Futuro exterminado: instituto que monitora a violência armada na Região Metropolitana do Rio mostra que, no ano passado, 26 crianças foram atingidas por armas de fogo; quatro morreram CRÉDITO: CRIS VECTOR_2025
A bola e o fuzil
Como a violência interrompe a infância nas áreas pobres do Rio de Janeiro
Augusta Lunardi | Edição 227, Agosto 2025
Em janeiro de 2020, numa noite bem abafada, Sara Monteiro preparava o jantar quando seu celular tocou. Do outro lado da linha, uma prima avisou: “Teve um tiroteio, e o Arthur foi atingido.” O coração de Sara congelou. Como acontecia todas as segundas-feiras, seu filho caçula, Arthur, de 5 anos, havia saído com o pai para jogar futebol numa quadra do Morro São João, favela na Zona Norte do Rio de Janeiro. O menino era fascinado pelo esporte. Foi na comunidade carioca que, ainda adolescente, Sara conheceu Paulo Roberto Monteiro, seu primeiro amor, com quem teve Nicolle e, depois, Arthur. De início, o casal vivia ali mesmo. Em 2017, movido pelo sonho de oferecer uma vida melhor às crianças, alugou a casa própria onde morava e se mudou para o “asfalto”, embora não muito longe da favela dominada pela facção criminosa Comando Vermelho.
O pequeno apartamento em que o casal se instalou ficava a menos de 100 metros do Morro São João, na Avenida Marechal Rondon, que corta o bairro do Engenho Novo. A mudança pesou no orçamento doméstico. O casal agora precisaria arcar com despesas inexistentes na favela, como luz, água e condomínio. Para complicar, o dinheiro recebido pelo aluguel da casa própria não cobria a locação do apartamento. Mesmo assim, Sara e o marido estavam felizes. Morar numa área com mais segurança compensava o sacrifício financeiro.
Reportagens apuradas com tempo largo e escritas com zelo para quem gosta de ler: piauí, dona do próprio nariz
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