esquina

365 nuncas

Ser criativo cansa

Clara Becker
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

“Então por que você não se deita no divã?”, perguntou o terapeuta de Steffania Albanez. Ela é uma publicitária mineira tímida e de voz mansa. Eram nove da noite de 28 de janeiro e a jovem de longos cabelos cacheados estava angustiadíssima – restavam-lhe apenas três horas para fazer algo que nunca tinha feito na vida. O terapeuta, hábil como um neurologista vienense, se aproveitou da azáfama da paciente para tentar avançar no tratamento, e sugeriu que ela se deitasse no divã.

De fato, durante os quatro anos de tratamento, Steffania nunca havia feito isso. Ela não entende quem gosta de falar olhando para o teto, de costas para o interlocutor. Mas, no sufoco, cedeu. “Foi muito incômodo, nunca mais voltei a me deitar no divã, mas salvou o Eu Nunca daquele dia”, contou a publicitária.

No fim do ano passado, achando que a vida não saía da mesmice, Steffania e sua amiga Elisa Mendes, duas mineiras que moram no Rio, decidiram que, a cada dia, fariam algo que nunca fizeram em toda a vida. As ações inéditas avançam por feriados, fins de semana, férias. E elas as anotam diariamente no blog 365 Nuncas.

“O meu terapeuta achou a ideia ótima e falou umas coisas muito bonitas de como isso tem a ver com a minha história”, contou Steffania.



Nos últimos meses, ela e Elisa – que é fotógrafa e também tem 27 anos como a amiga – ouviram A Voz do Brasil do início ao fim, pediram o ator Cássio Reis em casamento, compraram vinho para o caixa do supermercado, ficaram na rua elogiando quem passasse, nas férias foram à praia em Belo Horizonte. (A praia dos belo-horizontinos consiste em uma lona azul gigantesca, que faz as vezes de mar, com buracos para as pessoas entrarem em trajes de banho – e um caminhão pipa estacionado na Praça da Estação garante a água.)

Chega? Tem mais. De volta ao Rio, foram a um bloco de Carnaval sóbrias. Tomaram banho nuas, à noite, no mar de Copacabana. Assistiram a uma peça interativa de teatro, daquelas que a sinopse já alerta que o espetáculo conta com a participação do público. “Se não fosse o blog, eu não iria mesmo, tinha o maior preconceito, mas gostei”, disse Elisa.

Ambas concordam que falar o dia inteiro no diminutivo foi uma péssima ideia, quase enlouquecedora. “No finzinho do diazinho não aguentávamos mais, preferíamos ficar caladinhas”, contou Steffania. No dia 24 de março, Elisa escreveu: “O nunca de hoje não dá para tornar público.” Ela garante que não se pendurou no lustre, mas não quis revelar o número de pessoas envolvidas na façanha.

O que inicialmente era para fazer sentido só para as duas cresceu de forma inesperada, quase desmesurada. Atualmente, são mais de 2 mil pessoas que acompanham o relato de suas estrepolias. “Se tem dez amigos nossos é muito, nem a minha mãe entra todos os dias”, disse Elisa. “O blog saiu do nosso controle”, constatou.

A maioria dos seguidores é formada por pré-adolescentes, que lhes enviam declarações de amor e agradecem a inspiração. “Nossa vida não é tão interessante quanto parece”, garantiram as duas, estranhando tamanho fervor. Chegaram a ser parodiadas em outro blog: 365 Nunca mais. Como jamais tinham sido parodiadas antes, este serviu como o nunca do dia 21 de fevereiro.

No dia 7 de janeiro, o nunca de Elisa causou polêmica. Ela começou a leitura de Vidas Desperdiçadas, um livro do sociólogo polonês Zygmunt Bauman que sempre quis ler, mas ainda não conseguira. O nunca não agradou alguns sectários e gerou polêmica. Uma seguidora se indignou: “Ué, vale começar a ler um livro?”, ela escreveu. E prosseguiu: “Certamente não é um nunca. Agora, se cada livro diferente conta, então vamos entrar na discussão de que ‘tudo é sempre novo’, e logo vocês estarão fazendo posts com títulos como ‘nunca desci de elevador às 13h05 usando um vestido verde’, aí fica sem graça.”

“Nós não temos regras previamente estabelecidas”, explicou Elisa. “Tentamos fazer coisas que todo mundo possa fazer também. Nossos nuncas não são caros, até porque a gente não tem dinheiro.”

Um dia, fizeram serenatas para os vizinhos do prédio da mãe de Elisa. Colocaram um notebook tocando música e uma webcam filmando, apertaram a campainha e saíram correndo. Um dos vizinhos era uma senhora, doente, que estava com aparelho de auxílio à respiração. Ela gostou da serenata, mas um neto dela, no Canadá, viu o vídeo no blog e pediu que fosse tirado imediatamente do ar. “Foi chato”, disse Elisa.

 

No mês passado, Elisa e Steffania pareciam arrependidas da ideia. “Será que a gente vai mesmo conseguir fazer uma coisa nova todos os dias do ano? Não chegamos nem na metade e a nossa lista já esgotou”, reconheceu Elisa entre um pão de queijo e um café em Copacabana. “Por que não cantamos alguma música do Roberto Carlos no ônibus e vemos se as pessoas nos acompanham?”, Steffania sugeriu. “Está muito cedo, e eu nem tenho vontade de cantar agora”, Elisa respondeu.

Consideraram tirar fotos dos idosos mais faceiros do bairro. Ou pegar um ônibus sem direção e descer no ponto final. Ficou decidido que abordariam as pessoas na rua perguntando pelo maior sex shop de Copacabana – o “maior” era acompanhado por um gesto de abrir as mãos na largura de uns 80 centímetros.

O primeiro a ser perguntado, um fiscal de ônibus, indicou o 156, na Central do Brasil. Contou que por ser novo no bairro, lamentavelmente, ainda não tinha tido tempo para explorá-lo. Para a surpresa das meninas, sexshops brotaram em todas as esquinas: Nossa Senhora de Copacabana, Domingos Ferreira, Figueiredo Magalhães, Siqueira Campos, Barata Ribeiro.

“O bom de fazer o nunca de manhã é que podemos passar o resto do dia livres”, disse Elisa, contente com a missão cumprida. Mas, no caminho de volta para casa, alegraram-se com a perspectiva de poderem fazer todos os dias a mesma coisa, no ano que vem. E sem precisar botar no blog.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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