinte anos. Foi em 2005, mas ela não se lembra das circunstâncias exatas do primeiro encontro. “Conheci ele como Anthony”, explica. “Desde o começo percebi que era uma bicha problemática, vivia brigando com a mãe. Mas eu não posso mentir: era uma pessoa gentil e educada. Frequentou a minha casa muitas vezes.”

Na cultura drag, os jovens artistas costumam procurar os mais velhos quando querem começar a se montar. Vão atrás de conselhos, dicas de como se maquiar e, quem sabe, uma roupa emprestada. Hoje, as drags mais novas chamam suas tutoras de “mother”, mas a geração mais antiga prefere o termo “madrinha”. Rochard ficou com a impressão de que Santos, na época com 17 anos e batizado com o nome drag de Kitara Ravache, se aproximou dela porque queria ser apadrinhado. “Mas nunca emprestei uma peruca sequer para ele. Aquela bicha nunca me passou confiança.”

O deputado aparece em um vídeo gravado pelo jornalista João Fraga em 2005, durante a Primeira Parada LGBT de Niterói. Na filmagem, Santos — ou Kitara Ravache — reclama da desorganização e da falta de “bofes” no evento. E dá a entender que tinha uma carreira como drag queen. “Faço apresentação na 1140, em Jacarepaguá. Em Cascadura, na Egito. Já fiz na Cabaret CasaNova, na Glória. E já fiz uma na Le Boy”, ele diz, referindo-se a casas noturnas que atraíam a comunidade queer no início dos anos 2000. 

O jovem Santos saiu de cena ainda em 2005, tão subitamente quanto havia aparecido. Em 2008, retornou dos Estados Unidos para Niterói com perucas e roupas que aparentavam ser mais caras. É dessa época a foto em que Eula Rochard e Kitara Ravache aparecem lado a lado. “Era uma bicha afeminada, afeminadíssima”, diz Rochard. “Agora está nos Estados Unidos apoiando lei anti-drag. Além de tudo é uma sem vergonha.”

Em 2022, George Santos manifestou apoio a uma lei que proíbe professores de discutirem identidade de gênero e orientação sexual nas escolas. O projeto, que se assemelha a pautas da direita brasileira, fez com que docentes deixassem de usar roupas coloridas. Alguns professores que são gays e lésbicas apagaram fotos ao lado de seus cônjuges. Tudo por medo de serem processados. Nas primeiras semanas de atividade como deputado, Santos logo se alinhou com a bancada conservadora do Congresso americano, que frequentemente ataca a cultura drag, apontada como um suposto perigo para as crianças. Uma deputada republicana, por exemplo, apresentou um projeto de lei que criminaliza a prestação de serviços médicos a pessoas transgênero menores de 18 anos.

Ao ser confrontado com as fotos em que aparece montado, Santos primeiro disse que se tratava de uma invenção da imprensa para prejudicá-lo. Depois, abordado por jornalistas num aeroporto, reformulou: “Eu não era drag queen no Brasil, gente. Era jovem e estava me divertindo em um festival.” As fotos e os vídeos que vieram à tona, porém, comprovam que ele se montou em mais de uma ocasião.

 

Houve um tempo em que Eula Rochard se montava todos os dias da semana. Era figura carimbada nas casas noturnas da Zona Sul e do Centro do Rio de Janeiro, como a Le Boy e a Cine Ideal. Hoje, a procura pelo seu trabalho tem sido baixa. A veterana diz que nem sente mais prazer em se montar, só o faz pelo dinheiro. Vez ou outra é convidada para se apresentar em confraternizações, casamentos e outros tipos de eventos, geralmente organizados por pessoas heterossexuais. “Eles gostam de roupa espalhafatosa e jeito caricato, para se esbaldarem de rir.” Boates e festas queer? “Sem chance, não recebo convite há anos.”

O ostracismo, segundo ela, é consequência não tanto do fato de ter ficado mais velha. “Não posso mentir, as coisas desandaram quando a política LGBT começou a surgir”, disse Rochard, sentada na mesa de jantar de seu apartamento, onde recebeu a piauí. “Meu sofá, meu primeiro celular, perucas: tudo eu ganhei de gente rica que gostava do meu show. Na clandestinidade, todo mundo vinha até nós. Eu era rainha toda noite. Agora, só quem é do passado conhece Eula Rochard. Quem é mais novo não liga.”

Rochard transformou o segundo quarto do seu apartamento em closet. Algumas peças do acervo têm mais de vinte anos. — Foto: Thallys Braga

 

O escândalo de George Santos fez a veterana receber a atenção que o público não lhe dava há muito tempo. No Instagram, onde vem sendo chamada de heroína das drags, ganhou pouco mais de 1,2 mil seguidores nas últimas semanas. Para ela, muita coisa. Até agora, no entanto, a repercussão não lhe rendeu nenhum convite para shows. Rochard tem receio de anunciar que está com a agenda livre e ser vista, por isso, como uma aproveitadora — “alguém que quer surfar na história do deputado americano. Se eu quisesse fazer isso, já teria feito”.

Uma sobrinha chegou a sugerir que ela cobrasse pelas entrevistas que tem dado. Rochard achou a ideia absurda. “Só faria isso se eu fosse muito burra. Quando que o mundo daria atenção para uma drag de 57 anos? Tenho que aproveitar cada segundo. Estou mais famosa que a RuPaul”, brincou, referindo-se à drag queen americana que comanda o reality show RuPaul’s Drag Race, um sucesso de audiência que já está na décima quinta temporada. “Aliás, se a RuPaul fosse inteligente, me colocava agora num avião para participar do programa dela. Ia bombar.”

Em dado momento, Rochard se levantou da mesa e foi até um pequeno aparelho de rádio na sala de estar. “Vou te mostrar como eu fazia antigamente”, disse, e pegou um CD cuja capa é estampada com a Pantera Cor-de-Rosa e o título Eula Rochá Show. Pôs o disco para tocar e pulou até a faixa nove — o clássico I’ll Never Love This Way Again, gravado pela cantora americana Dionne Warwick.

“Foi a primeira música que eu dublei na vida, quando tinha 17 anos”, contou, aos berros, disputando com o volume alto da música. Rochard começou a trabalhar aos 15 anos para sair de casa antes que o pai descobrisse sua homossexualidade. Aos 18, depois de os amigos assistirem à dublagem da música de Dionne Warwick e constatarem o seu talento, ela começou a vida de drag.

“Repeti esse número várias e várias vezes”, disse, rodopiando pela sala. “Eu descia lentamente um lance de escadas com uma cauda de vestido enorme atrás de mim. Quando chegava no refrão da música, ia caminhando pelo meio das bichas, todas emocionadas. Não tinha uma bicha que não se rendia para Eula.”

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