questões da política

Fumaça, tosse e os negócios de sempre

Ao prestigiar ato pró-golpe, Bolsonaro joga na confusão enquanto seus generais palacianos negociam verbas e cargos com o Congresso

Thais Bilenky
20abr2020_18h43
Ilustração de Paula Cardoso sobre fotos de Pedro Ladeira/Folhapress

Ao endossar ato a favor do golpe militar, Jair Bolsonaro ofuscou o debate sobre a resposta do Brasil à pandemia de covid-19. Ao atacar a “velha política”, o presidente se antecipou a críticas justamente no momento em que retoma o toma-lá-dá-cá com o Congresso. Alguns minutos em cima de uma caçamba em frente ao quartel-general do Exército no domingo, 19, (durante os quais tossiu sem conseguir disfarçar) bastaram para o chefe do Executivo determinar a pauta da semana driblando os temas mais caros ao país e mais sensíveis à sua imagem. Essa é a análise de deputados do centrão, da direita e da esquerda ouvidos pela piauí nesta segunda-feira, 20. Enquanto se discute publicamente se os generais vão ajudar Bolsonaro a dar um golpe militar ou se a Câmara vai abrir um processo de impeachment, a portas fechadas, os atores de sempre, governo e centrão, negociam o de sempre, cargos e verbas. 

A nova leva de ataques de Bolsonaro e sua tropa ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e ao “sistema” só veio depois de o presidente se certificar da disposição de parte dos líderes do centrão para conversar, segundo políticos a par da aproximação. Na linha de frente estão o líder do Progressistas (ex-PP) na Câmara, Arthur Lira, e o presidente do partido, senador Ciro Nogueira. Outros deputados, como Marcos Pereira, presidente do Republicanos (ex-PRB, um braço da Igreja Universal), que esteve com Bolsonaro pessoalmente em diversas ocasiões recentes, e Wellington Roberto, do PL, também são citados. 

Da parte do Planalto, além do presidente, ministros generais compõem o time, com Braga Netto (Casa Civil) à frente e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) a seu lado. A participação desses militares nas negociações com a “velha política” é encarada por deputados como demonstração de que, apesar da controvérsia e da apreensão causadas pela participação de Bolsonaro na manifestação a favor de uma intervenção, o “sistema” está operante como sempre e com o respaldo da cúpula das Forças Armadas.

Segundo essa análise, o barulho causado pelo temor de um golpe militar é uma cortina de fumaça tão eficaz quanto os próprios ataques de Bolsonaro à “velha política”. Uma das principais motivações da investida do Palácio do Planalto é a percepção da perda de espaço do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não por coincidência o principal alvo dos ataques bolsonaristas.  



Com mandato a ser encerrado em fevereiro de 2021 e desgastes acumulados com o governo, Maia passou a ter a liderança contestada por deputados de olho em sua posição. Arthur Lira e Marcos Pereira se movimentam com esse intuito, segundo políticos. Em resposta, setores dissidentes do centrão contrários à aproximação com um presidente que vilipendia as instituições democráticas se articulam inclusive com deputados de esquerda que dão sustentação a Maia. 

Dentro do próprio Progressistas de Lira, o deputado Aguinaldo Ribeiro, líder da maioria na Câmara, também cotado para assumir a presidência da Câmara, condena os ataques de Bolsonaro a Rodrigo Maia (“não é momento para isso”) e prega conciliação entre Poderes no combate ao coronavírus. Sobre a negociação de seu partido com o Planalto, diz que Lira e Nogueira “é que têm que responder”. Nenhum dos dois retornou os pedidos de entrevista feitos pela piauí.

Para Aguinaldo Ribeiro, Bolsonaro acusa Maia de conspirar para sua queda com intenção de atiçar sua base radicalizada. “Impeachment não é uma pauta da Câmara, o assunto vem de fora”, ele respondeu. Ele não descarta que a aproximação do presidente com o centrão tenha como objetivo arregimentar 172 votos contra o impeachment. “Não sei. Pode ser que [o presidente] esteja vendo fantasmas”, ironizou. “Pode ser uma tática para tirar de foco os problemas muito graves de saúde e da economia.”

Na esquerda, Marcelo Freixo (PSOL-RJ) diz estar em permanente contato com deputados de diferentes partidos para frear o avanço do Planalto no Legislativo. “Meu interesse é impedir a formação de uma base sólida do governo a partir da troca de cargos. Precisamos montar uma recomposição de forças baseada na defesa da democracia com uma maioria que permita o funcionamento do Congresso Nacional. As diferenças entre nós são menores do que com quem propõe o AI-5”, afirma Freixo. O Ato Institucional nº5 deu origem à fase mais sombria e violenta da ditadura militar. Sua reedição foi aventada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, como resposta a eventuais protestos de esquerda e entrou para o repertório de manifestantes em passeatas a favor de um golpe, como a de domingo.

Freixo vê uma brecha para o avanço de Bolsonaro no Congresso falhar. No momento em que a base mais fiel do presidente, de deputados radicais, se contrapuser à ocupação de cargos federais pelo centrão, justamente pela contradição no discurso contra a “velha política” do bolsonarismo, o presidente será obrigado a recuar se não quiser reduzir ainda mais o núcleo duro de seu apoio político. 

Deputados de direita independentes, nem alinhados a Maia nem ao governo, irritaram-se com o uso da ameaça de golpe militar como bode expiatório. Para esse grupo, não existe uma articulação autoritária organizada em curso, porque as Forças Armadas não embarcariam nela. Mas a especulação serve a bolsonaristas para atacar a cúpula do Congresso e à cúpula do Congresso para se contrapor ao governo. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), por exemplo, saiu em defesa do ato de domingo nas redes sociais com argumentação nessa linha. “Tentam desgastar a manifestação de hoje sob o argumento de que foi antidemocrática. Oras, o único motivo pelo qual o povo teve motivo de ir às ruas foi o autoritarismo de Rodrigo Maia e o desrespeito à legítima eleição de Jair Bolsonaro. Quem é o ditador, afinal?”, escreveu.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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