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Dois escritores de Praga e a humanidade coisificada

questões dialéticas

Dois escritores de Praga e a humanidade coisificada

No centenário de nascimento do filósofo tcheco Karel Kosík, um ensaio em que ele compara Franz Kafka e Jaroslav Hašek

| 06 jan 2026_13h45
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A piauí deste mês publica um ensaio inédito do filósofo tcheco Karel Kosík em que ele analisa um clássico da literatura de seu país, As aventuras do bom soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, publicado em 1921. O texto faz também uma comparação entre as obras de Hašek e de Franz Kafka – autores que nasceram no mesmo ano (1883), na mesma cidade (Praga) e morreram com a diferença de um ano (o primeiro em 1923, o segundo em 1924).

Neste ano se comemora o centenário de nascimento de Kosík, que foi um dos principais filósofos marxistas. Ele é o autor de um clássico dessa corrente de pensamento, Dialética do concreto, livro que reflete sobre o materialismo dialético e a práxis no sentido marxista, à luz de correntes filosóficas do século XX, como a fenomenologia e o existencialismo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Kosík participou ativamente da resistência contra os invasores nazistas na Tchecoslováquia, o que o levou à prisão pela Gestapo, a polícia política de Hitler. Depois da guerra, formou-se na Universidade Carolina, de Praga e estudou nas universidades soviéticas de Moscou e de Leningrado (hoje São Petersburgo). No fim dos anos 1950, se distanciou do marxismo ortodoxo. Foi expulso do Partido Comunista depois da invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, e acabou impedido de atuar como intelectual público. Só após a Revolução de Veludo, em 1989, voltou a ensinar na universidade e publicar livremente. Morreu em 21 de fevereiro de 2003, aos 76 anos.

No ensaio Hašek e Kafka, ou o mundo grotesco, Kosík defende que, apesar das abordagens e estilos tão diferentes, os dois autores se parecem na forma como enfrentaram, com os recursos da literatura, a crescente coisificação do ser humano pelo aparato burocrático-industrial-militar. Ele desloca sua atenção sobretudo para As aventuras do bom soldado Švejk, romance interpretado frequentemente como satírico e humorístico. Contrariando essa leitura, Kosík ressalta a dimensão crítica do personagem Josef Švejk em sua relação com os mecanismos de poder.

O protagonista do romance é um soldado da Primeira Guerra Mundial que enfrenta a carnificina desse conflito com um comportamento peculiar, entre a ingenuidade e a esperteza, o que lhe permite se desviar das mais diversas catástrofes e evitar as ordens mais absurdas que recebe do alto-comando militar. Na reflexão de Kosík, a idiotice real ou encenada de Švejk tem a capacidade de desestabilizar as referências de poder das instituições. 

Assinantes da revista podem ler a íntegra do ensaio neste link

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