Imagem da coluna de Raimundo Carrero, publicada no Diário de Pernambuco nos anos 1970, sobre a Perna Cabeluda Foto: Reprodução/Diário de Pernambuco
Uma assombração no tapete vermelho
Os dias de terror e glória da Perna Cabeluda, lenda pernambucana que está no filme O Agente Secreto
Uma fila de fãs e curiosos se formou no hall de entrada do Cinema São Luiz, no Recife, durante a primeira exibição pública de O Agente Secreto no Brasil, em 10 de setembro – a estreia nacional será em 6 de novembro. Com a presença do diretor Kleber Mendonça Filho e de parte do elenco, como Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido, dezenas de pessoas fotografavam um trambolho inusitado: um protótipo em silicone de uma perna em tamanho real, pesando cerca de 2 kg, que circulava no red carpet do evento.
A mesma prótese de aparência arroxeada e purulenta que estava ali, passando de mão em mão, foi usada em uma das cenas mais surpreendentes do filme (atenção para um spoiler de menor potencial ofensivo), quando a Perna Cabeluda encarna uma vilã moralista e agressiva que ataca um grupo de “pederastas” durante um passeio noturno no Parque 13 de Maio, no Centro do Recife. A sequência é metade ação real, câmeras e atores, e metade animação. A peça, concebida em São Paulo por profissionais que trabalham com efeitos especiais cinematográficos, reproduz a perna de uma pessoa com cerca de 1,90 metro de altura. Um estúdio de animação na Holanda criou uma versão em miniatura para o uso em stop motion.
Realista e repulsiva, a falsa perna é uma ideia na medida para angariar mais atenção à obra na divulgação do longa-metragem em eventos e festivais de cinema. Além do Recife, o adereço esteve com o elenco no tapete vermelho do Festival de Cinema do Rio, no início deste mês. Silvia Cruz, diretora da Vitrine Filmes, produtora responsável pela divulgação do filme no Brasil, afirma que a Perna Cabeluda serve para “potencializar a conexão do público com o filme”. Em maio, no Festival de Cannes, no qual a obra venceu quatro prêmios (entre eles o de melhor direção e melhor ator para Wagner Moura), a produtora francesa MK2 Films, responsável pela comercialização dos direitos de exibição do filme internacionalmente, levou o objeto de cena para interagir com o público nas ruas e praias da cidade francesa.
Cinco décadas se passaram desde a primeira aparição da Perna Cabeluda no noticiário pernambucano. Antes do sucesso no filme de Mendonça Filho, a lenda inspirou cordéis, livros e HQ; virou marchinha e nome de troça de Carnaval, e apareceu até na letra de Banditismo por uma Questão de Classe, lançada por Chico Science no famoso disco Da Lama ao Caos (1994), consolidando a história como um verdadeiro mito urbano:
Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha
Não tinha medo da perna cabeluda
Biu do olho verde fazia sexo, fazia
Fazia sexo com seu alicate
Como toda lenda, é impossível dizer com exatidão como surgiu a história da Perna Cabeluda. O primeiro registro é de uma matéria que surgiu na edição de 10 de dezembro de 1975 do Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação na América Latina. A manchete anunciava: Perna fantasma surge em moradia de Tiúma. Publicada sem assinatura de repórter, a notícia relatava que um homem chamado José Luís Borges (seria ele o célebre escritor argentino?) havia visto “uma perna caminhar pelas paredes” da casa onde morava com o filho, Wanderley Borges, no bairro de Tiúma, em São Lourenço da Mata, a cerca de 50 km do Recife. Apavorados, pai e filho chamaram dois médiuns, um padre e um pastor protestante para tentar afastar a maldição, além de estarem dispostos a abandonar a residência caso as “visagens” continuassem. O episódio, de acordo com a matéria, provocou “um rebuliço no município”.
O assunto, segundo o jornal, já se arrastava por vinte dias. Em 11 de dezembro, o periódico publicou uma nota: “Perna provoca medo, mas padre não ajuda povo”. O texto dizia que o pároco da cidade, o padre Ludugero, estava agredindo qualquer pessoa que lhe pedisse ajuda espiritual sobre o caso. A essa altura, moradores de outros bairros já relatavam ter visto a tal perna assustadora, dizendo ser “um problema de outro mundo”. Na mesma edição, uma matéria apontava o mistério como um “problema policial” a ser resolvido.
Para tentar acalmar os ânimos dos moradores de Tiúma e dos leitores, no dia 13 de dezembro o jornal deu a seguinte manchete (também sem assinatura): “Perna fantasma é invenção do povo.” No texto, um babalorixá, conhecido por Pai Edu, dizia que o ano de 1975 havia sido “muito ruim para quase todas as pessoas” por ter havido “muitos desastres e suicídios”. E dava dicas para que as pessoas pudessem reverter aquele cenário para o ano que se aproximava: “Evitem sair de casa. O uso de defumadores e limpeza com água de sal são recomendáveis pois amenizam a situação crítica”.
Até aquele momento, a imprensa chamava a assombração pelo nome de “perna fantasma”. O cabelo só foi aparecer como elemento da criatura misteriosa no mês seguinte, em 21 de janeiro de 1976, quando o jornalista Paulo Fernando Craveiro relembrou o caso na sua coluna do Diário de Pernambuco e inaugurou a expressão: “Como se já não bastassem as enchentes e as estiagens, o pernambucano toma conhecimento agora da infernal história de uma perna cabeluda que anda por aí amedrontando as pessoas.”
No mesmo período dos textos sem assinatura e da coluna de Craveiro, os jornalistas Jota Ferreira, Geraldo Freire e Raimundo Carrero ajudaram a disseminar a lenda no noticiário. Com o passar dos anos, se tornaram os “pais” da história. Ferreira e Freire trabalhavam juntos na Rádio Repórter do Recife, do Sistema Globo de Rádio. Um dia, Freire, o apresentador, estava organizando a lista de assuntos do programa e se deparou com a falta de notícias. Ligou para Ferreira, repórter iniciante que procurava notícias no Hospital da Restauração, e disse: “Tu vai ter que inventar alguma coisa!”
Em sua participação ao vivo, Ferreira afirmou que uma perna cabeluda havia atacado uma mulher no bairro de Alto Pascoal. A notícia, repetida por outros colaboradores da rádio, ganhou força como boato. “Eles eram todos cobras criadas”, lembrou Freire, em tom de brincadeira, à piauí.
Ferreira, por outro lado, afirma que a história tem lastro na realidade. Ele conta que, ao chegar ao pronto-socorro da Restauração, encontrou uma mulher ensanguentada, que dizia ter sido agredida por uma “perna cabeluda”. Ele acrescenta que a vítima era uma prostituta que circulava pelas calçadas do Edifício Chanteclari, no Recife Antigo, e que a agressão ocorreu durante a madrugada, no Porto do Recife, então reduto boêmio da cidade.
Como não há registros das gravações do programa, a história sempre foi contada a partir da memória dos envolvidos – há dúvidas, por exemplo, se o programa aconteceu antes ou depois dos textos publicados no Diário de Pernambuco. Ainda assim, Freire, que aos 76 anos continua no ar como apresentador da Rádio CBN Recife, é categórico: “O pai da Perna é Jota Ferreira! Não existiria Perna Cabeluda sem ele!”
“Muita gente quer ser o pai da Perna Cabeluda, mas eu não inventei nada, apenas relatei o que vi”, afirmou Ferreira, que aos 79 anos segue gravando reportagens policiais para a Rádio Folha.
Enquanto Ferreira e Freire falaram da lenda no rádio, Raimundo Carrero escreveu sobre o boato em sua coluna semanal no Diário de Pernambuco chamada Romance Policial, publicada aos domingos com comentários sobre o noticiário da cidade. Sem muita inspiração para o texto de 1º de fevereiro de 1976 (dois meses após a primeira matéria de Tiúma), Carrero escreveu acerca do tema que ouvira na redação do jornal: as peripécias da Perna Cabeluda na região de Boa Viagem.
No Diário, Carrero foi repórter, colunista, chefe de reportagem, crítico literário e editor, até deixar o jornal em 1991. Escreveu livros e venceu o prêmio Jabuti. Ainda assim, diz que é famoso por ser um dos criadores da lenda. “Tenho 23 livros de ficção, mas nenhum personagem meu alcançou a popularidade da Perna. Não quero tomar a paternidade de ninguém. Mas quando se fala da Perna Cabeluda, de uma forma ou de outra, vai se falar em Raimundo Carrero também.”
Para ele, a lenda está relacionada a um certo tipo de conservadorismo proveniente da ditadura militar, já que seus “ataques” estavam quase sempre vinculados à boêmia do Recife. “A perna representava socialmente as mentes conservadoras querendo punir os mais jovens. Foi a época em que os movimentos de contracultura invadiram o país. Havia todos aqueles cabeludos, roqueiros e mocinhas de minissaia.”
Ele diz que os pais proibiam seus filhos de saírem de casa à noite temendo que a Perna pudesse achá-los e aprontar alguma desgraça. “O que mais me impressiona é que foi justamente essa juventude de vanguarda, liderada por Chico Science, quem mais sofreu com a Perna Cabeluda — e, ao mesmo tempo, quem mais ajudou a espalhar sua fama”, ponderou Carrero, que mantém uma escultura da Perna talhada em madeira, de cerca de 40 cm de altura, na sala de seu apartamento no bairro do Rosarinho, Zona Norte do Recife.
Ambientado em 1977, O Agente Secreto retrata um período marcado pelos efeitos do AI-5, ato institucional promulgado em dezembro de 1968 que aumentou a repressão da ditadura militar iniciada quatro anos antes. Na obra, Marcelo (Wagner Moura) é um professor de tecnologia cuja pesquisa interessa aos militares. Ameaçado de morte em decorrência de seu trabalho, busca abrigo em um condomínio de refugiados políticos no Recife. A violência do regime é latente, mas sua abordagem cinematográfica é distinta do convencional. “Não é o Brasil da ditadura como já vimos algumas vezes no cinema, com bota, milico, guerrilha urbana e tortura”, explicou à piauí o diretor de arte Thales Junqueira.
Assim como Carrero, Junqueira concorda com a avaliação de que a lenda da Perna Cabeluda ajuda a explicar o conservadorismo dos anos 1970 na cidade. “Porque ela [Perna Cabeluda] é conservadora: ataca as pessoas que estão na noite, se aventurando, transando… Tem essa coisa da rua e da noite como um lugar de perigo. E o esvaziamento do espaço público é algo que cabe muito bem com os anseios de uma ditadura.” Para Maria Fernanda Cândido, “é o mecanismo de humor para falar de algo muito grave que estava acontecendo”, afirmou à piauí.
O jornalista e pesquisador Roberto Beltrão, fundador do coletivo Recife Assombrado, diz que o mito está profundamente ligado ao contexto social e cultural do Recife dos anos 1970: uma cidade traumatizada pela maior enchente de sua história, ocorrida em julho de 1975, e ainda sob o peso do regime de exceção. “Era um tempo de medo e censura, mas também de efervescência. O mundo vivia o satanic panic [pânico satânico], com filmes como O Exorcista, A Profecia e O Bebê de Rosemary dominando o imaginário popular. Tudo isso ajudou a criar o ambiente para o nascimento de uma lenda urbana.” O historiador Ian Chaves complementa: “Para além de ser uma assombração, ela traz elementos de machismo, adultério e violência em sua gênese.”
Beltrão criou Recife Assombrado nos anos 2000 como um fanzine. Com o tempo, o projeto se transformou em referência na pesquisa e divulgação do folclore urbano nordestino – com destaque para a Perna Cabeluda. O pesquisador acaba de lançar um livro, Treze Noites com a Perna Cabeluda, em coautoria com treze escritores de diferentes regiões do Brasil, reunindo contos inéditos e curiosidades sobre a história. No posfácio, o jornalista cearense Xico Sá ironiza: “Quem não gostaria de criar uma assombração com essa magnitude? Mary Shelley, Lovecraft, Clive Barker, Stephen King… Qualquer um, desse ou do outro mundo, adoraria ter dado vida a uma criatura do naipe da cabeludíssima invenção pernambucana.”
Há tempos o diretor Kleber Mendonça Filho desejava inserir a Perna Cabeluda em um dos seus filmes. A primeira vez que ele ouviu falar na lenda foi na infância, quando sua mãe, a historiadora Joselice Jucá, leu uma reportagem para ele e o irmão durante o café da manhã – a cena foi recriada no longa-metragem. “Uma história dessas estar na página policial e não no suplemento literário do domingo é uma maluquice.”
Ele afirmou à piauí que retratar o mito de uma criatura mutilada e ensanguentada que vagueia pela cidade atacando desafetos é fruto da vontade de fazer “um cinema mais sujo e impuro”, que possa suscitar novas leituras a respeito de seus trabalhos, quase sempre lidos como “ensaios sociais” sobre a vida da burguesia no Recife (casos de O Som Ao Redor e Aquarius). O novo longa, portanto, dialoga com um movimento realizado em Bacurau (2019), de tornar o seu cinema menos polido e mais visceral.
Quando indagado se espectadores de outras regiões do Brasil e do exterior compreenderiam o significado da Perna Cabeluda, Mendonça Filho retruca: “Um filme americano coloca uma coisa nonsense e ninguém pergunta o que é. Mas no filme brasileiro as pessoas dizem: ‘Eu preciso de uma explicação completa na minha mesa amanhã de manhã.’ Não tenho que explicar nada. O filme está muito claro.”
Além do sucesso em Cannes, a obra foi premiada no 29º Festival de Cinema de Lima, no Peru, em agosto, com o Melhor Filme do Júri Oficial e o Melhor Filme pela crítica internacional. O representante brasileiro no Oscar de 2026 foi apontado pela Hollywood Reporter como forte concorrente em cinco categorias da premiação, incluindo melhor filme e melhor roteiro, enquanto a Variety indicou Wagner Moura na disputa pela estatueta de melhor ator.
A obra será exibida comercialmente em mais de noventa países, incluindo China, México, Coreia do Sul, Índia e Nova Zelândia. Nos Estados Unidos, a estreia será em Nova York, no dia 26 de novembro, e depois em Los Angeles, em 5 de dezembro, com previsão de expansão para outras cidades. Está na hora da Perna Cabeluda meter o pé na estrada.
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