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Glória a Dios!

    O então prefeito Mario Ishii, de poncho vermelho, durante um culto com pastores de José C Paz Foto: Dirección de Prensa y Ceremonial del Gobierno de la Municipalidad de José C Paz

vultos da religião

Glória a Dios!

Expansão evangélica em Buenos Aires vinculada ao peronismo desafia a direita argentina

Soledad Dominguez, de Buenos Aires | 15 jan 2026_08h46
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No Teatro Municipal da cidade José C. Paz, na província de Buenos Aires, um círculo de pastores rodeava o então prefeito peronista Mario Ishii, com os braços erguidos e os olhos fechados. Ishii permanece imóvel no centro. Embora não seja evangélico, ele tem uma estreita relação com a comunidade. “Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, receba esta bênção. Mario Ishii, homem sábio, assessor de ex-presidentes. Pai Santo! Eu te rogo por esta cidade onde vivemos e por ele.” A mão de um pastor aponta para sua testa, enquanto o prefeito mantém o olhar fixo e sereno. O murmúrio de orações enche o ar. “Glória a Deus!”

José C. Paz tem 326 mil habitantes e fica a noroeste da Cidade Autônoma de Buenos Aires. É um dos 24 municípios da Grande Buenos Aires, majoritariamente governados por peronistas. Naquela manhã fria de meados de agosto, o teatro recebeu trezentos pastores evangélicos convocados pela prefeitura. Sentados em uma grande roda, os religiosos ouviram Ishii, que usava um poncho vermelho-escuro sobre um dos ombros, o que lhe conferia um ar de caudilho popular. Com o microfone em mãos, fez um pedido: “Preciso da unidade dos pastores. Trabalhamos juntos há anos. Quero ouvi-los. O povo está deprimido, há problemas por todos os lados e me custa a contenção social. Vocês sempre me ajudaram espiritualmente.”

Ishii estava acompanhado da Direção Geral de Assuntos Religiosos, vinculada à secretaria de Município, responsável por dialogar com os movimentos religiosos locais. “Estima-se um total de 380 igrejas evangélicas registradas, mas esse número pode ser maior”, disse à piauí Norma Ruiz, funcionária da secretaria. 

Em toda a província de Buenos Aires existem 135 municípios, sendo 37 com escritórios de assuntos religiosos. Em várias cidades bonaerenses, os pastores evangélicos são atores-chave para a classe política graças ao seu trabalho territorial. Em José C. Paz, articulados em uma rede pastoral, eles mantêm diálogo próximo com a prefeitura. “São mediadores, articulando entre o território, os bairros e a política institucional. Não aparecem como líderes de um projeto partidário, como ocorre no Brasil, mas como referências que conectam a comunidade com o poder local”, explica Marcos Carbonelli, pesquisador do Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas) sobre religião e política e autor do livro Los evangélicos en la política argentina : Crecimiento en los barrios y derrotas en las urnas, ainda sem tradução no Brasil.

“Amém!”, ressoou no teatro. O prefeito Ishii conta-lhes que é candidato a senador provincial (ele foi eleito e assumiu o cargo na província de Buenos Aires em dezembro). “Deus está a serviço da sociedade e ele está nos olhando”, afirmou, convidando os pastores a falarem. Pablo Florián, representante da Rede Pastoral de José C. Paz, toma a palavra. Florián construiu sua carreira como fabricante de cadeiras e oficial militar. Hoje dirige o ministério Este é o dedo de Deus, que possui dezesseis filiais, uma delas no bairro periférico Alberdi, em José C. Paz. “Todos colaboramos na igreja e temos contato direto com a prefeitura. Dizem que há estabilidade da moeda, mas o dinheiro não dá para as compras do supermercado.” Segundo dados do Observatório da Grande Buenos Aires, estima-se que o índice de pobreza na região foi de 34,5% no primeiro trimestre de 2025.

Pastores que solicitam alimentos para cozinhas comunitárias levantam a mão no salão organizado para receber Ishii. Dias depois, um grupo de voluntários do ministério Este é o dedo de Deus organizou e distribuiu sacolas de alimentos para cerca de noventa pastores locais, que as distribuíram às famílias dos bairros. As sacolas, empilhadas na entrada do templo, formam uma barreira de sacos plásticos com produtos essenciais. Rigoroso com a prestação de contas, Florián e sua equipe registram cada entrega.

Em Lomas de Zamora, segundo distrito mais populoso da Grande Buenos Aires, com quase 700 mil habitantes, a comunhão entre o poder local, a ajuda humanitária e a fé evangélica também se faz presente. Acompanhado do pastor Pablo David Gomelsky, subsecretário de culto, visitei uma igreja evangélica do bairro periférico 2 de Abril, comandada pela pastora Nancy Cabral. O diálogo dos dois não trata de fé nem de Deus, mas do urgente e cotidiano: conseguir verduras e hortaliças para uma cozinha da congregação. “Quando abrimos os portões, as crianças vêm brincar e me perguntam: ‘Tia, tia, você tem um pouco de pão?’”, diz Cabral, acrescentando que dois dos maiores problemas da região são a droga e a fome. “E a tendência é que a situação piore por causa da política econômica nacional atual”, completa o pastor. Cabral e suas quatro ajudantes tentam resolver emergências materiais, às vezes com dinheiro do próprio bolso. “Recentemente compramos chá de erva-mate e leite para as crianças do bairro”, relembra. Durante a conversa, ela pede a Gomelsky tijolos para terminar uma reforma na igreja. Ele não se compromete totalmente: “Não posso assegurar, mas talvez consigamos os materiais.”

A dinâmica entre lideranças religiosas, políticos locais e a população empobrecida não é exatamente uma novidade. O que se vê com mais frequência é a expansão de pastores e igrejas evangélicas nesse contexto, especialmente na Grande Buenos Aires. Embora a maioria dos argentinos continue sendo católica, essa adesão vem caindo: segundo pesquisa do Ceil-Conicet de 2008-2019, passou de 76% para 62,9%, enquanto aqueles que se declaram evangélicos subiu de 9% para 15%. Este número continua crescendo (mais lentamente do que se previa há alguns anos), com algumas regiões do país onde o processo ocorre de forma mais acelerada (como no Norte e em áreas da Grande Buenos Aires).

Para a socióloga Pilar Bossio, professora da Universidad Torcuato Di Tella, a presença das igrejas e das lideranças responde a dois fatores: a ausência do Estado em todo o território e o crescente descrédito em relação à política. “Isso permite que as igrejas pentecostais ocupem espaços e assumam responsabilidades concretas: combater drogas, montar bolsas de trabalho, cobrir o que o Estado não faz”, afirma.

 

 

Semanas antes da visita da piauí à cidade, o presidente Javier Milei e sua irmã, Karina, fizeram uma caravana de campanha para as eleições legislativas e foram mal recebidos pelos moradores de Lomas Zamora, sendo vaiados e evacuados rapidamente por seus seguranças. Gomelsky, o pastor, é crítico do atual presidente. Além disso, se define como peronista. “Qualquer cristão deveria ser peronista, por causa da justiça social. Eu sempre fiz ação social e a igreja não pode ser alheia a isso”, afirma.

O peronismo surgiu há oitenta anos com o ex-presidente Juan Domingo Perón, um militar com base popular e inicialmente identificado com o catolicismo – em 1955, no entanto, foi excomungado pelo Vaticano por desavenças políticas com o clero argentino. Ao lado da primeira-dama Eva Perón, constituíram uma ideologia política de significativa mobilização social, com apelo aos trabalhadores e mais vulneráveis, e que posteriormente serviu de base para correntes da esquerda argentina, como o kirchnerismo, baseado nas figuras de Néstor e Cristina Kirchner, casal que comandou o país entre 2003 e 2015. 

A presença de Milei e sua irmã na região não é ocasional. A Grande Buenos Aires abriga quase 13 milhões de pessoas (cerca de 37% do eleitorado argentino) e é um núcleo econômico e político estratégico. Além disso, desde a redemocratização, em 1983, o peronismo só perdeu as eleições em 1983 e 2015 – o atual governador é Axel Kicillof, que está em seu segundo mandato e tem uma trajetória vinculada ao kirchnerismo: foi ministro da Economia de Cristina e deputado nacional entre 2015 e 2019.

A presença histórica do peronismo na região se explica por sua afinidade territorial e pela capacidade de manter laços com as classes populares. Desde os anos 1990, a gestão de recursos estatais e programas sociais fortaleceu uma rede de políticos que sustentou sua hegemonia. Essa relação abriu espaço para vínculos com movimentos evangélicos: líderes partidários reconheceram neles um capital territorial estratégico, enquanto atores do mundo evangélico passaram a ver no diálogo político uma via para ampliar sua assistência social e projetar poder local.

Essa presença e diálogo no território foram abordados pelo sociólogo Pablo Semán no livro Vivir la Fe. Entre el catolicismo y el pentecostalismo, la religiosidad de los sectores populares en la Argentina (ainda não publicado no Brasil). Para ele, a trama histórica entre peronismo e evangelismo se tece sobre uma mesma base: ambos apelam a setores populares e mais vulneráveis, construindo comunidade, ainda que com objetivos diferentes. Enquanto o peronismo busca capitalizar politicamente a religiosidade, os evangélicos defendem a autonomia de sua missão. O que os une é o conceito (teórico, ao menos) de “ajudar o povo”, seja como gesto de amor ao próximo ou como sinal de boa política. Nesse ponto, diz Semán, “peronismo e fé se cruzam”.

 

A vinculação ao peronismo pode ser a explicação para dois fatores na relação dos evangélicos argentinos com a política: baixo número de candidatos vinculados à religião e menor incidência de postulantes da extrema direita. “Diferentemente de Bolsonaro, cuja relação com os evangélicos foi parte orgânica de suas campanhas, no caso de Milei as interações ainda são ocasionais”, observa Carbonelli. O presidente demonstra forte conexão com o judaísmo – que reúne menos de 1% da população argentina – e chegou a se autodefinir como “o primeiro presidente judeu espiritualmente”, em sintonia com as direitas globais.

Dos 257 deputados no Congresso argentino, sete se autodefinem como evangélicos ou estão ligados a igrejas dessa religião. Todos de direita, a maioria representa o La Libertad Avanza, sigla do Milei. Eles não têm uma agenda legislativa própria nem coordenação formal entre eles, apenas priorizam apoiar o atual governo. Na prática, o protagonismo evangélico no Parlamento argentino tem sido historicamente limitado. A mais visível foi Cynthia Hotton, que legislou entre 2007 e 2011 pelo PRO, do ex-presidente Mauricio Macri. 

No Brasil a situação é oposta. A Frente Parlamentar Evangélica tem cerca de 219 dos 513 deputados, boa parte deles em partidos de direita. Representantes evangélicos, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e o pastor Marco Feliciano (PL-SP), ambos bolsonaristas, estão entre os mais votados do país. 

Carbonelli aponta alguns fatores que diferenciam Brasil e Argentina. O primeiro deles é essa relação dos evangélicos com o peronismo. “Na Argentina, o pentecostalismo cresceu entre os setores populares urbanos nos anos 1980 e 1990. A conversão religiosa ao pentecostalismo não rompeu com as identidades políticas anteriores de pessoas de setores populares como o peronismo. Eles coexistiram e houve um processo de sincretismo. Eles não deixaram de votar no peronismo, pois o entendem como um partido e uma experiência política ligada à memória popular de justiça social.” 

Para o pesquisador, na Argentina, a identidade ou autodefinição religiosa não determina necessariamente a conduta política e o voto do cidadão. “No máximo, ela pode se articular com outras identidades e funcionar como uma ‘caixa de ressonância’, mas de forma alguma a identidade religiosa é determinante em última instância.”

Além disso, segundo Carbonelli, a vinculação entre religião e política entre os argentinos é mais complexa do que no Brasil. “Na Argentina, acreditava-se que em 2019 haveria uma maneira de alcançar maior participação política dos evangélicos como no Brasil, como fez Bolsonaro, mas isso não aconteceu porque, entre os evangélicos argentinos em geral, há uma rejeição majoritária (64,4% segundo pesquisa do Ceil-Conicet, publicada em 2020) à existência de um partido político liderado por figuras religiosas.”

Assim, diz ele, “as tentativas políticas de pastores com fortes raízes na vida de bairro da aglomeração de Buenos Aires de se tornarem prefeitos, com uma agenda de demandas sociais clássicas, como emprego e segurança social, fracassaram, porque o peronismo absorveu grande parte das demandas evangélicas em seu partido sem a necessidade de ter figuras evangélicas com grande visibilidade pública e política”, complementa Carbonelli.

Para a socióloga Bossio, professora da Universidad Torcuato Di Tella, a ausência de políticos fortemente vinculados ao pentecostalismo tem duas explicações. A primeira diz respeito à organização do sistema partidário. “Os sistemas político-partidários e o potencial de caudal eleitoral são muito diferentes. Há menos evangélicos na Argentina do que no Brasil, sejam progressistas ou conservadores. Portanto, é mais difícil para eles entrarem na política. É por isso que eles se inserem ‘de baixo’; trabalhando na direção de cultos e em outras posições intermediárias, na gestão pública, mas não diretamente em cargos políticos”, afirma a socióloga. 

Ao analisar o campo ultraconservador, ela ressalta que os candidatos “falharam como em suas tentativas de pertencer a longo prazo nas estruturas político partidárias”. “Hotton, evangélica pró-vida que concorreu com o partido de Macri, cumpriu apenas um mandato no Congresso Nacional e não teve estrutura política suficiente para sustentar sua proposta. Ela foi uma ativista contra a lei do casamento igualitário e contra o aborto e depois desapareceu da política.”

Essa agenda conservadora, que não mobilizou eleitores a favor de Hotton, foi decisiva, no Brasil, para a formação de um eleitorado evangélico voltado à extrema direita, argumentou a cientista política Ana Carolina Evangelista em um artigo publicado neste mês na edição para América do Sul do jornal francês Le Monde Diplomatique. Evangelista, que é diretora executiva do Instituto de Estudos da Religião e referência no tema, diz que a expansão do pentecostalismo se iniciou em meados dos 1980, quando “o mundo institucional evangélico começou a se organizar de maneira mais explícita e sistemática para eleger seus representantes”. 

Esse movimento foi uma reação ao “avanço de uma agenda progressista moral” e uma resposta à influência da Igreja Católica na Constituição de 1988. “Ao mesmo tempo, o campo evangélico já estava crescendo em termos de afiliação religiosa dentro da sociedade e buscava um espaço mais legítimo na política.” Nesse contexto, a pesquisadora explica que o crescimento evangélico ocorreu nas periferias das grandes cidades em meio aos resquícios da “modernização autoritária das décadas de regime militar”.

Ela argumenta que o deslocamento à direita dos evangélicos se acentuou em 2010, em meio às discussões sobre aborto promovidas na reta final do segundo mandato de Lula. “Evangélicos e católicos fizeram uma articulação sem precedentes no Congresso Nacional em defesa da família, com o foco principal em combater a descriminalização do aborto e o reconhecimento dos direitos da pooulação LGBTQIA+. Esses temas começaram a dominar as disputas eleitorais e até hoje não saíram do debate público e da agenda central do ativismo político dos grupos religiosos.”

“A questão central que se agudizou a partir de 2010 foi o uso da fé como ferramenta política para promover agendas específicas, mais corporativistas para certos grupos, menos universalistas e mais excludentes. Os intermediários da fé começaram a utilizar a narrativa de que todas as crises que as pessoas enfrentam — econômicas, de insegurança urbana, de falta de perspectiva de futuro – tem um responsável: a esquerda e os governos progressistas. Essa acusação exerceu uma importante influência na interpretação política e no voto de quem está com maior frequência em templos religiosos, especialmente evangélicos”, escreveu Evangelista. 

 

Se o peronismo é a ideologia política mais influente nas igrejas da Grande Buenos Aires, há nomes da direita buscando seu espaço. É o caso do pastor Gabriel Mraida, atual ministro de Desenvolvimento Humano e Habitação da cidade de Buenos Aires, governado por Jorge Macri, empresário e primo do ex-presidente.

Antes de ser ministro, Mraida, que é formado em ciências sociais, foi parlamentar e diretor nacional de prevenção do crime e da violência. Em 2023 ocupou uma cadeira como primeiro suplente de deputado pela província de Buenos Aires. A experiência lhe pareceu distante da gestão diária: “No Congresso o trabalho estava preestabelecido, com blocos muito disciplinados e pouco espaço para deliberar. Gosto de resolver problemas concretos e rápidos.” 

Como ministro de Desenvolvimento Humano, prefere a gestão direta: “Me interessa pensar a política pública perto das pessoas, atendendo emergências e potencializando suas capacidades. Para mim, ser político e dirigente público é consequência de uma busca vocacional fundada no cristianismo, na ideia de que Deus é quem dá sentido à vida.”

Em um contexto de crescente descrença em relação à política e o fortalecimento da fé, as igrejas evangélicas, com estruturas mais flexíveis e adaptadas ao mundo atual do que a Igreja Católica, conseguem se aproximar das pessoas de maneira direta e cotidiana. O fazer, então, se articula pela fé, algo que a política institucional perdeu a nível local e global. Como afirma Mraida: “É impossível entender o fenômeno evangélico apenas como um fato social, porque ele é atravessado pela fé e pela dimensão espiritual da vida das pessoas.”

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