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    FOTO: ROBERTO STUCKERT FILHO_PR

questões da política

Governo e oposição levam a guerra de versões para a imprensa estrangeira

Carol Pires | 30 mar 2016_17h14
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No último dia 24, a presidente Dilma Rousseff recebeu em seu gabinete seis correspondentes estrangeiros. Sentada à mesa em círculo, puxou a conversa: “Vocês estão aqui há quanto tempo?” Um jornalista disse que chegara havia oito meses. Antes que outro pudesse responder, Dilma foi direto ao ponto: “Bom, eu tenho certeza de que uma das questões que vocês estão interessados é o processo de impeachment que está em curso no Brasil.”

No começo deste ano, a presidente aceitou a sugestão de sua assessoria de conceder entrevistas coletivas a grupos reduzidos de jornalistas. Logo no início de janeiro, organizou cafés da manhã para representantes de veículos nacionais e agências internacionais . Os correspondentes ainda não haviam sido convocados, e Dilma julgou que este era o momento ideal. Queria não só assegurar a todos que não há uma crise institucional no Brasil, como vender a ideia de que seu impeachment é um golpe constitucional.

Os veículos convidados foram El País (Espanha), Die Zeit (Alemanha), Le Monde (França), Página/12 (Argentina), The Guardian (Inglaterra) e The New York Times (Estados Unidos). “Por que estou falando para a imprensa internacional? Porque eu acho que a imprensa internacional tem menos paixões, está menos ideologizada”, disse a presidente, sem ser questionada.

Dilma deu sua versão do desenrolar da crise: a oposição não teria aceitado a derrota nas eleições de 2014, e no ano seguinte parte do Congresso Nacional, em retaliação, passou a aprovar projetos da chamada pauta-bomba. Eduardo Cunha, presidente da Câmara, foi denunciado pelo Ministério Público por envolvimento na Lava Jato e, creditando seu infortúnio ao governo, desencadeou o processo de impeachment “sem base legal e visivelmente com um objetivo”.

 

A estratégia do governo de alargar o ringue na briga com a oposição para além das fronteiras nacionais deslanchou na semana passada. Jaques Wagner, chefe de gabinete da presidente, foi o primeiro a prestar um serviço de assessoria à imprensa d’além-mar, reunindo-se com correspondentes no Rio de Janeiro. “É claro que há segmentos da imprensa nacional que militam por uma tese”, disse Wagner, segundo relato publicado pelo El País. José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, também serviu de embaixador do governo junto aos estrangeiros.

O governo avalia que a estratégia foi bem-sucedida. As reportagens deram bastante espaço para as falas da presidente e expuseram o que ela quis dizer com cada afirmação. “Apesar de um mandato limpo, ela teve que lidar com um Congresso hostil, um parceiro de coalizão não confiável e uma investigação de corrupção que chegou cada vez mais perto da cúpula do PT”, publicou o britânico The Guardian.

Dilma, porém, não encontrou ouvidos ingênuos entre os correspondentes, que não estavam dispostos a republicar o release oficial. Um mais afoito enquadrou-a: “Presidenta, uma vez que a senhora foi ex-diretora da Petrobras e ex-ministra de Minas e Energia, como é possível que não soubesse nada desse esquema de corrupção?”. Outro tentou pautar o day after. “Se o governo cair, isso tem um impacto…”, ia dizendo, mas Dilma não deu brecha: “Eu não acho que nós vamos cair. Só me falta essa agora.”

As reportagens foram reticentes ao usar a palavra “golpe” . “Os tumultos brasileiros ainda são uma briga política ou já são uma tentativa de golpe?”, questionou o Die Zeit em seu relato.

Nesta segunda-feira, foi a vez do ex-presidente Lula receber correspondentes de doze países no hotel Grand Mercure, em São Paulo: além dos que estiveram com Dilma, também foram convidados Wall Street Journal (Estados Unidos), Financial Times (Inglaterra), El Telégrafo (Uruguai), Télam (Argentina), Reuters (Inglaterra), ARTE (França e Alemanha) , Agência Lusa (Portugal), CCTV (China), Telesur (Venezuela), The Hindu (Índia), EFE (Espanha), AP (Estados Unidos), La Nación (Argentina), e LA Times (Estados Unidos).

À imprensa estrangeira, Lula criticou o jornalismo local: “É uma sangria todo santo dia, e com apoio de uma parte da mídia brasileira, que corrobora para que o clima de ódio fique estabelecido.” A imprensa internacional destacou os escândalos de corrupção envolvendo o governo e seus aliados, as motivações de Lula para virar ministro, mas também ressaltou a astúcia nas respostas e o carisma do presidente.

“Diante de uma plateia de jornalistas da imprensa estrangeira, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de 2003 a 2010, empregou sua verve de ex-sindicalista e seu charme natural para socorrer Dilma Rousseff”, escreveu Claire Gatinois para o Le Monde.

 

Usando a mesma arma na luta de foices, o PSDB convocou, ontem, oito correspondentes (Página/12 e Ansa, La Nación, France-Presse, EFE, Reuters, El País, Wall Street Journal e Le Monde) para uma coletiva no gabinete da liderança do partido no Senado. “A oposição ao governo brasileiro quer contar ao mundo sua versão da crise política que atravessa o país”, diz o texto publicado pelo jornal espanhol El País.

Aécio Neves, presidente do partido, abriu a coletiva: “É uma oportunidade para nós de, através dos senhores, dar a nossa versão.” Acompanhado de líderes e presidentes de partidos de oposição (DEM, PPS, PSC, PSB, Solidariedade), o tucano rebateu a presidente: “O Brasil não está prestes a sofrer um golpe.”

Carlos Siqueira, presidente do PSB, chamou a narrativa do golpe de “fantasiosa e inaceitável”. Paulinho da Força, do Solidariedade, de “sacanagem contra o Brasil”. “O governo Dilma acabou. A saída do PMDB fecha a tampa do caixão de um governo moribundo”, seguiu Aécio Neves, que convidou para o encontro as demais legendas a fim de rebater, com direito a fotografia coletiva, a acusação da presidente de que o PSDB lidera sua deposição por não ter aceitado o resultado da eleição.

Os oposicionistas falaram sem parar por quarenta minutos, e só então se abriu o microfone para perguntas. Um repórter foi direto ao ponto, dirigindo-se a Aécio Neves: “É possível fazer um governo com credibilidade com um partido como o PMDB, que está envolvido até o pescoço com a Lava Jato?” Desconfortável, o senador respondeu que esta é uma situação “emergencial”, que seu partido preferiria a realização de novas eleições, mas “convergimos para essa saída”.

Aécio voltou a falar em instituições sólidas, processo legal, e não largou a Constituição ao longo da preleção.  “Ainda não consigo entender como esse governo teria sustentação”, insistiu o repórter, apontando que Temer faz parte do governo há cinco anos, e que o PMDB é acusado dos mesmos crimes que o PT. Deixou a reunião sem receber sua resposta.

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