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1964, do Rio para Roma

    No set de O padre e a moça: da esq. à dir., o diretor de fotografia Mario Carneiro, o ator Paulo José, pessoa não identificada, o diretor Joaquim Pedro de Andrade e o autor das cartas CRÉDITO: FERNANDO DUARTE_1965

memória

1964, do Rio para Roma

Cartas de um ano fatídico

Eduardo Escorel | Edição 221, Fevereiro 2025

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Meu homônimo começou a escrever, em março de 1964, as cartas transcritas a seguir, a maioria à máquina. Adolescente de 18 anos na época, ele morava com o irmão na Rua Dona Mariana, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O pai deles era ministro-­conselheiro da Embaixada do Brasil, em Roma, desde o final de 1963. Pouco depois, a mãe e as duas irmãs menores chegaram para morar no Monte Mario, bairro da capital italiana, em uma rua cujo nome ninguém da família reteve na memória. Já a irmã mais velha foi sozinha, de Paris, de trem, e chegou a Roma no dia 31 de março de 1964.

 

15 DE MARÇO DE 1964

Queridos papai e mamãe,

 

[…] Tenho escrito pouco, mas pela carta que segue com o Murilo Mendes[1] entenderão por quê.

Estou pensando ainda na possibilidade de ir para aí. Na última carta mencionei o fato. […]

Estive no médico, que não foi nada otimista. Acha que estou com hepatite. Amanhã farei exame de sangue para confirmar. Só faltava mesmo essa neste mar de rosas.

 

Espero que compreendam a necessidade da linguagem telegráfica por medida de precaução.

Um grande abraço

Nova etapa de Goulart
é reforma do Ministério
18 de março, Jornal do Brasil

 

18 DE MARÇO

Dois dias depois de ter visto Deus e o diabo na Terra do Sol ainda é difícil falar de outra coisa. Ao mesmo tempo, é realmente impossível, passado tão pouco tempo, fazer uma análise objetiva. A comparação com Vidas secas torna-se inevitável por terem sido ambos apresentados para a comissão que escolheu o filme que representará o Brasil em Cannes. A escolha de Deus e o diabo não poderia ter sido mais acertada, pois é, sem desmerecer o filme do Nelson Pereira dos Santos, o maior filme que já se fez no Brasil até hoje e o maior filme que eu já vi na minha vida. […] O mito de louco, de homem confuso e inseguro que o Glauber [Rocha] sempre teve está definitivamente derrotado e aniquilado, pois é um filme cristalino, claro e preciso em seus propósitos e resultados. A evolução de vaqueiro a beato e finalmente a cangaceiro é dotada de tamanha carga dramática que a maioria das cem (privilegiadas) pessoas que viram o filme saíram chorando, profundamente comovidas. […]

Vocês me deram impressão de não terem compreendido certas coisas. Existe cada vez mais no Brasil a profissão de cineasta. As condições para isso vêm se formando há pouco tempo, é verdade, mas não é mais um sonho de louco, nem o refúgio de frustrados […]. O estudo é uma das coisas fundamentais para se vencer todos esses obstáculos. O que não é possível é ir estudar piano quando se quer ser pedreiro. A arquitetura seria o piano, o cineasta o pedreiro. Por isso, tranquei matrícula na arquitetura, indo estudar física este ano (se passar no vestibular. Fiz o último exame ontem e fui relativamente bem) por não haver uma escola de cinema [no Brasil]. Por isso vou trabalhar este ano e é por isso que dois anos no Centro[2] me interessam fundamentalmente. O trabalho como assistente de direção no filme do Joaquim Pedro [de Andrade][3] e futuros trabalhos serão um vestibular para uma formação cultural e profissional que a Europa completaria […]. Não se trata, de modo algum, de escolher o mais fácil, o mais agradável. Nunca houve engano maior do que pensar e acreditar nisso. Trata-se de ser honesto consigo mesmo e com os outros e ter a coragem de enfrentar para valer uma formação pessoal e profissional diferente dos cânones tradicionais. Tenho plena consciência do que vou enfrentar, tenho plena consciência dos meus 18 anos. O fracasso futuro é uma coisa que não deve existir. É preciso ser idealista, acreditar em si mesmo e antes disso no Brasil.

[…] Estou fazendo um curso, dado em forma de seminário, de direção de atores, dirigido pelo Martim Gonçalves[4] e organizado pela Associação Brasileira de Autores de Filmes. A primeira aula foi na segunda-feira no Teatro de Arena. O primeiro trabalho é a decupagem e encenação de um trecho de O encontro marcado.[5] Vamos ver em que dá.

 

Militares aprovam
ato constitucional
9 de abril, Correio da Manhã

9 DE ABRIL

As notícias que vocês mandam fazem ver que não medem a extensão do que ocorreu por aqui. Simplesmente acabou, tudo e todos. O país como um todo e todos os indivíduos que vinham desenvolvendo um trabalho positivo procurando levantar o nível de nossa sociedade. Narrar os fatos não me parece ter muito sentido, procurarei na medida do possível contar o que sobrou.

No momento estamos vivendo sob um regime de terror, com os amigos fugidos, escondidos por estarem sendo caçados pela polícia. Expurgo é a palavra que Ademar [de Barros],[6] [Carlos] Lacerda[7] e os líderes do golpe mais usam na televisão. O golpe deles foi sem dúvida hábil, pois transformaram um golpe de Estado numa revolução diante dos olhos do povo. Transformaram um golpe em defesa dos seus privilégios numa revolução contra o comunismo que nunca existiu. Transformaram-se em heróis, quando não passam de crápulas. E depois de todos os fatos acontecidos (que só lhes poderei contar pessoalmente um dia) iniciaram a perseguição. É a canalha no poder. Falar no que isso representa para o país como atraso numa evolução que parecia irreversível seria cair no óbvio. […] Para toda a minha geração representou apenas um tiro no coração do qual para sobreviver será preciso muita luta. No momento, o estado de depressão é total entre nós todos. Estou novamente no ar, sem saber o que fazer com uma sensação de insegurança total. As notícias variam de dia a dia, mas parecem estar definitivamente golpeadas as possibilidades de fazer um cinema digno no Brasil. A não ser que a conhecida frustração dos lacerdistas e cupinchas faça-os esquecer um pouco as nossas posições em troca de uma continuidade cultural. […] A situação é péssima, desesperadora mesmo. São Paulo e o estado do Rio vivem um regime policial mais atroz ainda com ninguém nas ruas depois das dez da noite. As casas menos suspeitas cheias de amigos com as famílias, telefones censurados, jornais censurados. Só no Rio mais de 3 mil prisões. […] As minhas vísceras intestinais voltaram a me incomodar em toda a carga, prova que a doença é um reflexo do estado nervoso. Estou desorientado, estou a zero. A nossa última esperança é o fato de a canalha estar se roendo por dentro. Tendo aparentemente nos destruído, passaram a repartir o butim. Cada um deles quer ficar com um pedaço maior e desta situação ainda poderemos tirar algum proveito. É uma esperança fraquíssima, mas o que fazer? Estou pensando seriamente em ir para a Itália em julho se a situação perdurar […].

Para que esta carta não seja um mar de lamúrias, passemos às frivolidades. Na Física (faculdade fechada até hoje) só saíram as notas de português e de inglês. Tive as duas maiores notas da turma: 9 na primeira e 9,5 na segunda.

 

Congresso elege hoje Castello Branco para Presidente
11 de abril, Jornal do Brasil 

11 DE ABRIL[8]

[…] As cartas daí têm chegado regularmente, sempre preocupando pela falta de medida dos acontecimentos nacionais. Somente a última carta sua (papai) trouxe uma análise preocupada e justa dos fatos, fazendo crer que já estejam mais enfronhados. Não mando cartas pelo correio pois a censura, pelo que dizem, está imperando.

As coisas por aqui se agravam dia a dia. Ato Institucional que levou à cassação dos mandatos e dos direitos políticos. As prisões nas altas esferas parecem estar se concluindo e pelo que sabemos começarão nas baixas. O clima de intranquilidade é geral e, mais do que intranquilidade, de insegurança. Por enquanto, ninguém do nosso grupo foi preso nem houve tentativa de prender, pelo que sabemos. Algumas pessoas conhecidas, como o Jacques Danon,[9] foram presas por denúncia, mas imediatamente postas em liberdade. O número de asilados cresce todo dia e imagino que o clima nas embaixadas seja igual ao que Jacyntho[10] contava sobre Cuba. […] A eleição do Castello Branco é hoje (melhor do que eleição seria dizer imposição). A Faculdade de Brasília foi invadida e presos vários professores e alunos. A [Faculdade] Nacional de Filosofia [no Rio] permanece fechada e ninguém sabe informar quando reabrirá. O diretório acadêmico foi sumariamente desmanchado e pelo que se pode prever será das coisas “mais agradáveis” estudar em tal ambiente. A perplexidade é geral.

Sobre o cinema, as coisas continuam na mesma. Por enquanto, não se sabe com certeza se os financiamentos sairão ou quando sairão. Acredito que nos próximos dias a situação se esclarecerá, embora as perspectivas sejam as piores possíveis, como vocês podem imaginar. […]

 

12 DE ABRIL_Hoje de manhã chegou também uma carta sua (papai), do dia 8. As suas considerações sobre a situação são muito justas e imagino como deve ser terrível essa dependência de instruções da gorilada. A leitura dos jornais tornou-se uma tortura e vocês não estão perdendo nada não os lendo. O único mais legível é o Correio [da Manhã], por incrível que pareça. Pelo que se sabe, foi comprado pelo Magalhães Pinto[11] e tem mandado as suas brasinhas. O Carlos Heitor Cony[12] tem estado muito bom, sendo o único que teve a coragem de tomar uma posição aberta contra a ditadura. Tem espinafrado o generalato e não sei como não foi preso ainda. O Castello foi eleito ontem, e para vice, a figura do Alkmin.[13] Viramos uma modelar republiqueta.

[…] O curso do Martim Gonçalves também acabou. Confirmando a fama, depois da terceira aula brigou com todo mundo, considerou ter sido desprestigiado e ofendido, e Joaquim [Pedro] foi obrigado a encerrar o curso. Realmente foi uma pena, pois poderia ter sido uma experiência importante.

14 DE ABRIL_[…] A situação parece se agravar dia a dia. Os jornais a pedir expurgos em tudo quanto é órgão do governo. Falam no Ita [Itamaraty] com insistência. O clima de denúncia, de medo, é geral. […]

Ontem fomos ver no Festival francês Les parapluies de Cherbourg[14] do Jacques Demy. É uma loucura total. Totalmente cantado, funciona em alguns momentos, mas de um modo geral só levando na brincadeira. É o tipo do filme durante o qual não se pode deixar de imaginar as mais incríveis piadas. Ridículo talvez seja a melhor palavra. Na segunda que vem vão passar Feu follet[15] do [Louis] Malle, que dizem ser bem melhor.

Estive conversando com o Paulo César Saraceni, que fez o Centro, e ele me disse […] que é uma experiência fundamental. […] Estou aos poucos me convencendo que a melhor coisa a fazer é ir embora desta terra, pois “não dá pé” continuar neste estado de coisas que não leva a nada. […]

Ana Luisa[16] chegou ontem de São Paulo com um recado do Antonio Candido, nos seguintes termos: “A melhor coisa que você pode fazer agora é sair do país.” Pelo visto, estão preocupados com as minhas “conspirações” e com a falta de perspectiva profissional.

15 DE ABRIL_Acabo de voltar do dr. Vignoli,[17] que, baseado nos sintomas e no exame de urina que fiz, acha que estou com hepatite. Mandou fazer um exame de sangue, com o qual poderá confirmar ou não a doença. Só faltava essa, mesmo. Se for confirmado, pelo menos será uma boa desculpa para ficar em casa, já que, no momento, não se pode subverter a ordem mesmo. Enfim, será uma chateação a mais neste mar de decepções.

O “Comando Revolucionário” já começou a mexer com o cinema. Ontem, a censura, que já tinha liberado Deus e o diabo para maiores de 18 anos sem nenhum corte, pediu para censurar o filme de novo. Além disso, o Conselho de Segurança Nacional pediu para ver o filme. Isso foi ontem e a sessão vai ser amanhã. Acredito que possam querer inclusive proibir a exibição do filme. Espero que as embaixadas aí não recebam ordens de cancelar a exibição em Cannes. Seria trágico (dentro do panorama das tragédias) e injusto. Peço que se for o caso façam o possível e o impossível em defesa de Deus e o diabo e do Glauber. É também possível que não chegue a isso. Não sei.

O boato que surgiu ontem é que existe uma lista de diplomatas, de terceiro-secretário a embaixador, que serão expulsos da carreira. Não existe nenhuma espécie de confirmação. O boato diz, inclusive, que José Guilherme Merquior[18] encabeça a lista de terceiros-secretários. Só tendo uma hepatitezinha mesmo. Fico inteiramente sem saber o que dizer, o que pensar. Os fatos se desenrolam tão longe do nosso alcance que a sensação de impotência é total.

16 DE ABRIL_[…] A faculdade reabriu hoje, mas o resultado do vestibular da Física não saiu […], esse bendito resultado que agora mais do que nunca é a coisa em que menos penso. […]

Depois de pensar muito, tomei uma resolução definitiva. Não vou sair do Brasil este ano. Não ficaria tranquilo fora do Brasil numa hora destas e acho fundamental antes de ir fazer o Centro ter uma experiência profissional concreta no Brasil. Por isso, vou ficar e poderei então fazer o primeiro ano de física antes de ir para aí. As últimas notícias sobre as possibilidades de trabalho são bem melhores e vamos aguardar os acontecimentos por aqui mesmo.

17 DE ABRIL_[…] Finalmente, saíram os resultados da Física. Passei em 11º lugar. Satisfeitos? O horário já saiu, mas não consegui descobrir o dia em que começam as aulas.

18 DE ABRIL_[…] O JB [Jornal do Brasil], diante da ordem de prisão do Bahia[19] já está mudando um pouco. Hoje, pela primeira vez, nos últimos dezoito dias, havia alguma notícia de interesse.

 

EUA: cem milhões
à América Latina
26 de abril, Correio da Manhã

26 DE ABRIL

[…] Sinto uma grande dificuldade para responder à sua carta, pai. Não por ter dúvidas diante dos problemas que você coloca, mas pelo fato de ainda estar abalado pelos acontecimentos de 1º de abril. […]

Ao escolher o cinema como atividade profissional e decidir cursar física ao mesmo tempo, reconhecia a necessidade de, antes da criação, passar por uma fase de absorção e de assimilação, de toda uma tradição cultural e científica. Agora, firme na decisão de fazer cinema, onde encontrar o ânimo para enfrentar uma faculdade em que são expulsos colegas culpados de possuírem uma ideologia? Numa faculdade em que sumariamente se acaba com o diretório acadêmico? Mais do que o ânimo necessário para enfrentar isso tudo está a falta de perspectiva de um tal estudo. […]

Minha decisão de não ir para Roma agora se baseou em dois fatos: primeiro, o de que esta não é hora para se sair do Brasil. É hora de ficar aqui se preparando para poder contribuir, no futuro (próximo, esperamos), para a reconstrução desta terra; segundo, o de que, antes de ir para fora, é fundamental ter uma experiência profissional concreta[20] aqui.

A confusão destes dias é tal que seria capaz de escrever uma outra carta, tão sincera quanto esta, mas diferente no raciocínio. Acho, porém, que o que escrevi é o que existe de mais verdadeiro dentro de mim. […]

Espero que tenham recebido a carta que foi pelo Luiz Augusto Mendes,[21] desmentindo (melhor seria dizer não confirmando) os indícios de uma hepatite. Como ficou o cartaz de Deus e o diabo feito aí em Roma? O feito aqui pelo Rogério Duarte[22] ficou muito bom.

 

Brizola: só me resta o exílio
3 de maio, Correio da Manhã

4 DE MAIO

Estou me sentindo pedras. Não tenho hepatite, mas em compensação minhas entranhas não me dão sossego, incomodando permanentemente. Amanhã marcarei nova hora no médico com a já tênue esperança de uma cura definitiva. […] Mais do que nunca estou sem saber o que fazer. Não fui à faculdade três dias da semana passada e hoje, segunda-feira, também não […]. Totalmente confuso, não tenho feito nada de objetivo, de decisivo, salvo ler um pouco e trabalhar na montagem de Integração racial[23] juntamente com Paulo César [Saraceni] e Gustavo Dahl, o montador. Me sinto tolhido e sem função, sem ninguém, numa frustração de vida terrivelmente prematura. […] Existe uma só decisão a ser tomada que só eu posso tomar e uma vez decidido serei obrigado a um esforço estúpido para cumprir a decisão. Fazer cinema. Não se discute. Mas isso me faz sentir um ser marginalizado, quase um pária, um jogado fora. […] E se chegar à conclusão de que não há a menor possibilidade de fazer o que se escolheu? Partir para que tipo de atividade? Será válida uma escolha que forçosamente implicará num sacrifício pessoal no futuro? O que é o cinema? Num processo mais amplo é uma coisa tão pequena que talvez continuemos vivos sem ele. É claro que isso é verdade. Mas o que fazer, então? Não posso de maneira nenhuma aceitar a renúncia. […] Outro dia, uma pessoa me disse que sou um romântico. Se for verdade, estou fadado a sofrer por causa disso. Tenho medo de imaginar as coisas. De estar dando uma dimensão irreal às minhas preocupações. Não sei. Não sei nada.

Abraço

 

Castello quer relações só com países democráticos
9 de maio, Jornal do Brasil

9 DE MAIO

Começo a escrever esta sem saber, na verdade, exatamente o que contar. Que estou me sentindo fisicamente mal? Que não tenho ido à Física como eu bem sei que vocês tanto gostariam? Que estou preocupado, nervoso…? […] Das reais possibilidades de um prêmio em Cannes, que seria decisivo para nós todos, pouco se sabe. As notícias sobre Sécheresse [Vidas secas] foram bastante boas e toda a publicidade que se está fazendo em torno da Baleia [cachorra da família de retirantes de Vidas secas] talvez ajude. Segunda-feira, Deus e o diabo. Esperamos que reconheçam seu real valor. […]

Vocês dois apareceram na televisão. Eu estava por acaso na casa do Carrilho[24] vendo o jornal e eis que surgem vocês recebendo o papa ou algo parecido. No Colégio Pio Brasileiro, não é isso? […] O conselho do Antonio Candido, a meu ver, não se justifica (necessariamente). […]

10 DE MAIO_[…] Com algumas modificações de proposição, concordo e aceito as suas ponderações dessa última carta, pai.

1 – Que eu estou “no ar”, plenamente de acordo, mas não pelos motivos que você aponta. Estou, mais do que nunca, plenamente capacitado da necessidade de optar, mas não posso aceitar optar como sinônimo de renunciar. […] É realmente um absurdo que a única coluna de jornal legível continue sendo a do Cony, que afirma hoje: “Cruzar os braços e fechar a boca pode ser cômodo, mas não será com os braços cruzados e as bocas fechadas que vamos fazer retornar aos quartéis os militares que se assanharam em invadir o país.” Para mim, renunciar e cruzar os braços é que são sinônimos. Para mim, a decisão certa é continuar trabalhando, construindo, aguardando a hora de lutar. Eis um esboço de uma declaração de fé. […] Renunciar, palavra desgraçada, representa receber dentro de cinco anos, todo fim de mês, não sei quantos cruzeiros. É uma lamentável opção que eu, hoje, dia 10 de maio de 1964, não posso tomar. Seria um suicídio moral. What shall I do? Non lo so! [O que devo fazer? Não sei!]

12 DE MAIO_O estado de espírito muda muito. Não resta a menor dúvida. Acho que duro mesmo são certos fins de semana meio solitários. […] Hoje, estou num estado de espírito que me diz para “continuar mandando brasa”. O que eu penso, no fundo, no fundo, é isso. Ontem, recebi o primeiro salário da minha vida. Primeira parte do pagamento pela assistência de montagem do Integração: 50 mil.

Genial ter recebido os recortes italianos [sobre Cannes]. […] Como sempre correm os boatos mais loucos. O Carrilho me telefonou há pouco dizendo que o Everaldo Dayrell de Lima[25] tinha recebido um telefonema dizendo que o DIABO tinha ganho. Loucura total, pois o festival nem acabou ainda. […]

A Tribuna [da Imprensa] pede diariamente a cabeça do [Hugo] Gouthier,[26] mas não fala em substituto. Hoje, li que San Tiago [Dantas][27] viajou ontem para a Europa. Não me avisaram e não mandei nada. […]

Hoje tivemos a boa, ainda não confirmada, notícia de que o Conselho de Segurança liberou Deus e o diabo. Notícia auspiciosa. Esperemos que não seja mais um boato.

 

Expurgos condenados nos EUA
16 de junho, Correio da Manhã

16 DE JUNHO[28]

Não consigo entender o que você (pai), considera “voltar à vida normal”, frase na qual você parece insistir em todas as suas cartas. Voltar à normalidade é mais do que nunca impossível neste país. Não tenho deixado de pensar em todos os problemas que discutimos em cartas anteriores, mas sinto cada vez mais que vocês não acreditam no trabalho que eu estou fazendo ou tentando fazer. Sinceramente, me restaria pedir um voto de confiança, pelo menos de apoio. A situação vai se definindo e não é boa. As dificuldades aumentaram, e não é fácil, nem agradável, viver num país fascista. […]

O trabalho vai progredindo rapidamente e Integração vai ficando muito interessante. Deverá representar o Brasil em Bergamo, no festival. Não deixem de ir. […]

Chegaram agora à noite as cartas e cartões pela mala. Obrigado pelo presente, pelas congratulações. O menos que se poderá dizer é que será um aniversário problematizado.[29] […]

O que eu queria sentir era o direito de errar. O que eu queria sentir é que os outros, e no caso vocês e mais algumas pessoas muito queridas são os outros, me concedem o direito de errar. Errar e um dia, se for o caso (senão muito melhor), reconhecer o erro e poder, do chão, me erguer, para outro caminho.

 

Reformas causam divergências
26 de junho, Correio da Manhã

26 DE JUNHO

[…] Escrevo rapidamente num intervalo de trabalho. Estamos terminando Integração racial e já estou preparando O padre e a moça com Joaquim [Pedro]. No momento, a grande luta é pelo financiamento que deve sair a qualquer dia. Parece que, finalmente, as barreiras estão ultrapassadas. Se tudo correr normalmente, estaremos em Minas, filmando, no dia 1º de agosto. […]

As grandes preocupações têm sido com os boatos daí. Dizem que você (pai) teria pedido remoção. Imagino como tudo deve estar confuso, mas espero que escrevam mandando dizer algo de mais concreto. As últimas cartas têm sido pouco objetivas politicamente.

Se o Cacá, Carlos Diegues, grande amigo e diretor de Ganga Zumba, for a Roma, não deixem de ajudá-lo ao máximo em tudo que for preciso. Convidem-­no, se for possível, para ficar em casa, pois ele está meio sem dinheiro.

Estive em São Paulo no fim de semana passado. Conversei com Antonio Candido e Gilda que, ao que parece, vão mesmo para Paris. […] Vovó[30] está bem, seguindo para Tel Aviv no dia 11, se não me engano.

 

Projeto pede ruptura com Cuba
22 de julho, Correio da Manhã

22 DE JULHO

Acabamos Integração racial, que amanhã deve ter sua primeira cópia. […] Fugindo inteiramente de um didatismo elementar, o filme supera o problema acadêmico da tese exposta e comprovada, desta ou daquela maneira; trata-se sobretudo de um painel da integração ou falta de integração dos três mais importantes grupos étnicos do Brasil de hoje: o negro, o japonês e o italiano. O filme se concentra mais no problema do negro que é sem dúvida, ao se falar de raça propriamente dita, o que mais vem ao caso. […] O sabor carioca que existe no filme é extraordinário e uma alegria, na verdade pouco autêntica no momento.

 

Castello pede salário-educação
28 de julho, Correio da Manhã

28 DE JULHO

Os últimos dias têm sido literalmente tomados por Integração […] espero que amanhã termine definitivamente e que na semana que vem vocês possam vê-lo aí. Na verdade, ainda não consegui ver o filme pronto tranquilamente. Mesmo se tivesse, a minha opinião seria excessivamente comprometida. Tenho medo de que, por uma série de arraigadas prevenções, o filme seja arrasado. Vamos ver. Pessoalmente, tenho uma impressão excelente.

A insensibilidade diante de Deus e o diabo, sinceramente, é totalmente incompreensível. Trata-se, como eu não deixei de lhes escrever, do maior filme (um dos maiores) já feito no mundo. Concluí finalmente, há um mês, o artigo sobre o filme e mandei para ver se o Décio[31] publicaria no Estadão. […]

 

Johnson manda Esquadra rechaçar qualquer ataque
4 de agosto, Jornal do Brasil

4 DE AGOSTO

Finalmente ficou pronto Integração racial que está fazendo algum sucesso. Mostramos o filme ao Mário Dias Costa[32] e ao ministro Everaldo Dayrell de Lima e ambos gostaram bastante. Mostramos também aos amigos, que se entusiasmaram mais, e hoje Paulo Emílio[33] viu o filme e saiu bastante satisfeito. Pessoas diferentes, formações diferentes, com uma opinião semelhante sempre são um bom sinal. Dentro de poucos dias vocês deverão ter uma cópia aí e se por acaso o festival mandar perguntar o porquê do atraso digam que o filme está sendo legendado, devendo seguir para Roma no mais tardar dia 11 do corrente.

Nota: pela carta do papai fiquei com a impressão que vocês estão superestimando a minha participação no filme. Trabalhei na montagem junto com o Gustavo Dahl e o Paulo César, sendo, oficialmente, a minha função a de assistente de montagem, embora tenha trabalhado com o Saldanha[34] na sincronização e colaborado ativamente na montagem.

[…] você bem poderia mandar a Najade d’Oro[35] para o Glauber, que está morrendo de fome e assim poderia derretê-la e vender o ouro para aguentar mais algumas horas vivo. Coisas da vida de um cineasta. […]

 

Kruschev: guerra será o fim do capitalismo
9 e 10 de agosto, Jornal do Brasil

10 DE AGOSTO

A tática que vocês parecem ter resolvido adotar é a de tempos em tempos sondar a firmeza de minhas resoluções, para ver se continuam de pé. Acho perfeito, vamos às respostas: […]

2) “Você acha que poderá se manter através do cinema brasileiro?”

Como já lhes disse inúmeras vezes tenho plena consciência das dificuldades e dos possíveis maus momentos que terei de enfrentar. No rumo que o cinema brasileiro está tomando, as condições de segurança econômica tendem sempre a melhorar, embora tudo dependa de uma série de fatores, muitas vezes longe do nosso alcance. Se vocês estiverem dispostos a cooperar durante algum tempo com o correspondente a uma formação universitária, acredito que depois estarei capacitado para “mandar brasa” sozinho. Para vocês terem uma ideia, no filme do Joaquim [Pedro], como assistente de direção e depois como montador vou ganhar 40 contos por semana durante um período de cinco a seis meses. O que corresponde a 160 contos por mês, o que não é um salário de fome.[36]

3) “… você acha que um ano da Europa seria útil a você para o seu trabalho neste campo?” É claro que sim. Mas só depois de ter tido uma experiência profissional concreta, no Brasil, ou seja, só depois do filme do Joaquim concluído e de ter trabalhado em outro longa-metragem ou ter feito um curta-metragem. O que deverá corresponder a daqui a um ano. […]

A última novidade no dr. Vignoli é que ele, devido à duração da minha doença, mandou fazer um exame num especialista, desconfiando que eu talvez esteja com uma úlcera nervosa. Já marquei hora no especialista, um tal de dr. A. e vamos ver no que dá. […]

Finalmente, no sábado, saiu o primeiro dos meus três artigos sobre Deus e o diabo no Suplemento Literário do Estadão.[37] Os outros dois artigos devem sair neste sábado e no próximo. Assim que tiverem saído os três eu mando para vocês aí.

Acabamos não indo para Minas ontem, como estava programado, porque não chegou a confirmação de uma audiência com o Magalhães Pinto. Estamos esperando só isso, devendo seguir de uma hora para outra.

 

Eleições livres no Chile
4 de setembro, Correio da Manhã

4 DE SETEMBRO

[…] Imagino que nesta altura você já deve ter alguma notícia sobre se aceitaram Integração racial em Bergamo, apesar do incrível atraso. Aqui tem feito o maior sucesso. Foi apresentado na Universidade de Brasília e foi uma verdadeira ovação. Na manhã seguinte, quando o Paulo Emílio ia começar o seminário sobre Hiroshima [meu amor], não se falou de outra coisa a não ser do Integração. Recebemos, por sinal, os diálogos em italiano, bastante bem traduzidos. Será uma pena se não tiver chegado dentro de um atraso tolerável a Bergamo, pois acredito que teria boas chances de receber um prêmio.

[…] Pai, um abração por mais este ano,[38] esperando que o próximo seja comemorado com a família toda reunida, em Roma ou outro lugar. Um abração, com saudades.

[…] Tenho sabido, via Carrilho, dos boa­tos mais incríveis a respeito de sua remoção ou não de Roma. Primeiro, que teriam dito ao Lousada[39] que você era comunista. O embaixador ficou apavorado, mas o Mário Dias Costa o teria convencido de que não passava de intrigas e que o embaixador então se acalmou. Segundo, que o Lauro Müller[40] teria dito ao Mário (ainda), de quem ao que parece é grande amigo, que não iria para Roma de jeito nenhum se fosse para tirar você da embaixada… […]

6 DE SETEMBRO_Faleceu hoje, às seis da manhã, o San Tiago Dantas. Eu soube imediatamente, porque a Edmée[41] telefonou, pedindo para avisar uma sobrinha dele, nossa vizinha. Ainda não sei se o enterro é hoje, nem a que horas, nem onde. É realmente uma pena a morte de um homem como ele.

Ontem, conheci o Roberto Schwarz,[42] assistente do Antonio Candido, que me convidou para escrever sobre cinema para a Revista Brasiliense, que está sendo reorganizada, em São Paulo. Deverá recomeçar a sair em novembro. […]

7 DE SETEMBRO_Fui, ontem de manhã, fazer visita de pêsames à Edméa, aqui em frente, onde o corpo foi velado e onde realizaram a missa de corpo presente. Ela, Edméa, abaladíssima, naturalmente. A casa repleta de gente, num ambiente de comoção geral. O enterro foi às seis horas no São João Batista, […].

 

Sétima frota em alerta na Ásia
20 de setembro, Correio da Manhã

21 DE SETEMBRO[43]

[…] Não sei bem por quê, mas sempre que vocês perguntam alguma coisa fico com a impressão de já ter respondido. Em todo caso, aqui vão as respostas: […] em São Paulo, convidamos o Fauzi Arap [para fazer um papel em O padre e a moça]. Não sei se vocês se lembram dele (fazia o padre na Mandrágora e, atualmente, está genial em Pequenos burgueses). Não sabemos ainda se ele realmente vai fazer o papel por causa de compromissos com o teatro. Os quatro atores seriam, se tudo der certo: Luiz Jasmin (o Padre), Helena Ignez (a Moça), Jaime Costa (Honorato) e Fauzi Arap (Vitorino).

O nosso queridíssimo governador Lacerda não vai ao palácio há dez dias. Primeiro, por causa do Cara de Cavalo (um bandido gênero Micuçu, Mineirinho…), que ele andou caçando, e por causa de uma dor de ouvido da pobrezinha da dona Letícia.[44] Com isso, não há meio de ele assinar os financiamentos. Só falta a rubrica do homem embaixo de um papel para os cheques serem entregues. Hoje, ele despachará em Bangu (ah, demagogia!) e o presidente da Caic (Comissão de Auxílio à Indústria Cinematográfica), que, atualmente, é o Cláudio Mello e Souza,[45] vai ver se consegue resolver o assunto. Assim que isso acontecer, deveremos partir para a primeira viagem de dez dias, voltamos para passar aqui uns vinte dias e partimos definitivamente para os três meses de luta. Assim que souber datas certas aviso. […]

A situação política, como vocês devem ouvir os ecos, continua confusa. O Correio da Manhã movendo uma campanha diária contra as torturas que as autoridades insistem em negar. O Márcio Moreira Alves[46] está no Recife fazendo reportagens sobre as torturas e acompanhando os trabalhos de uma comissão que finalmente foi constituída para averiguar a situação. Márcio e Hermano Alves[47] são os melhores e mais lúcidos comentaristas do momento, juntamente com o Cony, que, de outra forma, tem também a sua grande importância. Depois da situação estar mais violenta no Recife, as perseguições se tornaram mais violentas em São Paulo, onde o Florestan [Fernandes][48] foi preso por ter enviado uma carta de protesto contra os inquéritos na universidade. Os alunos fizeram greve e ele já foi solto. Até a prisão do Paulo Duarte[49] chegou a ser divulgada, mas não se concretizou. Aqui no Rio, as casas do Alex [Viany],[50] do Ferreira Gullar[51] e de uns outros foram invadidas por militares, não se sabe bem por quê. Na casa do Gullar apreenderam um livro inédito que ele tinha acabado de escrever, chamado Do cubismo ao neoconcretismo, ao que parece por terem achado que cubismo tinha algo a ver com Cuba. O número de histórias cômicas sobre essas buscas é obviamente infinito.

Na área da “alta” política os boatos mais desencontrados correm. Lá pelo dia 7 de setembro, um dos mais insistentes era que a linha dura simularia uma contrarrevolução de esquerda como pretexto para um golpe que derrubaria o Castello. Parece que estão se articulando para isso. A meu ver não parece muito provável, em todo caso. […]

Paulo César Saraceni recebeu carta do Geraldo [Magalhães],[52] contando as démarches para conseguir colocar o Integração racial em Bergamo. Pelo que ele disse, o filme não poderia concorrer mais ao prêmio devido ao atraso, mas seria exibido. […] Ficamos tristes em não poder concorrer ao prêmio, mas Paulo César pediu que eu agradecesse a você por seu trabalho aí de tentar ajeitar pelo menos a exibição. Thanks again.

 

UDN frauda documento contra CPI
6 de outubro, Correio da Manhã

6 DE OUTUBRO

Por aqui o trabalho vai aumentando progressivamente de ritmo, uma vez que saíram os financiamentos. Mil providências para serem tomadas, coisas para serem redigidas, analisadas etc. Esperamos estar filmando dentro de um mês. Novembro, dezembro e janeiro em Minas. É o programa profissional por enquanto. […]

A situação por aqui não anda muito boa, politicamente. O Chi[53] foi preso há oito dias e está até hoje. Não sei de notícias muito específicas porque os pais dele mandaram recados expressos de não telefonar de maneira nenhuma para a casa deles. Eles estão tão apavorados que não posso ficar sabendo de nada do assunto pelo telefone. Ele, Chi, tinha estado na semana anterior à prisão aqui em casa por alguns dias. Imagino que se a situação perdurar acabarão aparecendo por aqui para procurar “material subversivo”. Até hoje, nada. Estou aguardando. Não precisam se preocupar de modo algum comigo. Não há nada.

Mário Dias Costa deu um almoço de despedida ao Cinema Novo com entrega da Najade d’Oro e de uma taça que o Joaquim Pedro ganhou em Cortina D’Ampezzo.[54] Muita rasgação de seda, regada pela comida gelada do Tim-Tim.[55] Ele, Mário, está tomando uma atitude péssima em relação ao Integração. Hoje, vamos conversar com ele.

 

De Gaulle chega hoje para visita de três dias
13 de outubro, Jornal do Brasil

13 DE OUTUBRO

Pelos boatos que ouvi por aqui e pelo que vocês me dizem nas últimas cartas, parece que Buenos Aires será novamente a residência dos Escoreis.[56] Realmente, é uma pena vocês terem que abandonar Roma e a Europa depois de tão pouco tempo. Não acho que o fato de ficarem perto do Brasil e de nós, portanto, compense o transtorno todo. Das desgraças que tem se sucedido depois do 31 de março, essa realmente (que, na verdade, está longe de ser uma desgraça) é das menores.

Em São Paulo, a situação do Chi que lhes contei na última carta continua estacionária. Os pais dele parece que podem visitá-lo quando querem, e ele está, pelo que soube, sendo bem tratado. Eu estou para ir a São Paulo para ver se posso visitá-lo, mas o trabalho não me tem permitido concretizar a viagem. Devo ir passar um ou dois dias no máximo para saber direito das coisas.

Aqui no Rio, as coisas vão se desenrolando sem se concretizarem, infelizmente. Problemas graves de produção têm surgido na preparação do filme do Joaquim, contudo a data de 1º de novembro continua marcada para o início das filmagens. Acho difícil que comecemos dentro desse prazo, mas estamos fazendo o possível para consegui-lo. Já começamos os testes com os atores, dois já estão escolhidos em definitivo – Jasmin, o pintor que se fantasiou de palhaço na festa do Márcio Moreira Alves, será o Padre. Jaime Costa deverá fazer o papel de Honorato.[57] A Moça e Vitorino ainda dependem dos testes.

O roteiro de Il deserto rosso chegou bem na semana em que estavam exibindo Il grido aqui. Extraordinário, na minha opinião o maior Antonioni.[58]

 

GB: multidão aclama De Gaulle
14 de outubro, Correio da Manhã[59]

14 DE OUTUBRO

[…] De ontem para hoje, os acontecimentos profissionais anunciaram uma perspectiva bem mais otimista. Uma reunião dos produtores resolveu grande parte dos problemas surgidos e provavelmente começaremos a filmagem dentro do prazo anteriormente estabelecido que era 1º de novembro. Se essa data se confirmar, ou mesmo que seja outra mais adiante um pouco, parece que a passagem de vocês por aqui irá coincidir com a minha estada em Minas (de 2, no mínimo, a 3, no máximo, meses). Festividades de fim de ano, para mim, serão em terras mineiras, ao que tudo indica. Precisamos combinar para não haver um desencontro total, o que seria muito chato. […]

Um grande abraço com saudades do…

Essa é a última das cartas escritas por meu homônimo em 1964 – o pai dele guardou todas durante 38 anos, sem revelar que estavam com ele. Anos após sua morte, em 2002, as cartas foram encontradas e devolvidas ao autor, então septuagenário, que levou um bom tempo até conseguir lê-las e começar a transcrevê-las, pensando em eventual publicação. Embora inseguro quanto ao real interesse delas, o fato de terem sido preservadas durante tanto tempo parecia indicar que guardavam alguma valia. Foi essa possibilidade que estimulou submetê-las a duas pessoas de confiança e, diante da reação favorável de ambas, encaminhá-las para esta publicação.

A razão de a correspondência ter sido interrompida em outubro de 1964 é incerta. A interrupção pode ter decorrido, de um lado, dos preparativos da família para deixar a embaixada em Roma e se instalar não exatamente em Buenos Aires, como se cogitara antes, mas na embaixada em La Paz e, de outro, do trabalho intenso de preparação e filmagem de O padre e a moça.[60]

Para meu homônimo, seguiram-se seis décadas imerso no cinema.

Nota: Agradeço a todas e todos que colaboraram para levantar parte substancial das informações contidas nas notas de rodapé – em especial às minhas irmãs, mas também a colegas, amigas e amigos, além das pessoas às quais pedi ajuda sem sequer conhecer.


[1] O poeta Murilo Mendes (1901-75) morava desde 1957 em Roma, onde era professor de cultura brasileira na Universidade de Roma La Sapienza.

[2] Centro Sperimentale di Cinematografia. Fundado em Roma, em 1935, é o mais antigo estabelecimento italiano de ensino, pesquisa e experimentação dedicado ao cinema.

[3] Referência a O padre e a moça, cujo título inicial era Negro amor de rendas brancas – verso do poema O padre, a moça, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1962, no qual o filme é baseado.

[4] Eros Martim Gonçalves (1919-73), cenógrafo e diretor de teatro. Fundou a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da qual foi diretor e onde lecionou entre 1956 e 1961.

[5] Romance de Fernando Sabino, publicado em 1956.

[6] Ademar de Barros (1901-69), governador de São Paulo entre 1963 e 1966, foi um dos protagonistas do golpe que destituiu João Goulart da Presidência em 1º de abril de 1964.

[7] Carlos Lacerda (1914-77), governador do estado da Guanabara entre 1960 e 1965, participou da articulação para desencadear o golpe militar de 1964.

[8] Embora traga a data de 11 de abril de 1964 no cabeçalho, esta carta continuou a ser escrita, com os dias seguintes anotados pelo remetente, até 18 de abril.

[9] Jacques Danon (1924-89). Cientista, fez parte do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

[10] Carlos Jacyntho de Barros (1916-2007), diplomata, amigo a vida toda do destinatário destas cartas. Entre outros postos, foi o encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Cuba, entre 1961 e 1962. Gostava de contar como foi estar em Havana durante a invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, e descrever como abrigou um grande número de cubanos em busca de asilo na embaixada.

[11]  José de Magalhães Pinto (1909-96), governador de Minas Gerais entre 1961 e 1966, participou, depois da renúncia de Jânio Quadros da Presidência (em agosto de 1961), das discussões para impedir a posse do vice-presidente João Goulart. A partir de 1963, fez parte das articulações para derrubar o presidente Goulart.

[12] Carlos Heitor Cony (1926-2018), jornalista e escritor, foi copidesque e editorialista do Correio da Manhã entre 1963 e 1965, e colunista da Folha de S.Paulo.

[13] José Maria Alkmin (1901-74), deputado federal por Minas Gerais a partir de 1933, foi reeleito várias vezes. Amigo de Juscelino Kubitschek, exerceu seu quinto mandato de 1958 a 1964.

[14] Os guarda-chuvas do amor (1964).

[15] Trinta anos esta noite (1963).

[16] Ana Luisa Escorel, designer, editora e escritora. Em 1964, Ana Luisa de Mello e Souza era estudante da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi). Filha dos ensaístas e professores Gilda de Mello e Souza (1919-2005) e Antonio Candido (1918-2017).

[17] Jayme Vignoli (1908-66), gastroenterologista.

[18] José Guilherme Merquior (1941-91), diplomata, crítico literário e ensaísta.

[19] Luiz Alberto Bahia (1923-2005), jornalista. Foi repórter, redator-chefe e diretor do Correio da Manhã, onde trabalhou até 1962, tendo sido demitido por suas posições pró-Cuba e anti-Lacerda. Atuou como editor político da revista Visão e editorialista do Jornal do Brasil, em 1963 e 1964.

[20] Na lateral esquerda da página está escrito à mão: “Assim mal dividido, este mundo anda errado. A terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo” – referência aos versos de uma das canções de Deus e o diabo na Terra do Sol.

[21] Luiz Augusto “Gugu” Mendes, produtor de Deus e o diabo e do curta-metragem Amazonas, Amazonas (1965), também de Glauber Rocha, além de Society em baby-doll (1965), dirigido por Luiz Carlos Maciel e Waldemar Lima. Era filho de João Mendes (1903-71), deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN) da Bahia e presidente da Ação Democrática Parlamentar (ADP), bloco interpartidário fundado para combater a infiltração comunista. Em 1963, “Gugu” Mendes foi diretor do Departamento de Cinema, Tea­tro e Outras Diversões, da Secretaria de Turismo do governo da Guanabara, na gestão Carlos Lacerda.

[22] Rogério Duarte (1939-2016), designer gráfico.

[23] Integração racial (1964), documentário de média-metragem dirigido por Paulo César Saraceni (1933-2012).

[24] Arnaldo Carrilho (1937-2013), diplomata, trabalhou no Departamento Cultural do Itamaraty na década de 1960. Foi embaixador na Coreia do Norte, Tailândia e Austrália.

[25] Everaldo Dayrell de Lima (1913-77), diplomata, foi chefe do Departamento Cultural e de Informações do Itamaraty de 1964 a 1967 e embaixador do Brasil em Atenas entre 1967 e 1969.

[26] Hugo Gouthier de Oliveira Gondim (1909-92), diplomata, foi embaixador do Brasil na Itália entre 1960 e 1964.

[27] Francisco Clementino de San Tiago Dantas (1911-64), professor de direito, jurista, deputado federal, foi ministro das Relações Exteriores, de 1961 a 1962, e da Fazenda, em 1963.

[28] Hugo Gouthier foi aposentado em 14 de junho, com base no Ato Institucional nº 1 (AI-1), e substituído em 15 de junho pelo ministro-conselheiro Lauro Escorel Rodrigues de Moraes (1917-2002), que passou a ser o encarregado de negócios da embaixada. Segundo o Correio da Manhã, “ainda no domingo [14 de junho] à tarde, o chanceler Vasco Leitão da Cunha (1903-84) se comunicava com o ministro-conselheiro Lauro Escorel, em Roma, determinando que substituísse, imediatamente, o embaixador Hugo Gouthier de Oliveira Gondim”.

[29] Em junho de 1964, o autor destas cartas fez 19 anos.

[30] Anna Lifschitz (1902-88), avó materna do autor destas cartas, nascida em Secureni, no Império Russo, cidade que desde 1991 faz parte da Ucrânia, com o nome de Sokyriany.

[31] Décio de Almeida Prado (1917-2000), crítico e historiador de teatro. A partir de 1956, foi editor do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

[32] Mário Dias Costa (1925-99), diplomata, foi chefe da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty entre 1962 e 1964. Também foi primeiro-secretário da Embaixada do Brasil em Roma entre 1964 e 1967.

[33] Paulo Emílio Sales Gomes (1916-77), escritor, ensaísta, crítico e historiador de cinema. Esteve à frente da criação da Cinemateca Brasileira e lecionou na Universidade de Brasília (UnB) e na Universidade de São Paulo (USP).

[34] Luiz Carlos Saldanha, diretor de fotografia do curta-metragem Maioria absoluta (1964), de Leon Hirszman (1937-87), entre outros filmes. Foi colega do autor destas cartas no curso de cinema realizado no Rio, entre 1962 e 1963, pelo diretor sueco Arne Sucksdorf (1917-2001).

[35] Najade d’Oro [Náiade de ouro] foi o troféu que Deus e o diabo ganhou na Mostra Internacional do Cinema Livre, de Porretta Terme, na Itália, em 1964.

[36] “Contos”: provável gíria para “mil cruzeiros”. A moe­da vigente no país entre 1942 e 1967 era o cruzeiro. Em 1964, o salário mínimo era de 42 mil cruzeiros.

[37] Deus contra o Diabo (I e II), no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, publicados em 8 e 15 de agosto de 1964, com o pseudônimo de João Matos. Dos três artigos escritos, foram publicados dois.

[38] O pai do autor destas cartas completaria 47 anos em 13 de setembro de 1964.

[39] Francisco D’Alamo Lousada (1902-86), diplomata, assumiu a embaixada brasileira na Itália em 21 de setembro.

[40] Lauro Müller Neto (1920-71), diplomata, foi ministro da segunda classe na Secretaria de Estado de 1961 a 1964. Embaixador do Brasil em Taiwan, morreu na explosão causada por uma bomba em um voo da China Airlines.

[41] Edmée de Carvalho Brandão (1913-2008), irmã gêmea de Edméa de San Tiago Dantas (1913-2010).

[42] Roberto Schwarz, crítico literário e professor, é autor de Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis, entre outros.

[43] Em 20 de setembro, Lauro Escorel deixou o cargo de encarregado de negócios e, no dia seguinte, Francisco D’Alamo Lousada assumiu a Embaixada do Brasil na Itália.

[44] Letícia Abruzzini (1917-90), casada com Carlos Lacerda.

[45] Cláudio Mello e Souza (1924-2011), jornalista, foi editor do Caderno B do Jornal do Brasil e da revista Fatos & Fotos. Trabalhou na Rede Globo e era amigo de Carlos Lacerda.

[46] Márcio Moreira Alves (1936-2009) foi repórter, correspondente de guerra e deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) da Guanabara. Em dezembro de 1968, teve seu mandato cassado com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5).

[47] Hermano Alves (1927-2010), jornalista, participou da criação da Tribuna da Imprensa, trabalhou no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil. Foi deputado federal, eleito pelo MDB da Guanabara. Teve os direitos políticos cassados pelo AI-5 em 1968.

[48] Florestan Fernandes (1920-95), sociólogo e professor, autor de A organização social dos tupinambá, entre outros.

[49] Paulo Duarte (1899-1984), jornalista, trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo como revisor, repórter e redator-chefe. Manifestou-se contra o golpe de 1964 e foi considerado suspeito de conspirar contra o novo regime. Ao contrário do que meu homônimo escreveu, foi detido.

[50] Alex Viany (1918-92), cineasta e jornalista, autor do livro Introdução ao cinema brasileiro e diretor de Sol sobre a lama (1963), entre outros filmes.

[51] Ferreira Gullar (1930-2016), poeta, crítico de arte e ensaísta.

[52] Geraldo Magalhães (1934-2011), jornalista e cineasta. Foi aluno do Centro Sperimentale di Cinematografia, onde apresentou como conclusão do curso o filme L’amore si trova nella camera accanto (O amor está na sala ao lado). Foi assessor de imprensa na Embaixada do Brasil em Roma no início da década de 1960. De volta ao Brasil, dirigiu o curta-metragem Guignard (1968) e o longa Amor perfeito (2005) – do qual é também autor do roteiro –, com Paulo Gorgulho, Claudia Mauro e Larissa Bracher.

[53] Apelido, em família, de Antonio Silvio Lefèvre, grande amigo de adolescente do autor destas cartas.

[54] Prêmio dado a Garrincha, alegria do povo.

[55] O tradicional restaurante Tim-tim por Tim-tim ficava na Rua do Lavradio, nº 41, no Rio de Janeiro. Depois de desapropriado, o imóvel onde estava instalado foi leiloado em junho de 1967, junto com o nome da empresa, telefone, maquinário, louça, talheres, bebidas, chouriços, palmitos etc.

[56] Afinal, o posto seguinte do pai do meu homônimo acabou sendo La Paz, na Bolívia, como embaixador do Brasil, cargo que ocupou de março de 1965 até novembro de 1967.

[57] O artista plástico Luiz Jasmin (1941-2013) acabou sendo substituído no elenco principal de O padre e a moça (1965), por Paulo José. Mário Lago substituiu Jaime Costa.

[58] O deserto vermelho (1964), filme de Michelangelo Antonioni. Roteiro publicado em 1964 pela editora Cappelli, de Bolonha. O filme “extraordinário” para meu homônimo era Il grido (O grito, 1957).

[59] GB era a sigla do estado da Guanabara.

[60] Novos adiamentos fizeram a filmagem de O padre e a moça ter início somente em janeiro de 1965, seis meses depois do previsto. Foi realizada em São Gonçalo do Rio das Pedras, a meio caminho entre Serro e Diamantina, bem como na Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, e terminou em maio. O filme ficou pronto no final do ano e foi lançado em 1966, com Paulo José (no papel do Padre), Helena Ignez (Mariana, a Moça), Mário Lago (Honorato) e Fauzi Arap (Vitorino).

Eduardo Escorel
Eduardo Escorel

Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes

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