tipos brasileiros

A colecionadora de soluções caseiras

O ideal era fazer cinco refeições diárias, mas o dentista recomendava escovar os dentes o mínimo de vezes ao dia, a fim de preservar o esmalte. “E agora?”, perguntou-se Dolores

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: NEGREIROS_2010

Tudo começou com o conselho que veio com um biscoito chinês: “Para tirar manchas de molho shoyu, é só esfregar nabo no tecido. A mancha sai na hora.” Naquele instante, sentada à mesa da cozinha diante de restos de yakissoba, Dolores teve uma epifania. Nabo e molho shoyu, mas que ideia engenhosa. Por que não podia ser tudo assim, simples e barato?

Sem demora, foi à banca e requisitou ao jornaleiro o maior número de revistas femininas que pudesse carregar. Pediu tudo emprestado, anunciando que anotaria as partes importantes e que devolveria o material sem danos ao proprietário. Dolores estava à cata de dicas – de qualquer procedência ou funcionalidade, fossem de beleza ou de mecânica automotiva. Pretendia se tornar uma especialista em improvisações mambembes.

Começou por lavar os cabelos diariamente com uma solução de água gelada e vinagre, a fim de conferir maior brilho às mechas. O cheiro de vinagre, porém, atraiu um batalhão de moscas, que, por sua vez, foram espantadas com a colocação estratégica de vasos de manjericão pela casa. Dolores entrou então num círculo virtuoso: com as moscas mortas, fez adubo para o manjericão. Com o manjericão, aproveitou para efetuar gargarejos relaxantes. Mas como continuasse a usar a solução de água com vinagre para enxaguar os cabelos, tudo quadruplicou: as moscas, os gargarejos e os vasos de manjericão.

Dolores passou a seguir todos os macetes sem fazer distinção se o consigliere era um profissional da área ou um astrólogo amador que gostava de dar pitacos. Uma nutricionista lhe indicou a dieta de Atkins, por exemplo, mas ela acabou preferindo a sugestão de uma vizinha meio surda – a dieta do alfabeto – só por estar na moda. E, além do mais, porque uma revista postulou que “os cientistas descobriram que se ater ao plano de dieta é muito mais importante do que o plano em si”.



Assim, Dolores começou o mês se alimentando de aipo, acelga, ameixa e açaí. No dia seguinte, comeu basicamente bolo. Depois, carne cozida com cebola e carqueja, cordeiro com calda de cereja, caqui e coco. Veio o dia de doce de damasco, doninha e Danone. Passou um dia inteiro à base de inhame. No dia do K, só pôde ingerir montanhas de kibe (em licença poética), kiwi e kebab, de que ela aliás não gostava. Resolveu persistir até que, depois de um jantar com vagem, vatapá e vôngole, foi ficando sem opções. No W, ainda conseguiu recorrer aos waffles, e, no Y, às iguarias japonesas com sorvetes Yopa. Mas e no Z? Não era época de zebras.

 

Havia o problema dos conselhos autoexcludentes. Na revista Magra e Feliz e em outras 742 fontes insuspeitas, especialistas afirmaram que o ideal era fazer cinco refeições diárias, respeitando a lei das pequenas porções. Isso para quem desejasse emagrecer de forma saudável. Já o dentista de Dolores lhe recomendara escovar os dentes umas poucas vezes ao dia, a fim de preservar o esmalte – ou seja, melhor seria comer tudo de uma vez, numa louca tarde de setembro. “E agora?”, ela pensou, sem achar uma saída.

Por via das dúvidas, decidiu hipnotizar-se, repetindo o seguinte mantra: “Eu estou a um passo de me tornar mais e mais magra.” Empastelou a comida de alho (que ajuda a baixar o colesterol), energizou-se com suco de cereja batido com maçã (que contém anti-inflamatórios e antioxidantes), usou hashis em todas as refeições (para comer menos) e deu uma mordida a cada dez minutos na barra de cereal, conforme o preconizado.

Dolores também comprou o livro Dicas Secretas, da Seleções do Reader’s Digest, a bíblia definitiva que prometia revelar os segredos de mecânicos, construtores, advogados, contadores, vendedores de automóveis e demais especialistas que trabalham com fatos ocultos, por trás das engrenagens do sistema. O livro lhe assegurava “o maior número possível de segredos que não apenas garantirão os seus interesses como também o farão sentir-se um gênio”.

Alguns exemplos: “Afaste a febre do feno com mel”, “Evite hematomas com cebola” e “Combata a caspa com enxaguante bucal”. Ao ler o volume, que é uma espécie de manual de autoajuda para acabar com todos os manuais de autoajuda, não descobriu nenhum segredo escandaloso (tipo: “Câncer: é só passar pasta de dente”), mas obteve 1 503 dicas genéricas para ter sucesso em nossa estada transitória pelo planeta.

Como continuasse gordota, mas agora melancólica, Dolores começou a batucar, já que as pesquisas demonstravam que “batucar em grupo é uma ótima forma de aliviar o estresse”. Um estudo comparou a composição química do sangue de cinquenta pessoas e concluiu que as que estavam batucando tinham níveis muito mais baixos de cortisol do que as que estavam apenas assistindo ao espetáculo. Passou a mastigar mirtilos (para melhorar a visão) e a carregar na bolsa uma série de objetos curiosos: um frasco com borrifador de vinagre branco e um pote com bicarbonato de sódio, para neutralizar picadas de abelha e vespa.

No capítulo sobre bem-estar, descobriu que espetos de churrasco que pegam fogo são um drama quase insolúvel para o ser humano. “Os espetos de metal parecem um aperfeiçoamento – até a hora de virar os churrasquinhos. Aí, a cada vez que você gira o espeto, a comida gira junto. Os espetos achatados trouxeram mais esperanças, mas os apreciadores de comida árabe que tentam fazer kebabs em casa logo percebem que as cebolas, pimentões e especialmente os cogumelos muitas vezes se partem quando você tenta enfiá-los”, afirma o redator, repleto de angústia.

 

Dolores aprendeu a evitar coágulos no pulmão, a tomar óleo de peixe contra as artrites, a assar o frango de bruços e a reconhecer os múltiplos benefícios do funcho e da água estupidamente gelada. Descobriu que tabletes para limpeza de dentaduras servem também para lustrar o vaso sanitário. Virou especialista em bricolagem e cultivo de cebolas em apartamentos. Comprou um tomateiro, quinze frascos de ginkgo biloba e improvisou uma joelheira de jardinagem, apesar de não ter jardim.

Primeiro, foi a favor das promoções do tipo dois por um (“São imperdíveis”, dizia o livro). Depois, contra (“Tenha discernimento”, ponderava a mesma obra, mais adiante). No prefácio, uma explicação do editor para os conselhos paradoxais: “Este é um mundo cada vez mais confuso”. Dolores também aprendeu a economizar, doando seus bens em vida – como economizar estando morta? – e escolhendo um tecido para forrar o sofá que lhe caísse bem, feito um vestido. “Vai ficar lindo você sentado nele”, anunciou o redator do livro, ainda confuso em termos de gramática.

Certo dia, Dolores deixou cair ovos no chão e decidiu usar uma de suas dicas de limpeza: polvilhou uma generosa quantidade de sal sobre o aglomerado, esperou cerca de cinco minutos e só o que conseguiu foi uma massa cremosa e decididamente nojenta de ovo cru temperado. Que ela veio a aproveitar para fazer uma máscara hidratante de ação adstringente.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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