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A caverna e a aura

Uma gruta pré-histórica do século XXI

Isabel Junqueira
Construída nas imediações da caverna original, a réplica é igualmente fria, escura e silenciosa, e ainda tem uma leve fragrância de terra
Construída nas imediações da caverna original, a réplica é igualmente fria, escura e silenciosa, e ainda tem uma leve fragrância de terra FOTO: CAROLE FRITZ

Pouco depois do Natal de 1994, o governo francês pediu ao pré-historiador Jean Clottes que interrompesse suas férias e fizesse a inspeção de uma gruta. Dias antes, três espeleólogos haviam encontrado, a alguns passos da Pont d’Arc – uma ponte natural rochosa sobre o rio Ardèche, no sudeste da França –, uma caverna recheada de pinturas rupestres, algumas delas retratando um bando de rinocerontes. O pesquisador mostrou-se cético: em todas as cavernas pré-históricas da Europa, só se conheciam vinte representações daquele mamífero.

Quando enfim adentrou o recinto, Clottes não teve dúvida da autenticidade e da importância da descoberta. Deparou-se com centenas de pontos vermelhos pintados na parede, marcas de palmas de mão e um desfile de animais pré-históricos – cavalos, bisões, ursos, leões. Saltavam aos olhos a impressão de movimento e a técnica rudimentar de perspectiva. E o espanto aumentou quando se soube o resultado das datações: aquelas imagens haviam sido registradas entre 30 mil e 36 mil anos atrás. Eram os mais antigos desenhos figurativos de que se tinha notícia.

No parecer que redigiu ao governo, Clottes recomendou que a gruta fosse imediatamente lacrada e jamais se abrisse à visitação. Bastaria um momento de descuido para destruir os preciosos registros pré-históricos ali preservados. Era preciso evitar o que ocorrera nas cavernas de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha, ambas com exemplos bem conservados de pinturas rupestres de pelo menos 17 mil anos. Franqueadas à visitação em grande escala, com o tempo o gás carbônico expirado pelos visitantes contribuiu para o surgimento de algas e fungos que ameaçam a conservação das pinturas.

A recomendação de Clottes foi acatada, e a caverna de Chauvet – batizada com o sobrenome de um dos descobridores – foi preservada. Decidiu-se então construir uma réplica parcial para visitação, a pouco mais de 1 quilômetro da original. Clottes, líder da primeira equipe científica a investigar a caverna, presidiu o comitê que supervisionou a construção da cópia. Aos 81 anos, o pré-historiador participou da visita organizada para a imprensa alguns dias antes da inauguração da réplica, no final de abril. Na ocasião, evocou a sensação de entrar em Chauvet pela primeira vez, já descrita por ele em inúmeros depoimentos: “Foi e ainda é o choque e a emoção mais forte da minha vida.”

 

Em troca de 13 euros (41 reais), o visitante não precisará escalar o planalto que abriga a gruta original, nem descer a escada íngreme que leva às galerias. Entra-se no local por meio de um prédio de concreto que, de longe, parece um penhasco cenográfico e, de perto, uma enorme pedra facetada. No interior, os turistas circulam por corredores largos e confortáveis, que em nada lembram as passarelas precárias instaladas na caverna verdadeira. E podem respirar sem culpa.

Os olhos levam alguns minutos para se acostumar à escuridão. Umidade e temperatura são controladas para reproduzir o ambiente de Chauvet – ou quase: o termômetro foi regulado em 18°C, cinco graus acima do frio da genuína, para que os turistas não se adoentem em períodos quentes. Tentando reproduzir o silêncio abissal de Chauvet, técnicos em acústica criaram uma estrutura – alocada entre a gruta artificial e a fachada do prédio – para isolar qualquer tipo de som. A quietude só se rompe pelo barulho de gotas d’água caindo, emitido por caixas de som camufladas entre os falsos minerais, e pelo sussurrar dos guias que conduzem os visitantes em grupos de vinte. Quem tiver olfato sensível ainda vai sentir uma sutil fragrância terrosa no ar, composta especialmente pela perfumista de ambientes Karine Chevallier.

As paredes de calcário foram esculpidas em concreto, e as estalactites e estalagmites são de resina sintética. O visitante desejoso de imergir no ambiente paleolítico terá de abstrair alguns sinais de modernidade, como um sinal verde de saída de emergência instalado numa das paredes da gruta.

Que ninguém espere encontrar uma cópia exata da caverna de Chauvet: a réplica tem 3 mil metros quadrados, menos da metade da área original. Oferece-se uma espécie de passeio pelos melhores momentos da gruta, com a reconstituição das principais galerias.

Para reproduzir as pinturas rupestres, o artista e pré-historiador Gilles Tosello estudou cada imagem ao longo de dezessete anos. Coube a ele reproduzir uma das pinturas mais características de Chauvet – um monumental painel com várias cabeças de cavalo perfiladas. Tosello desenhou-o com carvão de pinheiro queimado, empregando a mesma técnica usada há mais de 30 mil anos. “O mais difícil foi copiar algo de uma cultura com a visão de um mundo completamente diferente, do qual só nos resta a arte”, explicou.

 

A construção da réplica de Chauvet levou dois anos e meio para ficar pronta, a um custo de 57 milhões de euros (180 milhões de reais), bancados pela União Europeia e pela França. Não é a primeira obra do gênero. Altamira tem sua cópia, e Lascaux vai ganhar em breve seu terceiro clone para substituir aquele construído em 1983, que recebe 250 mil visitantes por ano (há ainda uma réplica itinerante que desembarca em Paris no final de maio).

A imprensa tem discutido a pertinência do empreendimento. Ao noticiar sua inauguração, o jornal Le Monde evocou a perda da aura da caverna, citando um famoso ensaio do filósofo Walter Benjamin sobre o estatuto da obra de arte numa época em que é possível reproduzi-la em larga escala. Jonathan Jones, crítico do jornal inglês The Guardian, foi mais longe. Em seu blog, criticou o projeto e alegou que nenhum amante das artes gostaria de ver reproduções de Rembrandt ou Seurat. “Por que é considerado perfeitamente normal oferecer cópias da arte da era do gelo como atração cultural?”, provocou.

Nem todos os especialistas discordam. O arqueólogo Antoine Lourdeau, pesquisador do Museu Nacional de História Natural, em Paris, contou que se emocionou ao visitar a cópia de Lascaux. “Visitar a réplica é melhor que não ver nada”, defendeu. “O blogueiro do Guardian certamente tem livros com reproduções de seus pintores preferidos.”

Isabel Junqueira

Isabel Junqueira é jornalista brasileira radicada em Paris.

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