anais da crise

Depois do desemprego vem o desalento

Crise econômica converteu Salvador na capital brasileira dos desalentados, aqueles que se frustram com o insucesso e param de procurar trabalho

Victor Uchôa
17jul2018_08h00
Estudo do IBGE mostra que há mais desalentados no Brasil, como a baiana Alane, do que croatas na Croácia
Estudo do IBGE mostra que há mais desalentados no Brasil, como a baiana Alane, do que croatas na Croácia FOTO: VICTOR UCHÔA

Alane Nascimento mal completou 23 anos e já tem pouca esperança no futuro. Depois de quatro anos em busca de trabalho e apenas duas chamadas para entrevistas de emprego, ambas infrutíferas, a moradora do Jardim Santo Inácio, bairro da periferia de Salvador, decidiu parar de procurar. Passou assim a fazer parte de um contingente cada vez maior de brasileiros: os desalentados. São aqueles que, após busca e frustração, desistiram de procurar emprego. “A gente procura, procura e nunca tem resultado, só o desânimo de não conseguir. Prefiro ajudar ‘mainha’ em casa e estudar mais até mudar essa situação de desemprego no país”, disse.

Com a crise econômica, Salvador, onde Alane nasceu e sempre viveu, se transformou na capital brasileira do desalento. Isso porque a Bahia é o estado em que mais pessoas desistem de buscar emprego no Brasil. De janeiro a março, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 805 mil pessoas disseram não ter tomado nenhuma iniciativa de busca de trabalho no estado. É um número 21% maior em relação ao último trimestre de 2017, quando 663 mil pessoas disseram ter desistido de procurar emprego no estado.

Como Alane, elas não distribuíram currículo, não foram para filas de vagas e não pediram indicação a conhecidos. A jovem baiana personifica o brasileiro desalentado médio: mulher, de 18 a 24 anos. No caso dela, matriculou-se em um curso técnico, com o plano de voltar a distribuir currículos quando “o país melhorar”.

A categoria estatística à qual a jovem baiana faz parte é nova: apesar de analisar esse dado há seis anos, o IBGE só passou a divulgar o número de desalentados no país no começo de 2018. Para o instituto, desalentada é a pessoa que, como Alane, por falta de oportunidade, nem sequer procura emprego. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, no primeiro trimestre de 2018 havia 4,6 milhões de desalentados no Brasil, 278 mil a mais do que no final do ano passado. Ou seja, há mais desalentados no Brasil do que croatas na Croácia.

Desde o primeiro trimestre de 2012 – quando começa a série histórica da PNAD Contínua e o cômputo do desalento – o crescimento é de 142%. Há seis anos, havia 1,9 milhão de desalentados no país.

No ranking da desesperança em relação ao trabalho, depois da Bahia, o estado em que há maior número de pessoas que desistiram de procurar emprego é o Maranhão, com 430 mil desalentados no primeiro trimestre deste ano. Eram 410 mil em 2017 – ou seja, de lá para cá, subiu 5%, quatro vezes menos do que na Bahia.

Entre as regiões, o Nordeste concentra o maior número de desalentados, com 2,8 milhões de pessoas (crescimento de 7% entre o último trimestre de 2017 e o primeiro deste ano, também muito inferior ao da Bahia). Em seguida vem o Sudeste, com 922 mil desalentados. Dos dez estados com mais trabalhadores em desalento, sete estão no Nordeste.

A jovem Alane trabalhou pela última (e única) vez entre 2013 e 2014, quando ainda cursava o ensino médio na rede pública estadual e o Brasil se preparava para as eleições presidenciais. À época, inscreveu-se num curso gratuito de gastronomia oferecido por uma ONG e conseguiu uma vaga de assistente na creche dessa entidade.

Encerrado o contrato, Alane entregou currículos em empresas, lojas e restaurantes e cadastrou-se em instituições que fazem a intermediação entre trabalhadores e empresas. Foi chamada apenas para duas entrevistas: para uma vaga no telemarketing de uma operadora de telefonia e outra na recepção de um laboratório de análises clínicas. Sem sucesso nem perspectiva, jogou a toalha.

“Em 2017, parei de procurar. Dá muito desânimo procurar tanto tempo e não achar nada”, contou Alane, em uma conversa no Shopping da Bahia, no centro financeiro de Salvador. Ali, ela acabara de doar sangue – algo que faz com frequência e voluntariamente – em uma unidade móvel da Secretaria Estadual da Saúde.

 

A série histórica da PNAD Contínua mostra que quando Alane trabalhou pela última vez, em 2014, o desemprego no país atingiu, em média, 6,7 milhões de pessoas – 6,8% dos trabalhadores. Nos anos em que a jovem buscou ocupação sem êxito, o cenário só piorou. Em 2015, aponta o IBGE, a média anual de desempregados foi de 8,6 milhões de pessoas (8,5%). No ano seguinte, a média saltou para 11,8 milhões (11,5%). Em 2017, já no governo Temer, a média anual de desocupados foi de 13,2 milhões de pessoas, o que equivale a 12,7% da força de trabalho do país.

Entre janeiro e março de 2018, segundo o instituto, a taxa de subutilização da força de trabalho – que agrega desocupados, subocupados (que trabalham menos horas do que poderiam) e força de trabalho potencial (no qual se enquadram os desalentados) – chegou a 24,7%, ou 27,7 milhões de pessoas. É o maior índice de subutilização da série histórica da PNAD Contínua.

No esforço para melhorar os números, o Ministério do Trabalho passou a incluir no seu balanço de geração de emprego os contratos intermitentes, permitidos desde a reforma trabalhista. Assim, quem assina esse tipo de contrato pode entrar na estatística como empregado mesmo que ainda não tenha sido efetivamente chamado a trabalhar ou recebido salário.

Como Alane, são 2,5 milhões de mulheres desalentadas no Brasil. É um número 20% maior do que o de homens, que somam 2,1 milhões em desalento. Compõem o perfil do desalentado médio no país as pessoas com ensino fundamental incompleto e cor autodeclarada parda – nestes pontos a jovem baiana, que é negra e completou o ensino médio, não se encaixa. Do total de desalentados, mais de 1 milhão de pessoas estão na faixa etária de Alane e 2,9 milhões se declaram pardos. Os brancos são 1,2 milhão e os negros 442 mil.

Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, explicou que o intervalo de seis anos entre coleta e divulgação de dados como os do desalento serve para as estatísticas se consolidarem ao longo do tempo. Para compor as estatísticas de emprego, desemprego e, consequentemente, desalento, os pesquisadores vão, durante cinco trimestres consecutivos, na casa da mesma família. Fazem perguntas que vão indicar se, na semana em que são entrevistadas, as pessoas fizeram alguma tentativa de conseguir emprego.

O desalentado integra a chamada força de trabalho potencial. Ou seja, quer trabalhar, mas deixa de procurar por não conseguir ocupação adequada, não ter experiência ou qualificação, ser considerado muito jovem ou idoso ou não haver trabalho no lugar onde mora. Um detalhe: para ser estatisticamente desalentado, é preciso estar disponível e disposto a assumir uma vaga se ela surgir. Alane está. “Topo qualquer coisa. Aliás, se não for ilegal, né?”, brincou. Desiludida, diz que pretende anular o voto nas eleições de outubro.

“O que popularmente se chama de desemprego, para o IBGE é a desocupação. Quando sobe essa taxa de desocupação é porque cresce o número de pessoas sem trabalho e procurando, entregando currículos. Busca na internet, por exemplo, é ação de procura. Então, se a pessoa só procurar em sites e disser isso na pesquisa, não é desalentada, é desocupada”, explicou Mariana Viveiros, analista de informações do IBGE na Bahia.

Na situação oposta estão os ocupados: aqueles que, na semana da pesquisa, trabalharam pelo menos uma hora em atividade paga com dinheiro, produtos ou benefícios, como alimentação ou moradia. Quem faz bico no lava a jato da esquina é considerado ocupado, mesmo na informalidade. “Um bom exemplo para diferenciar as categorias é quem só estuda para concursos. Se alguém se inscrever em concursos e fizer as provas, é considerado desocupado, porque está sem trabalhar, mas está à procura. Mas se estudar e não realizar nenhuma ação, como se inscrever num concurso, entra como desalentada”, esclareceu Viveiros.

 

Alane atribui à timidez o insucesso nas duas únicas entrevistas de emprego para as quais foi chamada. Hoje, faz o curso técnico em nutrição em um colégio da rede estadual baiana – é um retorno ao ensino médio, mas dessa vez com qualificação técnica. Já o curso de informática, numa escola privada, custa 100 reais por mês, pagos pela mãe de Alane, a técnica de enfermagem Ana Maria.

A irmã, Anielle, de 27 anos, vive sozinha numa casa construída em cima da sua. Ela também está sem trabalho, mas não desistiu: Busca emprego como vendedora ou recepcionista. Enquanto isso, Ana Maria sustenta as duas casas. O sonho de Alane é ter um salário que alivie o peso excessivo das costas da mãe. “Só que não tenho ânimo de procurar. Pra quê? É muito triste só dar com a cara na porta”, lamentou.

Victor Uchôa

Jornalista, formado pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou no Correio (BA) e no Grupo Metrópole

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