colunistas

Felipe Santa Cruz, um vitorioso

Vilania de Bolsonaro mostra que ele ignora responsabilidades de um presidente da República

Eduardo Escorel
07ago2019_08h22

Na eleição de 2004, no Rio de Janeiro, duas pequenas equipes acompanharam as campanhas de alguns candidatos a vereador. Entre eles estava o atual presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, na época com 32 anos, concorrendo pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Das gravações feitas de abril a outubro daquele ano resultou Vocação do Poder, lançado em 2005. O documentário tem no elenco uma mulher e cinco homens. Além de pertencer a partidos diferentes, todos eram candidatos de primeira viagem. Dois foram eleitos – Carlo Caiado, do Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM), e a Pastora Márcia Teixeira, do Partido Liberal (PL). André Luiz Filho (PMDB), Antonio Pedro (PSDB), MC Geleia (PV) e Felipe, que teve 3 187 votos e foi o segundo menos votado do grupo, não se elegeram.

A intolerável declaração do presidente da República de que poderia contar as circunstâncias do desaparecimento de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, pai de Felipe, ocorrido em fevereiro de 1974, suscitou em mim a lembrança do convívio que tivemos há quinze anos, ocasião em que cruzamos a cidade algumas vezes gravando a busca de votos que não surgiram nas urnas. Mas Felipe teve ao menos o meu voto e, se bem me lembro, o do restante da equipe também. Votos dados com conhecimento de causa, pois durante a gravação pudemos comprovar o idealismo aliado à seriedade, temperados com certa dose de quixotismo do candidato. Ele nos demonstrou no dia a dia da campanha ter vocação política e integridade pessoal, além de boas ideias para atuar na Câmara Municipal.

Passada a eleição, creio ter estado com Felipe pela última vez quando Vocação do Poder estreou na abertura do Festival É Tudo Verdade. De lá para cá, acompanhei sua trajetória vitoriosa posterior à derrota. Ele retomou o trabalho como advogado trabalhista, oito anos depois tomou posse da seção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil e em janeiro deste ano foi eleito presidente nacional da OAB com 80 dos 81 votos.

Esta não é, portanto, a história de um perdedor. Mesmo sem ter sido eleito, nos anos seguintes Felipe se tornou um vitorioso.

 

Diante da afirmação insidiosa do presidente de que o pai de Felipe teria sido morto pelos próprios companheiros da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), ele reagiu emocionado, mas com serenidade. Escreveu que “o mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demonstrando mais uma vez traços de caráter graves em um governante: a crueldade e a falta de empatia”. À Folha de S.Paulo declarou que “se o presidente tem segredos do porão da ditadura, é hora de contar”. E protocolou pedido de explicações no Supremo Tribunal Federal (STF), assinado por doze ex-presidentes da OAB, em que pleiteia a notificação do presidente para que esclareça o que disse. Na interpelação, o presidente da OAB escreve: “As declarações do Sr. Presidente da República vão contra o reconhecimento amplo e oficial da violação praticada contra o genitor do ofendido e sua família, veiculando informação desmentida pelo próprio Estado, e que atenta contra a dignidade das vítimas. Ainda mais grave se torna a possível prática de injúria em razão da posição institucional e do cargo ocupado pelo Exmo. Sr. Jair Bolsonaro, atualmente investido nas funções de mais alto mandatário da Nação.”

Quando revi Vocação do Poder na semana passada, depois de muito tempo, chamou minha atenção a tentativa feita por Felipe no início da campanha, em 2004, de provocar “um debate na sociedade” entre “pessoas que tenham compromisso com a seriedade”. Para tanto, segundo ele, seria preciso “romper esse clima de marasmo, essa frieza que a campanha parece ter”.

Alguns dos testemunhos mais reveladores de Felipe foram dados enquanto circulávamos de carro pelo Rio, indo e vindo de compromissos de campanha: “Em algumas regiões da cidade a política é o instrumento econômico mais poderoso, o que não acontece na Zona Sul. Um comerciante ou empresário da Zona Sul precisa menos dos políticos do que em outras zonas. As redes de poder nessas regiões passam muito pela política. Então, é óbvio que aqui [na Zona Oeste] a disputa eleitoral mexe mais com a vida das pessoas. […] Aqui, ser amigo de um vereador faz diferença. Aqui, há contatos entre política, vereança, região administrativa, oposição, situação.”

A descrença da população nos políticos não demorou a se manifestar. Ao panfletar em frente à Central do Brasil, Felipe ouviu de um transeunte identificado como Marcos: “As mesmas conversas, as mesmas histórias. Aí, na hora que precisa de um hospital público, primeiro você morre, pra depois saber o que houve contigo. Tu não tem direito a nada. A educação, pior ainda. Aí, aquilo vai te revoltando, vai te revoltando, aí tu quer escolher um pra votar, bota lá zero, zero. Aí tu é obrigado a confirmar. […] Eu acho, na minha opinião, quanto mais burrice existir, quanto mais analfabetismo existir, melhor pros políticos. […] Eu acho que quanto menos instrução tiver o povo, eu acho que o político cresce mais. […] Eu vou te falar uma coisa: já dá pra tu ficar esgotado com isso. Um dia há de melhorar. Eu vou embora. Mas pensa, cara. Se você ganhar alguma coisa, pensa. Se você tiver condições, olha os hospitais, cara.”

Na reta final da campanha, a dificuldade de encontrar interlocutores dispostos a discutir ideias foi se agravando. Depois de participar de um debate na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), onde havia doze pessoas na plateia, Felipe nos disse: “A grande angústia que vai dando a dez, onze dias da eleição é que a gente vê a campanha articulada, bem montada, com um discurso para a sociedade que me apaixona, mas não tem com quem falar. É uma situação muito… difícil. Você tem que persistir. Ter obstinação neste momento. […] Você vai chegar em casa, tem que baixar a adrenalina, mas é hora de persistir por que a gente chegou até aqui.”

A uma semana da eleição, durante outro longo deslocamento de carro, Felipe confessou estar esperando há meses “o dia em que vai começar a eleição. […] Chegamos aos últimos sete dias e ela não começou. Ou, se ela começou não está passando pelo debate. Não tá passando pela população. Tá passando por grandes estruturas às quais a gente não tem acesso”.

A agonia prosseguiu nos dias seguintes. Em uma sala-auditório da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), antes de um debate entre candidatos, Felipe nos confidenciou: “Quando você chega na quinta-feira, a três dias da eleição, na PUC, no Direito, e você vê que não vai ter vinte pessoas aqui, você sente a pedreira que foi essa campanha.”

No fim da tarde, em 3 de outubro de 2004, a partir do início da apuração, o sofrimento de Felipe foi crescendo. Às cinco horas, na zona eleitoral do Colégio Santo Agostinho, no Leblon, ele deixou escapar: “Isso não é pra gente, pra nenhum ser humano. Eu quero botar meu terno e voltar para o trabalho. Falando diante da câmera, parece que eu não quero o cargo público. Quero sim.”

Pouco depois, Felipe foi andando até a esquina e, enquanto era consolado por uma amiga, admitiu: “Achei que ia arrebentar. Ter 100 votos. É a principal zona do Leblon. Estou verdadeiramente frustrado.”

No dia seguinte à eleição, Felipe estava abatido: “A sensação […] de sentir as pessoas te apoiando e aí, na hora do voto entrar ele não entrou, como aconteceu ontem, é uma sensação de frustração. Você vê a frustração das pessoas que estão em volta de você e não é uma coisa boa, mas eu… esforço eu fiz, dentro da minha possibilidade e acho que fiz um trabalho legal. É isso.”

Felipe reagiu com dignidade exemplar à derrota daquele dia. Botou seu terno e saiu por aí. Quinze anos depois, diante da vilania do presidente, manteve a serenidade. Segundo a petição que encaminhou ao STF, as declarações de Bolsonaro sobre as circunstâncias da morte do seu pai “além de não estarem lastreadas em documentos oficiais, contrariam a posição oficial do Estado brasileiro, que reconheceu e declarou o desaparecimento forçado de Fernando de Santa Cruz, em cumprimento à legislação interna e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”.

Embora tenha a prerrogativa de não responder, o presidente declarou que prestará os esclarecimentos pedidos. Ele considera não ter falado nada demais. Teria dito “o que teve conhecimento na época”, revelando ignorar por completo quais são as responsabilidades de um presidente da República, que não incluem fazer declarações levianas baseadas no que ouviu dizer, nem desconhecer documentos oficiais. Muito menos desrespeitar a memória dos mortos e de suas famílias.

Enquanto isso, Felipe e sua filha de 13 anos recebem ameaças nas redes sociais. É preciso dar um basta incisivo nessas ameaças e assegurar a integridade física das vítimas dessas agressões verbais. Cabe ao presidente da República a obrigação de conter os extremistas de direita que o apoiam, não de atiçá-los com palavras irresponsáveis, sob pena de vir a ser responsabilizado por quaisquer atos que venham a cometer.


PS.: O documentário Vocação do Poder, gravado em 2004 e lançado no ano seguinte, é dirigido por José Joffily e por mim. Tivemos consultoria da antropóloga Karina Kuschnir. Ricardo Stein, Luís Abramo e Guy Gonçalves fizeram câmera e fotografia; Bruno Fernandes e Heron Alencar, o som direto. O filme foi produzido com patrocínio do Programa Petrobras Cultural e do BNDES, com recursos obtidos através da Lei do Audiovisual e da Lei de Incentivo à Cultura.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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