Na floresta: ambientalistas alegam que, se a Petrobras estivesse de fato interessada em financiar a transição climática, destinaria mais do que 15% de seus investimentos às energias renováveis CRÉDITO: DANIEL KONDO_2025
Contradições de Lula às vésperas da COP30
Nenhum líder parece querer conduzir o mundo rumo ao fim dos combustíveis fósseis
De 10 a 21 de novembro, Belém vai receber a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a COP30. Vai ser a primeira vez que o evento será realizado na Amazônia, que está num ponto focal da crise climática. A região é o lar de povos indígenas, comunidades tradicionais e populações marginalizadas de áreas urbanas que vivem em condições precárias e estão entre aqueles que serão mais prejudicados pelo colapso do clima, embora praticamente não tenham contribuído para causar o problema. “Em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia”, prometeu Lula em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, realizada em Nova York em 23 de setembro.
A ideia de sediar a COP30 na maior floresta tropical do mundo foi anunciada por Lula quase três anos atrás, quando ele participou da conferência do clima em Sharm el-Sheikh, no Egito, em 2022. O petista ainda não tinha tomado posse quando foi à COP do Egito, mas foi tratado como estadista, arrastou multidões por onde passou e despertou uma onda de otimismo na sociedade civil. Depois que tomou posse, porém, Lula se viu às voltas com um Congresso que sequestrou o Orçamento da União, com a ascensão da extrema direita e as ameaças à democracia, e o combate à mudança do clima saiu das suas prioridades. “O Lula de Sharm el-Sheikh não existe mais”, disse o jornalista e ambientalista Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
Lula gosta de projetar em seus discursos no exterior a postura de líder climático, mas seu governo está crivado de contradições, ao apoiar projetos que, em nome do desenvolvimento, ameaçam o cumprimento das metas climáticas do Brasil e o objetivo global de limitar o aquecimento global a 1,5ºC desde o período pré-industrial. “Às vésperas da COP30, o Brasil se veste de verde no palco internacional, mas se mancha de óleo na própria casa”, declarou Mariana Andrade, coordenadora da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil.
A indústria dos combustíveis fósseis, obviamente, é a principal interessada em impedir o esforço global para frear o aquecimento global, porque opera um mercado que movimentou mais de 6 trilhões de dólares em 2022. Num primeiro momento, a indústria se esforçou para esconder do mundo a existência do aquecimento global e a sua culpa no cartório. Quando a ciência mostrou de forma inequívoca que o planeta está aquecendo e que a queima de combustíveis fósseis é o motor central, a indústria passou a apostar em ações para frear a ação climática global.
Só na COP28, realizada dois anos atrás em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, os países se comprometeram a abandonar gradualmente os combustíveis fósseis, mas ninguém disse como ou quando isso seria feito. O tema não está na agenda de negociação em Belém, mas é forte a expectativa de que a presidência da COP30 encontre um meio de avançar nessa pauta. É certo que a indústria dos combustíveis fósseis mandará seus emissários a Belém para impedir que isso aconteça, informa Bernardo Esteves na edição deste mês da piauí.
A COP30 será a primeira conferência do clima desde que Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris pela segunda vez (ele já havia feito isso quando ocupou a Casa Branca entre 2017 e 2021). O republicano já causou grande estrago à luta contra a crise climática em seu segundo mandato. Além de incentivar os combustíveis fósseis, o mandatário cancelou subsídios e investimentos às energias renováveis e está desfazendo regulações para emissão de poluentes e desmantelando agências de proteção ao meio ambiente e de pesquisa climática. Os Estados Unidos são o maior emissor histórico de gases do efeito estufa e o segundo maior entre os emissores atuais. Portanto, qualquer esforço de conter o aquecimento global sem a participação americana será muito mais custoso.
A União Europeia, por seu lado, parece estar renunciando à relevância que sempre teve nas negociações climáticas. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, as questões de segurança interna se tornaram prioritárias e deixaram a questão climática em segundo plano.
Com os Estados Unidos fora do jogo e a União Europeia apagada, o regime climático está sem ninguém à frente há três anos. “Há um vazio profundo de liderança”, diz Eduardo Viola, professor da Fundação Getulio Vargas e da Universidade de São Paulo. Quem poderia se beneficiar desse vácuo é a China, o maior emissor mundial de gases do efeito estufa, mas que tem feito investimentos maciços em energias renováveis. A China, porém, teria que abrir mão do status de país em desenvolvimento aos olhos da Convenção do Clima e aceitar ser reconhecida como potência climática, passando a contribuir com o financiamento da luta contra o aquecimento global nos países mais pobres. O governo chinês não parece interessado nisso.
Dessa forma, o Brasil teria, em princípio, um cenário favorável para postular um papel de destaque. No entanto, três anos depois de Sharm el-Sheikh, preso a outras prioridades da agenda doméstica e à defesa contraditória da expansão dos combustíveis fósseis, Lula não mostra apetite para ocupar esse papel. Parece dar razão ao jornalista David Wallace-Wells que, num artigo recente para o jornal The New York Times, concluiu que talvez a era dos estadistas do clima tenha acabado.
Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.
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