questões da sucessão

Expansionista, Guedes sofre sua primeira derrota

Futuro ministro da Economia incluiu Apex na estrutura da sua pasta, mas perdeu a agência de comércio após disputa com Itamaraty

Consuelo Dieguez
07dez2018_15h07
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

O todo-poderoso futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, sofreu, nesta quinta-feira, sua primeira derrota na formação do governo. Após uma conversa no começo da tarde com Bolsonaro, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, conseguiu que a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a Apex, almejada pelo ministério da Economia, ficasse no Itamaraty. O presidente da agência será Alexandro Carreiro, ou Alex Carreiro, como se apresenta no Linkedin. Ele é ex-assessor da Secretaria Nacional de Portos do Ministério dos Transportes, ex-integrante da liderança do PSL e ex-presidente do Patriota no Distrito Federal. O nome de Carreiro foi indicação do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, e recebeu o apoio de Araújo e dos futuros ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

A disputa em torno da Apex havia ficado clara na reunião da equipe de transição no Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB em Brasília, na quarta-feira, quando foi apresentada a estrutura dos ministérios, como mostrou reportagem da piauí. No organograma entregue pela equipe de Guedes ao futuro ministro da Casa Civil, a agência fora incluída na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia. O problema é que, em seguida, Araújo apresentou o organograma de sua pasta, da qual a Apex também fazia parte. Lorenzoni alertou para a duplicidade e sugeriu que os dois colegas se reunissem posteriormente para decidir o futuro da agência, já que Guedes se recuperava de uma infecção respiratória no Rio de Janeiro e não pôde participar da reunião.

Não houve tempo. O chanceler, que durante a reunião manifestara sua discordância com o fato de a Apex ter sido incorporada pelo Ministério da Economia sem seu conhecimento, partiu para o ataque antes de Guedes voltar a Brasília. Ainda na tarde de quarta-feira, iniciou as articulações com Eduardo Bolsonaro, que chegou a tuitar uma mensagem de apoio a Araújo: “Até onde eu sei, a Apex é do Itamaraty”.

Logo após se encontrar com Jair Bolsonaro na Granja do Torto e garantir o apoio dele para sua demanda, o chanceler anunciou sua vitória no Twitter. Às 16h14, escreveu: “Levei ao presidente Bolsonaro o nome do gestor público Alexandre Carreiro para a presidência da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), que permanecerá vinculada ao Itamaraty e atuará em estreita coordenação com todo o governo.” A mensagem foi republicada por Bolsonaro e pegou de surpresa tanto a equipe do ministério da Economia quanto o próprio Guedes. Já na equipe de Araújo, o clima era de celebração.

O que está em jogo nessa briga não são apenas os 726 milhões de reais que compõem o orçamento da agência. É também a tentativa de alguns integrantes do governo de reduzir o poder de Guedes. Após a fusão das pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no ministério da Economia, ele passou a ser alvo de ciúme permanente de colaboradores próximos a Bolsonaro. A lógica defendida por Guedes para a fusão, em conversas com o presidente eleito, era de que juntar as pastas reduziria a burocracia e a sobreposição de secretarias. Assim, as vinte secretarias que existiam em duplicidade nos três ministérios, tratando dos mesmos assuntos, foram fundidas em sete e num só ministério, o da Economia. Desde o anúncio da união, a equipe de Guedes passou a considerar também a incorporação da Apex.

O papel da Apex é o de fazer promoção comercial, como participação em feiras, exposições, rodadas de negócios, ou promoção em pontos de venda no exterior. A equipe da futura Secretaria de Comércio Exterior, a ser comandada pelo economista Marcos Troyjo, fez um estudo justificando a transferência da agência e a concentração do comércio exterior numa única pasta. “Trata-se de atividades do dia a dia de negócios que combinam inteligência, articulação com o setor produtivo e questões operacionais, devendo ser conduzidas por profissionais especializados e orientadas por considerações comerciais e não de política externa.” No estudo, obtido pela piauí, a saída da agência era justificada porque “parte da atuação da Apex reside em ações de qualificação de empresas para se inserirem no comércio internacional e atenderem às exigências do mercado externo.” O texto aponta o Ministério da Economia como “o melhor local para acompanhar e supervisionar com profundidade técnica todo o setor produtivo nacional.”

A tentativa de trazer a Apex para o Ministério da Economia era vista como mais uma derrota para parte do empresariado brasileiro, que nunca se conformou com o fim do Ministério da Indústria e Comércio e sua fusão com a Fazenda, sob o comando de Guedes. Um dos que mais criticaram a medida foi Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria, a CNI, que atacou a decisão dizendo que a indústria sofreria com o fato de o ministério ter sido reduzido a um apêndice da pasta da Economia, cuja única preocupação seria cortar custos e tratar de questões macroeconômicas. À época, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Guedes reagiu com ironia, afirmando que o Ministério da Indústria e Comércio era uma “trincheira da Primeira Guerra Mundial” na defesa do protecionismo, completando que sua intenção era “salvar a indústria brasileira apesar dos industriais brasileiros”. Segundo ele, era importante para a indústria a fusão do MDIC com a Economia porque era preciso fazer um trabalho coordenado de redução de imposto e abertura econômica. “Se abrirmos a economia sem resolvermos a questão dos impostos, a indústria quebra”, disse Guedes à sua equipe, ao defender que um único ministério coordenasse o processo.

Não adiantou. Andrade passou a fazer seguidos ataques a Guedes. Acabou se agastando também com o presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, por este ter se colocado ao lado de Guedes na briga. No futuro Ministério da Economia, há quem diga que Andrade teve influência na disputa pela Apex. “Se a Apex fosse para a Economia, parte de nossa indústria perderia o último balcão de negócios fora do controle do Paulo”, me disse, irônico, o diretor de uma entidade de classe ao analisar a briga. Procurado, Andrade não quis dar entrevista.

A Apex e a CNI trabalham em parceria desde 2008 – antes ainda de ser transferida para o Itamaraty, em 2016. Nesse período, o principal trabalho conjunto das duas entidades foi a promoção de feiras comerciais ao redor do mundo e o envio de empresários, políticos e integrantes dos governos para, em tese, prospectar negócios. O papel da Apex nessas feiras tem sido, principalmente, o de financiar os estandes para as empresas brasileiras exporem seus produtos. Este ano, várias foram as feiras patrocinadas pela agência. Uma de produtos de beleza em Bolonha, na Itália, outra de móveis, em Milão, outra de mineração, em Santiago no Chile, e uma de produtos industriais em Hannover, na Alemanha. Ao anunciar as feiras, a CNI informa, em sua página, que além dos estandes, são promovidas palestras sobre os produtos brasileiros. O resultado para as exportações industriais brasileiras, no entanto, só pioram. Dados da própria CNI indicam que as exportações de produtos industrializados caiu de 67% em 2007, para 56% em 2016.


Guedes evitou o confronto com Araújo após o presidente ter se posicionado a favor do chanceler e avisou sua equipe que não mediria forças com o chanceler. Segundo um integrante da equipe de Guedes, ele se limitou a dizer que é “irrelevante” onde a Apex estará, e o que importa é “se estará funcionando bem e sem que haja farra na agência.” No seu estilo assertivo, Guedes avisou também que, se a Apex não funcionar, ele não irá liberar dinheiro. Um amigo de Guedes confidenciou que o ministro está incomodado com os constantes ataques de integrantes do governo de que ele deseja ser o “imperador do Brasil” e de que quer abocanhar tudo para a sua pasta. Por isso mesmo, ele tem cedido, sem pestanejar, algumas áreas para outros ministérios, como o Coaf, para o Ministério da Justiça, sob o comando de Sérgio Moro.

Após o anúncio de que a Apex continuaria no Itamaraty, passaram a circular memes em redes sociais e grupos de WhatsApp, comentando o resultado da disputa, com ênfase para vitória de Araújo. Em uma delas, ao lado da imagem de um guerreiro eufórico, segurando uma adaga, havia um frase em inglês. “Apex stays here! This is Itamaraty.”

O novo presidente da Apex, Alexandro Carreiro, é uma figura pouco expressiva na área de comércio exterior. Uma de suas credenciais é ser amigo de Eduardo Bolsonaro, já que não tem muitas atividades anteriores na área. É, porém, um entusiasmado apoiador de Jair Bolsonaro, e nunca escondeu seu desejo de estar próximo do futuro presidente. Em sua página no Facebook ele postou dezenas de fotos ao lado do ex-capitão, durante a campanha presidencial, onde enaltecia as virtudes de Bolsonaro e a necessidade de o Brasil elegê-lo presidente. Também não escondia seu desejo de participar do círculo íntimo do futuro governante do Brasil. Num post de 24 de julho, no qual aparece numa foto, próximo a Bolsonaro, ele escreveu. “Posso ainda não ter chegado onde eu queria, mas estou mais perto do que ontem”.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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