questões epidemiológicas

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

Amanda Rossi
10abr2020_13h24
Aglomeração em ponto de ônibus na Zona Leste –
Aglomeração em ponto de ônibus na Zona Leste – Foto Rivaldo Gomes/Folhapress

A covid-19 está percorrendo um novo caminho por São Paulo, cidade que registrou os primeiros casos e ainda tem os maiores números da doença no Brasil. Depois de debutar nas áreas mais ricas e nos hospitais privados, o novo coronavírus está se espalhando por regiões periféricas e populosas, principalmente as Zonas Leste e Norte, e lotando cada vez mais os leitos do Sistema Único de Saúde (SUS). É um trajeto esperado, mas que as autoridades de saúde pretendiam postergar o máximo possível. Em 31 de março, o único boletim epidemiológico do município divulgado até agora pontuou: “A distribuição de casos nos territórios mais periféricos da cidade ainda é significativamente menor que no centro expandido. O cenário aponta para um papel importante das medidas de distanciamento social: mitigar a contaminação da covid-19 em regiões onde a vulnerabilidade socioeconômica é maior”. Oito dias depois, um mapeamento feito pelo Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado revela que o cenário que se pretendia atrasar já é realidade: mais de um terço das mortes está ocorrendo nas bordas da cidade.

Nem prefeitura nem governo do estado informam qual é o número oficial de internações por covid-19 na rede privada e na rede pública. Também orientam que hospitais não repassem dados sobre suas situações particulares. Informações levantadas pela piauí junto a quatro instituições apontam para uma queda de casos nos hospitais privados de elite e um aumento em hospitais públicos e filantrópicos. O Hospital Albert Einstein, onde foi internado o primeiro paciente conhecido com covid-19 no Brasil, mantém o mesmo número de internações que tinha em 31 de março. Já o Sírio Libanês tem vinte casos a menos. Por outro lado, no Hospital São Paulo, o número de internações por casos confirmados ou suspeitos de covid-19 saltou de 46 para 64, entre o final de março e 7 de abril. No Hospital Santa Marcelina de Itaquera, instituição filantrópica na Zona Leste, a alta foi de 88 para 127 internações, até 6 de abril. 

Evolução dos óbitos confirmados por covid-19 na cidade de São Paulo, de 02 a 08 de abril/
Fonte: Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac

 

Desde o início de abril, o Centro de Vigilância Epidemiológica do estado está mapeando todas as mortes por covid-19. No dia 2, já havia casos em todas as regiões da cidade de São Paulo, mas o destaque ainda era o centro expandido, onde a doença ficou concentrada nas primeiras semanas de março. Com o passar dos dias, o número de óbitos na Zona Leste e na Zona Norte se expandiu mais do que no restante da capital. O último mapa, com casos do dia 8, mostra essas duas regiões preenchidas de pontos vermelhos. Já nas periferias das Zonas Sul e Oeste, o número de mortes ainda é pequeno. É o retrato de um cenário vivido cotidianamente pelas equipes médicas dos hospitais públicos que atendem pacientes das regiões mais atingidas.

“O número de internações na UTI de hospitais públicos está aumentando todos os dias. No início da pandemia em São Paulo, eram pessoas que viajaram para Europa e que tinham seguro de saúde. Agora, já está pegando toda a população”, diz José Roberto Ferraro, superintendente do Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo, que atende pelo SUS. Marco Aurélio Safadi, médico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, hospital filantrópico que também atende na rede pública, relata o mesmo cenário: “Primeiro, os hospitais privados ficaram lotados. Agora, é a vez dos hospitais públicos. A partir dessa semana, estamos observando as UTIs [da rede pública] encherem.”



Inicialmente, o Hospital São Paulo havia reservado 35 leitos de UTI adulto para casos de covid-19. Entre o final de março e o início de abril, praticamente todos foram ocupados. “Até esta quinta-feira pela manhã, eu tinha dois leitos vagos. É muito pouco. Em duas horas, eles podem ser preenchidos. Eu não imaginava que a ocupação da UTI seria tão rápida, devido à intensidade do isolamento social que foi feito – e que foi muito importante. Nesse momento, estamos correndo para abrir mais dezesseis leitos de UTI para covid-19”, explica Ferraro. Segundo ele, o hospital também contratou 120 novos profissionais de saúde, tanto para cuidar dos novos leitos de UTI como para substituir os membros da equipe que contraíram a doença. Apenas na enfermagem, cinquenta profissionais estão afastados. 

“O que está nos angustiando é que os casos que estão chegando ao serviço público são graves. No Hospital São Paulo, mais da metade [dos pacientes com covid-19] está em UTI. É uma taxa de gravidade muito alta. Além disso, os doentes que estão em UTI demoram para sair. A média de permanência é de duas a três semanas”, diz Ferraro. “O que está se desenhando é que devemos ter o pico no final de abril. E vamos vivenciar esse pico de forma mais dramática nos hospitais da rede pública, tanto em número de casos como em taxa de mortalidade. A população atendida pelo SUS é mais vulnerável e tem menos condições de acesso a serviços de saúde. Em momentos como esse, os injustos contrastes brasileiros manifestam sua face”, completa Safadi, da Santa Casa, que também é professor de infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da instituição.

O avanço da covid-19 pela periferia de São Paulo coincide com um momento em que a população começa a afrouxar medidas de isolamento social. Segundo o governo do estado, a adesão precisa ser de, no mínimo, 70% para controlar a doença. Mas, na última quarta-feira, o percentual estava em 49%. Em outras palavras, metade de São Paulo já tinha voltado ao movimento normal. Para combater o desrespeito à quarentena, o governador João Doria anunciou que pretende tomar medidas mais rígidas, inclusive, com uso da polícia. A dificuldade extra nesse momento é garantir que o isolamento social seja efetivo principalmente em bairros mais pobres, onde menos pessoas podem fazer home office e contar com serviços de delivery e onde há mais pessoas em uma mesma casa, em média. Mais do que a polícia, políticas sociais serão fundamentais para ajudar a população a ficar em casa.

A transmissão da doença nas regiões mais pobres representa a terceira fase de contágio em São Paulo. A primeira foi a chegada dos casos importados do exterior. Como o fluxo de viajantes internacionais é maior entre quem tem maior poder aquisitivo, foi nos bairros de classe alta e média do centro expandido de São Paulo que a covid-19 se instalou pela primeira vez. Em um segundo momento, a doença se espalhou pelo centro expandido. Era o início da transmissão local, decretada em 12 de março, quando deixou de ser possível rastrear a origem dos casos – por exemplo, um brasileiro vindo da Europa ou alguém que tivesse entrado em contato com ele. Naquela altura, a cidade de São Paulo tinha apenas 44 casos. No final do mês, o número de pessoas com a doença já passava de mil. De cada dez casos, quatro moravam na unidade de vigilância de saúde de Lapa/Pinheiros, que compreende bairros de renda alta como Jardim Paulista, Itaim Bibi, Pinheiros e Alto de Pinheiros, Perdizes. Juntos, eles têm apenas 5% da população da cidade. Já a Zona Leste e a Zona Norte, onde vivem 55% da população, tinham 11% e 7% dos casos, respectivamente. 

Como reflexo da propagação da doença por bairros mais ricos, a primeira onda de vítimas foi atendida em hospitais particulares. Até o final de março, oito de cada dez mortes ocorreram na rede privada de saúde, mostra balanço da prefeitura. Na rede pública, o maior número de casos estava no Hospital das Clínicas, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: treze internações – um quinto do número do Einstein naquela altura. Já agora, o Hospital das Clínicas está atendendo mais de 250 pacientes.

“As doenças costumam ingressar primeiro nas camadas menos privilegiadas. O coronavírus, ao contrário, entrou primeiro em camadas de classe econômica mais favorecida. Em São Paulo, claramente, a primeira circulação dos casos foi predominantemente nas classes sociais A e B, [atendidas] nos hospitais privados. Mas claro que a epidemia não vai ficar restrita a essa classe social, porque há uma interação social muito grande na sociedade”, aponta Safadi, da Santa Casa. Foi o que aconteceu no início de abril. Até o dia 8, a situação havia se invertido e as Zonas Leste e Norte passaram a somar a maior parte das mortes na cidade, cerca de quatro de cada dez, de acordo com o mapeamento feito pelo Centro de Vigilância Epidemiológica estadual. “A epidemia começou no centro expandido. As pessoas continuaram a trabalhar e pegar o metrô para voltar para suas casas na periferia. Então, se deu o fenômeno do centro para a periferia”. Em seguida, periferia-periferia.

Apesar da quarentena, iniciada em 24 de março, não há indicativos de que o número de casos na cidade de São Paulo esteja caindo. Pelo contrário, no estado como um todo, a tendência ainda é de alta. Em 7 de abril, foram registrados mais de quatro mil novos casos suspeitos de covid-19 no estado, o maior número até agora. De olho no avanço da doença, o governo estadual prorrogou a quarentena até 22 de abril e disse que houve uma queda na quantidade de pessoas que está efetivamente ficando em casa. “Com certeza, o número de casos [de covid-19] continua subindo na cidade de São Paulo, só não sei dizer o quanto. É fundamental manter o isolamento social”, diz o físico Domingos Alves, professor de Medicina Social da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Alves é especialista em modelagem computacional em saúde e está coordenando um estudo para projetar o número real de casos em todas as unidades de federação e em algumas cidades. Segundo cálculos iniciais, o número de casos no estado de São Paulo se aproxima de 40 mil, bem acima do número oficial – 7,5 mil casos, em 9 de abril. Os dados da cidade de São Paulo ainda não estão prontos.

O número de casos confirmados por covid-19 está bastante atrasado. Este ano, 1.535 pessoas já morreram no estado de São Paulo por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), um quadro viral com sintomas como tosse, febre e dificuldade de respirar. Entre as causas, estão os vírus que provocam as gripes regulares, como influenza, e o novo coronavírus. Até agora, somente 428 casos tiveram a causa da morte esclarecida como covid-19. Outros 585 continuam em investigação. A maioria dos demais não puderam ser especificados. Um pequeno número foi causado por influenza, a antiga vilã da SRAG. “Ainda não chegou o resultado de um exame de covid-19 que eu pedi há quinze dias. Se morrer alguém hoje, só vai aparecer nas estatísticas na semana que vem ou depois. Hoje estamos olhando para um cenário de duas semanas atrás”, relata Safadi, da Santa Casa. O Instituto Adolfo Lutz, responsável por analisar os exames feitos na rede pública paulista, opera além da capacidade. Até agora, 43 mil testes já deram entrada para serem avaliados. Três de cada quatro ainda não foram liberados. Dentre os exames encaminhados na segunda semana de março, 23% não estão prontos. Da terceira semana de março, faltam 67%. Da última semana, 75%. De abril, 95%.

“Está muito complicado trabalhar com as bases de dados oficiais. É de assustar. O que os dados mostram hoje aconteceu, na verdade, de duas a três semanas atrás. Não estamos vendo a epidemia que está acontecendo agora, mas a epidemia do passado”, fala Alves. Por isso, o número de casos e de mortes na periferia de São Paulo pode ser muito pior do que o mapeamento do Centro de Vigilância Epidemiológica aponta. Para Alves, é urgente que a cidade de São Paulo amplie o número de testes e passe a calcular taxas de mortalidade por covid-19 para cada região da cidade. “A taxa de mortalidade nas Zonas Leste e Norte já deve ser maior do que no centro, onde a epidemia estava acontecendo antes. Na periferia, há comunidades que não têm nem abastecimento de água permanente. Nós já deveríamos estar trabalhando com bases de dados georreferenciadas, mostrando onde exatamente estão os casos, para desenhar estratégias focadas nas populações mais vulneráveis”, diz o pesquisador.

 

Amanda Rossi (siga @amanda_rossi no Twitter)

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

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