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20 anos, 2 meses e 13 dias

A longa espera de um velocista por sua medalha olímpica

Samária Andrade
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Na arquibancada do Estádio Olímpico de Sydney, em 30 de setembro de 2000, o velocista piauiense Cláudio Roberto Sousa vibra ao ver o colega Claudinei Quirino completar o revezamento 4 x 100 metros. Com 37s90, a equipe do Brasil acabara de ganhar a medalha de prata (a de ouro ficou com os Estados Unidos, que fez a prova em 37s61). Os vencedores brasileiros subiram ao pódio: além de Quirino, Vicente Lenílson, Edson Luciano Ribeiro e André Domingos.

Dias antes, a imagem da vitória tinha o rosto de Sousa, primeiro reserva da equipe, que havia fechado a eliminatória em primeiro lugar, poupando Quirino para a prova dos 200 metros rasos e assegurando a boa colocação do Brasil nas semifinais do 4 x 100. Mas naquele dia 30 de setembro, devido ao protocolo, o reserva Sousa não pôde subir ao pódio – nem recebeu a medalha de prata a que tinha direito.

O velocista esperava que a medalha lhe fosse entregue por um dos colegas atletas ou dirigentes da equipe, mas ninguém soube responder onde estava o troféu. Todos voltaram ao Brasil e foram desfilar a vitória em suas cidades. Sousa preferiu não ir a Teresina. “Eu não tive coragem. Como eu ia me apresentar sem a medalha no peito?”, disse ele, que confessou ter chegado a mentir quando lhe perguntavam a respeito. “Quando eu estava no Piauí, dizia que a medalha tinha ficado em São Paulo; quando estava em São Paulo, dizia que a medalha estava em Teresina; quando ia pra Europa, dizia que a medalha tinha ficado no Brasil.”

 

Desde 2018, o atleta de 47 anos vive em uma casa alugada no bairro Lourival Parente, em Teresina. Até há pouco tempo, integrava o Programa de Apoio aos Heróis Olímpicos, que o levava a palestras pelo Brasil, interrompido por causa da pandemia e de cortes feitos pela patrocinadora, a Caixa Econômica Federal. Sousa também precisou suspender as aulas de atletismo que dava voluntariamente na Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, apoiada pela Igreja Católica, na Vila da Paz. Sem patrocínio, ele tem como única fonte de renda a atividade de personal trainer.

Sousa começou a carreira de atleta aos 15 anos, quando estudava na Fundação Bradesco e chamou atenção dos professores de educação física: era o aluno que corria mais rápido e saltava mais longe. Em pouco tempo, tornou-se campeão brasileiro dos 100 metros na categoria sub-18 e se mudou para São Paulo, contratado por um clube e com uma bolsa de estudos para cursar a faculdade de educação física.

Quando correu em Sydney, Claudinho, como a imprensa chamava o atleta de 1,68 metro, era um nome respeitado no atletismo nacional. Tinha conquistado trezentas medalhas em competições nacionais e internacionais, e visitado cerca de trinta países. “Tudo em minha vida aconteceu muito rápido.” Ou quase.

Sousa nunca recorreu a nenhuma instância oficial para reivindicar a medalha de Sydney. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) e o Comitê Olímpico Internacional (COI) prometiam uma solução, que nunca chegava a termo. Nos bastidores da imprensa, o caso ficou conhecido como uma das grandes injustiças das Olimpíadas.

Em 2003, o COB entregou a ele um broche de prata dos jogos de Sydney, que os representantes da instituição disseram ter sido enviado pelo COI, como pedido de desculpas. O broche estampava a logomarca da Olimpíada de 2000 – um bumerangue. “Era até bonitinho, mas foi uma frustração”, contou o atleta.

Treze anos depois, seu colega de revezamento, André Domingos, preparou uma surpresa. Sensibilizado pelas perguntas que eram feitas sobre a medalha nos compromissos em que aparecia junto do piauiense, Domingos – com o apoio do atleta Arnaldo Oliveira – mandou fazer uma réplica, usando a sua como modelo. E cuidou para que fosse entregue em um evento público da Confederação Brasileira de Atletismo.

Em 2019, Sousa encontrou-se em Teresina com diretores do COB “mais sensíveis”, segundo ele. E fez a pergunta crucial: “Onde está a minha medalha?” A resposta foi evasiva. A história parecia sem solução até que, em maio de 2020, o programa Fantástico, da Rede Globo, resolveu recontá-la em detalhes. Também divulgou uma carta do COI ao COB com a seguinte explicação: “Reconhecemos que o atleta não recebeu medalha autêntica nos jogos de Sydney 2000. Aceitamos, portanto, seu pedido por uma nova medalha.”

 

Finalmente, em dezembro do ano passado, o velocista viajou a São Paulo a convite do COB para receber sua medalha de prata. No dia 13, em evento especial durante o Troféu Brasil Caixa de Atletismo, o público – reduzido, devido à pandemia – assistiu a uma corrida dos quatro titulares de Sydney, com Sousa fechando os últimos 100 metros. “Eu, vários quilos mais gordo, e alguns colegas mal aguentando correr”, brincou. Ele pesava 72 kg na época da Olimpíada e agora está com 83 kg.

Antes de receber a medalha original, Sousa teve de entregar ao COI a réplica presenteada por Domingos e Oliveira. “Disseram que eu não poderia ficar com duas medalhas.” A réplica seguirá para o Museu Olímpico, na Suíça. No pódio em São Paulo, ele fez o que achou que faria vinte anos atrás: mordeu a medalha e mostrou-a para as câmeras, emocionado. “Fui o único brasileiro a receber uma medalha olímpica no ano em que as olimpíadas foram adiadas”, disse. “É uma história com final feliz.”

Em sua carreira, Sousa se dedicou ao revezamento de 400 metros, mas também aos 100 metros, uma das mais populares modalidades olímpicas. Nesse tipo de prova, seu melhor tempo foi 10s19. O recorde mundial é do jamaicano Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, com 9s58. Apenas meio segundo separa Sousa de Bolt, o que, para o atletismo, significa uma eternidade. Mas o que é o tempo para quem esperou vinte anos?

Samária Andrade

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