Rafael Góis, de 47 anos, um dos sócios da Fictor Foto: Divulgação
“Isso é fraude, é fraude contábil!”
Como o caso Master descortinou o colapso da Fictor, que tenta acalmar investidores e funcionários enquanto é investigada pela Polícia Federal
Quando o banco Master já estava na bacia das almas, insolvente e sem liquidez, e sua compra pelo BRB foi vetada pelo Banco Central, surgiu no horizonte uma solução providencial. A Fictor, uma empresa de investimentos que opera desde 2022 e era pouco conhecida no mercado financeiro, levaria todas as ações de Daniel Vorcaro no Master por 3 bilhões de reais, assumindo, com isso, o controle do banco. Segundo o anúncio feito na época, também participariam do negócio investidores de Dubai, cujos nomes nunca foram revelados.
A compra foi recebida pelo mercado com surpresa e desconfiança. Tão logo a informação se tornou pública, em 17 de novembro, os representantes da Fictor foram à imprensa garantir que o negócio era viável. Um dos sócios da empresa, Rafael Góis, disse ao site Metrópoles que a Fictor adotava “as melhores práticas de governança, com foco na distribuição de produtos sólidos”. Na noite daquele mesmo dia, no entanto, Vorcaro foi preso na primeira fase da Operação Compliance Zero enquanto tentava embarcar para Dubai. As investigações apontavam que boa parte do patrimônio do Master era composta de títulos inflados ou fictícios. A prisão só foi noticiada na manhã do dia 18, pouco depois de o jornal O Globo publicar uma entrevista em que um dos diretores da Fictor, Rafael Paixão, dizia não ver “dificuldades” nos CDBs do Master, que o balanço do banco era “saudável” e que todos os compromissos financeiros seriam honrados. Antes que o dia terminasse, o Banco Central decretou a liquidação do Master, que deixou um rombo de 83,2 bilhões de reais, dos quais cerca de 40 bilhões serão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) – um mecanismo de proteção financiado pelos bancos que serve para evitar crises sistêmicas.
No depoimento que prestou à Polícia Federal em 30 de dezembro, Vorcaro disse que a venda para a Fictor seria um “final feliz”. Sua descrição faz parecer que o negócio tinha solidez monolítica e traria tranquilidade para o sistema financeiro. “A gente estava com o contrato pronto, seria assinado no dia 18 pela manhã. E, nos outros três próximos dias, a gente ia assinar a venda do banco de investimento e a entrada dos investidores estrangeiros junto com a Fictor na compra do banco. Ou seja, era um desfecho de final feliz para o sistema financeiro”, afirmou o ex-banqueiro, sugerindo que o acordo só não foi para frente porque o BC e a PF atrapalharam.
Desde que Vorcaro foi preso – e depois transferido para prisão domiciliar –, a estratégia de sua defesa tem sido questionar os órgãos envolvidos na liquidação, em especial o Banco Central, e dizer que o Master tinha meios de continuar operando. No mesmo depoimento, ele afirmou que, dentro do BC, havia quem defendesse uma “solução de mercado” para o Master, um eufemismo para seu salvamento, e quem preferisse a liquidação, que acabou prevalecendo. Liquidar o banco, segundo Vorcaro, foi uma escolha, e não uma necessidade. “Algumas pessoas falharam muito, não só comigo, mas com o sistema financeiro.” Na semana passada, a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, revelou que o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, procurou o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, para discutir a compra de carteiras de crédito do Master – o que indica que o BC realmente buscou uma alternativa à liquidação do banco. Depois que isso veio à tona, o Banco Central divulgou uma nota em que não nega que os dois tenham conversado, mas diz que Aquino “obviamente jamais recomendou a aquisição de carteiras fraudadas”.
Os investidores de Dubai, se realmente existiam, permaneceram anônimos e protegidos. A Fictor, não. Depois da Compliance Zero, as dezenas de milhares de investidores que haviam colocado dinheiro em seus produtos começaram a se inquietar. Como uma empresa que dizia investir os recursos de seus clientes em commodities agrícolas, como milho, soja e café, estava disposta a despejar bilhões de reais em um banco quebrado? A desconfiança levou muitos deles a pedirem resgate do dinheiro investido. O contrato previa um prazo de sessenta dias para que a Fictor os pagasse, mas desde 11 de dezembro ninguém recebeu mais nada. Nem rendimentos, nem resgates. Quem tenta reaver o dinheiro se depara com respostas vagas e promessas sem data.
O colapso da Fictor, desde então, se tornou um fato público. A piauí apurou, no entanto, que a empresa já vinha sendo investigada desde 2023 num inquérito sigiloso da Polícia Federal por “possível crime contra o sistema financeiro nacional”. Além disso, foi alvo de denúncias apresentadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia responsável por regular o mercado. Nessas denúncias, a Fictor é acusada de venda irregular de investimentos. A CVM tenta desde 2024 abrir um processo cautelar contra a empresa, o que permitiria fazer um alerta público ao mercado sobre as suas práticas duvidosas. O processo, no entanto, está emperrado por motivos burocráticos.
Os clientes que apostaram na Fictor durante esse tempo todo não sabiam o que se passava. Hoje, se agarram à esperança – cada vez menor – de serem ressarcidos. Os áudios de duas reuniões recentes da Fictor, a que a piauí teve acesso, mostram que nem mesmo os funcionários da empresa sabem quando isso vai acontecer, e como. Muitos deles também estão sem receber pagamentos.
A primeira dessas reuniões, feitas de forma virtual, aconteceu duas semanas atrás, no dia 15 de janeiro. Foi conduzida pelo gerente Luciano Lima, que, segundo consta em seu perfil no LinkedIn, trabalha há dois anos na Fictor. A certa altura, um dos funcionários presentes perguntou a ele sobre a situação financeira da empresa e se havia previsão de quando os investidores seriam pagos. Antes de responder, Lima esclareceu que havia se reunido horas antes com os sócios da Fictor e que as informações que daria a seguir vinham deles.
Os sócios, segundo Lima, aguardavam a conclusão da venda de parte da Fictor a investidores “gringos”, operação prevista para ser concluída até 23 de janeiro. O dinheiro embolsado com a venda permitiria à empresa honrar seus compromissos financeiros. Lima disse não saber quem eram esses investidores estrangeiros, mas garantiu que, se o negócio não fosse para frente, os sócios venderiam os ativos da Fictor para pagar os clientes que estavam sem receber. Essa alternativa, Lima ressaltou em seguida, não era desejável. Isso porque, segundo ele, a Fictor havia recebido ofertas de empresas interessadas em comprar seus ativos, mas por apenas 25% do valor que os sócios consideravam justo. Vendê-los agora seria o mesmo que “deteriorar o patrimônio”, nas palavras do gerente.
Lima explicou na reunião que o patrimônio da Fictor é composto por “plantas frigoríficas” e “carteiras de crédito consignado”. Essas últimas são avaliadas, segundo ele, em cerca de 500 milhões de reais. Os dados da empresa, no entanto, revelam cifras mais modestas. De acordo com o balanço mais recente do braço de alimentos do grupo – a Fictor Alimentos, responsável pelas supostas plantas frigoríficas –, seus ativos somam apenas 8,9 milhões de reais. Além disso, a maioria deles são arrendados, e não adquiridos. Em outras palavras, são bens que a Fictor não pode vender, porque ainda não são de sua propriedade (embora, recentemente, ela tenha anunciado com alarde a compra de uma unidade produtiva da Mellore Alimentos em Betim. A unidade na verdade foi arrendada, como várias outras).
O patrimônio da Fictor inclui ainda quatro fundos de investimento, dois deles lastreados em crédito consignado: o EUD Fictor Consignado FIDC e o FIDC Leste Fictor Consignado. Mas todos os quatro são considerados ativos de risco no mercado. Um relatório recente da Austin Ratings, uma das principais agências de avaliação de risco no Brasil, apontou “fragilidades operacionais, elevação da inadimplência e aumento da provisão para devedores duvidosos, acompanhado de queda na rentabilidade”. Um investidor relatou à piauí ter sido sondado no ano passado para comprar carteiras de crédito consignado da Fictor, mas acabou desistindo depois de analisar os números da empresa. Segundo ele, sua equipe revirou a Fictor de cima a baixo e não conseguiu encontrar sequer 80 milhões de reais em ativos, que dirá os 500 milhões citados por Luciano Lima. Ele também estranhou que esses fundos não tivessem entre seus cotistas a própria Fictor. “Se a empresa não tem no próprio balanço as cotas do seu fundo, algo está errado. Eu não encontrei nenhuma.”
Outro sinal vermelho foi o fato de que, em julho de 2025, o Banco Central não autorizou que um dos sócios da Fictor, Luiz Philippe Gomes Rubini, comprasse o Porto Real, um pequeno banco sediado no Rio de Janeiro. Segundo fontes que acompanharam a negociação, Rubini precisava de ao menos 40 milhões de reais para bancar a transação – dinheiro que, de acordo com uma reportagem do Valor Econômico, ele não foi capaz de demonstrar ao BC. Como então, apenas quatro meses depois, ele e seus sócios teriam bala na agulha para comprar um banco como o Master, por um preço 75 vezes maior que o do Porto Real?
Diante de tantas inconsistências, não foi uma surpresa quando, em 23 de janeiro deste ano, prazo estipulado por Lima para a venda aos “gringos”, a Fictor não fechou negócio algum.
Na reunião do dia 15, Lima procurou transmitir segurança. Disse que os sócios garantiam que a Fictor tinha “mais ativo do que passivo” e que, mesmo se vendessem o patrimônio por apenas 30% do valor que desejavam, ainda assim “daria para pagar todo mundo e sobraria dinheiro para recomeçar”. Revelou a existência de um fundo de investimentos ligado à empresa com mais de 200 milhões de reais, montante que, segundo ele, poderia ser usado para pagar os clientes. Esse dinheiro, porém, não estava disponível porque a administradora do fundo enfrentava “problemas com a Polícia Federal”. Em resumo, disse Lima, o dinheiro estava aplicado em “fundos em que não se pode mexer”, em operações do agronegócio e nos ativos comprados pela Fictor, como os frigoríficos. Havia também recursos que “a gente empenhou em grandes operações da holding”. Ele não disse quais.
Uma das assessoras de investimento da Fictor presentes na reunião, a quem todos se referiram como Carol, demonstrou surpresa com a informação de que a empresa havia comprado frigoríficos e coisas mais. “Isso é fraude, isso é fraude contábil!”, disse, com a voz levemente alterada. “Eu tenho dinheiro lá [na Fictor] e você também deve ter. E está escrito no contrato da SCP que o dinheiro só pode ir para a compra de soja e milho. Usar esse dinheiro para comprar qualquer outra coisa é fraude contábil. Eu não tenho participação na compra de nenhum frigorífico. Eu tenho participação no rendimento da soja e do milho. Eu não tenho propriedade sobre nada do que foi comprado com o meu dinheiro.”
A sigla SCP, usada por Carol, se refere a uma Sociedade em Conta de Participação. É um tipo de acordo privado entre investidores, usado para financiar projetos específicos. Não obedece a uma regulação rígida nem prevê a divulgação de balanços auditados e informações financeiras públicas. Foi com esse tipo de contrato que a Fictor buscou assessorias de investimento ligadas ao BTG Pactual e à XP para oferecer a seus clientes aplicações supostamente lastreadas em contratos de grãos no mercado de commodities. A promessa, no papel, era tentadora: os investimentos garantiam um retorno fixo uma ou duas vezes por mês, além de gordas comissões aos assessores que vendessem o produto.
Como contratos de SCP não são examinados pela CVM, não há supervisão do cumprimento de suas cláusulas. Cientes dos problemas que esse tipo de contrato pode trazer, à luz de fraudes históricas como Avestruz Master e Boi Gordo, a XP e o BTG nunca autorizaram a distribuição de produtos da Fictor. A XP inclusive chegou a desligar assessores que descumpriram a ordem. Alguns deles acabaram migrando para a própria Fictor, que em janeiro deste ano afirmava ter aproximadamente 6 mil colaboradores.
As SCPs, justamente por terem normas tão flexíveis, são pródigas em fraudes. O esquema nesses casos é quase sempre o mesmo: os recursos investidos no negócio se misturam aos de outras empresas do grupo administrador, de modo que o dinheiro dos sócios passa a ser usado para financiar operações que não lhes dizem respeito. Quando o ritmo de entrada de novos investidores desacelera, o buraco financeiro aparece e os sócios enfim descobrem que seu dinheiro foi desviado para outros propósitos. E o pior: como se trata de um acordo privado, concebido para sócios que se conhecem e compartilham um projeto específico, não há uma instância que possa garantir reparação a quem ficou no prejuízo.
Era a esse problema que Carol se referia ao dizer que a Fictor havia cometido fraude contábil. No contrato de SCP que os clientes da empresa assinaram, estava escrito que o objetivo daqueles aportes era “a realização de investimentos em commodities agrícolas”. Não havia menção a frigoríficos, carteiras de crédito ou qualquer outro negócio. A situação ainda tinha um agravante: tudo o que havia sido comprado pela Fictor estava em nome do sócio Rafael Góis e da Fictor Holding, controlada por Rubini. Nada em nome dos cotistas.
Constrangido na reunião, o gerente Luciano Lima tentou se esquivar. Disse que seu papel era apenas repassar o que tinha ouvido dos sócios. “Se usaram o dinheiro de outra forma e é fraude, me permita não entrar nisso. Porque não foi isso que ele [um dos sócios] trouxe. Não foi isso que ele respondeu. É muito sensível para mim chegar nesse ponto.” Em seguida, Lima pediu aos assessores que, caso recebessem questionamentos, sobretudo de grandes clientes, os encaminhassem para o departamento jurídico da Fictor. Ditou o endereço de e-mail do setor e deixou claro que esse seria o único canal de comunicação dali em diante. “É o melhor caminho para a gente não se expor tanto em questões que a gente não pode responder. A gente é comercial, fala muito e pode se prejudicar muito.”
“Dinheiro no caixa não tem, né?”, prosseguiu Carol. “No caixa, disponível, não”, respondeu Lima. Ela insistiu, reforçando que as pessoas a quem eles tinham vendido os tais investimentos não eram clientes, mas sócios – e nessa condição, por razões jurídicas, seriam os últimos a receber ressarcimento, caso houvesse. “Primeiro vêm os fornecedores, depois os funcionários. O sócio é o último, porque assume parte do risco”, disse a assessora. Lima minimizou a questão. “Essa parte é mais juridiquês mesmo. É melhor ver com o jurídico.” Poucos dias depois, Carol foi excluída do quadro de assessores da Fictor.
Embora a Fictor tenha começado a operar em 2022, foi apenas a partir de 2024 que ganhou alguma visibilidade, impulsionada pela oferta de cotas em SCPs. A empresa se apresentava como atuante no setor de alimentos, mas não demonstrava ter negócios revelantes nessa área. Ainda assim, decolou rapidamente. A piauí identificou doze SCPs criadas pela Fictor entre 2021 e 2024, que somam, no papel, um capital de 1,67 bilhão de reais. A empresa também levantou recursos emprestando dinheiro para capital de giro a empresários do agronegócio, que lhes pagavam de volta com juros. Era esse dinheiro que permitia à Fictor bancar remunerações acima da média para os cotistas das SCPs.
Tendo obtido um volume expressivo de recursos fora do mercado regulado, a Fictor deu um passo além. Em dezembro de 2024, estreou na Bolsa de Valores brasileira (B3) depois de comprar, por 20 milhões de reais, uma empresa de educação financeira de baixíssima liquidez, cujo principal atrativo era o fato de já estar listada em bolsa: a Atom, que tinha a revista Exame entre seus acionistas. A operação permitiu à Fictor acessar o mercado de ações sem ter de passar pelo escrutínio típico de uma abertura de capital, como uma diligência aprofundada ou a publicação de um relatório detalhado de seus negócios.
No jargão do mercado, a Atom funcionou como uma empresa “casca”, um atalho regulatório para ingressar na bolsa. Depois de comprá-la, a Fictor alterou o objeto social da Atom, rebatizou a empresa (que passou a se chamar Fictor Alimentos) e começou a captar recursos diretamente no mercado acionário. Um expediente semelhante foi adotado cerca de um mês depois pela Reag Investimentos, envolvida até os cabelos no caso Master.
Em março do ano passado, a Fictor anunciou um patrocínio de 30 milhões de reais por ano, durante três anos, ao Palmeiras. Foi um sucesso: pouco depois do anúncio, suas ações subiram 17%, adicionando 15,7 milhões de reais ao valor de mercado da empresa, embora ela não exibisse ativos compatíveis com essa valorização. Por volta dessa mesma época, a Fictor passou a constituir uma série de CNPJs em setores diversos, como infraestrutura, energia, soluções financeiras, mercado imobiliário e agroindústria. As empresas funcionam no mesmo endereço (em alguns casos, no mesmo andar) no Itaim Bibi, em São Paulo, e têm como sócio, diretor ou administrador Rafael Góis. A julgar pela papelada, Góis é dotado de sabedoria enciclopédica: cuida simultaneamente de negócios de energia, infraestrutura, alimentos, mercado imobiliário e operações financeiras, incluindo negociações de commodities, fundos de direitos creditórios e meios de pagamento. A Fictor também já fez negócios agenciando games e jogadores de e-sports, mas abandonou o setor em 2024.
Além de terem o mesmo endereço e o mesmo gestor, muitas dessas empresas têm objetos sociais (isto é, a descrição do negócio) praticamente idênticos, como “gestão de ativos intangíveis não financeiros” e “serviços combinados de escritório e apoio administrativo”. Da porta para fora, essa variedade de negócios fazia com que a Fictor passasse a imagem de uma empresa capitalizada, sadia e em franca expansão Brasil afora. Da porta para dentro, a história era diferente. Seu balanço mais recente na Bolsa de Valores, por exemplo, mostra que, até setembro de 2025, a empresa acumulava um prejuízo de 2,9 milhões de reais.
A Fictor também estendeu seus tentáculos sobre o mercado regulado, criando a Fictor Asset. Entrou nesse setor da mesma forma como na bolsa, comprando uma empresa “casca”, inoperante, mas devidamente registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Hoje, os quatro fundos vinculados à Fictor Asset somam cerca de 450 milhões de reais em patrimônio – um valor que, à luz da engenhosidade revelada no caso Master, tem sido visto com desconfiança pelo mercado. É a esse dinheiro que muitos investidores vêm se apegando na esperança de recuperar ao menos parte do que aplicaram nas SCPs. Mas, mesmo que o dinheiro realmente exista, não há qualquer mecanismo legal que obrigue os controladores da Fictor a usá-lo para ressarcir esses clientes.
A lista de credores é extensa. Além de clientes comuns, há parceiros comerciais. É o caso da Orbitall, uma empresa de meios de pagamento. Recentemente, ela obteve na Justiça uma decisão para bloquear 150 milhões de reais das contas da Fictor após constatar que, no fim de dezembro, uma conta usada como garantia financeira pela empresa havia sido esvaziada. O processo corre em sigilo, mas a piauí apurou que, até agora, os 150 milhões de reais que deveriam ser bloqueados não foram encontrados.
A Fictor é comandada pela dupla de sócios Rafael Góis, de 47 anos, e Luiz Phillippe Gomes Rubini, de 39. A participação acionária deles – isto é, o quanto da empresa pertence a cada um – é um completo mistério. A maior parte dos CNPJs vinculados à Fictor são sociedades anônimas. Até mesmo a holding que leva as iniciais de Rubini, LPGR, tem uma S.A. como dona – e não ele próprio. É uma prática relativamente comum no mercado, adotada quando empresários querem ocultar seus negócios ou a origem de seu dinheiro.
Quem trabalhou com os dois relata que Góis é uma figura sisuda, focada em administrar as finanças e manter contato com clientes do agro. Rubini, por sua vez, é sociável, considerado um boa-praça. Enquanto Góis comanda o dia a dia da Fictor, Rubini faz as vezes de embaixador e lobista. É um executivo de origem simples com uma trajetória vertiginosa – perfil comum entre os novos protagonistas da Faria Lima, forjados na era das fintechs e assessorias de investimento, que criam e demolem fortunas da noite para o dia. Em 2013, teve seu carro confiscado pelo banco por dar calote nas parcelas. Em 2025, já era visto com frequência no hangar da Icon Aviation, em Congonhas, aguardando o jatinho que o levaria a Brasília. A Fictor ocupa uma casa no Lago Sul, bairro mais rico da capital.
Rubini viveu como imigrante ilegal na Espanha, onde conheceu empresários do futebol e passou a agenciar jogadores. Ganhou o noticiário em 2012, dizendo ser representante de investidores árabes que bancariam a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Palmeiras. O negócio foi visto com ceticismo e subiu no telhado. Mas Rubini manteve boas conexões e migrou para o mercado financeiro num momento em que gestoras e fintechs avançavam sobre o terreno dos bancos tradicionais. Foi quando se associou a Góis.
Num ambiente em que credenciais acadêmicas deixaram de ser cruciais, as graduações de Rubini em educação física e psicologia bastaram para integrá-lo ao novo clube. Na Faria Lima, não ensinou ginástica nem clinicou, mas se revelou um exímio contador: três anos antes de o Master inflar suas carteiras com títulos podres do Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), o sócio da Fictor já adotava a mesma estratégia. Em dezembro de 2021, antes de lançar sua empresa formalmente no mercado, Rubini registrou na Junta Comercial de São Paulo um aumento de capital de mais de 30 milhões de reais na One Off Investment, que viria a se tornar a Fictor Invest. A operação era inteiramente lastreada em ações do banco catarinense – que, no entanto, deixara de existir em 2008. Ou seja, era pura ficção. Quem revelou a manobra foi o jornalista Luis Nassif, em dezembro passado.
Góis e Rubini enriqueceram rapidamente, mudando seu padrão de comportamento. Um funcionário que trabalhou com os dois relata que, a certa altura, um alfaiate passou a frequentar a sede da Fictor, onde tirava medidas e encomendava ternos para os sócios. Viagens passaram a ser feitas em jatinhos. Os carros, antes, embora fossem importados, não eram os modelos mais novos – na palavra de um funcionário, eram “sobra de rico”. Isso logo mudou. O enriquecimento dos assessores de investimento também ficou visível. Um colaborador que deixou a empresa no final de 2024 conta que, tempos atrás, não era incomum encontrar assessores almoçando marmitas em um bandejão. Em questão de meses, muitos deles já dirigiam carros importados. Ele conta que, na sua época, um salário de 60 mil reais era considerado baixo, entre esses funcionários. O comum era que passasse de 100 mil.
Nesse tempo de vacas gordas, tendo captado mais de 1 bilhão de reais com as SCPs, a Fictor passou a tentar ampliar sua presença no mercado financeiro. Já havia entrado no ramo dos consignados, por meio da Fictor Consig, e no de meios de pagamento, com a Fictor Pay – que, embora só tivesse dez funcionários, ocupava um andar inteiro em um prédio de São Paulo. Góis, em particular, se inspirava em Joesley Batista e sua fome insaciável por empresas. Achava que, para alcançar o mesmo nível de sucesso do empresário goiano, precisava de um banco. E sabia que, para isso, podia contar com as boas conexões de Rubini.
Quando ainda transitava no mundo do futebol, Rubini conheceu “Lulinha”, como é chamado Fábio Luis Lula da Silva, filho mais velho do presidente da República. Amparado por esse e por outros contatos, dizia que seria indicado para integrar o Conselhão, órgão consultivo do governo que reúne empresários e representantes da sociedade civil. De fato, foi indicado. Naqueles tempos, ao trombar com membros do governo em eventos de negócios, Rubini demonstrava inclinações lulistas. Quando estava na Faria Lima, porém, vestia a camisa do Centrão. Aproximou-se do senador Ciro Nogueira (PP-PI) e de outros expoentes da direita, como Guilherme Derrite (PP-SP). Não são poucos os relatos de pessoas que ouviram-no dizer, em tom de intimidade, frases como “acabei de falar com o Ciro” e “o Ciro está puto”.
Para se adequar ao mundo dos bancos – primeiro por meio do Porto Real, depois por meio do Master –, Rubini arquitetou uma estratégia de exposição pública. Passou a dar entrevistas à imprensa e a opinar sobre economia, quase sempre em sintonia com posições da direita. Também repaginou seus perfis em redes sociais, eliminando traços de frivolidade e ostentação, e se afastou formalmente da administração da Fictor. Em um artigo que publicou no ano passado no site Poder360, assinando apenas como Phillippe Rubini, criticou a proposta do governo de aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Justificou assim: “Não se cria emprego destruindo o caixa de quem emprega. E não se combate a desigualdade criando instabilidade.”
A Fictor, com toda sua estabilidade, fica no antigo endereço da Genial Investimentos, em São Paulo. É uma sede tão imponente quanto vazia. Políticos e outras figuras poderosas entram por uma porta especial, de modo que não precisem passar no meio dos funcionários. Quem esteve lá diz que o ambiente parece o de uma empresa bilionária, embora o patrimônio da Fictor não chegue a tanto. Mas essa sempre foi a imagem que os dois sócios quiseram projetar. No ano passado, enquanto Rubini recebia uma negativa do Banco Central por falta de liquidez – uma demonstração de que não tinha tanto dinheiro assim –, Góis afirmava à Bloomberg Línea que a Fictor faturaria mais de 5 bilhões de reais em 2025 e que passaria a operar no mercado de crédito dos Estados Unidos usando capital próprio. “Estamos levando para os EUA o melhor de nós, nosso mindset estratégico, nossa busca por excelência operacional e nosso comprometimento de criar valor a longo prazo”, afirmou o empresário. “Foi isso que nos levou ao sucesso no Brasil e é o que replicaremos nos EUA.”
Uma nova reunião virtual foi realizada em 23 de janeiro, desta vez entre a diretora comercial da Fictor, Sheila Gatto, e assessores de investimentos de diferentes estados. Desde dezembro, os investidores não são os únicos que aguardavam pagamento da empresa. Os próprios assessores da Fictor estavam sem receber suas comissões. Um golpe duro, já que eles não têm salário fixo e a comissão é sua principal fonte de renda.
Gatto abriu a conversa atribuindo ao noticiário negativo o fracasso das negociações com investidores estrangeiros. “Pessoas do nosso grupo têm levado coisas para fora, levam comunicados, levam gravações, e isso tem atrapalhado muito as negociações”, reclamou, se referindo ao vazamento de informações para jornalistas. Um desses comunicados que chegou à imprensa previa pagamentos para 12 de fevereiro, mas Gatto tratou a data como mera estimativa. “Eu não sinto que a Fictor vá fechar, eu não sinto que vá declarar falência. Não acredito, de coração, numa recuperação judicial. Mas acredito que o primeiro trimestre será muito doloroso, com dias desafiadores”, disse, pedindo paciência aos assessores.
Ao longo da reunião, a diretora confirmou o que já havia sido dito anteriormente por outros representantes da Fictor: não havia dinheiro disponível para pagar nem os clientes, nem os assessores. Disse ainda que, para evitar novos vazamentos, a empresa deixaria de fazer comunicados públicos. Gatto frisou que, apesar de tudo, a Fictor teria condições de honrar “100%” dos valores devidos aos sócios cotistas. Um assessor chamado Fábio perguntou então por que isso ainda não havia sido feito. Ela respondeu que os controladores da empresa não queriam demonstrar “desespero”, vendendo ativos por preços baixos. Citou como exemplo uma carteira de crédito consignado que poderia gerar liquidez para a Fictor, mas que não encontrava compradores dispostos a pagar o valor esperado. “Eles não vão queimar, não vão sangrar”, disse, referindo-se aos sócios. No mesmo diálogo, Gatto deu a entender que a Fictor tem um patrimônio avaliado em 8 bilhões de reais, sem, contudo, indicar onde esses recursos estão alocados e de que forma poderiam ser mobilizados.
Uma outra assessora chamada Marta perguntou por que, afinal, os sócios tinham resolvido comprar o Master. Gatto respondeu que a transação era parte de uma estratégia para transformar a Fictor em banco, em linha com o modus operandi da empresa de driblar entraves regulatórios usando “cascas”. Assim como entrou na bolsa e no mercado de fundos, a Fictor queria, por meio do Master, ingressar no sistema bancário. Gatto disse ainda ter participado de uma reunião em que o diretor Rafael Paixão afirmou que o negócio com o Master só foi anunciado depois de receberem um sinal positivo do Banco Central.
Ela encerrou a reunião do dia 23 em tom otimista, dizendo que o mercado tem “memória curta”. Citou o caso de André Esteves, do BTG Pactual, que foi preso no âmbito da Operação Lava Jato em 2015 e retomou protagonismo no sistema financeiro. Confessou aos assessores que não tem sido fácil atravessar esse turbilhão e relatou que precisou mudar de terapeuta, já que a anterior era sua cliente. “É delicado eu falar com ela sobre a Fictor.” Gatto também apelou ao divino para acalmar os ânimos: “Se Deus está permitindo que a gente passe por tudo isso, tem um propósito.” A reunião terminou sem que os assessores recebessem qualquer informação concreta sobre os pagamentos atrasados – tanto os seus quanto os dos clientes. Também não foram informados se a Fictor pretende, em algum momento, liquidar os fundos para honrar esses compromissos financeiros.
Procurada pela piauí, a Fictor enviou uma nota afirmando que não comenta o conteúdo de “gravações clandestinas, vazadas por terceiros, cujo contexto, integridade e origem demandam verificação”. Disse estar “tranquila quanto à sua capacidade financeira”, e que seus ativos superam os passivos, mas não informou valores. Sobre a falta de liquidez, respondeu com termos vagos, afirmando que ela decorre da “adoção de medidas de equalização e organização de fluxo, buscando equilíbrio para a sustentabilidade do negócio” – movimento que afirmou ser “natural” diante de um volume de resgates acima do padrão.
A Fictor negou que ofereça garantia de retorno prefixado – isto é, a promessa de que o dinheiro do cliente terá uma taxa fixa de valorização. Disse que apresentava aos seus investidores apenas “uma previsão de cronograma de distribuição” e que os “riscos” sempre estiveram discriminados nos contratos. A piauí, porém, teve acesso a alguns desses documentos, que preveem “distribuição antecipada” de lucros mensais ou quinzenais e incluem uma cláusula segundo a qual o sócio ostensivo, ou seja, a Fictor, responde por todo o passivo da operação. Questionada novamente sobre isso, a empresa não se manifestou.
A piauí também perguntou à Fictor quais contratos de commodities agrícolas ela negocia e em quais bolsas eles estão listados. Não houve resposta. A Fictor também não esclareceu o uso de dinheiro das SCPs para operações não previstas em contrato, nem o afastamento de Carol, a assessora de investimentos que apontou os problemas de conduta da empresa.
O inquérito que investiga a Fictor foi aberto em 2023 depois que a Polícia Federal recebeu a denúncia de um postulante a assessor da empresa. Ele relatou ter achado estranha a abordagem da Fictor. Disse que pediu os balanços da empresa e obteve apenas respostas evasivas. Com esse depoimento em mãos, a PF procurou a CVM, pedindo acesso a documentos a respeito da Fictor. Tanto a investigação da polícia quanto o processo administrativo na autarquia correm sob sigilo. A demora na tramitação do caso se explica, em parte, pelo fato de que a Fictor descobriu a existência do inquérito e pediu acesso aos autos, tanto na PF quanto na CVM. Esse rame rame processual – que não tem nada de errado, já que a empresa tem o direito de se defender – atrasou as investigações e a tomada de providências.
A piauí teve acesso a uma das denúncias que chegaram à CVM, feita por uma empresa de investimentos. Ela descreve a estratégia da Fictor de prometer aos seus clientes dividendos duas vezes por mês e resgate integral do valor investido, sem qualquer penalidade. Numa proposta feita em agosto de 2024, um assessor garantiu “taxa de lucro” ou “dividendos” de 1% ao mês sobre o total investido (mínimo de 100 mil reais), pagos em duas parcelas quinzenais por meio de depósito em conta, sem tributação. O fato de a taxa de retorno não ser estratosférica conferia credibilidade ao negócio. O material atribuído à Fictor, porém, não menciona riscos de inadimplência e apresenta a empresa como uma “trading de grãos”. A piauí também obteve um dos documentos da CVM, em que consta que as SCPs eram vendidas pela Fictor com a promessa de que a cota nesse tipo de sociedade seria convertida em cota em dois fundos de investimento. Esses dois fundos, porém, não são registrados na autarquia e também estão sendo investigados.
A Fictor Asset mantém registro ativo na CVM e tem o selo da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), certificação concedida a gestoras que cumprem requisitos formais de atuação no mercado financeiro. Reportagens do Valor Econômico publicadas nos últimos meses informam que, no meio desse redemoinho, André Vasconcellos tenta se cacifar para ser indicado pelo governo a um cargo no colegiado da CVM. No último dia 29, ele deixou a Fictor. Ainda assim, suas chances são remotas.
Após a publicação desta reportagem, a assessoria de Luiz Phillippe Gomes Rubini enviou à piauí a seguinte nota:
“Phillippe Rubini não integra mais a sociedade nem ocupa cargo executivo no grupo Fictor desde dezembro de 2024, após conversas relacionadas ao direcionamento estratégico da companhia. O executivo cumpriu integralmente seu mandato até a data de sua saída. Em paralelo, solicitou formalmente ao Banco Central o cancelamento do processo de aquisição do Banco Porto Real, diante das condições de mercado.”
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