questões da política

Em busca do centro perdido

Cinco partidos se reúnem em torno de Rodrigo Maia, assumem o nome de Centro e investem nas redes contra a "guerra dos extremos"

Thais Bilenky
28nov2019_14h41
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

O café na casa do primeiro vice-presidente da Câmara é melhor, então é lá que dirigentes de oito partidos se reúnem toda semana em Brasília. Marcos Pereira, do Republicanos, é o anfitrião, mas o “chefe”, brincam seus convidados, é Rodrigo Maia, do DEM, e presidente da Câmara. A rotina à base de cafeína estimula a articulação parlamentar que desde o início do ano possibilitou ao pragmático grupo, apelidado de Centrão, ser contraponto eficiente ao Palácio do Planalto e impor derrotas sucessivas ao governo Bolsonaro no Congresso. Nas últimas semanas, porém, o café com política saiu da casa de Pereira para tentar ganhar as redes e as ruas.

Cinco partidos contrataram uma equipe de marketing político para produzir peças publicitárias que reposicionem o Centro – por mais irônico que isso pareça – no inflamado debate político do país. “Reposicionar” é o jargão do marketing no qual os contratantes apostam para substituir o apelido Centrão, que desde os tempos da Constituinte e do governo Sarney virou sinônimo de “é dando que se recebe” no Congresso. Como tirar o superlativo depreciativo do centro? Demonstrando a hipótese de que não se deve deixar levar por extremos, seja à direita ou à esquerda, é fundamental para o país retomar o crescimento econômico, reduzir a desigualdade social e mitigar os principais problemas nacionais. Daí a convencer a opinião pública vão muitos posts, memes e vídeos, calcula a Turma do Cafezinho.

Um vídeo-manifesto com duração de dois minutos – assinado apenas como “Centro”, sem marcas de partidos nem nomes de políticos – foi disparado nas redes sociais na semana passada. “O centro não é ausência de posições, é ausência de preconceitos”, declara o narrador. “Ocupar os extremos é mais confortável do que ter que dialogar e aceitar as diferenças. Difícil mesmo é livrar-se dos preconceitos e enxergar o mundo não como você acha que ele deva ser, mas ver o mundo como ele é. O centro tem um olhar privilegiado dos problemas e é por isso que é no centro onde eles se resolvem.” 

Vídeo publicado no canal Centro Brasil em Movimento



DEM, Solidariedade, PL, Avante e PP aderiram integralmente ao projeto. Segundo o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, cada uma das cinco legendas desembolsa R$ 40 mil por mês para bancar essa equipe de comunicação, que produzirá mais do que pequenos vídeos para a internet; a pretensão é criar uma plataforma digital que se torne referência de conteúdo das principais pautas do grupo. Os formatos ainda estão em discussão, mas se cogita fazer webséries multimídia sobre assuntos como as reformas tributária e administrativa, prioritárias para o Centro. 

A iniciativa é inusual em anos ímpares, não-eleitorais, ainda mais ao tomar o risco de assumir um termo, o centro, que é malvisto pela opinião pública, segundo pesquisas. A ideia é acabar com o estigma naturalizando-o. Água mole em pedra dura, tanto bate…

Outros três partidos – MDB, Republicanos e PSD – participam das reuniões semanais na casa do primeiro vice-presidente da Câmara e estão em sintonia com a agenda parlamentar da Turma do Cafezinho, mas ainda não aderiram ao plano de comunicação do Centro. A aproximação do MDB é uma vitória do grupo, facilitada pela eleição do deputado Baleia Rossi como presidente da sigla, em outubro. Seu antecessor, o ex-senador Romero Jucá, não tinha as mesmas afinidades, era de outro grupo político-culinário, a Turma do Pudim – que comandou o MDB desde a morte de Ulysses Guimarães até o fim do governo Temer.

Ao indicar Baleia Rossi autor da reforma tributária na Câmara, Maia pavimentou a aproximação com o MDB, agregando mais 33 deputados ao grupo, que soma hoje 229 parlamentares – quase 45% da Casa. 

Rossi tem uma dificuldade particular com sua bancada, especialmente heterogênea – no Nordeste, o MDB tende a apoiar o PT, mas, no Sul, é alinhado ao PSL e a partidos que orbitam o governo. O emedebista gaúcho Osmar Terra é ministro da Cidadania. A agremiação é um resumo do que acontece no país: parte defende “Lula livre”, parte quer vê-lo na prisão e se entusiasma com Bolsonaro. O comando nacional do partido, contudo, está alinhado com a agenda de Maia e seu grupo. “É um diálogo de lideranças para sair da briga maluca entre os extremos”, resumiu Rossi em uma conversa em seu gabinete, na Câmara.

Para Paulinho da Força, é preciso mostrar à população que “quem tem feito as votações importantes do Congresso é o Centro” – sendo a reforma da Previdência a mais simbólica delas. A mensagem, em meio à polarização, não chega com clareza nas pontas, na sua avaliação. “A gente aposta que a guerra dos extremos vai cansar. É mais fácil você aparecer como o dono da verdade, mas não resolve nada”, disse o deputado. “Vai chegar o momento em que as pessoas vão perceber.” Para isso, disse, o grupo precisa estar posicionado para atrair setores dispostos a embarcar no seu projeto político. Ele defende que os dirigentes estabeleçam pontes com a sociedade civil, empresários, organizações não governamentais, centrais sindicais etc., em atos e eventos públicos. 

A articulação dos partidos, em alguns casos, pode azeitar a formação de alianças para as eleições municipais do ano que vem. O MDB, por exemplo, aproximou-se do DEM na cúpula nacional, mas também em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na capital paulista, uma peça-chave do xadrez é o PSDB do prefeito Bruno Covas, que pretende disputar a reeleição. Lideranças emedebistas trabalham com a possibilidade de indicação de Henrique Meirelles para a vice.

Mas a aproximação é localizada. Nacionalmente, o presidente do PSDB, Bruno Araújo (PE), deixou claro que pretende batalhar para recuperar o protagonismo que o partido já desempenhou no passado e não vai aderir ao grupo de Rodrigo Maia, apesar de terem agendas similares. “Não interessa ao PSDB liderar nenhum movimento”, ele disse à piauí. “Vamos participar de toda organização que não esteja no extremismo, mas, se for institucionalizado com CNPJ de partido, é outra história”, rechaçou. 

Há mais de um candidato a centro, assim como o centro tem mais de um candidato em 2022.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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