questões políticas

Congresso deixa Bolsonaro de quarentena

Impeachment ou ofensiva contra Planalto estão fora do horizonte de líderes políticos; avaliação é que presidente, isolado entre radicais, verá popularidade cair com coronavírus, crise na economia e novas dificuldades no Parlamento

Thais Bilenky
17mar2020_12h21
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Diante da constatação de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi longe demais ao cumprimentar simpatizantes nas manifestações em seu apoio e contra o Legislativo no domingo (15), a despeito da orientação contrária de seu próprio governo por conta do coronavírus, líderes do Congresso falam em deixá-lo sangrar sozinho, sem forçar um movimento de impeachment ou qualquer ofensiva contra o Planalto.

Na avaliação de parte dos atores da cúpula da Câmara, Bolsonaro se inviabilizará no cargo por conta própria, falando a um grupo de apoiadores radicalizados cada vez menor. Outros políticos avaliam que ele chegará ao final do mandato, mas com baixa popularidade, o que minaria suas pretensões de reeleição. Uma constatação é mais consensual: ao aderir à manifestação em Brasília, mesmo com a possibilidade de ter o coronavírus e, por isso, de transmiti-lo a terceiros, o presidente se isola politicamente.

Reforça esse diagnóstico o desarranjo econômico acentuado pela pandemia do novo coronavírus, com o mercado financeiro disfuncional, o dólar na casa dos R$ 5 e uma retomada que já vinha lenta desde o ano passado e pode regredir neste, causando nova recessão, de acordo com especialistas. “Será um ano perdido”, afirmou um aliado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Se Bolsonaro tinha expectativa de que a economia catalisaria sua popularidade, infelizmente para todos nós, ela vai lascá-lo.” 

Líderes do Congresso testam novos anticorpos aos ataques que Bolsonaro faz sistematicamente contra eles. A decisão é de não responder no mesmo tom e reagir com moderação, ainda que com firmeza, como forma de expor os ímpetos belicosos e inconsequentes do presidente em contraste com “a responsabilidade com o país” dos parlamentares, em especial Maia. “Não dá nem para falar, responder a ele. É melhor não dar trela”, resumiu o deputado Aguinaldo Ribeiro (Progressistas-PB), um dos homens fortes do centrão. 



Segundo Ribeiro, a prova de que Bolsonaro dialoga apenas com um “gueto radical” restrito está na atitude da população diante da pandemia. Em Brasília, moradores e servidores se protegem com máscaras, enquanto o presidente subestima o risco do vírus. “Não é tudo isso que dizem”, minimizou. Com problemas na saúde pública e impactos no bolso, a população brasileira não verá em Bolsonaro um chefe de Estado à altura do cargo, apostam caciques políticos. “Só ele está nesse drive. A população vai sofrer muito”, disse o deputado do Progressistas.

Estão em marcha alguns apelos pela remoção de Bolsonaro, especialmente entre ex-aliados e hoje adversários políticos do presidente. O deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) prometia protocolar um pedido de impeachment já nesta terça-feira (17), mas adiou devido justamente ao coronavírus. A deputada estadual paulista Janaina Paschoal (PSL) foi à tribuna da Assembleia defender que o vice Hamilton Mourão (PRTB) assuma imediatamente o comando da nação. O jurista Miguel Reale Júnior quer um exame de sanidade mental que ateste ou não as condições do presidente para exercer a função.

Bolsonaro usa esse ambiente para se dizer em constante ameaça de gente que “está em campanha hoje para 2022”. Mas no entorno de Maia o impeachment não está no horizonte. Mesmo entre deputados da oposição com boa interlocução com o presidente da Câmara não se enxergam, no presente, condições para um processo como esse. “Para sofrer um impeachment, vai precisar de alguma coisa mais robusta”, afirmou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). “Ele vai viver um desgaste profundo. Está aberta a temporada de caça.”

O esforço de Bolsonaro, na leitura desses congressistas, tem sido no sentido de criar um movimento popular contra o Congresso, o “saco de pancadas” preferencial da população, para se eximir das responsabilidades. Desde domingo, Bolsonaro provoca Rodrigo Maia e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). “Prezado Davi, prezado Rodrigo, saiam às ruas e vejam como são recebidos. Os acordos não têm que ser entre nós, em gabinetes com ar refrigerado. Eles têm que ser entre nós e o povo”, declarou o presidente à emissora CNN. Maia respondeu que Bolsonaro atentava contra a saúde pública. “A economia mundial desacelera rapidamente; a economia brasileira sofrerá as consequências diretas. O presidente da República deveria estar no palácio coordenando um gabinete de crise para dar respostas e soluções para o país. Mas, pelo visto, ele está mais preocupado em assistir às manifestações que atentam contra as instituições e a saúde da população.”

Bolsonaro voltou ao confronto na segunda. “Maia me chamou de irresponsável, fez um ataque frontal. Nunca tratei ele dessa maneira. É um jogo. Desgastar, desgastar, desgastar. Tem gente que está em campanha até hoje para 2022, dando pancada em mim o tempo todo”, disse em entrevista à Rádio Bandeirantes. 

Ao desviar dos ataques, caciques políticos pretendem, primeiro, não atiçar a ira bolsonarista e, segundo, demonstrar responsabilidade. “Estou entre aqueles que não vão  jogar lenha na fogueira. Independentemente das divergências, é hora de união para enfrentarmos a pandemia e depois as consequências econômicas”, afirmou o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

Mas, apesar da cautela, a irritação está posta. Com o impasse em torno do orçamento impositivo, o acordo que previa uma repartição de R$ 30 bilhões entre o Legislativo e o Executivo deve ser enterrado, segundo Paulo Teixeira, o que deixa o Congresso sem participação na destinação desses recursos. Em resposta, o Legislativo pretende impor derrotas ao governo. A ampliação do BPC (Benefício de Prestação Continuada), impondo um gasto extra não previsto de R$ 20 bilhões ao Executivo, “foi a primeira delas”, disse o petista.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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