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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

esquina

A consciência das panteras

Para não ver vovó nua, melhor evitar a Quinta Avenida

Dorrit Harazim | Edição 46, Julho 2010

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Dos 46,7 milhões de visitantes esperados em Nova York este ano – um mar de gente do tamanho da população da Espanha –, quase todos acabarão passando em frente ao Rockefeller Center, o complexo de dezenove torres comerciais que se esparrama por quatro quarteirões na Quinta Avenida, desde a Rua 48 até a 51. É precisamente ali, em uma das entradas do conjunto, que elas batem ponto uma vez por semana. Não chamam atenção de imediato. Aliás, praticamente nada ou ninguém consegue se sobressair na compacta massa de pernas que zanzam diariamente pela calçada mais frequentada da cidade.

Elas só são percebidas quando já se está perto demais para evitá-las. E só então conseguem provocar o efeito desejado: interferir no fluxo de pedestres que parece marchar em transe, com cabeça, corpo e membros imantados pelas vitrines mais famosas do mundo. “O que a gente quer é causar algum impacto na cabeça do pessoal que desce a avenida de olho nas compras”, explica Jenny Heinz, uma das panteras da Quinta Avenida. “Se nos derem um mínimo de atenção, ótimo. Se ficarem incomodados, também serve.”

Ser notado na artéria que corta Manhattan ao meio é uma tarefa ingrata. Naquele trecho, concorre-se com as vitrines da loja de departamentos Saks; alguns passos para lá, topa-se com o edifício Rolex e o santo triunvirato da mundanidade: Gucci, Prada e Vuitton; mais acima, o quarteto do que é eterno: Van Clef & Arpels, Tiffany’s, Harry Winston, Bulgari; poucas quadras à frente, o cubo de vidro da Apple, totem ao qual a massa presta reverência.

Páreo duro, sem dúvida, para as damas que fincam seus sapatos ortopédicos em frente ao Rockefeller Center durante uma única horinha semanal – mais um percalço – não têm nada para vender. O que elas fazem é distribuir folhetos que tratam de um outro mundo.

Ainda assim, as Grandmothers Against the War, ou GAW [Avós contra a Guerra], vêm fazendo história. Com idades que variam entre 65 e 95 anos, elas são a voz de protesto mais persistente contra a permanência dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Todas foram jovens nos tempos da mobilização nacional contra a guerra do Vietnã e se recusam a aceitar o conformismo e a apatia da juventude atual.

A militância das senhoras não se resume ao expediente na Quinta Avenida. Já são 38 as organizações semelhantes espalhadas pelo país. Só em Nova York, convivem as Grannies for Peace [Vovós pela Paz] – a mais antiga delas, fundada em maio de 1982, ainda em plena Guerra Fria –, as Raging Grannies [Vovós Coléricas] e as Granny Peace Brigade [Pelotão Vovó da Paz]. Sem falar nas Grey Panthers, cujo nome evoca o grupo revolucionário Panteras Negras dos anos 60 e brinca com a palavra grey, que significa “cinza” e também “grisalho”.

Em comum, elas têm a perseverança. Seja qual for a estação do ano e a inclemência do tempo, desde 4 de janeiro de 2004 já são mais de 335 quartas-feiras consecutivas que a GAW protesta na calçada da Quinta Avenida. Ao longo desse período, a locação do protesto mudou uma única vez, em 2 de dezembro passado, quando o dia da vigília coincidiu com a iluminação da tradicional árvore de Natal do Rockefeller Center, a maior atração sazonal de Manhattan. Em outra ocasião, dezoito militantes do grupo chegaram a ser detidas, julgadas e absolvidas por terem invadido o centro de recrutamento militar da Times Square.

 

Numa quarta-feira recente, Anne Moy desce de um ônibus procedente do Lower East Side, no extremo sul da ilha de Manhattan. Ela tem 92 anos e é miúda. Para encarar o verão que anda chamuscando o hemisfério norte, veste calça comprida larga e blusa branca de manga curta. Traz na mão uma sacola de plástico, de onde retira panfletos e um avental que usará durante o protesto, com o nome de sua organização. A colega Laurie Leon veio de mais longe, do bairro do Queens, num ônibus municipal reservado para quem tem dificuldade de locomoção.

Logo adiante está Bert Aubrey, de 76 anos, um dos cinco militantes do sexo masculino da GAW. Está de chapéu, bermuda, sapato e meia social, deixando à mostra as pernas castigadas pela idade. Quando um repórter do New York Times perguntou como se sentia, Aubrey respondeu com o estribilho do mais célebre poema de Dylan Thomas, no qual o poeta convoca os que se aproximam da morte a não partir com mansidão: Rage, rage against the dying of the light [Enfureça-se, enfureça-se contra a luz que se apaga]. “É como eu me sinto: tenho que fazer alguma coisa”, disse.

Outra manifestante cita A. J. Muste, um reverendo pacifista da época da guerra do Vietnã. Perguntaram-lhe se acreditava que protestos em frente à Casa Branca mudariam o curso da política americana: “Não estou fazendo isso para mudar o país”, respondeu Muste. “Faço isso para que o país não me mude.”

Jenny Heinz, que aos 65 anos é a caçula da turma, se aborrece quando os turistas as fotografam como se elas fossem uma atração a mais daquele quadrilátero famoso. Nenhuma delas chegou até ali – às vezes de bengala, às vezes de andador, quase sempre com dores nas juntas, nos joelhos ou na coluna – para receber tapinha nas costas e um sorriso condescendente. “Tem gente que diz que nós somos umas gracinhas. Mas a questão não é ser ‘gracinha'”, explica Heinz.

Os números das duas guerras lhe dão razão. No Iraque, já são quase 4 400 soldados americanos mortos e mais de 70 mil feridos. No Afeganistão, outros 1 045 mortos e 14 500 feridos já foram contados. E não há desfecho à vista.

“O que mais podemos fazer para acordar a América, santo Deus?”, pergunta a fundadora da GAW, Joan Wile, em carta aberta postada na internet. “Marcharmos nuas na rua? Não seria muito atraente”, reconhece, “mas sei que faríamos isso se tivéssemos certeza de que mudaria o curso da guerra e traria nossas tropas de volta.” Com realismo altruísta, Joan acrescenta: “É claro que, depois de expor ao mundo as nossas carnes idosas, não teríamos alternativa senão buscar refúgio nas Ilhas Galápagos.”

Na esperança de que não seja preciso chegar a tal despojamento extremo, a líder faz um último apelo aos seus compatriotas: “Tenho certeza de que, em algum lugar, existe um jovem com visão, carisma e garra para sacudir a sua geração. Esteja onde estiver, que apareça logo! Pois só assim, nós, senhorinhas idosas, poderemos voltar à nossa cadeira de balanço e ao nosso bingo, sabendo que o mundo está em boas mãos.” A essa altura da vida, sossego, e não striptease, é o que querem as panteras.