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9299-1169

Pouca gente sabe, mas o Rio já tem um disque-exorcismo

Bruna Talarico
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A tradição católica diz que Satanás é esperto e se introduz sem dar na vista. Ninguém repara. A quem já teve – ou suspeita ter tido – o desprazer de acordar um dia com o Diabo no corpo, recomenda-se vivamente comparecer à capela da Igreja de Santana, no centro do Rio de Janeiro, às oito da manhã de qualquer sábado, e procurar o padre Nelson Rabelo. Ele estará de prontidão para vencer, uma vez mais, toda e qualquer insídia demoníaca. Padre Nelson é o único exorcista em atividade no Rio. Seus 89 anos lhe dão um aspecto frágil, mas a alma continua firme e sacudida. Sua folha corrida de serviços prestados à libertação dos danados é verdadeiramente estelar.

A cada semana, cerca de 300 aflitos vão em busca de seus préstimos, numa romaria que já dura 38 anos. Ao ritual que presencia há décadas na capela de Santana, o Capeta reage com gritos, regurgitações e demonstrações de força humana descomunal.

No entanto, os procedimentos do padre Nelson não obedecem exatamente à boa norma preconizada pelo Vaticano. Como se sabe, a Igreja Católica sempre agiu com extrema cautela ao lidar com casos de suposta possessão. Antes que o exorcismo seja sequer cogitado, exige-se que o paciente seja submetido a exames clínicos e psicológicos. Mas isso são luxos de Primeiro Mundo. As centenas de pessoas que todo sábado vão atrás do padre Nelson querem é sossego, libertação, e não exame médico – ainda mais se tiverem que entrar em fila do SUS. A pressa, no caso, é efetivamente vital. Ensina a boa prática que o possuído deve receber ajuda imediata, sob pena de Belzebu deitar raízes.

Além disso, falta mão de obra especializada ao Vaticano. Roma dispõe de apenas seis exorcistas oficiais. Ainda que a produtividade deles seja prodigiosa, é evidente a assimetria entre as forças do Bem e as forças do Mal. Estudiosos afirmam que há três séculos (por baixo) faltam exorcistas na praça.

O jeito é improvisar. Exige a Igreja que rituais de exorcismo tenham expressa autorização episcopal? Pois hoje em dia – antes não importa: o que passou, passou – o padre Nelson conta com a anuência de dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro. Ciente de que o padre Nelson não era doutor em teologia – o título é condição sine qua non para que o Vaticano conceda a carteirinha de exorcista –, dom Orani deu uma ajeitadinha semântica e sugeriu que os embates de sábado fossem batizados de “aconselhamento e atendimento à população”. Pronto, ninguém falou mais nisso.

Padre Nelson não liga nada para denominações. Seu negócio é dobrar o Cão. Da primeira vez que o enfrentou, em Minas Gerais, era missionário ainda. Foi com uma jovem de 15 anos que gemia feito louca e aterrorizava a família com uns gritos que ninguém entendia. “Era Satanás. Primeiro ele disse que não ia sair, mas depois de um tempo foi obrigado a baixar a guarda.” Não era esse o ofício que padre Nelson planejava abraçar. Havia sido carpinteiro (como José), alfaiate de batinas e barbeiro de noviciados (com ligeira especialização em tonsura franciscana), e imaginara para si uma vida pia e serena de trabalho e oração. O Maligno fez um desafio e padre Nelson encarou. Foi ali que o Capiroto se perdeu.

 

Disposto a passar adiante os seus conhecimentos, o padre publicou um opúsculo intitulado Orações de Intercessão, Cura e Libertação para Leigos. Pode-se adquiri-lo na secretaria da paróquia, por módicos 5 reais. Na apresentação, o autor oferece aos aflitos o número de seu celular pessoal, 9299-1169 (ele atende também em casa ou em endereço comercial), e a seguir enumera as tentações a evitar: “É necessário renunciar a qualquer tipo de ocultismo, satanismo, espiritismo, esoterismo, curandeirismo, magia negra, vodu, bruxaria, horóscopo e qualquer outro tipo de adivinhação ou superstição”, incluídos aí os jogos de porrinha, dedanha e cara ou coroa (os leigos consideram exagero). A publicação tem capítulos dedicados ao exorcismo de locais de trabalho, ambientes comerciais e fábricas.

Eis alguns sinais insofismáveis da presença de Satanás: falar em idiomas desconhecidos, ter força não compatível com o tipo físico, contorcer as mãos, repudiar imagens e palavras cristãs, ter gosto por escalar paredes e por se debruçar sobre o próprio vômito. Também merecem atenção bebês gritões e mulheres gordas com grande capacidade de equilíbrio, estas, aliás, bastante recorrentes: “Uma delas, enorme, corria sobre os encostos dos bancos da igreja gritando impropérios”, diz o padre.  Em versão mais branda, a possessão também se manifesta por comichões, dores de cabeça e incômodo nas costas. Padre Gabriele Amorth, de 85 anos, exorcista do Vaticano, menciona ainda blasfêmias e a capacidade de vomitar cacos de vidro ou pedaços de ferro.

Em qualquer sessão de exorcismo é essencial identificar qual anjo caído está no corpo da vítima, pois para expulsá-lo é preciso chamá-lo pelo nome. Em entrevista à revista Catolicismo, o padre Amorth ensina que os nomes bíblicos são os mais poderosos: Satanás, Asmodeu, Lilith. E também Zabulom, que está na Bíblia não como demônio, mas como uma das doze tribos de Israele – foi um Coisa-Ruim, sem dúvida antissemita, que depois se apossou do nome. “Um fortíssimo!”, diz o exorcista. Demônios são bastante especializados. Asmodeu, por exemplo, é particularmente bom em destruir casamentos. “Tremendo!”, exclama o padre Amorth, que se escora numa experiência de mais de 40 mil sessões de exorcismo.

É um trabalho duro, que vem deixando marcas na saúde do padre Nelson. Desde a juventude ele padeceu de doenças. (Aos 22 anos, por exemplo, caiu de cama com esquistossomose.) O coração é frágil e os jejuns a que se submete produzem tonteiras constantes. À idade avançada, somou-se de uns tempos para cá, mais intensamente, a atuação do próprio Chavelhudo. “Ele diz no meu ouvido que vai me fazer levar um tombo”, conta o padre.

No mês passado, com efeito, em dois fins de semana seguidos, o padre caiu no chão justamente quando os fiéis possuídos começavam a se organizar em fila para a poderosa libertação. No entanto, apesar da cabeça sangrando, padre Nelson se recusou a chamar a ambulância. “Eu sentia que o Demônio não queria que eu trabalhasse. Ele estava na igreja!”, abespinhou-se. Em setembro do ano passado, quando assaltantes invadiram a igreja, algumas reportagens disseram que padre Nelson era o mais assustado. Ele nega: “Não tenho medo, não! O demônio não faz nada a ninguém!”

Não é bem assim, como demonstra o próprio ofício. Padre Nelson sabe que Belzebu tem força – e por isso mesmo cuida de desmerecer o dito-cujo. Nem que seja para criar coragem de enfrentá-lo de novo no sábado que vem.

Bruna Talarico

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