esquina

A caverna de Drummond

Uma livraria contra a Amazon

Rafael Cariello
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

No penúltimo domingo de julho, Milena Piraccini Duchiade subiu de carro ao Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, e depois seguiu a pé, numa trilha pela Floresta da Tijuca, até o Mirante da Cascatinha. Lá do alto, sobre o conjunto de montanhas que divide a cidade, avistou um mar de Mata Atlântica emoldurado, ao fundo, pelo oceano. O passeio todo demorou pouco mais de quatro horas. Na segunda-feira de manhã, em contrapartida, ela teve que descer novamente a rampa em caracol que leva até a “caverna”. É assim que Milena tem se referido, com uma ponta de desânimo, à Leonardo da Vinci, talvez a livraria mais tradicional do Rio.

O montanhismo, que a livreira pratica com paixão e regularidade, serve segundo ela para “recarregar as baterias” depois das muitas horas de trabalho no negócio de família que lhe coube administrar. A Da Vinci, fundada por seus pais em 1952, passa hoje por dificuldades financeiras. O estabelecimento comercial, especializado em obras importadas, fica no subsolo de um edifício modernista no Centro da cidade. O poeta Carlos Drummond de Andrade, que passava horas entre suas estantes, escreveu num poema célebre que, escondida ali, “a loja subterrânea/expõe os seus tesouros/como se os defendesse/de fomes apressadas”.

O pai de Milena, Andrei Duchiade, deixou a Romênia em 1948, fugindo do stalinismo. Veio parar no Brasil em busca de oportunidades que a Europa, devastada pela guerra, não podia oferecer. Abriu a loja dedicada às mais recentes publicações francesas e, em menor quantidade, aos livros em língua inglesa. A mãe, Giovanna Piraccini, nascida na Itália mas criada na Romênia, passou a cuidar do negócio quando o marido morreu, em 1965. Transformou a Da Vinci, segundo o cientista político Renato Lessa, na “principal referência no Rio de Janeiro para obras importadas”. Na livraria, ele disse, mais de uma geração de intelectuais tomou conhecimento do que se passava no mundo das ideias na Europa. “Era a nossa internet”, explicou Lessa, hoje presidente da Biblioteca Nacional.

Aos 88 anos, dona Vanna, como é conhecida, ainda está lá, com seu jeito de italianona severa, cuidando da loja ao lado da filha. Apesar da cara amarrada, ela sempre foi acolhedora e generosa, segundo Lessa, sobretudo com os jovens aspirantes a intelectual, sem muito dinheiro, que frequentavam a livraria. O cientista político começou a bater ponto por lá, quase diariamente, ainda no ensino médio, no início dos anos 70. Dona Vanna deixava que ele e os colegas, ansiosos por novidades, ajudassem a abrir as caixas que chegavam do porto, carregadas de livros.



No pior momento da ditadura militar, a loja era como um “território livre”, lembrou Lessa, onde intelectuais progressistas se reuniam e podiam encontrar publicações até da extrema-esquerda francesa. Não demorou para que agentes do regime militar passassem também a prestar atenção na livraria.

Um chefe de polícia, disse dona Vanna, chegou a alugar uma casa próxima ao sítio que ela mantinha em Nova Friburgo, na serra fluminense. Perguntava aos trabalhadores rurais se a livreira romena os presenteava com obras suspeitas. “Ele imaginava que eu estava fazendo propaganda política com o campesinato, imagina só”, ela contou.

 

Em dezembro de 1973, um incêndio que começou numa boate vizinha à livraria forçou a proprietária e os funcionários a abandonarem, às pressas, a loja. A polícia e os bombeiros chegaram rápido. Mas, quando as chamas foram controladas, não restava nada na Da Vinci. Dona Vanna e Milena estão convencidas de que o incêndio foi criminoso. As vitrines foram quebradas de propósito, disse a livreira romena, ajudando o fogo a se alastrar da boate para dentro da loja. Renato Lessa também acredita que o prejuízo imposto à livraria foi intencional.

Dias depois, Drummond escreveu uma crônica no jornal instando os clientes – cujos registros de dívidas haviam sido queimados – a reabrirem as contas e declararem quanto deviam. Muita gente atendeu ao pedido. O negócio recomeçou com algumas caixas de livros que ainda aguardavam liberação no porto.

Anos mais tarde, no final da década de 70, o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil nos governos Geisel e Figueiredo, apareceu na loja. O militar era cliente da Da Vinci, mas costumava fazer os seus pedidos por meio de um encarregado, que lhe levava as obras. Segundo a narrativa de dona Vanna, Golbery, um sujeito magro, baixo, elegante, foi direto até ela, estendeu-lhe a mão e disse: “Vim aqui pedir desculpas pelo que aconteceu. Foi um equívoco.”

 

Milena Duchiade é formada em medicina. Talvez tenha decidido por essa formação, ela disse, por causa do pai. Andrei morreu de choque anafilático no sítio de Friburgo, ao ser picado por abelhas. Milena tinha 11 anos. Queria entender como era possível que uma hora o pai estivesse lá, bem de saúde, e logo em seguida não existisse mais.

Em 1996, ela decidiu abandonar o serviço público, onde trabalhava como médica com um salário apertado, apesar de bem-sucedida na carreira. Chegou à loja, que passou a gerenciar, junto com a internet, contou. A Amazon já começava a vender livros. A concorrência com a gigante norte-americana, quase duas décadas depois, se tornou impossível.

Para diluir o custo do transporte por avião dos Estados Unidos ou da Europa, Milena precisa esperar semanas até amealhar uma encomenda volumosa de livros. O cliente que tiver pressa pode comprar a obra que deseja, de maneira muito mais rápida, pelo computador. A saída talvez fosse expandir o negócio, abrir várias filiais, a exemplo das grandes cadeias de livrarias, que sobrevivem. Mas Milena diz não ter vocação para o big business.

Num tempo de “fomes apressadas”, como escreveu Drummond, a Leonardo da Vinci foi se tornando cada vez menos rentável, e pode se ver forçada a fechar. Decidida a evitar o pior, Milena considera a possibilidade de vender o negócio.

“Naquele momento, em 1996, eu achei que o meu destino era dar continuidade à livraria. Eu tinha essa ideia de missão familiar, de manter a obra dos meus pais. Sentia afeto, respeito, admiração pela livraria. Neste momento, é misto. Não cabe amargura nem arrependimento. Cabe pensar no próximo passo.”

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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