questões da sucessão

Guedes e Itamaraty brigam por comércio exterior

Sem combinar um com o outro, futuros ministros da Economia e das Relações Exteriores incluem sob seu comando a agência de promoção de investimentos fora do país

Consuelo Dieguez
05dez2018_22h35
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a Apex, virou objeto de disputa entre os futuros ministros da Economia, Paulo Guedes, e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Com orçamento de 726 milhões de reais neste ano, a agência está subordinada ao Itamaraty desde o início do governo Temer, em 2016. Mas, a partir do anúncio da fusão das pastas da Fazenda, Planejamento e Indústria, Comércio Exterior e Serviços no Ministério de Economia, a equipe de Guedes passou a considerar a incorporação da Apex. Araújo soube da intenção logo que foi indicado para as Relações Exteriores, e chegou a reclamar com o presidente eleito sobre a possível perda da agência. Numa reunião interna, segundo assessores próximos do futuro presidente, Bolsonaro se posicionou a favor de seu chanceler. Mas adiantou pouco.

Nesta quarta-feira, em uma reunião da equipe de transição no Centro Cultural do Banco Brasil, em Brasília, a principal assessora de Guedes, Daniella Marques, mostrou à Casa Civil que a Apex estava incluída na Secretaria de Comércio Exterior e, portanto, dentro da estrutura do futuro Ministério da Economia. O objetivo do encontro da equipe de transição – do qual participaram quase todos os futuros ministros de Bolsonaro –, era mostrar as configurações das pastas. A subordinação da Apex a Guedes foi defendida como uma estratégia para reduzir a burocracia, concentrando todo o comércio exterior em uma só pasta. O futuro ministro da Economia foi o único a não comparecer ao encontro, porque se recupera de uma infecção respiratória, no Rio de Janeiro.

Por ter chegado atrasado à reunião, o chanceler Araújo não se deu conta de que Guedes havia incluído a Apex à sua pasta. Ao apresentar o organograma das Relações Exteriores, incluiu a agência na estrutura do Itamaraty. Foi Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, quem alertou Araújo de que havia algo errado, e avisou que um dos dois teria que abrir mão da agência. A decisão ainda não foi tomada, e os dois ministros terão que se entender sobre o assunto.

Criada em 2003, inicialmente sob o guarda-chuva do Ministério do Desenvolvimento, a Apex hoje é usada como instrumento de promoção do Ministério das Relações Exteriores. Para os diplomatas, ter a agência sob seu comando valoriza a pasta em questões econômicas. Sem isso, o Itamaraty seria esvaziado de uma de algumas de suas atuais funções, como auxiliar na atração de investimentos e incrementar o comércio exterior, também por meio das embaixadas. Sem a agência, parte desse poder desaparece.

Desde o início da formação do governo Bolsonaro, se discute a fusão de pastas e se considerava a ideia de todo o comércio exterior em um só ministério, que incluiria a Apex. É algo comum em governos de outros países.

Especialmente a partir da semana passada, quando começaram a ser publicadas notas em jornais que davam como certa a transferência, Araújo tem buscado conversas com Lorenzoni e Guedes. A forma agressiva com que o futuro ministro da Economia tenta agregar órgãos de outros ministérios tem causado mal-estar dentro da equipe de transição. “O Paulo está se achando imperador do Brasil”, comentou um técnico de um dos ministérios que perderam espaço para a pasta do “Posto Ipiranga” de Bolsonaro. “Ele quer ocupar tudo”. Na reunião desta quarta-feira, entretanto, Lorenzoni mostrou-se simpático a Guedes, pois não desautorizou a saída da agência do Itamaraty. Já o deputado Eduardo Bolsonaro tuitou, no início da tarde desta quarta-feira: “Até onde eu sei, a Apex é do Itamaraty”.

A insatisfação com Guedes aparece, principalmente, nos ministérios que tratam de temas econômicos, dadas as interferências do ministro. Muitos técnicos que ajudaram na formulação do programa de Bolsonaro se queixam que Guedes não ouve ninguém e quer trabalhar apenas com os economistas próximos a ele, com quem tem amizade ou afinidade profissional. Isso tem frustrado especialmente economistas paulistas. “O Paulo só quer trabalhar com a panelinha dele”, reclamou um deles. Assessores de Guedes, contudo, negam mal-estar com as outras pastas e creditam as reclamações a intrigas de quem não quer perder a Apex. “O ministro Araújo teve uma boa conversa com Paulo Guedes sobre este assunto e não há mal-estar entre eles”, disse um dos assessores.

Até o fim de novembro, as relações de Guedes com Araújo pareciam amenas. Tanto que o novo chanceler, após reunião com Guedes no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, no dia 30 de novembro, postou no Twitter. “Com Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, tive ótima reunião de trabalho. Compartilhamos a mesma visão estratégica para um Brasil grande, próspero e soberano. Trabalharemos com coesão e patriotismo para esse objetivo.” A reunião desta quarta-feira tem potencial para abalar a coesão.

Outra queixa de integrantes da equipe de transição foi o fato de Guedes ter contratado a assessoria de imprensa FSB, uma das maiores agências de comunicação do país, para assessorá-lo. O contrato já acabou, mas a ciumeira ficou no ar. Técnicos de outras pastas criticam a forma como a FSB divulgou notas na imprensa a favor de Guedes. “Repare que todas as notinhas nos jornais favoráveis ao Paulo começam assim ‘o dream team da equipe econômica’, e depois detona todos os outros.” De acordo com um desses técnicos, a estratégia de Guedes de jogar para imprensa tem funcionado. “Ele divulga nomes como se já estivessem decididos para ocupar cargos chaves no governo e, no final, acaba emplacando alguns.” Guedes conta ainda com sua experiência nas relações com a imprensa – ao contrário da maioria dos novos ministros, que tinham pouco ou quase nenhuma exposição pública antes de serem nomeados por Bolsonaro para compor o seu governo.

*

Errata: Versão anterior deste texto informou incorretamente que o orçamento da Apex em 2018 seria de 726 mil reais. O orçamento é de 726 milhões de reais em 2018. A informação foi corrigida às 20h20 do dia 6 de dezembro.

Consuelo Dieguez (siga @consuelodieguez no Twitter)

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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